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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Thriller melhor, livro pior

Colisão é um thriller melhor mas um livro pior do que do que Pânico. A crítica que se segue tentará dar sentido a essa afirmação que parece conter uma inevitável contradição.
Jeff Abbott escreveu este livro, como o que li dele anteriormente (e embora me apeteça extrapolar acerca dos seus hábitos regulares, não o farei), usando alguns elementos gerais para desenvolver a narrativa: um personagem fora do seu meio em fuga e um grupo secreto dentro do universo das agências de segurança (e um grupo que as persegue).
Aqui, felizmente, cria uma dinâmica melhor em torno da base mais linear do jogo do gato e do rato, desde logo proporcionando ao fugitivo um parceiro dúbio e com quem manterá sempre uma relação atribulada.
Mas também adicionando elementos de reflexão acerca da política de guerra e dos lucros que ela cria e criando um plano geral que envolve um manipulação muito mais abrangente (do que em Pânico...).
Mesmo assim, Jeff Abbott não consegue evitar ter uma mão pesada com alguns dos elementos que tenta manipular em simultâneo, tornando a reviravolta final nada menos do que óbvia ainda o livro está no seu início - o mesmo defeito que deve ser ser apontado a Pânico.
Talvez a culpa dessa previsibilidade venha da maneira como se sabe que todas as linhas de desenvolvimento do livro, por mais dispersas que pareçam - e sejam, pois há mesmo uma dessas linhas que se mostra inútil -, vão correndo quase em paralelo mas obviamente inquinadas umas para as outras, como anuncia o próprio título do livro.
Sabe-se que esse é o método natural dos thrillers modernos, de tentarem manter as histórias compartimentadas e o leitor/espectador exaltado pela acção em vez de tentar fazer as conexões que sabe existirem.
Daí que o livro funcione como um guião (e novamente faço notar que tal não é bom) que vai saltando de cenário em cenário - ou de período em período - dando a ver apenas uns momentos isolados de cada personagem em capítulos/cenas breves.
Ou, neste caso, relativamente breves, o que só beneficiaria a leitura se o autor tivesse verdadeiro talento para desenvolver cenas de acção provocadoras da tal exaltação ou, preferível e alternativamente, apostasse na construção das personagens.
Mas revela-se tão penoso ler um capítulo de vinte e tal páginas com uma perseguição automóvel de escassa emoção, como continuar com um personagem central cuja única caracterização pessoal é o facto de ter visto a mulher ser assassinada durante a sua lua-de-mel.
Não sendo um personagem tão exagerado como o protagonista de Pânico, este negociador de contratos vai pelo mesmo caminho de capacidades de luta captadas "do ar".
Mas o pior é que o personagem não tem substância dramática para lhe dar credibilidade ou, pelo menos, para criar empatia com o leitor, que sabe que ele está condenado a sobreviver até ao final (feliz, se possível).
Tudo seria mais desculpável se fosse possível ao leitor ligar-se emocionalmente ao personagem central, mas esse é tão funcional, e daí descartável, como era o documentarista no outro livro.
O resultado é, portanto, um thriller mais interessante, mesmo se perdido em tramas demais nalguns momentos, mas um livro ainda mais aborrecido e pelo qual o leitor passa apenas para "saber como tudo acaba".


Colisão (Jeff Abbott)
Civilização Editora
2ª edição - Julho de 2009
486 páginas

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Título e personagem errados

O protagonista de Pânico é um realizador de documentários que, mal a realidade sai dos eixos da normalidade, se convence de que tem de se transformar num herói de acção.
O momento dessa transformação define o fundamental do livro, um chorrilho de cenas de acção protagonizadas por um tipo que se revela extraordinário sem que se vislumbre qualquer razão no seu Passado para tal.
Enquanto, em paralelo, as suas habilidades de documentarista - o olho para os detalhes, a capacidade de pesquisa, a manipulação da informação em favor de efeitos emocionais pretendidos (arrisco eu dizer que seriam estes ou não estaria nomeado ao Oscar) - não lhe servem de qualquer propósito. E nem creio que sejam mencionados de passagem.
O seu estatuto de espião e herói, nascido da sua mera força de vontade, equipara-se ao de Ethan Hunt e torna-o mais capaz até do que aquela que fazia o papel sua namorada e que fora treinada pela CIA.
Esta personagem implausível e mal construída envolve-se numa trama que se há-de complicar com o Passado familiar que a colocou em marcha, mas que no essencial é a narrativa de um homem em fuga.
Isso coloca-nos perante um thriller monótono por ser igual a tantos outros que já vimos.
O verbo escolhido é o correcto pois esta vertigem de menos de uma semana, que passa por Londres e Miami além de vários outros locais dos E. U. A., se parece com o esquema de um guião.
A única qualidade que posso reconhecer à escrita quase anónima de Abbott é que não sobrecarrega as descrições com detalhes de um realismo limitativo de tão meticuloso (e, por isso, inútil).
Só as ideias sobre o Passado dos personagens "secundários" - embora não sendo totalmente originais - merecem alguma atenção, por lidarem com questões de oposição entre lealdades pátria e familiar.
Mas essa atenção resulta numa única conclusão, de que era preferível ler sobre toda essa complicada história que exigia muito da construção das personagens, num thriller menos agitado mas de mais substância emocional.
Porque é que este livro vende abundantemente permanece um mistério, à parte o título sumário de marketing fácil.
Um título incompreensível, visto que pânico deve ser a única emoção que o protagonista não sente a partir do momento (quase inicial) em que racionaliza o seu próprio heroísmo...


Pânico (Jeff Abbott)
Civilização Editora
4ª edição - Setembro de 2007
468 páginas