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terça-feira, 22 de março de 2011

O mundo do beco

Do Beco Midaqq mal se vê outra rua do Cairo, mal se vêem horizontes que não os das paredes que encerram os seus habitantes no domínio fisica e mentalmente reduzido da sua viela.
Mas no Beco Midaqq vê-se o mundo todo, o mundo na sua pequenez que cabe toda num bairro assim tão pequeno.
Um mundo carregado de inveja, ódio, vingança, ilusão, desesperança. Da mesquinhez humana em todas as suas formas, da irredutível existência que atenta contra si mesma.
Cabe tudo isto num beco só? Claro, mas as suas consequências são como as de uma explosão num espaço confinado, mais violentas e imprevisíveis. E irremediáveis.
Ninguém foge da dureza da vida no beco, ninguém lhe fica indiferente, seja por mais ou menos tempo.
E, apesar de tudo isto, há ainda lugar para alguma dose de redenção. Um milagre de entendimento humano: a conjunção de arrependimento e perdão.
Não limpa o beco, mas equilibra-o um pouco até que chegue o desfecho que é do beco como do mundo, o esquecimento.
Por mais eventos tenebrosos que ocorram, só duram o tempo do primeiro choque e da primeira conversa. Depois passam, esquecidos pelas pessoas que têm de continuar a viver com quem os originou mas não tem mais para onde fugir.
Todos os dramas terminam onde a memória se torna selectiva, onde se esvazia o coração para se continuar a viver no mesmo local como se ele nada lhes fizesse à própria vida.
Trata-se de um mundo, mas um mundo que só podia existir naquela cidade. Tem a personalidade realista e única de um beco conquanto contenha o essencial do mundo.
Mahfouz é exímio na sua arte, na sua descrição de personagens tão palpáveis mas igualmente únicas. Na criação de situações que se encaminham para um desfecho que podemos imaginar de muitas formas mas que ainda nos escaparão por não termos os dados sobre as particularidades do espaço onde estão a decorrer.
Ele conta a realidade com surpresas e possibilidades em aberto. Não há exageros novelescos ou pré-determinação, há grandiosidade de imaginação em prol de um olhar clínico para a unicidade do que o rodeia e que os seus leitores seriam incapazes de descobrir por si só.
Ler Naguib Mahfouz, sobretudo em dose dupla, é como uma purga mental de tudo o resto. Uma lição de "sobre" e "como" olhar, pensar e escrever.


















O Beco dos Milagres (Naguib Mahfouz)
Contraponto
1ª edição - Maio de 2009
336 páginas

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cairo Novo, Mundo Velho

No novo Cairo há promessas de futuro com a mesma marca do passado.
Há jovens que lutam arduamente contra a fome para se conseguirem formar apenas para descobrir que, sem conhecimentos no Estado, mais valia serem agricultores.
Há mulheres que chegam à Universidade apenas para se verem comercializadas à conta da sua beleza pelos próprios pais.
Há homens que se fazem indiferentes e altivos apenas para serem usados como engodos.
No novo Cairo há todos os males do velho Cairo apenas com uma nova roupagem. (E ninguém se iluda, são os mesmos males que ainda hoje vemos acontecer um pouco por toda a parte.)
Variam os aspectos mais prementes, os aspectos temporais, mas a situação é sempre a mesma.
Por poder, por dinheiro, por sexo, tudo se vende e tudo se compra. Honra, honestidade, memória, orgulho. Estes são só alguns dos primeiros aspectos a ser esquecidos.
Em troca de um cargo que pague bem aceita-se ser um marido de fachada que encubra a amante de um homem importante.
Um cargo tem aparências e exige dinheiro para as manter. Mais dinheiro do que o que ele recebe. Então deseja novo cargo, que pague mais. Esse já cobre as aparências que (mal) mantinha mas tem novas...
Assim, o rapaz que disse que não aceitaria voltar a passar fome, acaba por viver necessidades porque não sabe traçar o limite para que o que a sua vida pode ter.
Uma vida assente nas fundações de um castelo de cartas. Porque depende de conhecimentos e trocas com pessoas que só são importantes e poderosas por momentos, enquanto servem os interesses de outros ainda mais acima.
O novo Cairo é um Cairo de casamentos combinados, de interesses servidos sem vergonha e de escândalos consentidos.
Cairo de velhos mas eternos vícios. Cairo sem vergonha, onde os métodos se renovam para servir os mesmos velhos hábitos e os mesmos velhos desejos de poder e riqueza a qualquer custo.


















O Cairo Novo (Naguib Mahfouz)
Civilização Editora
1ª edição - Setembro de 2010
232 páginas