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domingo, 19 de julho de 2015

Não terá sido um inferno

O cadavre exquis pode dar numa leitura delirante que nos traz em suspenso à conta de tantas ideias a reivindicarem o lugar cimeiro enquanto se integram umas nas outras.
Ou pode dar nisto: autores que por mais que tentem não conseguem mostrar que se foram aproximando, antes usaram cada um dos seus capítulos para trazerem o livro de volta ao seu estilo e pretensões sem parecerem ter consciência do que veio imediatamente antes.
Há momentos em que o livro ganha fôlego e mostra uma narrativa em que as variações não desmontam o objectivo desta farsa.
Só que ao longo da maioria das suas páginas é dado a ler quatro conjuntos de ideias de narrativa que quase se poderiam marcar a intervalos regulares.
Não se trata de exigir cedências aos autores, apenas que cheguem a cada individual delírio irónico partindo do que veio antes.
A história varia muito o seu cenário, umas vezes estando no domínio dos Céus, outras indo parar ao "Inferno" do Estádio da Luz, para regressar sistematicamente à Assembleia da República - um verdadeiro Purgatório para o Diabo que tem de aturar as sessões encarnado num deputado.
Como esta última, há algumas ideias desta sátira que são boas. Outras têm o potencial para levarem o riso mais longe.
O problema vem de muitas outras não serem mais do que variações sobre eventos e personagens reais que não necessitam do trabalho da ficção para se mostrarem à luz da ridicularização.
Mudam-se os nomes, exageram-se uns detalhes, adicionam-se uns diálogos que não se prestam ao politicamente correcto.
A inventividade destas escolhas não é suficiente para elevar o texto acima da mistura de piadas e comentários maldosos que foram sendo ouvidos nos cafés ou lidos na internet.
O absurdo já lá estava todo e estes quatro autores viram nele uma porta para falarem do presente desalinho do nosso país.
Uma tentativa que merece o reconhecimento do activismo mas que não funciona, o que é aquilo que conta no final.


O Diabo dos Políticos (Fernando Évora, João Pedro Duarte, Miguel Almeida e Vítor Fernandes)
Esfera do Caos
1ª edição - Maio de 2014
200 páginas

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A moral do sexo

Há altos e baixos neste conjunto de contos de Miguel Almeida.
Alguns dos contos não passam de elaborações desnecessárias em torno de anedotas - e o título "Piadinha a preço justo" denuncia-se bem - que já Juca Chaves contava há várias décadas atrás com verdadeira irreverência.
Outros, pelo contrário, são pequenos momentos de perspicácia, como o tríptico em torno de Eduardo Censor que questiona não só o que é a pornografia mas também o nível pornográfico a que chega o fanatismo daqueles - muitas vezes ditos sóbrios intelectuais - que se batem pela Arte e contra a Censura.
Felizmente são mais os contos que se enquadram no segundo caso e menos os que se ficam pelo primeiro caso (quase todos, iniciais, quer no livro quer no tempo de escrita).
Miguel Almeida vai com este livros questionando as ideias convencionais e instituídas sobre a sexualidade e a moralidade local, não poucas vezes indissociáveis.
Seja o confronto da obsessão masculina pela performance com os lugares-comuns de atitude para o trabalho na pornografia ("Quem quer e pode ser uma estrela porno?") ou o encandeamento que as liberdades individuais muitas vezes falham em ter para com a visão da mulher e da sua sexualidade na sociedade ("Orgasmos mal comportados"), não deve haver dúvidas que Miguel Almeida lança reptos para discussão de forma dissimulada e inteligente, cativante mesmo.
Fá-lo como um jogo, lançando discretamente as bases de reflexão como se o seu público fosse ainda infantil no que toca a estes assuntos. Mas aqui essa atitude não vai mal, pois permite que ninguém tenha de admitir as suas debilidades nestas áreas.
Esse jogo vê-se logo na escolha dos nomes, Eduardo Censor é censor, Francisco Manso é "corno" e deixo para adivinharem o que se passa com Ana Brígida.
O sexo e a moral podem ser divertidos e andar sempre juntos. Se calhar já era altura de alguém o ensinar de forma generalizada.


















A cirurgia do prazer (Miguel Almeida)
Esfera do Caos
1ª edição - Abril de 2010
192 páginas