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quinta-feira, 28 de junho de 2012

A falta que as mulheres fazem

Estamos perante ficção científica nascida de uma ideia radical aplicada a uma versão plausível do presente.
Obra escrita num português desafiante - o que já se sabia - mas de contornos universais que assume a herança de alguns dos trabalhos de José Saramago e lhe encontra as relações com as obras de nomes como George Orwell ou Anthony Burgess.
Tudo começa com o primeiro dia de escola d'Ele numa sociedade exclusivamente masculina onde não se aprova ou ensina a violência mas onde esta é valorizada como medida da afirmação pessoal.
Os homens deixados por sua própria conta - e decididos a apagar todos os traços de efeminização - recorrem à violência como única expressão possível para a dureza dos valores que os rodeia e que não é atenuada por uma acolhedora compaixão (que pertence apenas às mulheres).
A existência grupal torna-se parte integrante do quotidiano porque os outros servem de escudo à agressividade mas, também, porque são o público que esta necessita para alcançar um significado hierárquico. São as formas de resistência das crianças que os homens nunca deixam de utilizar.
À medida que crescem, os rapazes do trio tornam-se mais eficazes e calculistas. servem-se do boxe para ganhar estatuto, protagendo-se sem abdicar de praticar a violência.
Também o boxe lhes serve de desculpa para viajarem para o exterior da cidade-estado e, depois, desertarem.
Longe da severidade da sua terra natal, este grupo descobre a indulgência de explorar a violência dos comportamentos excessivos tendo sempre a protecção das mães que lhes foram atribuídas e que os protegem em excesso ou a admiração dos que os consideram um novo espectáculo.
Procuram o confronto porque os outros o evitam. Consomem drogas porque os outros as censuram. Partem para uma louca road trip porque os outros não seriam capazes.
Repetem comportamentos que pertenciam ao seu domínio original porque não conhecem mais nada nem se dispõem a conhecer.
Até que tudo lhes falhe, até que a realidade venha exigir algo mais das suas existências, eles levarão ao limite o que as sociedades estão dispostas a aceitar.
Explorando esses limites num ambiente de atraente camaradagem, Hugo Gonçalves retrata os temas da violência que já conhecemos - hooliganismo ou crimes de ódio - para com eles fazer uma previsão de futuro muito mais certeira e um aviso muito mais tenebroso: as motivações para a violência estão cada vez mais distantes dessas comandadas pela falta de entendimento individual.
Tornaram-se agora reacções correntes a todas as situações, exibidas sempre que possível pelo prazer do efeito choque de uns concretizarem o que os restantes não foram capazes. Violência exibida pelos seus próprios executantes - cada vez mais novos - orgulhosos dos feitos e ignorantes das consequências.
Mas a jornada pessoal d'Ele obrigará a que regresse à cidade-estado depois desta sofrer uma revolução. A distopia criada por um regime vigilante e cheio de regras cedeu à sua própria limitação.
Ao nível político, como aos níveis biológico e sociológico, a cidade-estado falhou por incentivar apenas a agressão e nunca a reconciliação.
A cidade-estado que só aceitava que lá se produzissem homens criava armas que vendia ao exterior enquanto comprava de lá tudo o resto. Quando decide usar a força contra outros estados que lhe devem dinheiro, ameaça com o uso da força, esquecendo que à sua volta todos estão equipados com os mesmos meios de ataque, mas também com os meios de subsistência que a eles hes falta.
Aquela sociedade exclusivamente masculina não percebe que o brado masculino é inerente a todos, estando apenas acalmado pelo sossego feminino. Para a política externa falta aos governantes a sensibilidade de amenizar as palavras enquanto dá o murro na mesa.
Não é, também esta, uma visão extrema dos conflitos movidos a urânio enriquecido e palavras pouco ponderadas?
Fazem falta mulheres nos postos-chave da vida das nações como fazem falta no posto-chave - o de mãe... - da vida dos homens a quem estas serão confiadas.
Pode não ser totalmente visionário, mas é um alerta de moralidade para um mundo a desintegrar-se. Melhor ainda que seja uma óptima história, escrita com a dureza dos capítulos curtos e intensos (como rounds de boxe, pois claro) e com a sensibilidade de olhar em volta e descrever o que vai na alma dos que se preocupam com o mundo.


O Coração dos Homens (Hugo Gonçalves)
Oficina do Livro
1ª edição - Março de 2006
232 páginas

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quase... nada

O Quase Romance de Miguel Sousa Tavares é uma quase memória, uma quase reportagem, um quase diário e um quase livro de viagens.
É um livro que não cabe numa categoria não porque extravase os limites da definição de várias delas mas porque é demasiado estreito para satisfazer as exigências de qualquer uma delas.
Falta-lhe uma voz que o comande e que lhe dê forma. Tem como narrador um homem levado pela memória de uma velha foto que lhe cai nas mãos. Mas esse narrador parece determinado em ser preciso sem nunca se deixar levar pela pieguice que o seu relato de terna memória deveria denotar.
Enumera as câmaras que transporta mas quando chega o momento de revelar que através de uma fresta de porta olhou o corpo nú da sua companheira de viagem, o seu grande culminar de emoção é um triste Estava cansado de mais para desviar o olhar.
Pode até ser que a mulher agora relembrada seja merecedora de um livro, não pelo seu corpo mas porque o seu espírito é inolvidável, mas se o narrador lhe olhou o corpo convinha que o tivesse feito por apreço ou porque no meio do deserto a beleza feminina é escassa e o olhar ainda pode ser uma meiga forma de elogio e desejo.
Claro que o deserto é algo que também não existe na sua voz. Não arrisca falar do deserto, dar as impressões pessoais que poderiam soar falhadas mas mereceriam o elogio pela sua ousadia.
A viagem define-se pelos atrasos, pelos quilómetros, pelos enganos. Raramente se define pelo que está à frente dos olhos, por algo mais do que as acções descritas com a minúcia que vinte anos de distância já não deviam permitir.
Só quando ela, Cláudia, fala é que o livro ganha personalidade porque corre riscos.
Claro que a estratégia é das mais fáceis possíveis, visto que ela está morta - morre no final do livro diz o primeiro parágrafo, que é o mesmo que matá-la logo de início - e vem falar-lhe numa forma de wishful thinking que ajuda a completar os espaços em que falha a exactidão do narrador: Mas, depois, veio e deitou-se abraçada a mim. Ou assim me pareceu.
A incerteza dele dura pouco, pois Cláudia só fala por dois capítulos, mas deixa as impressões mais profundas do livro, como ao falar da transformação da ordem em caos quando a tempestade de areia os apanha e dando a conhecer o medo e a beleza que se apreciam sendo fustigados por ela.
A voz dela faz sentir o deserto e dá a conhecer o preço físico da viagem. Os parágrafos que lhe pertencem são, sim, quase um texto por direito próprio. Um conto apenas, talvez, que ficou abafado pela voz dele.
Ele, arrogante, afirma ao início lembrar-se de todos os detalhes para depois duvidar do nome do barco em que embarcou ou - o que deveria ser mais importante - se ela o abraçou ou não.
Ele, irritante, não consegue evitar acrescentar informação redundante para o leitor atento, até no detalhe da inexistência do Euro quando já tinha vincado que a viagem começara em 1987.
Ele, coitado, não tem voz e deveria deixá-la falar a ela o tempo todo, mesmo que Cláudia já só possa falar porque ele lhe imaginava uma voz.


No teu deserto (Miguel Sousa Tavares)
Oficina do Livro
1ª edição - Julho de 2009
128 páginas

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O absurdo caso português

Este livro trata de uma operação militar secreta exectuada pelos ingleses contra barcos alemães em território português e de todos os malabarismos judiciais e diplomáticos que vieram depois para resolver - de forma pouco ortodoxa e bastante atabalhoada - os problemas que daí advieram.
Há um ridículo que atravessa todo o caso, sobretudo no comportamento português, que é inacreditável para o leitor que agora descobre o que se passou.
A atitude do governo português da altura, afirmando até ao fim a versão que todos já sabiam ser falsa, só podia mesmo resultar porque os interesses que a II Guerra Mundial obrigava a manter em equilíbrio calavam (quase) toda a indignação alheia.
A desinformação inglesa contribuiu igualmente com alguns excelentes episódios, o melhor deles todos a criação de um mito popular que tornava um fracasso num sucesso por via de um livro e depois de um filme: The Sea Wolves.
Quem se lembrar do filme sabe que este tem uma história de espionagem muito pouco sólida, com tendência para emular os feitos românticos de James Bond e adicionar humor fora de tom aos diálogos dos três protagonistas. Com O Espião Alemão em Goa ficamos a saber porque assim é e, mais ainda, ficamos a saber que mesmo após 30 anos o orgulho inglês não passou sem embelezar a realidade com as presenças de Gregory Peck, Roger Moore e David Niven.
A excelente investigação de José António Barreiros parece até estupidamente fácil e evidente em certos momentos para que perdure tal mito britânico.
O autor diz na apresentação a esta segunda edição do livro que se trata de uma história real contada como se fosse uma história de ficção.
Não concordo com ele porque o seu estilo tem mais precisão do que fluidez, mas entendo que as suas palavras sublinham o grau de espanto que merece toda a conjuntura que ele descreve.
Há alguns capítulos em que a ironia do autor vem ao de cima, em que o absurdo é de tal ordem que nem o mais pragmático dos autores conseguiria relatar o caso sem deixar transparecer alguma emoção própria. Mas ao longo da maioria do livro é com exactidão autoral que Barreiros conta o que tirou da sua investigação.
O contexto absolutamente correcto para o qual nos transporta merece ser elogiado, mas a verdade é que para ler o livro de forma fluida é necessário aprender a seleccionar intuitivamente as notas de rodapé que devem ser lidas ou deixadas para uma leitura tardia em conjunto com os anexos.
Nem que seja por um motivo de identidade (quiçá, responsabilidade) patriótica - até mesmo para aguçar o sentido auto-crítico - vale a pena ler o livro e entender o contexto do que foi o affaire português com ambos os lados da Guerra por debaixo dos lençóis da neutralidade.


O Espião Alemão em Goa (José António Barreiros)
Oficina do Livro
1ª edição - Novembro de 2011
192 páginas

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Para uma degustação moderada

Os leitores que gostam de vinho vão dar por si a sentir na saliva que as suas glândulas produzem o sabor dos vinhos sobre os quais vão lendo, tentando preservar na boca o néctar que as palavras recordam.
Este é um livro para esses leitores, que já chegam com o paladar aguçado e para quem um vinho nunca termina com a garrafa vazia ao fim do jantar.
Dando atenção à História dos vinhos, mas aproveitando algumas histórias dos vinhos pelo meio, João Barbosa faz a sua declaração de amor ao néctar retribuindo com um documento permanente o prazer momentâneo que cada garrafa lhe traz. Uma arte em nome de outra.
Nota-se que o objectivo é mais documental do que lúdico, nem que seja pela minúcia de incluir declarações de alguns entrevistados que sabem ainda mais do que o autor e que ele bem fez em partilhar com todos.
Daí resulta uma certa seriedade a que nem mesmo os faits divers conseguem fugir quando pediam uma pena mais solta para se escapar em direcção ao tom mais humorístico que os episódios menos abonatórios mereciam.
Digo eu, sem ser um especialista, que a realização de um vinho é uma arte merecedora de toda a dignidade, mas sendo uma arte do prazer também não lhe fica mal passar pela lama uma ou outra vez.
Queixo-me por ter ficado mal habituado e esperar que estas histórias - que também fazem História de um Portugal que, neste campo, se ergue acima de muitos outros países - fossem mais saborosas e menos detalhadas.
Quando abrisse a próxima garrafa de um destes vinhos queria que o seu primeiro travo viesse acompanhado da memória das pequenas loucuras que não podem ser engarrafadas mas são indispensáveis ao sabor daquele vinho. A informação precisa serve melhor a consulta bibliográfica do que a degustação permanente ou o fácil relato aos convivas.
Parece-me justo dizer, dado que os breves relatos deste livro me foram acompanhando divididos por várias noites , que  vale mais a prova moderada para que os efeitos nocivos da acumulação sejam menos evidentes.
As histórias de João Barbosa acabam por recordar o sermão de um avó aos seus netos demasiado novos tentando passar-lhes a noção do peso da família. E o que se queria mesmo era que se parecessem com aquelas partilhas que entrosam avô e neto revelando os momentos menos compostos do primeiro... possivelmente de volta do primeiro copo de vinho que o jovem prova na sua vida!


Grande Reserva (João Barbosa)
Oficina do Livro
1ª edição - Setembro de 2011
236 páginas

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O épico do pequeno país


Comprar uma casa é comprar uma história de família. Comprar uma história de famíia é comprar uma história da vila. Comprar uma história da vila é comprar uma história do país. Comprar uma história do país é comprar uma história das pessoas.
O contador vai descobrindo a história que podia ser um fôlego longo sobre uma vila do interior de Portugal ou um retrato julgador do círculo fechado das vidas sempre cosidas umas às outras. Não é mas mesmo assim passa por ser o épico de famílias grandes e homens sós.
Um épico corrido sobre a realidade nacional, uma realidade que atravessa o Atlântico e que, nem por isso, deixa de ser uma realidade vilanesca.
Em vez dos personagens memoráveis ao serviço de um grande amor temos a tormenta de muitas pequenas personagens em um único novelo de pequenos dramas.
O épico deste país corre em poucas páginas - contadas contra a dos grandes romances de outros países - e sempre com um entendimento rústico da nossa grandeza.
Um épico com um olhar que nos sabe pequenos mesmo quando a nossa pequenez é feita da humildade à cabeça erguida de quem conquistou o mundo e partilhou a Língua em todos os continente.
Um épico que cobre muitas décadas sem um friso por onde seguir em linha recta. Segue pelos caminhos inconstantes que falam da própria arte de contar.
A memória não tem fluxo constante nem percurso suave. E, como tal, o acto de contar a história de uma personagem não se deixa limitar.
Vagueia no tempo a personagens que lhe estão antes e depois, que falam sobre dela ou que ouvem (e recontam) sobre ela. Passeia pelo Tempo, perdendo-se para reencontrar temas que são eternos, para as personagens e para o interior do país a que estão condenadas.
O contar a história é um acto que salta de género em género até que do folhetim de onde partiu encontra a poesia.
Dos saltos se fez épico. Dos dados no Tempo para atravessar gerações de uma história só. Dos dados na escrita para atravessar os talentos de um país só.
Todas as histórias são iguais. Todas as Eras são iguais. Nenhuma escrita é igual.
O verdadeiro épico é o da demanda pela linguagem original, sem restrições na sua mistura, louvando o muito que este país soube (e sabe) escrever.
Para um país pequeno um épico verdadeiro será sempre do que fez com a Língua para se engrandecer no mundo!



O Prazer e o Tédio (José Carlos Barros)
Oficina do Livro
1ª edição - Junho de 2009
192 páginas

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Desconchavado

Um homem teve cinco mulheres, todas elas arquétipos do que está em falta no bom homem - também um arquétipo, que o nome Adriano Gentil bem traduz - seja o afecto da mãe quando miúdo, seja o desejo sexual quando velho.
Um homem tão bom amou sempre os arquétipos (leia-se esposas) por igual -  por ordem: lindíssima mas fria na cama; organizada até ao último fio de cabelo mas tresloucada na cama; um furacão de energia sedutor mas extenuante na vida comum; a perfeita devota do seu santo homem mas que se abandona porque o aceita calada; e a cabeleireira de carnes vivas em licra berrante mas sem refinamento que lhe valha.
E com tanto amor achou por bem garantir-lhes um fim de vida igualitário e comum em que devem gerir a herança em conjunto.
Apresentadas que são as mulheres e as respectivas relações - é, pelo menos, metade do livro - entra em cena o retrato de grupo no feminino, aguçando a promessa bem francesa (culpe-se Jacques Demy ou François Ozon) do melodrama .
O autor lá caminha para os exageros dramáticos tão ansiados, mesmo se trai a montagem livrando-se sem savoir faire de personagens que não lhe servem os propósitos, oferecendo o crime de faca e alguidar (não tem, nem poderia ter, outra designação) tão anunciado com engenho mas pouca graça.
Quando o crime se desenrola até ao final possível, estamos pouco convencidos, mas depois chega um inesperado Post Scriptum que se faz diferente mais do que faz diferença.
Surpreende aí o livro porque termina com a assombração da vida feminina - vá, da vida humana - que deve algo a Edgar Allen Poe mas que não deve nada ao que ficou para trás.
O melhor do livro é a sua ideia final, a reinvenção tenebrosa da realidade idosa nacional, que é um corte total com a croniqueta de vidas conjugais pouco maduras.
Que tão bom final esteja num livro que aponta a todas as direcções excepto essa deve ser culpa de um autor apaixonado pelas suas ideias e que não soube descartar o frívolo que tanta vontade tinha em descrever.


As herdeiras de Adriano Gentil (José António Saraiva)
Oficina do Livro
1ª edição - Junho de 2006
196 páginas

domingo, 31 de julho de 2011

Minudências maravilhosas

Os contos de Felisberto Hernández são reflexões funcionais sobre a percepção nas suas mais diversas facetas.
A percepção que recombina os mais diversos sentidos ou que lança a memória em espirais que se enleam em si mesmas.
Uma das personagens que habita as páginas diz mesmo que ia aos seus lugares preferidos como se entrasse em buracos próximos e encontrasse ligações inesperadas. Isso é um processo físico para um arrumador de teatro a circular pela cidade mas é um processo bem diferente para um escritor a circular pela materialização das existências imaginadas que lhe pertencem.
Recordações e percepções parecem banais até caírem na página, momento em que se tornam símbolos de outras vivências ou traduzem significados que nem a emoção sabia reconhecer nelas.
Não interessa que sejam sinceros (ou biográficos, se preferirem), interessa que mostram o próprio processo de associação que leva o relato a saltar tão rapidamente da vida de quem fala para a memória de quem o acompanhou ou que leva o relato a saltar do realismo para o fantasioso sem que o próprio relator se dê conta do grau de absurdo de que se aproxima.
Os caminhos destes contos são a própria visão de como a sua escrita surpreendeu o próprio autor, encaminhando o seu trabalho para campos distantes mas que falam do mesmo.
O relato de memórias torna-se na elaboração do fantástico porque se rompem as barreiras entre o olhar empírico e a elaboração da mente, umas vezes perigosa na sua obsessão e outras mais rigorosa na sua vontade de chegar ao mais longínquo ponto de contacto entre o presente (e o presente relato) e o que foi o passado.
No final, aquilo que torna os contos tão ricos é a forma como as pequenas minudências do quotidiano se tornam no maravilhoso segundo a pena de Felisberto Hernández.


Contos Reunidos (Felisberto Hernández)
Oficina do Livro
1ª edição - Março de 2010
140 páginas

sábado, 25 de dezembro de 2010

Doces Freaks

Os Freaks de Tod Browning querem uma vida normal , um local para viver, uma aldeia para si próprios.
Não todos os Freaks, apenas aqueles que estão acabados ou a acabar-se, os Freaks que não têm mais espaço no circo, que não têm mais um círculo que os defenda.
Verdade seja dita, o circo desmoronou-se. Os irmãos Mantecón separaram-se e, com eles, o circo.
Tenda para um lado, animais para o outro. E os artistas encostados a uma parede como miúdos a serem seleccionados para uma equipa de futebol.
Os que ficam para últimos acabam com Don Alejo a caminho de uma aldeia que, afinal, se tornou fantasma.
Os Freaks ficam tão bem numa aldeia fantasma só deles, pensam em construir uma sociedade própria para o futuro, mas começam a falhar logo no início ao escolherem as profissões essenciais.
Depois decorre o que decorre em todos os grupos, mas em ponto acelerado quando falha a água, falham todas as capacidades, falham os corpos e falham os afectos.
Tudo se corrompe e degenera mais depressa do que seria normal e os Freaks debitam memórias e traumas, constroem uma união de dores e desastres.
São todos farsantes, vivendo vidas inventadas sobre vidas inventadas. Pessoas tornadas artistas bizarros tornados habitantes vulgares de uma aldeia inexistente.
São deliciosas personagens, mas muito tristes. Personagens a quem desejamos ajudar, com quem temos desejo de viver algum tempo, sendo eles expressões mais intensas e incomuns da noss própria existência.
Os Freaks são os melhores de entre os personagens, os mais interessantes de entre nós.


















Santa Maria do Circo (David Toscana)
Oficina do Livro
1ª edição - Abril de 2010
304 páginas

domingo, 10 de outubro de 2010

Sejamos humanos

Um arremedo do romance policial montado como um romance xaroposo que poderia ser de Warthon ou Austen.
O resultado é uma delícia de quem e para quem ama a literatura.
A um romance não importa como nem porquê, não importam as origens, os temas ou as ideias.
O que verdadeiramente importa a um romance é o talento com que é feito e o resto se comporá.
Não é universal esta frase, como nenhuma é senão até ao próximo livro, mas ver estas quatro talentosas mãos a passearem-se pela inconsequência e a regressarem de lá com um belíssimo livro obriga a que a escreva.
Brincando com algumas personagens, com os seus percursos tontos e mal conduzidos, Ocampo e Bioy Casares fazem da ridicularia humanidade, fazem-nos crer que é assim que se deveria viver e não com a seriedade de cabeça erguida.
Expressar a nossa incongruência e a nossa tolice é a forma mais pura de afirmar a nossa humanidade, de mostrarmos a nossa existência ao mundo para quem somos uma partícula antiga de riso esquecido.
Vamos passar sem deixar uma marca profundamente significativa no mundo, então porque não deixar uma marca profundamente significativa na nossa própria vida – e na vida de das ou três pessoas que se aproximam de nós, se conseguirmos interessar-nos por isso.
Essa marca é a marca da confissão e da confiança, do despojamento, do risco do ridículo, da irresponsabilidade, do agir sem pensar.
Sejamos tontos, sejamos libertos, sejamos inconsequentes, sejamos aquilo que nos ensinaram a esconder.
Sejamos, pois, humanos e criemos da tontearia a beleza.


















Quem ama, odeia (Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares)
Oficina do Livro
1ª edição - Setembro de 2009
168 páginas

sábado, 9 de outubro de 2010

Ler até ao fim

O que dizer do último leitor, o homem que numa aldeia sujeita à seca morre de fome mas não morre sem ler? Do homem que não tinha leitores, que perdeu o apoio do Estado, mas nem por um nem pelo outro motivo fechou a sua biblioteca?
Dizer que ele é, igualmente, o homem que numa das suas salas cria baratas alimentando-as com os livros que ele lê só para descobrir que não merecem o espaço na prateleira.
O último leitor é o crítico que todos adoraríamos ser, atirando ao buraco do nojo e do esquecimento as páginas imerecidamente impressas.
O seu sentido crítico não olha nem à religião, corrigindo a “fé” das relíquias e a qualidades sintáxicas da Bíblia.
Um crítico que tem, como julgo que todos os leitores, uma prateleira de favoritos conservados e recordados mas que é único quando concretiza o desejo de condenar ao seu pequeno poço de ódio os livros que algumas pessoas ainda se julgam obrigadas a sofrer até ao final.
Não é este buraco com vista para o inferno literário que o último leitor tem de mais distinto ou atraente.
O último leitor descobriu que a vida vem nos livros sobretudo se colocarmos os livros a jeito para moldarem a vida.
Os livros sabem tudo se soubermos qual é o livro certo.
Esconda-se um cadáver, perca-se uma filha, morra-se, confesse-se. Está no livro, mas qual?
O último leitor sabe-o e, por isso, contra a seca, contra a fome, contra a polícia e contra a pura contrariedade, ele defende a sua biblioteca que está na sua propriedade e, por isso, não a fecha.
O último leitor levará a literatura até ao final do mundo, levá-la-á em seu nome mas ao serviço da humanidade.


















O último leitor (David Toscana)
Oficina do Livro
1ª edição - Fevereiro de 2008
216 páginas

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Trata de querer ser Obra

Com uma pequena pesquisa pela internet descobrimos que Pedro Canais se lançou com toda a determinação possível para poder escrever este livro.
Foram 10 anos de pesquisa, preparação e viagens, mais dois de escrita, sempre com Peregrinação como leitura inspiradora.
O que ele conseguiu com tudo isto foi escrever um romance que é uma deambulação pelo mundo por descobrir que se lerá daqui a 100 anos como se lê hoje.
Esta permanência faz-se com uma linguagem que tem uma erudição nascida noutras Eras e que tem também uma modernidade inteligente e plena de ritmo. Uma linguagem que fascina o leitor pela sua estranheza incial que rapidamente se torna numa interessante inventividade.
Esta permanência faz-se com um olhar crítico às ideias feitas que o mundo perpetua, que em todos os campos - político, religioso, cultural e social - serve tanto ao mundo que foi como ao mundo que agora é. Olhar para aquele tempo com os olhos de Martim Regos ensina-nos a olhar os erros que então ocorreram pelo mundo para assim sermos mais capazes perante os desafios que o mundo actual nos apresenta, demasiado próximos desses anteriores.
Esta permanência faz-se com uma personagem, Martim Regos, que atravessa o mundo sempre na ânsia de se superar, mesmo que nem sempre pelos motivos certos e muitas vezes terminando em infortúnido. Uma personagem memorável na galeria de incomparáveis aventureiros desventurados.
Este livro trata de querer ser imponente e perdurável, moderno e impregnado de um espírito clássico. Este livro trata de querer ser lido, recordado e admirado por méritos reais.
Este livro trata de querer ser Obra!


















A Lenda de Martim Regos (Pedro Canais)
Oficina do Livro
Edição especial - Fevereiro de 2009
608 páginas

terça-feira, 28 de abril de 2009

Detestei-te

Foi curioso que logo após O dia em que matei o teu pai eu tenha encontrado outro livro que utiliza no seu enredo o acto da consulta psicológica de forma a desenvolver a personagem central.
Mas por comparação, enquanto no caso desse livro se dava uma verdadeira exploração da personagem, aqui o mecanismo parece mais servir como um manual de auto-ajuda camuflado num romance.
Mas essa sua sub-reptícia intenção, ainda assim, é um problema menor neste livro.
O seu maior problema é a "assustadora" (e cito uma amiga minha a quem mostrei o livro) qualidade da escrita que se revela logo nos parágrafos que abrem o livro e dos quais cito estes exemplos: Se um extraterrestre viesse à Terra ficaria apaixonado por esta paisagem, e qualquer plano para nos invadir seria eternamente adiado.; ou ainda ... a minha vida ter-se tornado num dvd que foi colocado em pausa. O problema é que perderam o comando e parece não haver maneira de voltar a colocá-lo em PLAY.
A oca essência destas metáforas, tão facilmente desmontáveis, é risível. E a inclusão do "PLAY" em letras maiúsculas (então e o "dvd"?) só acentua mais esse efeito.

Não sei se será de uma conjugação que o curso que tiraram proporcia, mas trata-se do segundo romance de que desisto em pouquíssimo tempo perante a atrocidade modernista destes novos escritores, formados em Comunicação Empresarial.
Não cheguei a saber o que se passou em Copacabana pois o romance ainda não havia descolado de Lisboa quando o pousei.
E, sinceramente, nem me interessa!


















Amei-te em Copacabana (Francisco Salgueiro)
Oficina do Livro
1ª Edição - de 200
páginas