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domingo, 29 de dezembro de 2013

Livros em série

Há mais justiça - e lógica, estou em crer - em falar de livros como este a partir de uma ideia de entretenimento que se associa a uma larga maioria de séries televisivas.
O Golpe torna-o mais óbvio dado que a sua premissa se assemelha em muito a dois exemplos ainda activos, White Collar (sobretudo este) e The Blacklist.
Também ele é um episódio de uma série - intitulada Fox and O'Hare - que funciona durante o tempo que demora, se afasta da mente pouco depois de terminar e voltar a vir à tona pela noção de continuidade que vem com o episódio seguinte.
Este é, portanto, o livro para quem gosta de ter direito às suas séries e tem apreço pela leitura - ou gosta da portabilidade de uma história com acção que só os efeitos especiais costumam permitir criar e exotismo que só os cenários feitos com bastante dinheiro permitem concretizar.
Obviamente que com a palavra escrita tudo isso é mais simples de conseguir e este livro leva isso ao limite, com lançamentos de pára-quedas em ilhas gregas onde as mulheres não estão autorizadas a entrar ou viagens de iate interrompidas por piratas por entre os milhares de ilhas indonésias.
As qualidades que o livro precisava de ter cumprem-se, tendo o ritmo que não o deixa chegar a ser aborrecido em momento algum e tendo a duração certa para que não se lhe exija algo mais do que a diversão que proporciona.
Os autores são económicos na construção do cenário que terá de permitir que dure em vários outros, porque confiam que terão páginas suficientes para moldar melhor os personagens.
Obrigatório neste livro era "agarrar" os leitores, tal como um episódio-piloto tem de conseguir. A abordagem explosiva vem primeiro e, se a audiência for em número suficiente, espera-se que dê lugar (mas não por completo...) à substância que faz os leitores continuarem a ler.
Nesse aspecto julgo que é essencial a cooperação de Lee Goldberg perante o cenário montado para uma relação amorosa entre o criminoso e a agente por ele responsável.
O estilo flamboyant - para dizer o mínimo - com que a escritora trata as suas heroínas quando chegam às suas cenas românticas, costuma levar a exageros perfeitamente ridículo que humilham as personagens.
Por isso a conclusão é que foi Lee Goldberg a amenizar esse tipo de exploração reduzindo a uma única cena de "beijo na eminência da morte" (não há quem ainda acredite nessa tensão da possibilidade dos protagonistas morrerem, mas finge-se que sim).
Mesmo quando a protagonista é sujeita a condições que não lhe agradam - exibir-se num fato de banho reduzido - parece que é Lee Goldberg a devolver-lhe uma certa independência com uma dose de testosterona - passando-lhe um lança-granadas para as mãos.
Suponho que o nome de Lee Goldberg - como a capa deixa patente - estará sempre secundarizado contra o d'a autora de policiais mais vendida em todo o mundo. Não sei se tal será justo, mas acredito que a pequena visibilidade que, apesar de tudo, a situação lhe proporciona lhe seja benéfica.
Não tinha qualquer intenção de pegar neste livro depois da mais recente leitura de um livro de Janet Evanovich, mas um inesperado envio por parte da editora acabou por ditar que fizesse o exacto oposto.
Graças a Lee Goldberg posso dizer que fiquei satisfeito com o par de horas esquecidas à conta deste livro. Não ficarei à espera do próximo volume, mas quando sair terei um pequeno alerta no fundo da memória para que lhe dê uma vista de olhos.
Tal como o novo episódio de uma série que só de semana a semana volta a entrar na minha memória, mas a que vou assistindo relaxado. Apenas o intervalo entre eles é maior aqui.


O Golpe (Janet Evanovich e Lee Goldberg)
Topseller
1ª edição - Outubro de 2013
320 páginas

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A protagonista do machismo

Há que dizê-lo desde já e em definitivo, Janet Evanovich não é escritora de policiais. Ou, pelo menos, já não é uma escritora de policiais.
Esta série protagonizada por Stephanie Plum é apenas uma sitcom em que a protagonista se envolve nos mesmos círculos que estão associados aos romances policiais.
Mas considerando a total inépcia - e falta de vontade - de Stephanie Plum para a sua profissão de caçadora de recompensas, bem como o facto de ter uma assistente que também prefere sempre dedicar-se a mais uma refeição do que às pessoas que tem de apanhar, é totalmente impossível que este livro seja um policial.
Os dois únicos protagonistas que poderiam pertencer a um livro policial seriam o polícia e o caçador de recompensas profissional que funcionam apenas como os dois pólos que atrapalham a vida sentimental e sexual da protagonista.
Se estas considerações não são suficientes, consideremos ainda o que é a trama central do livro. Plum está ameaçada de morte por vários indivíduos contratados para conseguir dela uma foto que um estranho, no avião, lhe colocou na mala sem ela saber.
O problema é que a primeira coisa que ela fez foi deitar essa foto fora, quando aqueles personagens em que pensamos como exemplos clássicos de detectives teriam certamente envolvido-se mesmo se fossem meras vítimas do acaso.
Faço agora a análise de um livro para se ler descomplexadamente - de pés na areia, mesmo! - para conseguir umas tantas gargalhadas numa tarde quente.
Nesse âmbito, o livro tem bastante eficácia , com situações embaraçosas em catadupa e personagens de comportamentos inesperados.
Entre outras coisas, Plum enfrenta um Golias de junk food que insiste em roubar-lhe o carro e vai a casa da mãe para ter jantares com a família de onde se destaca a sua velha avó que não tem tento no que diz.
Um pequeno manancial de situações e diálogos exagerados que surgem inesperadamente ao longo do livro.
Mas se o livro tem humor, há uma apreciação crítica mais exigente que se tem de fazer acerca da maneira como a escritora trata a sua protagonista.
O livro contem momentos de total absurdo que nunca se esperariam de uma mulher que quer ganhar a vida apanhando pessoas que não comparecem em tribunal, como não se lembrar de recarregar o taser ou deixar a arma em casa porque lhe pesa na mala.
Considerando que este é o décimo oitavo livro da série, seria no mínimo expectável que a protagonista já tivesse aprendido algumas regras básicas para cumprir a sua profissão. Ou, pelo menos, cumpri-la sem ter de telefonar a um dos seus amantes para que a safe das situações mais periclitantes.
Dá a ideia de que Janet Evanovich está apostada em perpetuar estereótipos machistas, canalizando todos os erros que poderiam ser usados como piada acerca duma "mulher numa profissão para homens".
Avaliando a transição do livro anterior, Perseguição Escaldante, para este, a autora está muito limitada - ou, pelo menos, limita a sua personagem central - a um único cenário onde possa fazer acontecer o mesmo tipo de situações ridículas de forma sistemática.
No final desse livro a protagonista preparava-se para partir para o Havai e no início deste já vem a fugir de lá. Basicamente, o livro que deveria decorrer por lá não foi escrito porque não haveria pessoas para apanhar - e colocar Plum em situações comprometedoras e dependente dos homens.
Não sei se as mulheres aceitam bem este tipo de situação, mas nem mesmo eu sendo homem vejo com bons olhos tal falta de solidariedade femininista da autora para com a sua criação.
Até porque se esperaria que, por esta altura da série e depois de uns três ou quatro volumes de aprendizagem, estivéssemos a ler a superação de uma mulher neste universo de homens durões. Uma caçadora de recompensas mais capaz do que os homens, sem necessitar deles e aproveitando ser uma mulher como mais um truque (e elemento surpresa) para ter sucesso nas suas missões.
Esperava um policial "a sério" mesmo se confesso, com moderado embaraço, que me fui rindo dos falhanços da protagonista que impediram que o livro fosse cair nesse género.


Sorte Explosiva (Janet Evanovich)
TopSeller
1ª edição - Junho de 2013
304 páginas

domingo, 12 de maio de 2013

O mesmo recheio num embrulho diferente

Não sabia do que tratava este livro - nem procurei essa informação ao pegar-lhe - caso contrário teria sido difícil que lhe dedicasse o meu tempo. Mas, depois de lido, serve o propósito de compreender o perfil de Janet Evanovich.
Do policial de Perseguição Escaldante para a fantasia urbana de de Gula Perversa mudam os detalhes do imaginário mas a estrutura mantem-se de um livro para o outro.
Protagonistas femininas, com profissões que lhes dão enorme liberdade para se deslocarem a todas as horas do dia, em aventuras onde as perseguições têm papel essencial e das quais desviam a sua atenção quando um dos dois - ou mais - homens que surgiram a atrapalhar a sua vida está por perto.
Os detalhes que variam servem de condimento à acção. Neste caso são cupcakes e magia.
A protagonista arranca o dia na cozinha, onde além de fazer os bolos partilha o seu lado feminino com outras duas mulheres. Depois passa o resto do dia à procura de artefactos carregados com a magia de um dos Sete Pecados Mortais - basicamente, são como o anel que os Hobbits carregavam mas neste primeiro volume com a gula no lugar da fúria.
Os dois homens que surgem na sua vida estão à procura desses artefactos para fins completamente opostos, mas sabem que a sua tarefa vai passar por aquela mulher.
Um é um bad boy que ela deveria recusar de imediato. O outro é mais fiável mas igualmente atraente. Se alguma destas características ainda não estiver definida tal como aqui a resumo, estará para breve assim que a autora conseguir dar a volta a alguma nuance que tentou incluir no cenário do triângulo de atracção física.
Com Perseguição Escaldante achei que a autora conseguia conciliar o público feminino com alguma curiosidade masculina pelo género escolhido (e pelas revelações do universo feminino).
Agora sinto que o tipo de romance que a autora escreve, sobretudo sem o apoio do crime, esgota a paciência dos seus (potenciais) leitores masculinos ao fim de um único livro.
Suporia que a paciência das suas leitoras femininas, mesmo as mais fiéis, também acabaria por se esgotar, mas o largo número de volumes das suas séries logo me contradiz.
Tudo porque, não importa do que trate o livro, a autora foca-se em colocar as suas protagonistas em situações de aperto. E raramente elas parecem ser independentes o suficiente para deixarem de fora a necessidade de recorrer aos homens disponíveis.
São mulheres auto-suficientes com vontade de continuarem a ser resgatadas como "damas em apuros". Posso compreender mal a situação e esta ser a nova versão do feminismo - complacente, sobretudo - mas creio que as mulheres modernas ainda encontram um melhor modelo ficcional para a mistura de força e sensibilidade em Vivian Rutledge.
A característica que ainda ajuda o livro é o humor que a autora assume para a inconsequência das suas tramas, aqui revendo o funcionamento da Gula sobre as pessoas não como mera ânsia por comida mas como um desejo incontrolável de acumulação e consumo de coisas.
Não que haja crítica social aqui implícita, apenas uma inevitável coincidência da sociedade moderna apostar na individualidade dos prazeres que os Sete Pecados tentavam contrariar.
Resumindo, este é um livro quase decalcado do outro que li da autora mas que no lugar de balas tem magia e no lugar de sangue tem cobertura para bolos.


Gula Perversa (Janet Evanovich)
Topseller
1ª edição - Março de 2013
288 páginas

sábado, 23 de março de 2013

Para desocupar a realidade

Este é o tipo de cenário que gostamos de encontrar numa série de televisão, um misto de elementos que servem ambos os géneros e que os deixam relaxados no momento de verem - e gostarem - do que normalmente rejeitariam.
Neste misto de policial e daquilo que imagino que eram alguns dos comportamentos femininos que ocupavam os episódios de O Sexo e a Cidade, dá gozo seguir as peripécias pessoais da protagonista pelo meio de uma temática mais chamativa.
Uma forma de entretenimento que é mais confortável - e eficaz, também por conta de alguns gags físicos - num formato semanal de 40 minutos.
Alternativamente, no caso particular deste livro e deste leitor, funciona da mesma maneira numa leitura veloz salvando uma tarde inteira de espera numa repartição das Finanças.
Será o lado de telenovela que mantém uma série destas a correr durante dezenas de livros - como manteria por várias temporadas - mas é a acção que sustenta cada livro.
Diria que a conjugação desses dois elementos é um dos maiores méritos da autora ao ter escolhido a profissão de Caçadora de Recompensas para a sua protagonista, tornando-a numa mulher moderna numa profissão de grande liberdade, mas ainda assim dependente da ajuda masculina de tempos a tempos, assim não inibindo o lado feminino.
Ao fim e ao cabo, servem-se homens e mulheres leitores da mesma forma, com muitos corpos. No caso delas a confluência de homens interessados na protagonista (que, suspeito, serem só uma parte dos muitos que aparecem e desaparecem ao longo da série), no caso deles os cadáveres que se acumulam demasiado perto da zona de conforto da investigadora.
A investigação é enérgica, com uma quantidade de detalhes muito interessantes, mas sobretudo com uma propensão inesperada para o humor que vem diferenciar
Isso ajuda a escapar bem ao tom de envolvimento romântico que se intromete na narrativa e que se torna um pouco mais incómodo quando já estamos no ponto de arranque da resolução do livro.
Sendo assim num único livro, não me deixa dúvidas que a quantidade de homens e indecisões da protagonista acerca deles se tornará cansativo - quer para leitores homens quer para leitores mulheres - portanto será necessário que a imaginação da autora para os imbróglios policiais sejam sempre imaginativos para compensar a repetição do esquema romanceado.
Não serão, por esta única amostra, tramas extraordinárias entre os thrillers no mercado, mas tendo em conta que essa componente recebe apenas metade do foco da autora, direi que lhe concedo o benefício de uma segunda leitura pois o policial não está reduzido a episódios caricatos no intervalo das relações amorosas, havendo um equilíbrio justo.

Mais uma vez, como com Alex Cross, a TopSeller começou pelo meio da série mas com um tomo onde quase tudo é entendível sem acesso ao que veio antes.
Se a série ficasse por este volume, os leitores não ficariam totalmente desamparados sem o que viesse a seguir ou sem a edição dos tomos mais antigos.
Continuando a série, o problema de continuidade será resolvido automaticamente pelos leitores que acompanharem a série com afinco.
Neste caso, opto pela descontração de não pensar a realidade que está por resolver, tal como a realidade que estava em volta do livro à medida que era lido.


Perseguição Escaldante (Janet Evanovich)
TopSeller
1ª edição - Novembro de 2012
312 páginas