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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

À procura de fôlego

Este livro é uma revelação do potencial de Pedro Vieira e, na mesma medida, do seu desencontro com a matéria ficcional que lhe será mais apropriada.
Há um estilo já definido no trabalho de Pedro Vieira, um em que ele se aproxima da metalinguagem.
O autor imiscui-se na vida das suas criaturas, falando do universo que está para lá delas e procurando o jogo referencial que permita a expressão do seu processo e até algumas graças por conta da sua intervenção omnipotente.
Tudo isto funciona melhor em relatos breves e, por isso, os capítulos assemelham-se muito a crónicas em que a ficção e a realidade se misturam em serviço da arte de quem escreve.
Os personagens acabam mal servidas, incapazes de evoluir porque não há uma visão estrutural para o desenrolar do livro,
Há a história de um romantismo trágico que traz para os subúrbios de Lisboa uma chama da grandiosidade sentimental Russa.
As histórias individuais no seio da história do livro tentam convocar tudo o que caracteriza o Portugal dos anos 1980 até hoje, numa mistura do pior que, inevitavelmente, copiámos do resto do mundo e do que já era intrinsecamente nosso e nunca mudará, para mal dos nossos pecad(ilh)os.
Só que a tentativa de retrato do subúrbio para estabelecer uma ideia do Portugal das últimas décadas acaba por levar a que os episódios prevaleçam sobre a coerência humana dentro do romance.
Ou talvez seja das ideias empoeiradas essa falta de dimensão dos personagens, tornados em arquétipos porque a grandiosidade romanesca não consegue resgatar nada do que está no interior de lugares-comuns sobre os subúrbios.
Poderá ser uma conclusão errada, mas os subúrbios não parecem ser o domínio de Pedro Vieira, que parece antes conhecê-los de ideias repetidas ao longo dos anos.
As histórias que ele ouviu de lá originárias acabaram por criar um cenário mítico de falhanço onde ele acreditou poder reinterpretar a Literatura e a Portucalidade.
A tentativa pode bem ser meritória mas não foi aqui que o autor o conseguiu.
Como treino para o seu estilo e uma aproximação a um trabalho de fôlego longo pode, pelo contrário, ter sido um sucesso.


Última Paragem, Massamá (Pedro Vieira)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2011
208 páginas

sábado, 27 de dezembro de 2014

Enfrentar as memórias

Correndo entre o Passado recente e o Presente, Mustang Branco é uma história de permanente desfasamento.
Encontros actuais que trazem ao de cima tempos dos quais a protagonista nunca escapou porque foram os que a definiram.
Com a cabeça numa outra década e num outro país, a "Sardenta" vive de forma hesitante, sendo facilmente atraída para comportamentos impróprios - relativamente às suas convicções e às próprias leis.
Ela é uma mulher que nunca superou os sentimentos de rapariga. O amor não concretizado no momento em que este era mais intenso e marcante.
A menina volta a estar face a face com o rapaz que preferiu a sua irmã mais velha logo num tempo em que o corpo responde com maior exigência às emoções sentidas.
A confusão - sentimento que se confunde com o deslumbramento antigo - tolda-lhe o julgamento, deixando que ela se torne num peão de um plano alheio.
Só a custo de enfrentar a ameaça da Justiça e de encarar o que fez e porque o fez acabará por começar a recuperar o seu próprio discernimento a propósito da falta de esplendor de Caju, que então voltara à sua vida.
O crescimento da mulher vem com o custo do desmoronar dos mitos da criança que outrora foi.
Ao compreender que as suas memórias empolavam o pequeno mundo em que se movia e o homem com que sonhava, acaba por se redefinir como mulher, por se libertar de memórias felizes e dolorosas por igual, que a prendiam e a impediam de viver em plenitude.
Ainda que, pelo contrário, a sua atitude fosse a de alguém muito mais permissiva a impulsos, o que em teoria faria dela mais dominadora das suas pulsões - e pulsões sexuais.
Em geral o seu comportamento na actualidade é patético enquanto que em Moçambique nos tempos da Guerra Colonial estava mais perto da maturidade - forçada pela arrogância (primeiro) e pela ausência (depois) do pai.
Perto da maturidade em face da maturidade a resvalar para o disparate da sua irmã mais velha e mais afoita. Uma irmã que, num percurso de vida inverso ao dela, constituiu família e permaneceu em Moçambique, não fugindo às responsabilidades nem às memórias.
Embora não seja intencional, os momentos narrativos da história parecem acompanhar a realidade da protagonista.
No que tem de contemporâneo o livro cede a exageros e conveniências que o aproximam de um romance de cordel (aventuroso) enquanto no que tem de distante o livro é intenso e vívido - ora cruel, ora abusrdo.
A vida da protagonista apagou-se, daí que viva no Passado, mas o trabalho da autora deveria conseguir evitar que o mesmo acontecesse na relação entre capítulos de períodos diferentes.
Um percalço no trabalho de narradora que revela algum desajuste entre as ideias sobre um Moçambique onde o colonialismo se sujeitava à guerrilha da Renamo e as soluções encontradas para colocar as personagens num movimento de colisão inescapável na Europa actual.
Um percalço que não macula um talento notável que se pode sujeitas a algum vacilo de discernimento.
A escrita de Filipa Martins anuncia pertencer a alguém que está sempre a olhar para a realidade pelos olhos da sua vocação de escritora.
Alguém que constantemente olha à sua volta, registando o que vê para depois editar a sua descrição e assim tornar a realidade numa parte mais do seu trabalho de criação.
Ela deixa-nos com essa memória, a par de memórias quase reais de um Moçambique onde nunca poderíamos ter ido, o que só lhe acrescenta mérito.


Mustang Branco (Filipa Martins)
Quetzal Editores
1ª edição - Setembro de 2014
256 páginas

domingo, 20 de julho de 2014

E o papel do leitor?

Tenho uma relação difícil com José Luís Peixoto, daquelas relações que estão por criar. Depois de Morreste-me nunca mais o li, afastado por uma certa sensação de aplauso constante que o fabrica como figura de marketing literário cuja confirmação pode não acontecer.
Livro confirma-me que estou em dívida (comigo mesmo) por não ler mais regularmente o escritor, pois a sua escrita atinge picos de uma assombrosa beleza.
Livro confirma-me, ao mesmo tempo, que os receios têm algum fundamento e que terá de ser com cuidado que voltarei a ler José Luís Peixoto.
Da beleza dá-nos conta a forma como constrói uma realidade alargada a partir de um conjunto reduzido de personagens vivendo um conjunto disperso de episódios.
Essas personagens representam realidades grupais mas acima de tudo traçam-se a si mesmas numa complexidade que tem tanto de realismo como de literário e que proporciona a compreensão de uma realidade a par de um maravilhamento de imaginação.
Os episódios em que vão existindo são pequenas maravilhas contidas em si mesmas, micro universos literários que merecem uma atenção isolada para si mas que vão fazendo a caracterização de dois países (Portugal e França) e da realidade que os une ainda (a emigração).
Há um fascínio nas ideias que José Luís Peixoto revela, acontecimentos que nos parecem só poder terem nascido da imaginação mas que vão demonstrando que podem ser assomos de realidade trabalhada.
Sobretudo porque esses episódios estão ligados e nessa deambulação entre Portugal e França começa a encontrar-se um fio condutor de uma narrativa maior que é destes personagens e dos homens e mulheres que viveram essa mesma deambulação.
Só que à realidade adiciona José Luís Peixoto o amor literário que é seu, dos leitores e, entretanto, dessas personagens que criou.
Essa relação com os livros adiciona uma camada de impossibilidade e magia ao sofrimento que ele descreve, numa hipótese de salvação que só pertence à esperança de quem revê em histórias a História, adicionando-lhe "acasos felizes".
A ambição que José Luís Peixoto cola às páginas é a de uma elevação que a literacia, a Literatura e o livro concedem às personagens - logo, às pessoas.
Como aquele jogo de palavras sublinhadas num livro, mensagens codificadas, bilhetes de amor, conversa facilitada pelo interface de um livro. Como se as capas do mesmo protegessem aquelas pessoas e fizessem perdurar os seus sentimentos.
Tudo isto é magnífico e nele se vai vendo a promessa do que o autor enceta numa segunda parte do seu livro, um exercício de concretização literária (e gráfica) do que ele escrevera antes.
Algo para lá da metalinguagem, algo a caminho da metarealidade - que seria interessante saber se acontece igualmente nos seus livros de não ficção.
O problema é que este exercício de experimentalismo acontece em ruptura e não em integração. Fosse todo o livro um misto de espanto literário e 
Nada tenho contra o experimentalismo. Apenas neste caso esse experimentalismo surge como acrescento. Um acrescento em busca de sentidos maiores para esta execução literária.
A busca de um passo adiante na modernidade dos livros que funciona mal dentro do objecto por não estar integrada na sua totalidade.
O leitor fica com a dúvida sobre que livro está a ler. É possível reconciliar ambas as partes de Livro - estão, afinal, a rementer de uma para outra; narrativa infinita embora não necessariamente numa forma cíclica - mas não é possível acreditar que sejam ambas partes do mesmo livro.
Há um livro passado de mão em mão entre personagens e que é, no final, passado para a mão do leitor. Está, portanto, o autor a passar ao leitor o livro pela mão das suas criações.
Sendo isso uma verdade permanente dos livros, esta explicitação do processo quer ser construtiva de uma relação mais intensa do leitor com os livros, mas parece autofágica.
Falando de si mesmo - também por via do autor elencar as suas referências (quase exibindo-se) - o livro está a roubar ao leitor parte do seu papel. Um papel que este é chamado a executar na primeira parte do livro e que deveria ter sido chamado a executar com maestria se o "jogo" da segunda parte existisse com a devida imposição na primeira parte da escrita.
Por isso o papel do leitor perante este livro está manco, tal como o livro está manco com uma das suas partes desequilibrada contra a outra.
Na minha opinião é a segunda em relação à primeira parte, para outros leitores será a primeira parte em relação à segunda (embora este caso pareça mais difícil). Impossível é ficar satisfeito sem se ter recebido um desafio - um livro, o Livro - devidamente equilibrado.


Livro (José Luís Peixoto)
Quetzal
3ª edição - Outubro de 2010
264 páginas

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Dos livros para os livros

Há muito de distinto entre Ara e Cinerama Peruana, mas há igualmente muito de semelhante. Isso será um sinal do porquê de serem ambos dois dos melhores livros que saíram o ano passado (independentemente da nacionalidade de origem, se é preciso dizê-lo).
Aquilo que têm de semelhante será um ponto de partida interessante para esta crítica, tal como a leitura em sequência destes livros permitiu que um e outro crescessem perante o leitor que assim teve a sorte casual de lhes pegar de seguida
Ambos os romances estão estruturados em peças independentes que se unem pelos sentidos que só se podem encontrar no momento em que todas elas foram lidas pela ordem estabelecida.
E ambos são agregações da essência das possibilidades da Literatura, citando e inovando fontes essenciais.
Se no caso de Ara a citação era das próprias forma literárias, em Cinerama Peruana é das referências, autores essenciais a uma aprendizagem da "Gramática Unviersal" da melhor Literatura: aquela que cresce, também, pelas pequenas falhas.
Rodrigo Magalhães é leitor, livreiro e agora escritor, pelo que ganhou em primeira mão as múltiplas experiências do prazer de se relacionar com as palavras, os livros e os autores.
Quando remete para um dos escritores da sua (p)referência é porque não tem embaraço de confessar que foram eles a ensinar-lhe e inspirar-lhe o que agora lemos.
A revelação das bases serve para demonstrar o que conseguiu inventar a partir delas, aquilo que é ensinamento da leitura e aquilo que é inspiração da escrita.
Depois cada um dos contos que constituem o livro encontram-se nos temas e distanciam-se na expressão dos mesmos.
Herança, Violência, Literatura. Combinados ou desirmanados, dão mote a cada personagem - ou conjunto de personagens - trazidos a uma ribalta de interesse ficcional que nasce do lado humano negro.
Mais importante ainda entre os textos - porque se associa ao sentido geral do trabalho do autor neste livro - é o denominador comum da tentativa de superação da genealogia (teórica) que assombra cada um dos personagens.
E como essa tentativa gera lealdades - sempre em risco - para com obras permenanetemente inacabadas e que, sejam de colocar palavras no papel ou corpos na terra, continuam a ser fruto de trabalhos cansativos, exigentes e mecanizados.
Sendo Cinerama a visão cinematográfica abrangente de uma mesma realidade com base em três projecções simultâneas, não há dúvida que Rodrigo Magalhães muito se aproxima dessa ideia, dando conta de um mundo que lhe vem dos livros e que ele trabalha cerradamente com um domínio das melhores qualidades de escritor mas que tem uma abrangência que se percebe de imediato mas que só o tempo - e obras adicionais, crê-se e espera-se - poderão chegar a desvendar por completo.


Cinerama Peruana (Rodrigo Magalhães)
Quetzal Editores
1ª edição - Junho de 2013
232 páginas

sábado, 22 de junho de 2013

Berlim, cidade trágica

Adeus a Berlim tem sobre Mister Norris Muda de Comboio a vantagem de o ponto de vista objectivo - tanto quanto possível - ser usado numa vertente que parte sempre de si mesmo.
O livro é constituído somente por fracções de diários e por relatos dos tempos que passa com determinada pessoa ou família.
Sem uma estrutura verdadeira mas com uma regulação cronológica dos períodos passados em Berlim, tornando a sua presença na cidade o fio possível para uma visão dos seus habitantes - e habitantes-tipo - e, com isso da cidade ela própria.
Uma cidade aqui, muito mais acentuadamente na fronteira entre os seus tempos de Cidade do Pecado e de Capital da Tirania.
Por um lado, uma cidade onde os comportamentos orgiásticos ainda são mantidos pelos que podem e pelos que apenas o fingem poder.
Onde a indiferença e a devassa continuam a reger a vontade dos que chamam a si o estatuto de "artista" ou "intelectual", mesmo que seja apenas para se integrarem nesse meio prazeres ilimitados.
Como a famosa personagem Sally Bowles, uma actriz à procura de uma oportunidade que acabará burlada mas feliz pela sua tolice. Se o dinheiro não abundava também não valia a pena tomar precauções em demasia: havia que perdê-lo em nome do pagamento de mais um qualquer prazer, até esse de ser levada pela certa.
Por outro lado, uma cidade em que a pobreza continua a alastrar encoberta somente por um silêncio envergonhado.
Uma pobreza que de tanto privar as pessoas, abre espaço para que elas alberguem uma qualquer ideologia. Aquela que estiver, num dado momento, por de cima, que melhor prometer contrariar os tempos difíceis.
Por isso é tão natural que a senhora Landauer vote no Partido Nacional Socialista depois de, pouco tempo antes, ter votado no Partido Comunista.
A velha Berlim tenta persistir enquanto a nova Berlim a censura cada vez mais. Mas a abertura a todos tipos de sexualidade e a sua enorme disponibilidade tornavam difícil
Não admiraria depois que Hitler tencionasse deitar abaixo esse antro de pecado para sobre as suas ruínas construir a cidade modelo do seu império.
O narrador convive mal com ambas as versões desta Berlim. Um homem ainda mais perdido no coração de uma cidade sem uma identidade.
A facilidade com que Sally Bowles lhe fala de sexo deixa-o tão desconfortável quanto a familiaridade com que os Landauer o acolhem em sua casa e lhe servem as suas melhores refeições (mesmo se continuamente se desculpam por serem tão comuns).
Há ali uma transmissão do sentimento que os estrangeiros desenvolveram para com aquela cidade, não conseguindo compreendê-la, talvez aceitando-a - podemos pensa na aceitação da sua magnífica produção cinematográfica, por exemplo - mas nunca a integrando na sua própria visão
Isherwood faz uma leitura do Presente e alguma interpolação do Futuro próximo através do único lugar em toda a Alemanha que poderia resistir-lhe.
O livro (e depois o filme, por acréscimo) ajudou a fazer perdurar o mito daquela cidade naquele momento - um paraíso de pecados que terá tido poucas cidades que com ela rivalizassem, mas também o motivo de origem de uma potencial e violenta imposição política.
Isherwood ajudou ao mito pela maneira como deixa as críticas e os avisos de fora da escrita mas podendo ser facilmente lidas na sua deambulação de estrangeiro no coração de Berlim.
Passada a premência da publicação original, ficou o retrato pouco sadio (sobretudo tendo conhecimento do que viria depois de 1932) mas demasiado tentador para não ser relido.
Tal como a própria cidade, o seu díptico berlinense fala-nos da duas facetas de uma cidade perdida para o futuro a partir do momento em que se viu perdida na sua própria amoralidade.
Curiosamente, esta mesmo com a sua estrutura aparentemente fracturada, consegue ser muito mais intensa e aprisionante para o leitor.
Creio que nas décadas de 1920 e 1930, Berlim foi realmente mais trágica do que caricata. Mais Sally Bowles do que Mister Norris.


Adeus a Berlim (Christopher Isherwood)
Quetzal Editores
1ª edição - Maio de 2011
264 páginas

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Berlim, cidade cómica

William Bradshaw é o narrador do livro. Um personagem que nunca se envolve com aquilo que vai contando.
Amigo de Mister Norris e habitante de Berlim, sem que se entenda facilmente o porquê de qualquer um desses estados de existência.
A forma como descreve Norris é realista ao ponto da indelicadeza. A avalização que faz dos habitantes da cidade é um julgamento social e político.
Não chega, sequer, a aproximar-se de uma relação de amor-ódio com Norris ou Berlim. William Bradshaw está ali por se ter deixado arrastar por um misto de mórbida curiosidade e inércia indiferente. E se o narra de forma distanciada é porque crê que consegue evitar integrar-se em tão caricato espectáculo mesmo sendo um participante relativamente próximo.
Esta descrição de Bradshaw aproxima-o dos tempos que vai descrevendo mas que não chegar a viver. A deambulação acrítica entre crenças, partidos, negócios, convívios e personagens é a mesma que afectava a Alemanha de meados dos anos 1930.
A Alemanha era levada por promessas falsas e a aparência de sucesso, querendo acreditar em fosse o que fosse porque não havia mais nada com que se ocupar. Bradshaw faz o mesmo na sua amizade com Norris, tal como o faz o Duque.
Só que há uma consequência na frieza do narrador de Mister Norris Muda de Comboio, uma transformação do olhar clínico em olhar crítico.
Sendo tão obviamente directo, o narrador está a caracterizar os outros pelo embaraço que lhe causam, no desapego que lhes guarda.
Norris torna-se na caricatura de um sistema de vida alcançado no limbo que Berlim vivia entre os seus anos pecaminosos e austeros.
Norris revela-se uma figurinha da comédia política, grandíloquo na pequenez da sua noção da realidade. As suas convicções estão sempre alinhadas com o dinheiro e os seus actos sempre prontos a terminarem em desastre.
O seu papel de destacado orador no Partido Comunista é mais um dos seus negócios, como o é, depois, a espionagem de informações inúteis. Negócios sempre falhados que o tornam no mais aristocrático dos que não têm onde cair morto.
Norris encabeça a peça de teatro cómico e real em que se tornara Berlim.
Por essa mesma constatação, e para que Mister Norris Muda de Comboio fosse totalmente satisfatório, Isherwood teria de superar a falta de uma mais aturada construção da ficção.
Além do nome do narrador (o nome completo do autor é Christopher William Bradshaw Isherwood), também os episódios do livro terão sido directamente retirados do que viveu o autor, estando assim a realidade a servir de matéria ao escritor sem que este pareça ter encontrado as ferramentas certas para a retrabalhar.
Quando Norris se ausenta de Berlim, além de faltar o sujeito central à comédia, a ligação de Bradshaw aos restantes personagens não tem um impulsionador que lhe permita descrever a realidade.
Norris é o exemplo e o resultado, por isso as peripécias de Bradshaw - ser tradutor para o Partido Comunista ou ir tentar conviver com o Duque - são descritos como momentos de embaraço social e desinteresse pessoal.
O corolário disto é que Isherwood (ou Bradshaw) conseguiu encontrar a figura que conseguia representar o centro de massa da vida de Berlim da época, apenas não a conseguiu seguir até onde era necessário.
O seu olhar distanciado talvez o tenha impedido de penetrar nos muitos episódios que Norris se decidia ou não a relatar em segunda mão e que, por isso, não se enquandram nessa visão directa e dura do narrador.


Mister Norris Muda de Comboio (Christopher Isherwood)
Quetzal Editores
1ª edição - Setembro de 2012
248 páginas

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

As extraordinárias páginas que não estão lá

Há um livro que se lê com a sofreguidão de quem logo gosta dele em excesso. Chama-se Uma Mentira Mil Vezes Repetida e é palpável.
Há outro livro que se imagina ler, que se quer ler, que se sente ler. Chama-se Cidade Conquistada, é um épico de mil e duzentas páginas, e está escondido por detrás das duzentas páginas do primeiro livro.
Este segundo é um livro que existe sem que ninguém o possa vir a tocar, mas que todos os leitores desejariam ter pois é a súmula da Grande Literatura escrita com atenção aos interesses individuais.
Cada leitor de Uma Mentira Mil Vezes Repetida encontra em Cidade Conquistada uma versão do épico que sempre quis ler, completando por si mesmo as páginas em falta em torno dos pequenos episódios que fica a conhecer. Tantas páginas em falta quantas as hipóteses de as reinventar.
Cidade Conquistada é, afinal, criação verbal - sustentada por uma capa igualmente inventada para encadernar textos vários de outros tantos autores - de um passageiro de autocarra apostado em chamar à sua criação o fascínio de quem se permita ouvi-lo. Para depois lhes deixar a impraticável promessa de lhes vir a emprestar o livro.
Promessa que não é um afastamento mas a oferenda de uma hipótese de sonhos e de criação individual em torno do episódio inventado e relatado na hora.
Pois é de criação e não de literatura que o livro fala, ainda que a Cidade Conquistada surja como obra de síntese das melhores características dos autores favoritos - da personagem, do autor, do leitor... - numa idealização impossível mas desejada.
Se pudesse, o leitor tornar-se-ia um editor omnipotente de toda a sua biblioteca e não apenas de um livro, fundindo um estilo de um autor com as ideias de outro livro e o ritmo de um terceiro.
Todos os jogos de citação de Borges, Kafka ou Bolaño acentuam pelo reconhecimento literário e tornam os leitores em garimpeiros das memórias bibliófilas que possuem em partilha com o autor (de um ou de outro livro). Mas não apagam o facto da ideia central estar para além do suporte exclusivo do papel.
Todo o meio de expressão da criação é uma forma de imperfeição. O que é extraordinário é a imaginação e não a obra.
Por mais que alguns o afirmem, nenhuma autor está plenamente satisfeito com o resultado final da obra pois esta nunca consegue captar aquilo que a mente expressou numa forma que é única e absoluta, sem limitações ou dúvidas.
Daí que o personagem-criador do autocarro nunca tenta passar o seu livro inventado a papel, mas tente expressar de imediato e da forma mais livre possível a sua invenção.
Assim atingirá o pico de efeito com que muitos autores apenas sonham. Um efeito apreendido pelo autor de imediato, visto que quebrou a barreira da falta de convivência do autor com o leitor.
A par da barreira do autor com a História. A sua fabricação vai ao ponto do mito em torno da vida daquele livro que supostamente tem nas mãos, criando um intricado percurso para a passagem do livro do alemão ao português e dos anos de 1940 ao século presente, a que soma os próprios estudos académicos que o livro já mereceu.
Mas e sobretudo, essa sua forma de concretizar a obra de forma efémera - embora certamente perene a nível individual de quem parte com a consciência de um mero excerto - permite-lhe nunca ter de "dar a obra por acabada", consessão triste que os autores fazem por não poderem (ou não os deixarem) passar a vida toda a retrabalhar o mesmo livro / a mesma tela / o mesmo filme.
Sendo uma obra sempre em construção, permite ao seu autor sentir-se a cada momento realizado de maneira distinta; permite-lhe engrandecer sempre o resultado que forma na sua mente; permite-lhe não aceitar que a concretização empalideceu a sua imaginação.
Só mesmo o risco de perder tais conquistas o leva a abandonar o projecto, quando num toque de criação usa elementos da realidade à sua volta para pintar o mito e, nessa altura, percebe o quão baço se pode tornar o livro quando está próximo de uma espécie de concretização.
Só há um livro que interessa realmente ler e divulgar, o livro inalcançável que é perfeito para todos os leitores por ter para cada um uma dádiva intransmissível.
A versão sonhada de Cidade Conquistada é a grande oferta que nos faz Manuel Jorge Marmelo, transformando cada um de nós em viajante de autocarro - e que bom foi ter lido o livro no interior de uma sucessão deles -, tanto receptáculo quanto criador de um novo e distinto Cidade Conquistada.
Mas não há como deixar de afirmar que a grande obra é o real Uma Mentira Mil Vezes Repetida que após duzentas páginas - excelentes e mais do que auto-suficientes - nos deixa a desejar mil e duzentas páginas mais.


Uma Mentira Mil Vezes Repetida (Manuel Jorge Marmelo)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Setembro de 2011
208 páginas

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Se isto é um policial

Dizia um amigo do meu pai que as mulheres não sabem escrever policiais.
Claro que Agatha Christie, Patricia Highsmith ou Donna Leon contrariam tal ideia, mesmo se Damas do Crime é uma designação que parece prometer a fuga à condição feminina de "escritora de policiais" para um patamar em que se admite que algumas mulheres são capazes de igualar ou superar os homens.
Seja como for, de tempos a tempos a boutade confirma-se e as razões para tal parecem constituir um padrão.
Este trata-se de um caso exemplar em que a autora encontrou (ou assim pensa) no policial um formato fácil para chegar aos seus propósitos.
A sua vontade é a denúncia do sofrimento da condição feminina - do sofrimento que se arrasta uma vida inteira só por se ter nascido mulher - mesmo quando se pensa que as suas causas ficaram enterradas para sempre (o que faz do livro uma metáfora muito evidente).
Podem os leitores achar o contrário durante algumas páginas, mas há um momento em que se revela a verdadeira razão do livro e este se afasta do policial em direcção à noveleta.
Dois quintos do livro lido e até o leitor menos atento será incapaz de ignorar as pistas exibidas abertamente para revelar os crimes que a civilidade islandesa continua a calar.
Como tal, o policial que o livro deveria ser está perdido desde logo, mesmo se o culpado - essa redução de um policial a um factor mínimo - ainda possa vir a ser uma surpresa para alguns leitores (embora o truque usado seja tão antigo quanto o texto de A visita inesperada, por exemplo).
Se a meio do livro ainda houver alguém que não tenha percebido o que significa o aquela cabeça com os genitais enfiados na boca, a autora trata de mostrar aquelas páginas caóticas do diário da jovem rapariga - entretanto adulta a trabalhar num centro de apoio a vítimas de violação (e, depois, morta). Se, mesmo aí, o leitor demorar a perceber, então esse será um leitor pouco interessado em investir - com ou contra- as quinhentas páginas de um livro que se quer literatura de elevada qualidade.
Até porque todos os outros pequenos mistérios que se agregam ao do crime actual acabam por ser consequência desse acontecimento do passado que deixou a marca de uma cabeça encaixotada. O seu encadeamento nunca é casual mas é a consequência mais básica de um conjunto de eventos: uma jovem rapariga escondida da vida pública durante um ano e que, já adulta, procura estabelecer contacto com um homem mais novo que lhe deveria ser completamente estranho.
Fosse para contar esta história ou fosse para executar a aproximação ao policial, os leitores mereciam que o livro tivesse bem menos páginas. As derivações minuciosas mas inúteis (sobretudo depois de tudo se tornar tão evidente) não dão um verdadeiro retrato da Islândia.
A demora frusta ora porque na primeira metade do livro nos afasta da linha central da trama, ora porque na segunda metade do livro nos atrasa a finalização de uma história que está mais do que resolvida.
Até porque não há nenhum factor redentor para a investigação, conduzida por aquilo que imagino (porque, de facto, nunca deles li senão a sinopse e, portanto, sirvo-me do preconceito) ser a figura tutelar dos romances femininos de mulheres nas faixas etárias terminadas em "onas".
Thora Gudmundsdottir é uma advogada que parece pouco interessada em perder tempo com o seu cliente acusado de homicídio. Se vai atrás da verdade de forma arriscada e à margem da boa educação (mais do que da legalidade) é porque está desejosa de abandonar a pequena ilha e voltar para a capital onde o seu namorado alemão está prestes a chegar.
Conta, ainda para mais, com o apoio de uma assistente mais jovem, capaz de descobertas essenciais, mas a quem Thora apenas inveja - com um oco moralismo crítico - a vida sexual liberta que a vê praticar todas as noites.
Voltamos a ter de olhar para a questão da feminilidade - e nada me move contra tal temática por si mesma - agora na forma inversa, da independência que esta também pode proporcionar.
Trata-se de exibir o acessório aos eventos do livro ou, pelo contrário, de tornar acessório o crime que definiria o romance. Tudo para dar a conhecer uma crueldade que assombra as mulheres no país do gelo e dos vulcões e que, por isso, não admite dificuldades (leia-se manutenção dos mistérios) ao leitores.
Aproveito o que Alexandra Lucas Coelho ouviu dizer a Caetano W. Galindo, para afirmar que se o leitor quer ficar com os pés na mesinha de café como na trilogia Millenium, então encontrou o livro certo.
Falso policial, romance de acasos telenovelescos, cujo tema "maior" está mais do que revelado naquela citação estrondosa da capa sobre ser esta a resposta islandesa a Stieg Larsson.
Se isto é o policial moderno e a visão do que será o seu futuro, prefiro reler os policiais datados que não procuravam fazer retratos fiéis da actualidade a que pertenciam. Esses onde a narração do mistério ainda era a força motriz!

Uns parágrafos finais para falar da edição. Não importa quão boa sejam o design e a encadernação de um livro quando, depois, durante quinhentas páginas, as gralhas são constantes e impossíveis de ignorar.
O esforço de leitura não chega a causar a desistência do livro mas incomoda e deixa a nú uma revisão deficiente que, aos olhos dos leitores exigentes, deixa mal vista a editora mais do que quem esteve a cargo dessa tarefa.


Cinza e Poeira (Yrsa Sigurdardóttir)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Junho de 2011
512 páginas

domingo, 29 de janeiro de 2012

Joop Iscariotes (e a chata da Anne)

Nunca tive paciência para Anne Frank, sobretudo obrigado a ler o seu diário como exemplo desse género de escrita durante os anos de ensino obrigatório.
O único texto em que gosto de a ver como protagonista é esse certeiro pedaço de humor negro que diz o seguinte:

Anne Frank
Campeã Mundial do Jogo das Escondidas
1942 - 1944

Se comecei a ler este livro foi, precisamente, porque me referiram que ela não saía bem tratada dele.
É verdade que o livro não lhe é simpático, mas mesmo assim termina com um nobre acto em seu nome, uma redenção do verdadeiro protagonista deste relato num exagerado acto final que envolve um sacrifício contra um mártir terrorista com uma lógica ainda mais retorcida que o habitual.
Sem a Parte III, o livro teria acabado melhor, um pouco em aberto mas com a integridade do seu protagonista intacta.
Se tivesse terminado no momento em que Joop percebe que há culpa suficiente para distribuir por vários intervenientes e que ele não precisa de continuar a carregar a solo a culpa da captura de Anne Frank.
Afinal de contas, não fosse a sua traição e Anne Frank não teria cumprido o seu sonho de ser uma escritora publicada e reconhecida.
E não fosse isso, a Holanda não seria um país considerado como um dos poucos que tiveram um comportamento digno para com os judeus durante a ocupação nazi. Apesar de uns dez mil judeus escondidos durante esse período terem sido traídos pelos holandeses em troca de pequenas perspectivas de uma vida menos difícil.
Joop foi o Judas do comportamento holandês durante a primeira metade da década de 1940. Durante décadas odiado anonimamente por todos os admiradores de Anne Frank e até por si próprio, não fosse ele a colocar em movimento os acontecimentos que levariam à publicação do livro da jovem judia e a rapariga
Afinal ela escrevia no seu diário sobre como estar escondida era passar umas férias diferentes, queixava-se de ter de comer várias refeições de morango por ser o único alimento que o seu pai conseguia e preocupava-se excessivamente com o mau corte de cabelo que tinha feito e que Klaus poderia ver.
Ao mesmo tempo o pobre jovem Joop dedicava-se a todo o tipo de trabalhos durante o dia inteiro, fazia contrabando para conseguir comprar um ovo que adiasse a morte do pai doente e a sua preocupação passava consigo mesmo vinha apenas do sentimento de inutilidade que o assolava sempre que não conseguia um ovo para o seu pai.
Quem merece ser relembrado pelo seu sofrimento e esforço durante período tão conturbado? Para mim é óbvio, até porque os feitos de Joop revelam o quão difícil era a vida para todos os povos ocupados e esquecidos pela crueldade usada contra os judeus.
Se Joop não tivesse traído Anne, esta nunca teria sido o ícone que se tornou e eu não teria tido de ler o raio do diário que ela escreveu. Um diário que só tem interesse porque ela morreu, enquanto outros - de mais interesse, de mais valor, de mais talento... - morreram sem deixarem uma linha escrita.
Ainda para mais quando as sequências de maior personalidade e polémica do diário - aquelas em que revela as suas tendências lésbicas e o seu desabrochar sexual - acabariam de fora da versão com que nos ocupavam na escola, censurada na maioria das edições pelo pai de Anne que a queria como uma mártir impoluta. Uma personagem chata e fútil, portanto!
Claro que, nesse caso, também não teria lido este outro relato, com bastante mais valor literário e interesse enquanto saga de sofrimento e entretenimento na Holanda da II Guerra Mundial.
Fica ela por ela, embora me pareça que vale a pena suportar a omnipresença do diário de Anne Frank para ouvir Ricky Gervais dizer sobre Anne Frank que ela foi preguiçosa. Afinal tinha tido tempo para escrever um romance mas apenas deixou um livro que acaba um pouco abruptamente. E nem sequer escreveu uma sequela!


Uma Tulipa para Anne Frank (Richard Lourie)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Setembro de 2005
228 páginas

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Do que há a temer na vida

Não gosto que me digam na capa de um livro que este é o livro a ler se tiver medo da morte. Não por mim ou pelas minhas próprias considerações sobre a morte, mas porque entre a presunção e o intuito comercial não me parece que os leitores venham a apreciar que os tentem convencer com uma frase que parece feita para um livro com outras intenções.
Vou ser directo desde já, a morte foi o tema que neste livro menos interesse gerou.
Não a morte como estado, mas a morte como presença permanente na mente – do homem e do escritor – e como pergunta a com a qual ele se confronta a todos os momentos numa consciência silenciosa.
A busca de uma filosofia sobre a morte num referencial literário que tem no seu centro Jules Renard e (mais ainda) Michel de Montaigne é interessante pelo imenso domínio de conexões que estão presentes na biblioteca que cada um escolhe para si. Isso é uma visão da genealogia literária do autor e uma revelação para o leitor apenas de autores e ocorrências que tem ainda de descobrir por si próprio.
Mais motivador, porque debatível mas carregado com a experiência de um homem perspicaz com mais de sessenta anos vividos, é a conjugação de ciência e filosofia com que ele encara a morte e as possibilidades que estão para lá dela.
Dessa conjugação chegou de um crente ateísmo ao seu ponderado agnosticismo que lhe permite escrever tantas páginas cultivando a dúvida que suspenda - ou, quanto muito, acalme - a expectativa da morte.
Uma combinação de saber e reflexão que não estão para lá daquela que deveria caber a todo o Homem, por mais comum que se ache, mas que também só poderia ser alcançada pela acumulação de experiência e conhecimento de um leitor determinado com tantas décadas vividas.
Um homem que sabe, portanto, temperar as resposta ininteligíveis da vida - e da morte - com a sabedoria e a tolice dos mestres que o precederam. Tanto as citações que alguns grandes escritores e compositores (as duas áreas de criação que mais tocam Julian Barnes, embora toda a Arte lhe fale de alguma forma) deixaram como os episódios que protagonizaram e se tornaram piadas dão a Barnes material de apoio a enfrentar os medos sobre os quais escreve.
Mas um homem que não está para lá do comum no que toca aos seus talentos de filósofo mas que a tal se arrisca sempre com um receio de fazer má figura. Tudo porque o seu irmão é, sim, um filósofo "a sério" e a provocação só vai até ao ponto em que o seu ego não saia magoado.
Aqui chegamos ao tema que Julian Barnes domina com maior talento e transmite com maior interesse: a família.
Há muitos episódios e relações com os quais ele executa um malabarismo narrativo admirável, sobretudo no que toca às dificuldades existentes na relação dos seus pais e dos seus pais com os filhos, mas nenhum envolve o leitor com tanta habilidade e com tanto prazer como a rivalidade do escritor com o irmão.
Uma rivalidade não assumida mas sentida na articulação dos diálogos encetados entre ambos e na exposição das situações comuns.
Talvez seja o resumo perfeito dessa rivalidade e o indício mais claro de como Julian Barnes pode usar a família como temática mais feroz do seu livro quando revela que a sua mãe menorizou os talentos dos seus filhos afirmando que um escrevia livros que ela podia ler mas não conseguiria compreender e o outro escrevia livros que ela podia compreender mas não podia ler.
Sente-se que as relações familiares - em grande parte autobiográficas, ficará o leitor a crer - constituem o tema cruelmente delicioso que Barnes tem para moldar através da sua caneta.
Por isso, não é pelo medo da morte que devemos ler o livro mas pela percepção do que há a temer na vida. Falo da família, claro, e de como esta guarda um conjunto de surpresas tão obscuras e tão desagradáveis como a morte que está por chegar.
Preocupemo-nos, pois, com aquele estado em que já nos encontramos, a vida.


Nada a Temer (Julian barnes)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Maio de 2011
288 páginas

sábado, 22 de outubro de 2011

Pouco ousado

Ao contrário do que a capa possa sugerir, é muito longe do Hotel Íris que a história de amor entre um homem a caminho de ser um velho e uma rapariga demasiado nova para ser mulher.
Ele tem gostos sexuais poucos habituais e ela ainda nem sabe o que é entregar-se, mas o livro conta a história de amor que eles viveram.
História que entre súor lambido do corpo e combinações rasgadas a tesoura só termina no momento maior de dramatismo que uma trágica história de amor pode ter.
É o pior momento para terminar a história, quando ela ainda é uma fogueira ao rubro. Não tanto porque esta história de amor não possa terminar em tragédia como tantas outras mas porque tantas outras histórias de amor terminaram em tragédia e esta não teria de ser mais uma.
As relações entre homens demasiado velhos e raparigas demasiado novas não é uma novidade literária e não é por haver um eventual amor sincero que o sexo se torna menos importante no grau de atenção que a relação merece.
Numa relação onde o fétiche e, sobretudo, a dominação são o ponto forte, não é na fuga (em sentido lato) dele que o livro realmente terminaria.
A história está mesmo no ponto em que se pedia que se explorassem temas maiores do que o amor, que tantos autores teimam em escrever com maiúscula pensando que nada mais há a dizer para lá dele.
E, no entanto, aqui seria mais forte saber porque os amantes pouco habituais têm destinos reservados a monstros incompreendidos ou que destino espera uma mulher que foi apresentada à sua sexualidade de uma forma que também destrói as suas possibilidades de se relacionar afectuosamente.
Ainda que a miúda da história tenha um momento de amor com o sobrinho do homem com quem se relaciona, é rastejando e servindo um amo que ela aprende a sentir a atração dos corpos. O que lhe sobra depois disso, como mulher mal habituada e de perspectivas severas que se tornou?
Nesta interrogação sobre o destino estava o espaço em que a autora poderia ter explorado a ousadia sexual que o livro anuncia mas que não cumpre.
Basta conhecer algumas das obras que o Japão - em domínios literários, cinematográficos ou banda desenhísticos - produz para saber que na produção popular do país há abordagens muito mais ousadas que continuam a ser escondidas do conhecimento europeu por mero embaraço.
Mesmo fazendo o esforço de compreender que este livro se publica porque o seu tema continua a conter o assombro sussurrado de quem quer parecer púdico, não posso deixar de sentir que trata apenas um tabú educado que (com a ajuda da linguagem polida da autora) até seduz mas não choca.
O amor condimentado com um pouco de sexo está bem para se ler. Mas o sexo esvaziado de amor estaria bem melhor para se pensar mais longamente no assunto.


Hotel Íris (Yoko Ogawa)
Quetzal
Sem indicação da edição - Junho de 2009
176 páginas