sábado, 26 de dezembro de 2009

Identidade

Budapeste é um caso de identidade.
José Costa, um "negro" literário de puro génio que domina a sua Língua e produz todos os textos de relevância no Brasil, tem já os seus próprios "negros", produzindo o que deveria ser o fruto da sua imaginação.
Como acto final, José Costa produz o bestseller do ano e escapa para o país cuja Língua o fascina ao ponto de acabar por conquistá-la e escrever um poema aclamado.
José Costa ganha uma nova identidade, mas acima de tudo uma nova vida longe da hermética escrita "para os outros". O que ele tem agora a escrever é para si mesmo, para a sua riqueza.
No Brasil ele era um génio habitando um pequeno escritório, solicitado por muitos e imitado por outros. Não tinha nada a ser reconhecido como seu, nem sequer a sua própria vida à deriva.
Em Budapeste ele tem algo a ganhar, um genuíno sentido de aprendizagem e conquista. Ele poderá falhar ao longo do processo, mas falhar significa mais do que acertar mecanicamente.
Em Budapeste, onde ninguém lhe pede nada, ele torna-se num poeta por pura generosidade, mas no Brasil até já os falsos autores tomam por seus os supostos erros da escrita.
Em Budapeste ele começa a viver, arrisca-se a querer que lhe reconheçam o auxílio, enquanto no Brasil o único momento em que revelou a sua autoria resultou no fim da vida que levava.
Em Budapeste ele tem Kriska, a mulher que lhe deu uma nova Língua e, por isso mesmo, lhe deu um espaço para habitar, lhe deu uma nação, lhe deu uma identidade. Para que quereria ele voltar ao Rio de Janeiro, onde nem sequer já tem a mulher a quem deu um filho e que parece não querer mais nada dele mesmo quando é o bestseller do marido que lhe enche o coração?
No Brasil ele tinha tudo, em Budapeste ele começa do zero, sem sequer uma voz. Mas, no final, ele ganha uma vida em Budapeste, uma vida que ele viveu mas que também criaram por ele.
Ele acedeu a ser Zsoze Kosta, tanto o nome que os húngaros criaram para ele, como a vida que um "negro" escreveu para ele.
Em Budapeste ele chega para que lhe entreguem uma vida, depois de ter criado a vida de outros. Mas a vida que ele vive, mesmo sendo retirada de um guião escrito por outras mãos, é mais real do que as vidas que não viveu mas teve de criar anteriormente.
A identidade não tem de ser pura ou lógica, não tem de nascer como novidade absoluta para ele e simultaneamente para todos os outros. Tem, apenas, de ser reconhecida como fonte própria, recriação quando não criação, reconhecimento de algo a que ele pertence e que, mais ou menos decidicamente, lhe pertence.
Zsoze Kosta é mais real do que José Costa, ainda que seja uma criação do segundo. José Costa aprendeu a ser Zsoze Kosta para descobrir que José Costa era a sua verdadeira invenção.
Identidade é, afinal, o reconhecimento de algo tão genuíno que, mesmo sendo trabalhado, é inegavelmente o direito singular de alguém.
Budapeste é, afinal, a identidade de um autor, um dono da Língua e da sua utilização, consciente da sua versatilidade e do seu poder.
Chico Buarque já dominava a dança da Língua nas suas canções, domina-a também na composição mais exigente de um romance que carrega uma verdadeira tradição literária.
A Língua é de todos, mas a alguns assenta melhor. São esses que lhe criam a sua identidade.


















Budapeste (Chico Buarque)
Leya/Bis
2ª edição - Março de 2009
144 páginas

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Lixado

Bunny Munro vive numa escalada de sexo e álcool com tempo contado, como ele próprio anuncia logo a abrir, "Estou lixado".
Mas este não é um prenúncio. Ele sente que a morte se aproxima, sim, mas o "lixado" já é uma condição que ele finalmente compreendeu.
Compreendeu mas não consegue evitar, aquela demente fixação por vaginas e o grau de destruição para o qual consegue arrastar-se a si próprio.
Nem mesmo a pequena âncora de sanidade e admiração que segue com ele no banco do passageiro serve de grande coisa.
Depois do suicídio da mulher que ele tanto ignorava, o filho bem lhe defende todos os vícios com um certo carinho inocente, mas Bunny parece determinado em tornar o filho numa versão sua.
Uma versão de si, que poderá bem ser uma versão do seu pai. Bunny Sénior, Bunny e Bunny Jr. Cadeia infindável, condenação ou castigo?
Não se tente resistir pela lucidez no interior desta viagem, não vale a pena porque o devaneio se impõe à realidade de Bunny, iludindo o próprio leitor até que já esteja bem afundado nele. Não se passa de um ao outro como quem cruza a fronteira, antes como quem se perde num matagal.
No final, quando finalmente chega a anunciada morte de Bunny Munro, estamos quase tão à deriva como o protagonista.
Fica-nos mais do que o humor negro da misoginia tresloucada de Bunny, fica-nos também a emoção bruta que a misoginia quer cobrir como um manto perpétuo.
E afinal não paramos de nos interrogar, a morte de Bunny foi a prova do resto da humanidade que ele tinha ou o único resultado possível para tudo aquilo a que ele se foi sujeitando, foi o único acto possível para com o seu filho ou o rebentar de toda a carga emocional que o seu pai lhe causa, foi sacrifício ou loucura?
Eis então a vida possível de Bunny Munro, um espectáculo com tempo contado. Sem bilhete de entrada mas com alto preço no final!


















A morte de Bunny Munro (Nick Cave)
Alfaguara / Editora Objectiva
2ª edição - Novembro de 2009
296 páginas

sábado, 19 de dezembro de 2009

Um prémio ganho

Marçal Aquino recorre a uma citação de Sam Peckinpah para dar mote ao seu livro, e dificilmente haveria autor mais indicado.
As personagens de Aquino são homens que vivem à flor da bala mas que guardam uma melancolia pela possibilidade de uma vida onde eram menos solitários, senão mesmo felizes - se alguma vez se aperceberiam de tal sensação.
Eles estão para lá da consciência dos seus actos, mas nunca para lá da consciência de si mesmos.
Se vivem embrutecidos e insensibilizados para com aquilo que fazem, continuam sensíveis a si mesmos, mesmo que seja por mero egoísmo.
Claro que as duas vidas que levam acabam por colidir e tudo rebenta das emoções que eles parecem não saber sentir, se calhar nem sequer conheciam.
Então o calculismo cínico ou a paixão desabrida revelam-se extremos que nunca se poderão complementar. O resultado é apenas a solidão e a mulher que poderão ter é a sua arma.
Bem, nem todas as personagens são assim. Há também os homens que atravessam o mundo mentindo, fodendo e matanto sem mais.
Eles deixam um rasto de corpos, uns vivos e outros mortos, tão vazios como o seu próprio coração.
Estes podem parecer personagens secundários, esquecíveis. Mas eles são essenciais para que os restantes consigam medir-se a si próprios.

Não são só personagens na vertigem da violência humana que fazem esta obra memorável.
Marçal Aquino tem a arte de construir um texto que torna a Língua Portuguesa numa delícia saborosa.
As palavras parecem brotar na linguagem das personagens com toda a naturalidade, pérolas lançadas no momento correcto.
É daqueles casos em que a leitura deixa de ser silenciosa e começa a ressoar dentro da nossa cabeça, repetida uma e outra vez até que lhe encontremos o sotaque, a entoação e o ritmo preciso.
Como se nos fosse dada a hipótese de descobrir a música para uma letra que já está escrita.


















Cabeça a Prémio (Marçal Aquino)
Quetzal
Sem indicação da edição - Março de 2009
158 páginas

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

De coração exposto

O coração não pode ser controlado, nem sequer quando depende da precisão de um relógio para que o seu portador possa viver.
O coração é indomável, fonte de dor e de desespero, fonte de desejo e de tormento.
O coração que bate descompassadamente atemoriza mas torna tudo mais ardente.
Por culpa desse coração, incapaz de não revelar a verdade que tem dentro por culpa do bater do relógio que tem por fora, o nosso protagonista parte em busca de uma mulher.
Para essa busca parte com Georges Méliès, ele próprio determinado a oferecer à mulher que ama a viagem até à Lua que o leitor conhecerá bem.
Quando a busca finalmente termina, um ramo de óculos toma o lugar das flores como declaração à mulher amada, ela que transporta uma voz de anjo mas embate contra tudo o que está no seu caminho.
Eles serão figuras de estranhos espectáculos e amar-se-ão nos fundo de um comboio-fantasma.
Assim é a trupe de estranhos seres, mágicos da realidade, desalinhados da lógica, tão magníficos, todos eles vividos em torno do tal coração.
Um coração que envolto no seu mecanismo não conseguia tornar-se mais sólido, mas colocava o coração ainda mais exposto.
Afinal a precaução é inimiga da paixão e a paixão é inimiga da precisão. Se um coração quer bater veloz e sem direcção, então o tempo será forçado a parar, o que para alguém que depende dos ponteiros não é boa notícia.
E Mathias Malzieu assim escreveu um pequeno encanto, verdadeiramente saído do coração, com vontade de conter uma outra hipótese de realidade, aquela onde tudo é ainda possível, um passe de mágica capaz de falhar.
Como ao incrustar um relógio num coração, a salvação de um corpo e a ameaça de toda uma vida.
Só há um apontamento a fazer a Malzieu, que algumas das suas metáforas tirem o leitor do registo mágico e temporalmente assente onde assenta a sua história.
Para um homem a viver no final do século XIX, Charles Bronson não é senão um nome sem sentido e o helicóptero, mesmo tendo surgido ainda na época, dificilmente estaria já divulgado.
Felizmente são poucas estas ocorrências e o leitor pode permanecer encantado.


















A mecânica do coração (Mathias Malzieu)
Contraponto
1ª edição - Outubro de 2009
144 páginas

sábado, 12 de dezembro de 2009

Dar força à palavra

Vogam predadores no oceano da memória. Num mundo em que se surfa na informação, nada será mais preciso do que um tubarão para demonstrar como ela pode ser consumida e caçada.
Como muitos daqueles que a consomem podem nunca acabar por produzir sequer uma infíma parte dela.
Mas aqui os rastos da memória são reais e o desgoverno de uma personagem que deixa um rasto mas não o consegue ler é a essência da reflexão que esta obra cria.
Muitas vezes o conhecimento adquirido apenas nos afasta de nós mesmos. A criação - se quiserem chamem-lhe compreensão - de um mundo em torno de nós obriga a que nos recriemos. E se nos recriamos como poderemos alguma vez sermos apenas nós mesmos?
No caso da personagem central, isso está apenas no ponto em que é um facto real, em que a sua primeira encarnação envia informação à segunda, pois esta já nada sabe, realmente, de si mesma.

A imaginação de Steven Hall é um achado e não é estranho que ele escolha as suas epígrafes de Borges ou Calvino, dois autores que pela sua imaginação marcaram tanto a literatura.
O que noutras mãos seria uma distopia é nas dele um hino ao próprio labor da palavra bem estruturado numa estranha e sedutora aventura.
Ele torna as palavras palpáveis no seu mundo. Faz delas tijolos, armas, escudos.
A palavra, a frase, o texto, os livros... Todos são úteis de um modo concreto, seja o som da palavra dita ou a estrutura dos livros empilhados, tudo se concretiza numa estrutura cuja informação que contem lhe dá uma força para lá da que tem fisicamente.
Concreto o suficiente para terem de ser transformadas, pela força da imaginação, naquilo que representam se tal for necessário.
Enquanto Steven Hall demonstra o poder das palavras no interior da história, também o reproduz na sua forma.
Memória de Tubarão escapa a uma limitação formal do que é, como se apresenta ou para que serve a palavra num romance.
Tinha de ser assim, não poderíamos ficar presos a um modelo clássico de estrutura num livro que quer fazer viver a palavra, que lhe quer dar o poder de ser transformadora e transformável.
Por isso a páginas tantas somos perseguidos por um tubarão feito de palavras avulsas. A palavra como constituição da imagem que iríamos criar pela leitura da história. A imagem como reconversão das palavras que já conhecíamos nesse momento.
E embora nunca deixe de ser, em absoluto, uma obra baseada na palavra, é uma obra que extravasa a própria literatura.
Numa sociedade tão imagética, a palavra tem ainda toda a força que lhe quisermos dar, desde que assim o imaginemos, como Steven Hall afinal!



















Memória de Tubarão (Steven Hall)
Editorial Presença
1ª edição - Maio de 2009
436 páginas

sábado, 5 de dezembro de 2009

Alma velha em corpo novo

O Exílio dos Anjos é uma aventura mas poderia perfeitamente não ser, pois por detrás da história que se conta há algo que é o fundamento de muita da criação humana desde sempre, a vida para lá da morte, a busca da perpetuação de nós mesmos e o amor.
Há no livro uma possibilidade de estarmos perante a sobrevivência da alma e da sua reencarnação num processo que dois cientistas desenvolveram para poderem escapar a uma vida de perseguição. Escape através da própria morte, claro.
Há aqui bons e maus, os que procuram obter o conhecimento de como controlar a mente e fazer perdurar a alma com fins militares e os que querem tornar esse conhecimentos público e útil.
Mas também os havia entre os alquimistas, uns que procuravam a Pedra Filosofal como fonte de dinheiro fácil - e que na busca a simulavam para enganar os restantes - e uns poucos que a procuravam como a fonte de eternidade e conhecimento que a Humanidade precisava.
Mesmo não sendo um livro mais do que aventuroso, leve na forma como se dedica aos problemas levantados pela migração de almas que os cientistas foram capazes de fazer ou como tenta explicar as possibilidades e implicações do processo, não deixa de semear
Esses problemas que valeria a pena discutir, identitários, religiosos e morais, não podem fazer base num livro que se quer ritmado e adaptável ao grande ecrã.
Só que, ao fim e ao cabo, talvez estejamos perante uma forma mais apontada a um público actual de contar o mesmo velho mito. Estripássemo-lo dos seus vilões e heróis, da sua aventura cinematográfica e teríamos duas almas em busca do reencontro para lá da morte e a procura de todos da prova que esta não esconde o desconhecido.

Impossível de não assinalar, infelizmente, é o facto de o livro ter ficado um pouco maltrado com gralhas que não parecem mais do que alterações da tradução do livro que, pelo caminho, deixaram palavras a mais em sítios indevidos.


















O Exílio dos Anjos (Gilles Legardinier)
Publicações Europa-América
1ª edição - Setembro de 2009
312 páginas

sábado, 28 de novembro de 2009

Regressar

Regressei a Bartleby, uma vez mais diga-se, sem que saiba exactamente porquê. É uma pulsão que acho perfeitamente deliciosa.
Suponho que seja uma identificação com este homem que se torna uma fantasmagoria pela força da sua existência imóvel mas resistente.
Bartleby é como um pilar que se opõe ao mar. As ondas deveriam passar sem sequer se aperceberem dele. Mas a sua imobilidade acaba por se revelar incómoda, perturbadora para a força que se julga toda poderosa.
Na sua intrigante singularidade, Bartleby rasga com a normalidade que a sociedade espera ver cumprida.
Ele é um resistente silencioso e pacífico à obediência que deve ser norma. Ele opta quando devia apenas reagir ao que lhe é dito. Ele não confronta ninguém, apenas opta.
Por isso Bartleby será sempre uma personagem moderna, por isso ele será sempre a expressão do indivíduo que se confronta com a sua própria função no mundo e com expectativas com que a sociedade o pressiona.
Ainda não foi a última vez que regressei a Bartleby, disso tenho a certeza.


















Bartleby (Herman Melville)
Assírio e Alvim
Sem indicação da edição - Abril de 1988
88 páginas

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um obra-prima

O prefácio deste livro abre dizendo que se trata de uma obra-prima, um peso desnecessário para o leitor que fica desconfiado de um elogio fácil ou da sua incapacidade de se aperceber da qualidade da obra.
Começando-se a ler o texto deparamo-nos com uma história que vive de uma simplicidade extrema, como se fosse uma história tão comum que se conta sem quase se dar conta. É uma pequena memória que ressurge pouco antes de uma missa por um defunto, missa essa que três pessoas diferentes querem pagar o que o padre vai recusando.
Mas quando finalmente se revela a verdadeira natureza do texto, descobre-se a grandeza que encerra.
Se a história é simples, história de homens numa terra pequena, história que se perderia na memória, aquilo que ela encerra é grandioso: o retrato de um país, o retrato de uma guerra, o retrato de um povo dividido em classes, o retrato de uma evolução, o retrato das relações dos vários poderes.
Por via do pequeno e fechado relato de uma qualquer aldeia espanhola percebemos as dinâmicas e os infortúnios que definiram a Guerra Civil e que levaram à revelação daquilo de que os homens são capazes.
Nesse aspecto há aqui muito daquilo que também surge em O Relatório de Brodeck, homens a tentarem lavar a culpa dos actos que cometeram quando se viram rendidos a uma dose de medo e outra tanta de raiva.
Aqui, no entanto, não há inocentes, quanto muito há tolos, crédulos, falsos puritanos.
E todos estão obrigados a sentir o peso do vazio que substituiu a humanidade quando uma mula é a única presença na missa que se vai rezar.
Sinal de que o mundo está despedaçado e louco e de que os homens devem esvaziar-se ainda mais para conseguirem ignorar tal tormento.
Em pouquíssimas páginas, com um estilo tão recatado mas ainda mais duradouro, Sender conta-nos muito mais do que um mero país, conta-nos a lição que demasiadas vezes esquecemos, pois só os que não recordam o passado estão condenados a repeti-lo.
E afinal Requiem por um camponês espanhol sempre é uma obra-prima, nem era preciso anunciá-lo.


















Requiem por um camponês espanhol (Ramón J. Sender)
Campo das Letras
1ª Edição - Agosto de 2007

88 páginas

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Escrever pela humanidade

Os homens quando se vêem a nú diante de si mesmos sentem o maior dos repúdios e a maior das vontades de destruirem essa consciência.
Mas sendo impraticável - impossível não, mas certamente difícil de o fazer a toda uma aldeia - destruirem-se a si mesmos, destroem aquilo que os confronta consigo próprios, sejam meros desenhos ou um estrangeiro que olha para a aldeia de uma nova forma.
Um homem justo é o espelho em que a monstruosidade dos restantes se reflecte e, conscientes de si mesmos, estes homens sentem uma raiva perante de si que não conseguem tolerar.
A raiva e o medo são dois das mais fortes motivações do homem, a primeira servindo geralmente para dominar a segunda. Já quando as duas se combinam, com os homens enraivecidos e assustados consigo mesmos, o resultado é muito mais violento, capaz de os levar ainda mais para lá da brutalidade desumana que já haviam revelado.
Os homens não pretendem senão apagar a memória de si mesmos, dos seus actos, dos seus pecados, da sua ignomínia.
Brodeck escreve contra o esquecimento, contra o silenciar da realidade, contra o apagar do passado.
Mas é ele que carrega esse fardo da memória, ele que tem de penitenciar toda a sua aldeia.
Ele e a família que o acompanha, como a mulher que carrega no ventre o texto que Brodeck escreve para si mesmo, o mesmo ventre de onde nasceu a filha que ele adora, a filha de mais um crime que os homens da aldeia cometeram.
Brodeck será o último homem justo, que quer apenas que todos saibam que é inocente, que não procura a vingança que facilmente poderia ter.
Ele sobreviveu a tudo para reencontrar a sua mulher, embora isso se tenha relevado impossível, porque nenhum homem justo é recompensado neste mundo. Pelo contrário, é castigado vezes e vezes sem conta.
Brodeck escreve o relatório sabendo que com ele pretendem os restantes limpar as suas consciência. Brodeck escreve o seu próprio texto sabendo que ele não pode permitir que as consciências se percam assim.
Não há mais espaço para ele, homem justo, naquela aldeia ou sequer neste mundo. Mas se ele se submete não se rende.
Submeteu-se a ser um cão mas sobreviveu. Submeteu-se a branquear o que os outros haviam feito mas revelou as suas verdadeiras feições.
Terá de bastar que seja apenas ele a sabê-lo, mas Brodeck não se deixou conspurcar, ele escreveu como hipótese de permanecer o homem que pretende, mesmo que nunca consiga voltar a ser o homem que fora.
Ele escreveu para fazer sobreviver a sua humanidade, para nos revelar até que ponto estamos dispostos a perder a nossa.
Estamos mais do que confrontados com nós próprios quando nos vemos no espelho que é Brodeck, reflexos dos homens daquela aldeia.


















O Relatório de Brodeck (Philippe Claudel)
Edições Asa
1ª Edição - Setembro de 2009
256 páginas

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Popular sabedoria

Três cavalos é como um móvel feito para ser sólido mas cuja beleza se revela pelo passar do Tempo.
Tem a desenvoltura manual e tem também a beleza artesanal, tem a solidez suavizada pelo detalhe, o peso do ouro temperado pelo trabalho de filigrana.
Três cavalos está repleto daquela sabedoria que não se escreve, que apenas se vive, de alguém que mete as mãos na terra e lê velhos livros à mesa do almoço.
De quem é refém de uma guerra que não foi sua. De alguém que não taxa o valor da amizade, independentemente de como ela é desniveladamente retribuída de parte a parte. De alguém que se convence não conseguir voltar a amar mas que ainda assim o faz.
Três cavalos tem a serendipidade de encontros que são como renascimentos e redescobertas de si mesmo.
Tem a memória acabada da vida que se levou e a esperança infinita da vida que está por vir.
Três cavalos é uma obra que se dá ao leitor pela sua escrita que é quase como um discurso de natureza popular, mas que dá ainda mais ao leitor por toda a sabedoria que só um discurso assim pode acalentar em nós.


















Três Cavalos (Erri De Luca)
Ambar
1ª Edição - Junho de 2004

120 páginas

domingo, 15 de novembro de 2009

Toda a literatura

Este é um épico sobre um mundo extraordinário que nos deixa bem presente na mente as infinitas possibilidades da Manha e do Talento, magias extravagantes e originais que nos fascinam pela libertação da imaginação mais livre e inocente que possuímos.
Este é um épico sobre uma personagem a braços com os dilemas mais pungentes que o ser humano enfrenta até hoje, com as expectativas combatendo as emoções, com a crença combatendo a sabedoria, com o mundo combatendo o próprio homem.
Fitz nasceu para uma vida que não lhe pertence, para um destino que deveria ser escrito por todos menos por ele.
No entanto a sua própria existência é fonte de alterações nos destinos de todo um reino e vezes sem contas ele é chamado a tomar decisões que determinam os destinos das próprias pessoas a quem a vida dele deveria pertencer.
Fitz é chamado a muito mais do que desejaria e a muito mais do que deveria, mas isso não um torna um herói, apenas num rapaz a lutar pela sua própria consciência, pela sua própria individualidade, pela sua própria coerência e pela sua própria existência.
Fitz é um personagem da mais rica literatura que, neste caso, pertence a um género muito específico.
Mas um género de pouco serve se não for tratado com o mais capaz talento, um talento para lá de qualquer classificação genérica.
Refraseando George R. Martin, toda a literatura deveria ser assim.


















A Corte dos Traidores (Robin Hobb)
Saída de Emergência
1ª Edição - Outubro de 2009
368 páginas

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Uma personagem a sós

http://www.uwo.ca/french/films/Film%20Images%202007-2008/La_pianiste_2.jpg
Isabelle Huppert como Erika Kohut

Senti-me atraído para A Pianista por ter visto e admirado o filme que Michael Haneke fez dele.
Por Michael Haneke ter arrancado a Isabelle Huppert uma interpretação tão surpreendente quanto intensa, o ressurgimento do título A Pianista na minha mente foi como um foco apontado à leitura.
Há em A Pianista uma personagem extraordinária, Erika Kohut, que não era afinal apenas fruto de uma inspirada actriz.
Ela é a essência de subjugação voluntária para que se lhe activem os sentidos, para que se sinta viva por entre a dormência da sua vida, embora nunca liberta da rendição a que se acostumou ao morar com a mãe.
Mas uma personagem assim, mesmo que fique na memória, não consegue verdadeiramente viver sozinha.
E com isto quero dizer que a escrita de Elfriede Jelinek teria de a suportar, teria de a espicaçar, teria de a acariciar.
Não o faz. A escrita de Elfriede Jelinek tem a eloquência fria de um relatório, um atestado analítico à psique de uma personagem.
Uma frieza que assenta mal, que obriga a uma disputa entre a paciência e o prazer do leitor.
Elfriede Jelinek parece capaz de analisar de forma distante a sua personagem, mas com isso afasta também os seus leitores.
Há aqui uma personagem radical mas que precisava de um outro tratamento para que a acompanhássemos com mais intensidade.


















A Pianista (Elfriede Jelinek)
Edições Asa
2ª Edição - Outubro de 2004
336páginas

domingo, 8 de novembro de 2009

Contar o que não se deve

Augusten Burroughs é um desbocado capaz de listar os "broches sagrados" - que lhe foram proporcionados por padres -, tentar seduzir um operador de telemarketing para que a empresa dele nunca mais lhe ligue ou insinuar que o marido da sua colega de trabalho anda a fazer sexo com a própria filha como retribuição por ela ter gritado com ele sem razão alguma.
Mas nada disto parece uma exploração saída de uma imprensa cor-de-rosa sedenta de escândalo e choque.
Augusten Burroughs parece muito mais uma versão sem restrições nem limites da nossa vida quotidiana, de quem faz aquilo que bem entende perante as situações quase banais, tornando-as assim em motivo notável para a escrita.
Ele não tem vergonha, não porque pretenda fazer-nos abrir a boca de espanto mas porque aceita verdadeiramente a sua concepção diferente da vida e acha que partilhá-la será catártico para... o leitor, claro!
Se não fosse ele a escrever assim, seria impossível para aquela velhota confessar-lhe que a mãe lhe dava clísteres de Dr. Pepper e depois a obrigava a beber o líquido que saía.
A nossa própria vida ganhar contornos aceitáveis e partilháveis quando encontramos alguém igualmente para lá da "normalidade" - as aspas são para que tentem definir o que é, afinal, esse conceito.
Fácil é rir alto e bom som de tantos pormenores deliciosos que se soltam destas crónicas. Fácil é dizer "Só mesmo a um tipo assim!".
Difícil é depois ter de perceber que a nossa vida, tirando as notas mais extravagantes, não é tão diferente desta, mas que no nosso caso estamos um pouco mais constrangidos a ser boas pessoas e aturar o que se passa.
Augusten Burroughs coloca-se a jeito para que qualquer pessoa o ache seu companheiro, porque não se contam histórias assim na praça pública, não se é neurótico para uma audiência de desconhecidos porque isso atrai uma avalanche de bizarrias de volta.
Só que ele tem um certo sadismo apontado ao mundo, disposto como uma bofetada ou uma chamada de despertar. Cada um tem as suas próprias histórias negras a precisarem de catárse, de serem contadas em voz alta com histerismo e gargalhadas.
Augusten Burroughs apenas colocou as dele cá fora primeiro para dar o exemplo.


















Pensamento Mágico (Augusten Burroughs)
Contraponto
1ª edição - Julho de 2009
292 páginas

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais tréguas como esta

Se disser muito simplesmente que A Trégua é uma lição sobre o Amor, chegarão a um lugar-comum de imaginarem um qualquer romance lamechas com pretensões de psicologia barata.
Se disser, pelo contrário, que A Trégua é o retrato de como a vida se espraia para a eternidade mesmo nos momentos mais ténues, julgarão que se trata de um romance sobrecarregado de intelectualidade.
A Trégua, muito provavelmente, é tudo o que existe pelo meio de ambos os pontos e que os une ou separa.
A Trégua é um diário (literalmente) de um homem a caminho da reforma que se atormenta com o que poderia ter sido, com o tempo vazio que terá de ocupar, com as memórias que ressurgem ou se perdem.
Um homem que tem, ao fim de vinte anos de imaculada viuvez, o encontro com uma jovem que o arrebata.
Ele, julgando-se perto demais do fim - da vida, das possibilidades, do merecimento - não é capaz de se entregar ao que verdadeiramente sente. Demora demais até aceitar que poderá estar perante algo que merece mais do que a sua desconfiança.
Crente no inevitável fim daquilo que vive naquele momento, ele não encarará esta porção da sua vida senão como encara a própria vida, um tempo a ter de ser ocupado, um ócio sem justificações.
Por isso esconde, até de si mesmo, a felicidade conjunta que encontrou e que vive. Quando a deixa despontar não é ainda tarde demais, mas há uma dramática lição para aquele homem que tanto atormentava a própria alma.
A trégua do título é o tempo que Deus lhe concede de alívio das dúvidas mundanas, um alívio que será por natureza breve e que confundirá aquele que o sente por se parecer demais com a verdadeira salvação, a eternidade feliz concedida antecipadamente.
A trégua não é a disponibilidade de tempo para aquilo que ele quiser. A trégua é o esquecimento da inexorável passagem desse tempo e das tragédias que se encontram na revisão do tempo que ficou para trás.
A Trégua é um livro absoluto, uma Alma traduzida em palavras e um pedaço de literatura brilhante.


















A Trégua (Mario Benedetti)
Cavalo de Ferro
1ª edição - Abril de 2007
168 páginas

domingo, 1 de novembro de 2009

Ficar aborrecido

Lê-se O Perito e sente-se que estamos a braços com um autor cheio de ideias e perfeitamente capaz que é vitíma das circunstâncias editoriais.
Não digo que Robert Finn não tenha escrito o livro que pretendia, mas parece ter-se resignado às convenções de um género porque é aquele que, neste momento, está em voga.
No fundo O Perito tem dois livros dentro de si.
O primeiro é um policial simples que está enriquecido por uma dupla protagonista que são como pólos atraídos um para o outro, mas igualmente repelidos.
Um casal a trocar picardias, ele um inglês estranhamente impetuoso e ela uma americana estranhamente resguardada.
São, com as devidas distâncias, um Boogie & Bacall para os tempos actuais - sendo que tenho consciência que a este comentário não seré estranha a leitura recente de À Beira do Abismo.
O segundo é um livro de fantasia onde velhos textos sobre magia podem ser manuais eficazes, que podem trazer ao mundo moderno de poderes que rivalizam com a ciência mais avançada ao mesmo tempo que o impregna do classicismo que só os combates de florete podem ter.
Separados dariam dois livros muito apetecíveis e certamente com muito mais páginas para cada um se desenvolver e respirar.
Juntos dão, ainda assim, um agradável e eficaz livro que, apesar de tudo, escapa à repetição da fórmula que parece condenado a repetir.
É caso para ficar aborrecido com Dan Brown e o seu sucesso que obriga a uma formatação da imaginação - ou, pelo menos, da expressão dessa imaginação.


















O Perito (Robert Finn)
Publicações Europa-América
1ª edição - Julho de 2009
392 páginas

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Urdidura

Eis um título que assenta perfeitamente ao texto que dele se desvenda.
Esta obra é, de facto, a disposição de um conjunto de fios ficcionais que se correm paralelos ou consecutivos parece pouco importante, já que o autor nos vai enredando naquilo que é quase um loucura de memórias.
Memórias que ganham forma na sua expressão literária e que, por isso, estão sujeitas a serem entrecortadas e afectadas por repetições, imagens perdidas, metáforas, referências bizarras e devaneios.
Fios ficcionais que precisam então de um outro fio, uma trama que os cruzasse e agregasse, que lhess desse consistência.
Falta-lhes um entendimento que os atravasse, que seja transversal a todas as divagações.
O livro chega a ter momentos em que é um pequeno deslumbramento imagético e sonoro - tanto que vale a pena ler algumas passagens em voz alta - mas a maior parte do tempo tem como que uma alucinação no seio da qual não se consegue alinhavar o essencial.


















Urdidura (João Rebocho)
Teorema
Sem indicação da edição - Abril de 2001
180 páginas

domingo, 18 de outubro de 2009

A personagem, a essência

http://image.guardian.co.uk/sys-images/Film/Pix/pictures/2007/01/31/marlowe460.jpg

Marlowe é íntegro, ele é o bastião da moral possível num mundo capaz de enveredar pelos actos mais ignominiosos.
Ele é o último dos existencialistas, fiel a si próprio, pois não são "25 dólares mais despesas" que o levaram a escolher esta profissão.
Talvez Marlowe não consiga dormir descansadamente à noite, mas é sem sobra de dúvida aquele que menos mal pode dormir.
Ele opera como a sua consciência lhe permite, fiel apenas a si e ao seu empregador, à justiça que esse pacto envolve.
A justiça externa não lhe interessa verdadeiramente, só ele resiste ainda num mundo vulgar, só ele ele é a fonte de irrisão que confronta esse mundo.

Se nos perdermos no rumo incerto de À Beira do Abismo, não tem mal. Nem Chandler conseguia ter a certeza de como morriam algumas das suas personagens.
Não interessa aqui desvendar - nem por nós, nem por Marlowe - os eventos. Interessa que eles se sucedam e acelerem em direcção à sua própria colisão.
Interessa que eles criem uma sensação, porque À Beira do Abismo é um ambiente, um mundo para que Marlowe exista e lance as suas deliciosas tiradas.
Um mundo que é dele, que só existe onde ele está, que só existe no espaço imediato que o rodeia.
E Marlowe é uma das mais memoráveis e indispensáveis personagens da literatura americana.
Talvez seja isso o essencial a ser dito!


















À beira do abismo (Raymond Chandler)
Contraponto
1ª edição - Julho de 2009
200 páginas

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Para se deixar levar

Ao ler este livro, é preciso saber deixar-se levar pela sua linguagem.
É preciso permitir ser-se arrastado e hipnotizado por este poema em prosa, que ora é extático ora é sofrido.
A história contada em qualquer outra forma não ocuparia mais do que uma única páginas. Bastaria uma composição de escola para explicar o amor desgostoso e impossível de que Elizabeth Smart nos fala.
Mas esse seu amor - este é um relato autobiográfico - dá-lhe o poder de reinventar cada momento da sua memória numa beleza torrencial da linguagem.
Linguagem que expressa a concepção do mundo que esta mulher tem, uma concepção absolutamente subjectiva em que os grandes problemas que a circundam só interessam quando afectam o seu amor directamente.
A sua emoção jorra profundamente sobre a sua linguagem, o mundo dela é feito daquelas palavras e daquela fixação amorosa.
Não sei se será uma obra-prima do género como assinalam, mas sei que é um pequeno e belo livro que precisa realmente que o leitor se entregue a ele.

Já agora, é contraproducente ler o prefácio da tradutora.
Além das informações biográficas sobre Elizabeth Smart que ajudam a contextualizar a história que se segue, está também cheio de considerações intelectuais sobre o texto que condicionam as expectativas do leitor.
Depois de lido o prefácio é difícil largar a tendência para tentar captar as "collages" e, realmente, deixar-se levar pelo texto.


















Junto à Grand Central Station sentei-me e chorei (Elizabeth Smart)
Teorema
Sem indicação da edição - Abril de 1997
124 páginas

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A riqueza da Ficção Científica

Darwinia é um livro de uma riqueza e complexidade extraordinária que dificulta a sua simples classificação.
A originalidade do texto, a sua riqueza e agregação de referências permitem apenas dizer que se encontra no seio da Ficção Científica.
Darwinia fala de Cosmologia, aproxima-se do Cyberpunk, trabalha sobre a especulação científica e a História alternativa e toca o imaginário dos Universos Paralelos.
Darwinia liga Edgar Rice Burroughs a William Gibson, ou melhor dizendo, homenageia a Ficção Científica mais aventurosa e aponta baterias ao melhor do que se apresentava já como linha condutora para o género.
Darwinia tem uma riqueza de imaginação enorme que lhe permite vaguear quase casualmente entre estes sub-géneros, lançando o leitor em especulações e viagens extraordinárias para as quais basta a composição de pequenos momentos, quase apenas sugestões, para nos deixarmos convencer.
Darwinia é uma leitura surpreendente até ao fim, uma lição em Ficção Científica e um prazer singular.
Não será um livro propriamente fácil, mas é de uma enorme recompensa.


















Darwinia (Robert Charles Wilson)
Saída de Emergência
1ª edição - Setembro de 2009
320 páginas

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A grande comédia

Em A Pesca do Salmão do Iémen temos muitas formas de informação a surgir entrecaladas na narrativa.
São notícias, emails, excertos de uma biografia, a transcrição de interrogatórios, diários vasculhados...
São formas distintas de olhar os acontecimentos, cada qual correspondendo a uma perspectiva encoberta.
Cada qual revelando a falsidade do comportamento de uns e de outros, dos políticos, dos cientistas, dos jornalistas, dos terroristas, dos poderosos.
Cada um destes tem um interesse próprio n'A Pesca do Salmão do Iémen, um projecto que só pretende apagar as diferenças entre os homens, fazer desaparecer os seus sedentos interesses.
Com as pernas mergulhadas no rio, a cana expectante pela mordidela do salmão, todos os homens são iguais seja qual for a sua classe, homens feitos de esperança pela boa fortuna da pescaria.
É um projecto megalómano, quase imposível, mas pelo qual há um trio de personagens que luta.
Personagens que pelo meio da ridícula hipocrisia generalizada continuam a lutar por uma crença, por um milagre, por um feito assinalável.
Eles lutam, sempre com a consciência de que a sua recompensa pode ser somente o desapontamento, pode ser somente um culpabilizante apontar de dedo.
Não importa que o empreendimento tenha tido sucesso, pois só a desgraça alimenta a informação, verdadeiramente.
Não importa que os homens tenham concretizado o milagre sonhado, pois só o que pequeno pormenor que lhes escapou fica para ser contado.
Não importa que as suas intenções sejam as mais belas, pois só o cínico olhar dos restantes terá espaço na memória colectiva.
É o retrato do nosso mundo, uma cruel sanguessuga sem consideração por aqueles que ainda lutam.
Que no meio destas tribulações o milagre tenha podido ter o seu lugar, que no meio deste lugar uma preciosa e delicada história de amor tenha podido nascer, só nos leva a uma conclusão: já não podemos apreciar a Humanidade, mas temos ainda de nos comover com alguns dos seus singulares indivíduos.
A comédia deste livro está para lá da sátira (política, social, económica), é a comédia da cada vez mais trágica Humanidade. E essa, talvez não faça rir tantos assim!

Não podia acabar sem deixar uma nota de elevado apreço pela magnífica composição da capa.
O padrão em relevo que atravessa o salmão é um prazer de sentir na pele enquanto seguramos o livro aberto para o ler.
E mesmo antes de ler as primeiras palavras, já estava desejoso de ler o livro que possui tão atraente capa!


















A pesca do salmão no Iémen (Paul Torday)
Edições Asa
1ª edição - Agosto de 2009
288 páginas

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A escrita de um pensador

Kleist é um pensador. Um pensador de uma eloquência e de uma pertinência incontestáveis.
Isso não impede que seja um pensador com quem é possível identificarmo-nos e com quem é possível debatermos.
É um pensador que aponta sempre à evolução, à progressão de ideia para ideia até encontrar o sentido último do que começou a dizer.
Um dos seus textos, aliás, versa exactamente sobre isso mesmo, sobre a constituição das ideias à medida do discurso, de como estas se compõe e modificam perante as palavras e os sentidos inesperados que se tomam ao longo do discurso.
Por isso mesmo, por ser um pensador assim, é um pensador com as suas idiossincrasias, dualidades e erros.
Mas a essência do que ele diz vive para lá de quaisquer defeitos que queiramos apontar à composição do discurso.
A sua pertinência não seria maior se todos os seus textos fossem refinados a um ponto em que nenhum pequeno defeito lhes pudesse ser apontado, ao ponto em que a linguagem estivesse tão densamente reconstruída que fosse já impossível pensar as ideias do texto por ser preciso antes pensar o texto ele próprio.
E isso é mesmo o mais prazeiroso de tudo, o encontro com a inventividade literária com que Kleist escreve.
Seja sobre a forma de carta, de fábula, de oração religiosa ou de ficções construídas em nome de personagens em cuja pele faria mais sentido opinar como opina, Kleist constrói uma obra muito rica e interessante, cujo prazer rivaliza com a sua riqueza.
A fluidez das palavras, a qualidade destes textos acaba por melhor fazer afluir as ideias com que nos presenteia.
Nem a forma nem o conteúdo tentam ser a componente mais rica deste trabalho, antes a forma parece sempre a mais propícia a elucidar-nos sobre o tema em causa.
Tema esse que pode passar da estética à política, da arte à sociedade, da intelectualidade à natureza.
Nenhum tema parece contraditório ou simples para Kleist, porque é na forma como ele os trata que a sua coerência se revela.
Kleist reflecte sempre contra o pessimismo dominante, contra o erro instituído e contra o facilitismo generalizado.
Por isso ele precisa da vivacidade e da paixão da sua linguagem, para fazer vingar o seu discurso e as suas ideias, para obrigar a que as retamos e trabalhemos.
E consegue-o, sim, como o consegue!


















Sobre o teatro de marionetas e outros escritos (Heinrich von Kleist)
Antígona
1ª edição - Junho de 2009
160 páginas

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Num mau filme

Se houve tempos em que o Cinema adoptou a linguagem literária, agora o efeito parece cada vez mais invertido.
Encontro com o Medo evidencia isso mesmo, num género que se propicia demasiado a tal efeito, o thriller sobrenatural.
Encontro com o Medo é construído, de forma clara, em cenas.
Reconhece-se facilmente o mecanismo que coloca o texto muito a jeito de ser adaptado ao grande ecrã, montado e cortado para funcionar para um espectador.
Só que, à conta disso mesmo, temos cenas ora demasiado palavrosas - onde se reconhece de facto o efeito de câmara com que todas aquelas palavras inúteis seriam substituídas - ora demasiado crípticas - querendo agilizar uma determinada cena, acaba por não lhe dar o conteúdo certo para a fazer funcionar.
O problema adensa-se quando o leitor - pelo menos um leitor que tenha lido alguma BD das últimas décadas, que tenha visto alguma das séries de televisão que surgiram na descendência de Millennium ou um dos muitos filmes que Hollywood tem dado à luz com repetitiva cadência - se confronta com terreno muito batido, sem nada de distinguível.
O final - e foram precisas três tentativas para lá chegar - é de uma facilidade preguiçosa que se lança directamente à jugular de uma sequela, além de deixar a nú a pouca imaginação da escritora, que tentando ser original e obscura já revelou a verdade por detrás do verdadeiro vilão que ainda há-de atormentar a equipa de investigação com poderes psíquicos.
Não sei porque raio 6 milhões de americanos acabaram por comprar este livro. Afinal estamos numa sociedade altamente dependente da imagem e, nesse domínio, há exemplos muito melhores disponíveis na televisão quase todos os dias.
Encontro com o Medo até poderia funcionar nesse registo, mas escrito dá um mau filme.


















Encontro com o Medo (Kay Hooper)
Casa das Letras
1ª Edição - Maio de 2009
288 páginas

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma crónica de Tróia

Dares Frígio é um cronista de uma guerra que conhecemos bem de textos míticos.
A sua narrativa é sóbria e cheia de informações que a tornam numa fonte de enorme relevância e credibilidade histórica.
Literariamente o texto não é particularmente rico ou relevante, mas é eficaz ao tornar mais palpáveis e reais as personagens que sempre me pareceram ter nascido de uma imaginação genial.
Aqui ausentam-se os deuses e surgem as fraquezas humanas. Sem a influência dos deuses, Heitor, Aquiles e Hércules estão mais expostos às suas próprias falhas e motivações.
Os heróis são aqui mais humanos do que nos lembramos deles, levados à guerra pelas suas fixações com mulheres. São, afinal, personagens com que podemos finalmente relacionar-nos e não só admirar.

O estudo introdutório de Reina Pereira é muito rico em informação, mas serve mais os propósitos dos estudiosos.
Não tanto pelas citações que invocam os textos clássicos mais conhecidos, mas porque envolve uma pesquisa que não serve como introdução ao leitor comum.
A quantidade de citações em grego original ou a avaliação das qualidades sintáticas exigem conhecimentos mais vastos.


















Da História da Destruição de Tróia (Dares Frígio)
Publicações Europa-América
1ª Edição - Setembro de 2009
138 páginas

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Da vida cruel

Veneno é um pequeno texto de uma enorme crueldade.
A luta de uma criança estropiada contra uma cobra é o retrato da crueldade da própria vida.
O rapaz e a cobra começam a luta pelas suas próprias vidas, ele apertando-lhe a cabeça com o único braço que tem bom e ela esmagando-o com o seu aperto.
Ele busca ajuda na aldeia mas os seus pais fogem do que lhes parece um monstro.
Ele busca ajuda na aldeia mas o feiticeiro local anuncia aquilo como um castigo divino.
Ele busca ajuda na aldeia mas os homens temem aproximar-se dele mesmo podendo salvá-lo facilmente.
O rapaz está sozinho, mas mesmo contra todas as adversidades luta e defende a vida que mais ninguém parece apreciar.
Não se trata apenas do combate contra a cobra, trata-se do combate pelo significado da sua vida, ele que só com um braço sonhava ser fantocheiro. Não só sonhava como conseguia e encantava as restantes crianças, mesmo que os adultos não lhe dessem valor algum, mesmo tendo sido o barulho do seu último espectáculo de fantoches a atrair a raiva da cobra.
E o rapaz luta sem desistir, é a sua vida mesmo que ninguém de entre os que observam a cena pareça apreciá-la.
Até que ele se deixa convencer totalmente, ele que já evitara pedir ajuda ao sacerdote para não lhe interromper as orações, finalmente deixa que a cobra o morda.
Então percebemos... Não é a morte que derrota alguém, é a descrença, a desistência.
Quando se consente que não há mais propósito em lutar, então uma pessoa derrotou-se a si mesma, ainda que tenha vencido a luta pela sobrevivência.


















Veneno (Saneh Sangsuk)
Ambar
1ª Edição - Abril de 2002
64 páginas

sábado, 26 de setembro de 2009

Meticuloso

Não são infundadas as afirmações de "viciante" para o livro de Stieg Larsson, embora seja pelos motivos menos óbvios se olharmos para a actual vaga de bem sucedidos thrillers.
Larsson não tem de recorrer a twists quase mirabolantes para compôr o seu policial.
Pelo contrário, quem tem o hábito de ler este género encontrará diversos pontos em que as suas próprias deduções coincidirão com aquilo que o autor acaba por resolver na sua trama.
Mas é na própria construção meticulosa dos eventos, na preparação sistemática da investigação e na composição cuidada da expectativa - e sua posterior resolução - que Stieg Larsson torna este livro numa obra a que não se consegue fugir.
A construção de Os homens que odeiam as mulheres é demorada e cuidada, clássica mesmo.
A complexidade e extensão das relações e eventos obrigam à atenção do leitor, obrigam a que este se embrenhe no livro. O livro é, ele próprio, um desafio.
E, claro, a maior aposta é, como todos os grandes romances, independentemente do seu género, na composição das suas personagens e das relações entre elas.
Independentemente dos eventos em torno deles, são Lisbeth Salander - uma memorável personagem da literatura - e Mikael Blomkvist, as suas vidas e a sua aproximação tão singela quanto perturbada, que importam. A importância deles é maior do que a simples resolução do mistério e de todos os seus graus e interstícios, embora isso mesmo não seja negligenciável.
Talvez por isto mesmo se justifique o sucesso do livro, porque exige dos leitores não habituados a este tipo de narrativa bastante mais do que o habitual, não chegando a nenhum ponto onde simplesmente corta com toda a lógica anterior. O leitor tem de estar empenhado até ao final.
O leitor precisa disso, precisa de voltar a sentir que o romance que lê investe tanto nele como o leitor no romance.
À conta de ser tão meticuloso com aquilo que proporciona ao leitor é que o livro é tão viciante.


















Os homens que odeiam as mulheres (Stieg Larsson)
Oceanos
2ª Edição - Novembro de 2008
544 páginas

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Uma experiência

[The+Little+Men,+Reality+Shoe,+2004,+videoinstallation.jpg]
Cena da instalação vídeo "The Little Men" (The Blue Noses Group)


Este romance de Lydie Salvayre é uma experiência que se torna imensamente difícil de classificar, de resumir de forma perfeitamente explícita.
Isso mesmo torna este romance tão interessante de seguir, ainda que agora me debata perante aquilo que direi para tentar passar essa mesma percepção.
Este é o relato de uma viagem turística pelos lugares mais pobres da Europa, pontos exóticos para a classe burguesa.
Só que a autora não está aqui para falar dos guetos nem dos eventos exteriores que se podem visualizar.
Aqui o que interessa são as dinâmicas do grupo que se forma, ele próprio uma mistura complexa de personalidades e formas de estar.
Do escritor intelectualmente superior à analfabeta mulata de quem decidem tomar conta, passando pelo condutor do autocarro que provém dos bairros que eles se propõem visitar, o grupo parece fazer o retrato mais abrangente da sociedade, capaz de discutir a precisão de Nietzsche enquanto usa o exotismo da viagem como catalisador sexual, capaz de discutir teoricamente as razões de toda a pobreza que se espraia do lado de fora e sem ver, mesmo à sua frente, a capacidade que todas as pessoas têm de sentir e de se encantar, independentemente da sua condição.

http://images.telerama.fr/medias/2009/08/media_46181/les-secrets-d-ecriture-de-marie-helene-lafon-et-lydie-salvayre,M25610.jpg
Lydie Salvayre, por Léa Crespi

O que Lydie depois faz é escrever uma espécie de confissão permanente da sua consciência de escritora, falando com ternura ou ironia das suas criações. Fazendo reparos de quem sabe as regras de como montar um programa televisivo – é disso que estamos próximos, um reality show em que os voyeurs-leitores estão vidrados nos voyeurs-personagens - e apesar de ter de as cumprir consegue escapar à sua opressão.
Lydie vai desmontando a própria lógica da construção ficcional, como que dando conta ao leitor das falhas que são, afinal, intencionais e que levam o leitor a desafiar as ideias fáceis de formar sobre aquilo que vai lendo.
Este livro é uma verdadeira experiência em todos os seus níveis. Uma experiência que, a ter de ser comparada, apenas poderia ser com aquilo que Michael Haneke faz nos seus filmes. Uma experiência social, escrita para a geração que tem a televisão como motor mais comum.
E ao fim de dois livros, devo dizer que, mesmo não vendo Lydie Salvayre como uma grande escritora – não confundir com ver como má escritora - é certamente uma desafiante experimentalista a ter em conta.


















As boas consciências (Lydie Salvayre)
Terramar
1ª Edição - Janeiro de 2002
132 páginas

domingo, 13 de setembro de 2009

Demasiado hype faz mal

O O Caso das Mangas Explosivas chegou-me às mãos com alguma sorte e quando, finalmente, chegou a sua vez de ser lido, suponho que estava pronto para uma revelação de dimensão considerável embora, confesse, o livro tivesse falhado em despertar-me o interesse.
Mas não havendo crítica que não desse conta do magnífico que o livro é e tomando nota dos comentários tão ilustres e elogioso que alguém como Le Carré fez, haveriam de anunciar algo inesquecível.
Mas o hype faz mal a tudo, como aqueles que viram o filme com esse nome exacto bem saberão.
Aquilo que acabei por ler foi um curioso romance, inteligente na sua sátira aos medos e desejos dos ditadores que se munem do fanatismo religioso (mas de todos os ditadores em geral) para melhor controlar o seu país.
Há algo de perfeitamente burlesco na paranóia que esse ditador consegue impôr a si mesmo, baseando-se em todos os factores errados quando na verdade todos aqueles que o rodeiam realmente o tentam matar.
Há algo de perfeitamente nonsense na forma como um país vai lidando com os seus prisioneiros e os seus heróis, ao ritmo das vontades de cada novo líder e das suas pretensões (ou falta delas).
São boas ideias, onde a crítica velada tem os seus efeitos certeiros, com pormenores que extravasam a crítica da ideologia ditatorial para falar da de todos, como na crendice que rege o nosso General Zia, que abre o Corão à sorte para encontrar uma passagem que lhe sirva de "horóscopo para o dia" (é assim, aliás, que ele deduz que o querem matar).
Mas além dessa sátira há uma nuance dramática sobre a herança de um pai - militar que se suicidou - e o comportamento pessoal - amoroso, por exemplo - contra a conduta militar que parece um pouco fora de tom.
Hanif não joga as suas peças com igual desenvoltura e o romance parece perdido entre duas possibilidades.
É uma boa leitura mas insuficiente, seja culpa do hype ou não. Mas parece-me que foi a vontade de dar ao mundo uma visão caricatural das ditaduras e um conhecimento de uma literatura praticamente desconhecida que levou a que se gerasse tanto burburinho.


















O caso das mangas explosivas (Mohammed Hanif)
Porto Editora
1ª Edição - Julho de 2009
336 páginas

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Há momentos em que convém

Alguns amigos meus têm estranhado por me verem a ler esta saga, num misto de perplexidade de me encontrarem com um género que me é pouco habitual e julgamento crítico de superioridade intelectual.
Há mais do que um motivo para que tal aconteça, mas deixarei aquele que se possa apresentar de forma concludente.
Esta saga aglutina características tão diversas de uma forma coerente e capaz, talvez não perfeita em si mesma, mas perfeita perante o objectivo que a rege.
É uma obra despretensiosa, que se propõe a cativar um leitor pelo divertimento que lhe proporciona.
Com uma parcela de novela - capaz de irritar o leitor masculino a páginas tantas - , outra de mitologia inserida no mundo moderno, outra de aventura e mistério, outra de puro humor negro e ainda outra de comentário social, a saga de Sangue Fresco consegue engajar o leitor no seu universo peculiar de forma simples e eficaz.
Melhor ainda, consegue manter o leitor por lá, abstraído e confortável, desejoso de mais um regresso, de mais uma peripécia, de mais um reencontro com as personagens.
Por estes motivos, esta saga conseguiu gerar uma igualmente interessante série televisiva e consegue agregar um público diversificado.
Em somatório, Dívida de Sangue é uma viagem de dois dias por um pedaço de entretenimento sólido e cativante.
E isso, mais do que nos bastar, por vezes convém realmente.


















Dívida de Sangue (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª Edição - Julho de 2009
256 páginas

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Para rir

Esta obra terá sido, ao tempo da sua publicação, um objecto de crítica às Forças Armadas nacionais.
Mas não sabendo disso - ou não querendo saber disso - a obra não perde sentido, importância ou potencial.
Se esta reunião de pequenos contos foi um objecto crítico localizado no tempo que agora faz ainda sentido ler, não há mal em dizer que é uma obra intemporal.
Pelo contrário, estes pedaços de humor, profundamente originais, versam sobre o pequeno ridículo das falhas das divindades, do destino e do próprio homem.
Nós humanos, rivalizamos em banalidade com os anjos, intriguistas de vão de escada.
Nós humanos, tomamos como prenúncios os erros dos deuses, tão falíveis como nós.
Somos, afinal, pequenos. E os deuses são tão pequenos como os fazemos.
E se não pudermos rir dos nossos deuses - e também dos dos outros, sem ofensa mas com ironia - então não poderemos rir de nós próprios.
Com a ajuda certeira de Mário de Carvalho, ambos os risos são fáceis e deliciosos.


















A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho (Mário de Carvalho)
LeYa/Bis
1ª Edição - Maio de 2009
96 páginas

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Um bom "velho" policial

Morto por pecar é um bom "velho" policial, daqueles em que se pode ter plena confiança na boa condução da trama, daqueles com que se pode contar para que nos submetam ao exercício de descoberta sem impossíveis saltos de lógica.
Sólido, complexo sem truques, assente numa realidade perfeitamente credível e actual.
Um policial que consegue, além de nos manter a jogar às adivinhas - quem não quer ser mais esperto do que o próprio autor? - falar da realidade social à sua volta.
Um policial que fala do drama dos agricultores. Que traz à cena o degladiar entre os velhos e os novos costumes, entre as ciências e as crenças, entre o campo e a cidade.
Mas, acima de tudo, por ser uma das facetas que acaba por ser determinante, evidencia a distância que separa a velha e a nova forma de se ser polícia.
Ainda que os resultados possam ser os mesmos, a forma de se chegar a eles eram bem distintos, mas acima de tudo, é a confiança que se altera.
O polícia de antigamente era como um companheiro que lembrava a existência da ordem. O polícia de agora tem de impôr essa ordem.
A balança da confiança alterou-se de um para o outro caso de forma acentuada, mas como se poderá ver, nem a placidez que parece gerar o velho policiamento de aldeia deixa de esconder a tendência aproveitadora - e criminosa - das pessoas. Pelo contrário, até a reforça com um enorme sentido de impunidade.
Esse é que é o cerne desta trama, que a gerará e a resolverá, abraçando a discussão moral e comportamental que sobra da transformação da definição de polícia.


















Morto por Pecar (Stephen Booth)
Publicações Europa-América
1ª Edição - Agosto de 2009
364 páginas

sábado, 5 de setembro de 2009

À luz de um escritor

San Gerolamo scrivente de Michelangelo Merisi da Caravaggio

Gosto demasiado de Camilleri para que quando, neste Verão, dou com um exemplar de um livro dele perdido numa livraria não me martirize por não ter notado que o livro tinha sido publicado.
E com razão pois esta pequena pérola, que se afasta rapidamente do rumo (expectável) de policial, tem a força da visão particular de um artista sobre outro e, por isso mesmo, de trazer à discussão novas percepções que nos escapariam.
Camilleri coloca-se como personagem perante um diário nunca visto de Caravaggio, com um tempo limitado para transcrever tudo o que quiser.
Com esta táctica, Camilleri fica à vontade para construir um pequeno relato críptico da degenerescência de um génio, da luz negra que recai sobre ele à medida que Caravaggio pinta algumas das suas obras mais fabulosas
A invenção do chiaroscuro pode ter sido, afinal de contas, apenas uma expressão da forma como Caravaggio via o mundo, escurecendo em torno da luz do sol que o feria.
Uma paranóia crescente e uma alucinação doentia podem não ter sido o preço do seu brilhantismo, mas antes o combustível que o alimentou.
Olhando para algumas destas obras - reproduzidas no livro - de uma forma tão peculiar e distinta por via das palavras de Camilleri não pode deixa de contribuir para que as olhemos com renovada atenção, querendo descobrir o que nos indicia.

Mas há um outro olhar que vale a pena destacar, não o do escritor sobre a obra do pintor, mas o do escritor sobre a personagem do pintor.
Ao colocar a sua personagem a falar das suas opções na escolha dos pedaços de texto a transcrever, vamos percebendo o que verdadeiramente distingue um escritor dos restantes.
Saltando sobre os dados importantes, sobre as confissões bombásticas, sobre os podres suculentos, o escritor vai directamente aos pequenos pedaços de confissão que revelam a queda da personagem que o escritor ali encontrou.
Caravaggio, naquele diário, não é um famoso pintor com uma obra de interesse global. Ali, a sós com o escritor, Caravaggio é uma personagem descoberta, é um pedaço de história a precisar de ser contada.
À luz de Camilleri, Caravaggio e a sua obra são agora novidades para nós, mesmo que já as conhecessemos bem.


















A cor do sol - Os mistérios do Caravaggio (Andrea Camilleri)
Bertrand
Sem indicação da Edição - Setembro de 2008

112 páginas

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cinema de aventuras

Relicário tem uma viva linguagem cinematográfica, que serve bem a imaginativa história, um thriller em que a aventura e a especulação científica se cruzam sugestivamente fazendo render a tensão até ao final pela introdução de diversos acontecimentos que tornam o ambiente de Nova Iorque mais palpável.
Serve a história proporcionando a cada página uma fácil e apelativa imagética que nos faz percorrer as páginas com gosto.
Uma linguagem cinematográfica que, no entanto, prejudica também o decorrer da história, com uma construção de cenas que acaba por denunciar o que vai ocorrer, colocando à frente dos olhos a sugestão – demasiado explícita – daquilo que logo depois vai revelar.
Algo que atesta bem ao facto de não ser tanto o mistério (policial) a dominar o livro – e, por consequência, também não ser como thriller que este mais se destaca – mas antes o sentido de possibilidades em aberto, de aventura.

O que resgata Relicário a esses desequilíbrios é o domínio que os seus autores têm da cidade em que a história decorre.
Seja o reino das “toupeiras” habitando os subterrâneos de Nova Iorque ou sejam os atritos que se geram na relação da população local com a violência que por lá ocorre, os autores criam um enorme sentido de realidade, com um domínio perfeito do interesse e da expectativa dos leitores.
Conjugando isso com uma inteligente construção das suas personagens, inusitadas, complementares, cuja actuação permite inferir diversos pormenores intrigantes das suas profissões – jornalismo, antropologia ou polícia de giro – e das relações que no seu seio e entre cada uma se estabelecem.
Relicário é, por isso, uma agradável aventura, que será mais natural de ler a quem leu Relíquia (do qual este livro é a sequela) mas que tem informação em doses mais do que suficientes para quem quiser começar apenas por aqui.


















Relicário (Douglas Preston e Lincoln Child)
Saída de Emergência
1ª Edição - Julho de 2009
400 páginas

sábado, 29 de agosto de 2009

Literatura popular

Nick Hornby é um escritor de apurado sentido popular, que explora as mais convencionais e reconhecíveis situações com uma casualidade e uma facilidade que falam directamente ao homem comum que se esconde (ou nem tanto) por detrás do leitor exigente.
Esse sentido pop é o que lhe permite conquistar o seu público, pela identificação e por uma certa dose de humor, para depois lhes falar de temas nada menos do que perturbadores.
Temas que passam pelo suicídio, pela inadaptação, pela falta de concretização da vida ou pela destruição do conceito de família.
O apelo de Nick Hornby é então esse, de falar de temas tão comuns – acima de tudo, as relações – de forma tão desavergonhada, tão realista quanto mordaz, tão compreensiva quanto destrutiva.
Isso é algo que parte desde logo da escolha dos seus temas, temas que lhe são queridos a ele como a 80% – valor fabricado neste preciso momento! – da população ocidental. Futebol, música, romantismo. E com certa leveza de vocabulário, com uma predominância da oralidade, com um encadeamento escorreito, vai encobrindo a seriedade de muitos dos subtemas que lá se encontram.
Essa conjugação de factores acaba por ser também aquilo que torna as suas obras em material tão bom e fácil de se ver adaptado ao cinema.
Mas embora Era uma vez um rapaz seja um bom livro, não tem o mesmo encanto que Alta Fidelidade teve quando o li, esse livro que era ele próprio uma forma de canção pop sobre o amor e sobre a música, o que me impede de estar certo de voltar a reencontrar-me com Nick Hornby.


















Era uma vez um rapaz (Nick Hornby)Teoremasem indicação da Edição - Maio de 2000
296 páginas

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um trabalho de precisão

Glen Duncan escreveu um romance onde o envolvimento e a sequência dos vários Tempos descritos são dominados de forma precisa e inteligente, capaz de falar tão loquaz e agilmente de uma grande história de amor como da cega crueldade do actual mundo ocidental.
Uma história de amor tão capaz de desafiar as normas sociais no seu surgimento como de desafiar o sofrimento pessoal na sua ruptura.
Uma crueldade humana que origina também a mais bizarra e desigual relação de afinidade entre duas pessoas, reduzindo a diferença que queremos encontrar entre os bons e os maus, entre os terroristas e o resto de nós.
Mas que fala também de muito mais do que isso, que fala de toda – várias, mesmo – vidas que se podem viver.

Porque um dia e uma noite e um dia é o período de tempo que parece sempre definir a vida de Augustus Rose.
É nesse período que a sua vida parece reencontrar toda a felicidade do mundo só para que, depois, ele descubra o maior dos sofrimentos. É nesse período que ele sofre a maior das dores só para que, depois, ele descubra o maior dos alívios.
O principal desses períodos, uma sessão de tortura com o interrogador Harper que descobre a afinidade com Augustus e que parece querer recusar a necessidade dos seus métodos cruéis, parece ser o verdadeiro cerne que dominam o despoletar das memórias de Augustus e o definir das suas acções presentes.
Numa engenhosa sequência de analepses e prolepses, a incrível e periclitante vida deste homem, mas também a misteriosa e sedutora vida das personagens secundárias que com ele se cruzam, revelam a pouco e pouco as suas .
Entre essas personagens, é sobretudo, claro, Harper, um quase-vilão que parece apenas disposto a enfrentar a tarefa a que se vê obrigado pelo alívio e compreensão daqueles que têm de a sofrer.

Esta é uma leitura, talvez a mais óbvia, do que é este livro.
Mas a riqueza de Um Dia e Uma Noite e Um Dia é suficiente para que cada um dos seus leitores lhe possa descobrir a sua própria entrada, a sua própria afinidade fascinada.
Este é um livro que nos poderá captar a atenção num mero pormenor para depois o fazer ressoar ao longo da sua trama maior, ao longo de todas as páginas que ficaram antes e que ainda faltam surgir.


















Um Dia e Uma Noite e Um Dia (Glen Duncan)
Publicações Europa-América
1ª Edição - Julho de 2009
202 páginas