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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

À procura de um editor

Depois da experiência dolorosa de No teu deserto não poderia haver outro livro de Miguel Sousa Tavares que tivesse um tal efeito negativo.
Isso não redime Madrugada Suja que se lê com uma irritação crescente até ao seu final.
Essa inicia-se com a percepção de que o autor tem a deformação profissional de jornalista demasiado entranhada na sua escrita, enumerando informação a mais - e pela boca de quem não a deve dar, como a velha e analfabeta senhora que fala de motores Rolls-Royce usado em aviões que sobrevoaram a sua aldeia - e repetindo-a desnecessariamente a cada contextualização de um cenário já traçado.
A irritação aumenta sempre que essa informação que deveria ser precisa, é usada para efeitos de ficção com uma indevida casualidade que gera pequenas incongruências cronológicas - ou apenas de lógica.
Um rapaz nascido em 1968 rezando pela saúde de Salazar ou uma mescla pouco precisa das décadas de 1990 e 2000 para o tempo presente do romance (variando entre uma e outra conforme dá mais jeito) são alguns dos muitos detalhes que arrancam o leitor à sustentada imersão no universo criado.
Não podendo ser considerado uma incongruência, mas tornando ténue a lógica da realidade, surge um personagem com a quarta classe mal acabada e que vai lendo Moby Dick.
Tal personagem é o sintoma mais óbvio do factor preponderante para tanta irritação: a falta de voz dos personagens que mais não são do que porta-vozes diferenciados para as considerações, pessoais e sociais, do autor.
Basta dizer que esse mesmo personagem, sem benefício à trama ou à sua própria caracterização, tem de ser adepto do Futebol Clube do Porto quando esse clube nada ganhava.
Deixo por analisar mais extensamente uma ou outra situação - como o capítulo feito de excertos de um diário de considerações políticas que recorre a narração quando uma entrada mais pessoal acerca de uma noite de sexo num palheiro teria bastado; ou os diálogos transcritos com travessão e tudo mais na carta de uma moribunda escrevendo emocionada ao filho - que se afiguram como menores perante a combinação das três anteriormente descritas.
Tudo isto se afigura triste perante os parágrafos dedicados à infância passada na aldeia ou à relação entre um neto e um avô que nem o são de verdade. Parágrafos com uma carga intensa do autor, muitas vezes comovendo pela sua simplicidades.
Como o romance se deforma em direcção ao libelo das muitas décadas de política e corrupção - novamente ao serviço das opiniões do homem que não do trabalho do escritor - esses parágrafos andam por ali um pouco perdidos.
Isso pode funcionar relativamente bem quando o autor fala do passado e está, assim, a elucidar leitores mais novos sobre a reforma agrária (escolhida a título de exemplo, mas no seio da qual até decorre um dos episódios mais interessantes mesmo se desnecessários ao produto do romance).
No entanto, mesmo desse tema podemos dizer que já o conhecemos porque ainda está muito presente um documentário como Torre Bela, então dos temas mais recentes e que continuam a arrastar-se nos jornais, o livro faz pouco mais do que neles insistir e, quanto muito, usá-los como ferramenta do melodrama.
Porque é disso que se trata, um melodrama com alguma ingenuidade cinematográfica que já não se usa e algum exagero telenovelístico que insiste em não morrer.
Acreditar que um arquitecto possa descobrir sozinho as contas offshore do futuro Primeiro-ministro é difícil. Que ele tenha um momento Capriano em que afasta o corrupto do poder porque é, igualmente, seu fillho (recém descoberto) é quase impossível de aceitar.
Menos difícil, ainda assim, do que o final em que uma vítima de violação - incapaz de contacto físico com um homem desde então - se renda ao amor por um dos presentes na cena do seu trauma (mas não violador...) a quem, com dezasseis anos e bêbada, pedira um beijo vai para dez anos.
De todo este livro, amálgama de elementos tão dispersos que nunca resultam sequer em pequenos conjuntos entre eles, retiro uma conclusão, de que faltou ao livro um editor que discutisse, corrigisse e melhorasse o livro.
Dessa conclusão nasce outra, já não sobre o livro mas sobre o comportamento do mercado nacional e a reacção das editoras a ele.
Creio que será pelo estatuto de escritor com vendas de um milhão de exemplares - e das expectativas que um seu manuscrito cria numa editora - que Miguel Sousa Tavares pode ser dispensado de ter o seu trabalho à prova antes da publicação.
Com estatuto de infalível, se não mesmo de intocável, sendo garantia de vendas e tendo "fugido" à sua editora habitual para outra que lhe garantisse mais liberdade (por ser, necessariamente, mais pequena no meio editorial nacional), parece-me mesmo impossível que o livro não tenha ido directamente das mãos do escritor para o prelo.
E, portanto, o que faz falta são editores que coloquem em sentido os escritores e o mercado. Mostrando a uns como devem escrever melhor e ao outro como pode lher melhor.


Madrugada Suja (Miguel Sousa Tavares)
Clube do Autor
2ª edição - Junho de 2013
352 páginas

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quase... nada

O Quase Romance de Miguel Sousa Tavares é uma quase memória, uma quase reportagem, um quase diário e um quase livro de viagens.
É um livro que não cabe numa categoria não porque extravase os limites da definição de várias delas mas porque é demasiado estreito para satisfazer as exigências de qualquer uma delas.
Falta-lhe uma voz que o comande e que lhe dê forma. Tem como narrador um homem levado pela memória de uma velha foto que lhe cai nas mãos. Mas esse narrador parece determinado em ser preciso sem nunca se deixar levar pela pieguice que o seu relato de terna memória deveria denotar.
Enumera as câmaras que transporta mas quando chega o momento de revelar que através de uma fresta de porta olhou o corpo nú da sua companheira de viagem, o seu grande culminar de emoção é um triste Estava cansado de mais para desviar o olhar.
Pode até ser que a mulher agora relembrada seja merecedora de um livro, não pelo seu corpo mas porque o seu espírito é inolvidável, mas se o narrador lhe olhou o corpo convinha que o tivesse feito por apreço ou porque no meio do deserto a beleza feminina é escassa e o olhar ainda pode ser uma meiga forma de elogio e desejo.
Claro que o deserto é algo que também não existe na sua voz. Não arrisca falar do deserto, dar as impressões pessoais que poderiam soar falhadas mas mereceriam o elogio pela sua ousadia.
A viagem define-se pelos atrasos, pelos quilómetros, pelos enganos. Raramente se define pelo que está à frente dos olhos, por algo mais do que as acções descritas com a minúcia que vinte anos de distância já não deviam permitir.
Só quando ela, Cláudia, fala é que o livro ganha personalidade porque corre riscos.
Claro que a estratégia é das mais fáceis possíveis, visto que ela está morta - morre no final do livro diz o primeiro parágrafo, que é o mesmo que matá-la logo de início - e vem falar-lhe numa forma de wishful thinking que ajuda a completar os espaços em que falha a exactidão do narrador: Mas, depois, veio e deitou-se abraçada a mim. Ou assim me pareceu.
A incerteza dele dura pouco, pois Cláudia só fala por dois capítulos, mas deixa as impressões mais profundas do livro, como ao falar da transformação da ordem em caos quando a tempestade de areia os apanha e dando a conhecer o medo e a beleza que se apreciam sendo fustigados por ela.
A voz dela faz sentir o deserto e dá a conhecer o preço físico da viagem. Os parágrafos que lhe pertencem são, sim, quase um texto por direito próprio. Um conto apenas, talvez, que ficou abafado pela voz dele.
Ele, arrogante, afirma ao início lembrar-se de todos os detalhes para depois duvidar do nome do barco em que embarcou ou - o que deveria ser mais importante - se ela o abraçou ou não.
Ele, irritante, não consegue evitar acrescentar informação redundante para o leitor atento, até no detalhe da inexistência do Euro quando já tinha vincado que a viagem começara em 1987.
Ele, coitado, não tem voz e deveria deixá-la falar a ela o tempo todo, mesmo que Cláudia já só possa falar porque ele lhe imaginava uma voz.


No teu deserto (Miguel Sousa Tavares)
Oficina do Livro
1ª edição - Julho de 2009
128 páginas