sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano de livro

Finda o ano e apetece-me olhar para a divulgação do tema do Livro (e do que lhe está associado) na opinião e na informação genérica - mais entendida como vaga do que como generalizada.
O panorama é triste. Depois da polémica da guilhotinagem de livros passou-se pelas atenções nem sempre coerentes ao desaparecido Saramago, pela descoberta da cobardia intermitente de Lobo Antunes e pelo aplauso da premiação internacional de Gonçalo M. Tavares.
Não é um levantamente exaustivo, claro, mas é um levantamente geral que serve um ponto de vista, de que o livro - tirando a última notícia - só serve para preencher quinze segundos de treta em telejornais que se alongaram para lá da realidade das notícias que um país tão diminuto tem para dar.
Como todos os olhares, o meu também se centra em algo em particular do pouco que enunciei aqui. E será enunciado de forma perfeitamente subjectiva e tendenciosa que deixará de forma muitos aspectos que são importantes para reflexão mas a que cada um deveria chegar por si mesmo.


A guilhotinagem, tão sugestiva acção sobre os livros. Afinal, se Louis XVI e Lavoisier puderam ser guilhotinados, porque não uns quantos livros?
Quando a notícia surgiu vi muitos posts indignados por essa internet fora, reclamando que era insidioso e criminoso fazer tal coisa aos livros.
Não era o único tipo de opinião que se espalhou, mas era maioritária.
Pessoas a defenderem que se dessem esses livros. Dessem, de forma banal, distribuídos da parte de trás de camiões ou impingidos a instituições sem qualquer critério de maior.
As pessoas que defendiam isto eram as mesmas que não ligaram nenhuma a esses livros quando foram lançados, quando estavam com desconto na Feira do Livro ou quando estavam a ser vendidos ao desbarato nas feiras ocasionais que decorrem em estações de Metro.
As mesmas pessoas que até ali acharam que os livros não tinham serventia alguma defenderam que estes fossem entregues a outras pessoas quaisquer.
São as pessoas que endeusam os livros, os autores, a palavra, o objecto.
(Sou chato com este tema e provavelmente estou errado, mas este ano também me deu para persistir num único tema inútil...)
Pessoas que radicalizam a questão e não vêem que já são poucos os idealistas que estão a oferecer as suas palavras para que o mundo se ilumine.
Pessoas que não admitem que, afinal de contas, o livro é tanto um meio de expressão como um negócio.
Estas pessoas revoltaram-se naquele momento mas não acompanharam as notícias relativas à mudança da lei relativa ao IVA dos livros doados.
Nem sequer pensaram que uma empresa, mesmo que seja uma empresa de Cultura, tem de gerar dinheiro.
Estas doações de livros que até a Ministra da Cultura reclamou seriam uma excelente forma de acabar com todas as editoras, bastando para tal fazer um esforço consertado por... não comprar livros. Ao fim de dois ou três anos, uma edição de 1000 ou 3000 exemplares com somente 5 vendidos seria distribuída pelas bibliotecas, garantindo a leitura gratuita de todos aqueles que o desejassem e o declínio financeiro da editora.
Acabava-se a edição em Portugal e, em consequência, acabava-se a guilhotinagem!
Todos aqueles que se revoltaram não reflectiram e, por isso mesmo, não reclamaram com quem deveriam. Não reclamaram um plano sólido para melhorar o tratamento e o volume de edição do livro.
Anima-me imaginar que as mesmas pessoas que se revoltaram com a destruição física dos livros, cuja vida literária haviam destruído com a sua indiferença, acabarão por os comprar em breve.
Basta que a editora os lance com uma nova e espampanante capa, que aposte no marketing e os livros que ninguém quis serão os livros da moda.
Tudo porque a memória é curta e quem já não se lembra que os livros foram guilhotinados também não se lembrará que já outra vez tinha desprezado o livro que entretanto voltou aos escaparates.
A memória é tão curta que Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin (cito daqui) são todos deitados à guilhotina porque não são modernos, vistosos e seja lá mais o que for que vende hoje em dia.
A editora, o ministério, os leitores. Todos têm culpas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Policial sem modas

Um universo muito contido, de fronteiras bem delimitadas: não apenas as da ilha em que decorre a acção, mas igualmente das relações das personagens.
Tudo acaba por decorrer sempre em espiral até um centro nevrálgico que tudo explica e que é, afinal, o discreto mas habitual (e pertinente) toque de reflexão social da banal origem do mal que muitos policiais nórdicos têm trazido à baila.
No fundamental, o livro tem uma estrutura perfeitamente clássica, um policial cerrado e inteligente.
Guarda toda a informação sobre o culpado até ao final dando, pelo contrário, toda a informação que importa para compreender o porquê daquelas vítimas.
Faz-nos olhar em múltiplas direcções, mas questionar sempre quem sofre e não necessariamente quem poderá fazer sofrer.
Nesse âmbito, a pouca mais informação que temos em relação aos pontos de mira da investigação assenta o livro num realismo que também parece fazer ponto de honra nos policiais nórdicos e que, ainda para mais, nos liga às personagens que (ao que parece) prometem voltar em outros livros centrados geograficamente em Gotland - um espaço que tem, ele próprio, de crescer como personagem.
Creio que Ninguém Viu não vai marcar a moda dos policiais nórdicos, não é caso flagrante para vir a cativar o público nem tem marcas profundamente distintivas.
Só que todas as modas precisam destes livros sólidos para se cimentarem e vulgarizarem entre o público, para se tornarem num hábito e não numa habituação de passagem.

Apesar disto, à mostra ficam duas falhas do livro, a primeira da revisão, a segunda da sinopse.
A primeira no seu caso mais gravoso deixou que os tempos da acção oscilassem das duas semanas para os dois meses, para retornar de novo à única possibilidade verdadeira, dado que cada capítulo do livro corresponde a um dia do mesmo mês de Junho.
A segunda, algo que felizmente só descobri a posteriori por entrar no livro sem reler a sinopse, traz informação a mais que deve permitir resolver o enigma muito mais cedo do que o previsto. Informação essencial para se saber perto do final e nunca no início.


















Ninguém Viu (Mari Jungstedt)
Contraponto
1ª edição - Outubro de 2010
216 páginas

sábado, 25 de dezembro de 2010

Doces Freaks

Os Freaks de Tod Browning querem uma vida normal , um local para viver, uma aldeia para si próprios.
Não todos os Freaks, apenas aqueles que estão acabados ou a acabar-se, os Freaks que não têm mais espaço no circo, que não têm mais um círculo que os defenda.
Verdade seja dita, o circo desmoronou-se. Os irmãos Mantecón separaram-se e, com eles, o circo.
Tenda para um lado, animais para o outro. E os artistas encostados a uma parede como miúdos a serem seleccionados para uma equipa de futebol.
Os que ficam para últimos acabam com Don Alejo a caminho de uma aldeia que, afinal, se tornou fantasma.
Os Freaks ficam tão bem numa aldeia fantasma só deles, pensam em construir uma sociedade própria para o futuro, mas começam a falhar logo no início ao escolherem as profissões essenciais.
Depois decorre o que decorre em todos os grupos, mas em ponto acelerado quando falha a água, falham todas as capacidades, falham os corpos e falham os afectos.
Tudo se corrompe e degenera mais depressa do que seria normal e os Freaks debitam memórias e traumas, constroem uma união de dores e desastres.
São todos farsantes, vivendo vidas inventadas sobre vidas inventadas. Pessoas tornadas artistas bizarros tornados habitantes vulgares de uma aldeia inexistente.
São deliciosas personagens, mas muito tristes. Personagens a quem desejamos ajudar, com quem temos desejo de viver algum tempo, sendo eles expressões mais intensas e incomuns da noss própria existência.
Os Freaks são os melhores de entre os personagens, os mais interessantes de entre nós.


















Santa Maria do Circo (David Toscana)
Oficina do Livro
1ª edição - Abril de 2010
304 páginas

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Belo fantasma

Um fantasma assombra quem lhe era mais dedicada e quem fora mais terrível para ela.
Assombra uma rapariga e um homem, assombra o amor destes com a sua memória, assombra a felicidade que espreita no futuro.
Assombra a ignorância, mais do que tudo o resto, a ignorância de um sobre o outro, sobre o que aquele homem, que aparenta ser nobre e forte, fez e sobre o que aquela mulher, que aparenta ser ingénua e incapaz, fará.
O fantasma, sendo real, é também a consciência de cada um destes outros personagens, aquilo que eles querem silenciar, aquilo que guardam no subconsciente na esperança que se afunde um pouco mais para que a irracionalidade lhes permita ser felizes.
Pois também o Amor assombra quem vive, além de ser a dor de quem morreu.
O Amor assombra porque ensombra a justiça, abafa a lógica, afasta a moral. O Amor é indecisão, é rebelião contra a própria consciência, é a rendição ao outro contra o próprio bem estar.
Todos acabam por se lhe entregar, podendo decidir se nessa entrega lhe escapam ou a ele sucumbem.
De novo vemos que o Amor é como um fantasma, cobrando o seu preço a quem merece e a quem tropeça no seu caminho.
Afinal, o fantasma deste conto busca vingança contra o homem que o criou mas também contra quem a ele lhe sobreviveu.
A sua missão é de tormento para com quem vive, não somente para com quem vive porque ele morreu. Vingança e despeito são tão parecidos afinal.
Todos estes fantasmas perduram neste magnífico texto, mas é a beleza das palavras que mais nos assombra.


















O Tesouro (Selma Lagerlöf)
Cavalo de Ferro
1ª edição - Fevereiro de 2010
98 páginas

domingo, 19 de dezembro de 2010

Road trip e seus desvios

Um pai aposta a vida do filho num jogo de cartas. Perde (Claro! Haveria outra hipótese para algo tão desesperado?) e segue atrás dele.
O filho segue por onde o deixam, por onde o querem, por onde lhe resta.
Todo o livro é a viagem de um pai e de um filho pelos meandros dos seus desencontros.
O livro termina quando, finalmente, eles se cruzam. Sem desfecho, estão face a face e não sabemos o que vem depois.
Não interessa, o resultado será sempre a perda de um deles - quem sabe se dos dois - e, daí, a perda das múltiplas histórias que eles arrastaram consigo.
O que interessa... É o percurso, são as vozes, são as intersecções, é a viragem por outros espaços e outros tempos.
Quando a tragédia encontra o livro não há desfecho. O desfecho do livro é sentir as múltiplas histórias, interessarmo-nos por todas e ainda querer voltar à estrada central para saber de Torosantos, da sua vida apostada e do seu pai perseguidor.
Será natural sentir que Félix Romeo escreve como Tarantino filma, um luxo de personagens secundárias bizarras, divertidas, cheias de vida e inesquecíveis.
A narrativa sempre interrompida, sempre prestes a perder-se e nós sempre a ganhar personagens magnificamente retratadas.
Personagens para emoldurar na parede das tristes e ridículas vidas, das bizarrias que fascinam, do atroz e do delicioso.
Embarque-se rapidamente nesta road trip de decadência por memórias de Espanha, por vidas acabadas, por mundos silenciados, por prazeres indizíveis...


















Discothèque (Félix Romeo)
Minotauro/Edições 70
1ª edição - Junho de 2010
224 páginas

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Duas vidas numa noite

Uma noite é o suficiente para contar toda uma vida como é suficiente para começar toda uma vida.
Tristeza e alegria na mesma medida. Que um homem possa ver um futuro enquanto o outro confessa um passsado.
Quem vive para ver a sua vida reduzida a uma conversa de uma única noite não pode deixar de se sentir desanimado com isso...
Ainda que a sua história seja de um amor sem paralelo e da maior coragem capaz de afrontar o terror Nazi, revela-se a história breve de uma vida, afinal de contas.
Por isso é contada, para se tentar que ela persista para lá do fim mais do que anunciado que apenas quem ouve não se apercebe por estar desejoso de receber o seu prémio.
Quem vive na expectativa do desaparecimento encontra uma nova vida a um bom preço, a de deixar que uma outra vida se esgote em palavras.
Tudo isto por conta de um passaporte que guarda a salvação, uma autorização de partida para um país seguro.
Um passaporte que transformou um homem em Schwarz até que ele já não precisa mais de identidade porque a sua vida de luta e de amor terminou. Um passaporte que transformará outro homem em Schwarz, um homem que já só pensa em partir e existir de novo.
A identidade, passada de mão em mão, poderá ser uma benção mas no final aliena um homem de si mesmo. O passaporte, descobrimos no fim, parece ser uma maldição. Ou a maldição está para lá da identidade e a desgraça é o destino dos dois homens que se encontram em Lisboa?
A única pena que fica do romance é que ele não siga esse destino dos homens que, sucessivamente, se transformam em Schwarz, como se as vidas pudessem ser guiadas pelo que foi um homem que mal conhecem mas que lhes dá nome.


















Uma noite em Lisboa (Erich Maria Remarque)
Camões e Companhia
1ª edição - Julho de 2010
224 páginas

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Menos levado a peito

Já falei da série DMZ aqui e, por isso, posso iniciar dizendo que a continuação da série não é tão forte como foi durante os volumes iniciais.
A linha narrativa central que atravessa estes volumes, em particular DMZ: Blood in the game, DMZ: War Powers e DMZ: Hearts and Minds, é, talvez, a continuação lógica do que ocorreu até aqui.
Trata-se do período de estabilização, das primeiras eleições livres e da defesa da ideia do poder através de todos os meios possíveis - armas de destruição em massa incluídas.
A série parece, neste momento, estar a seguir um guião. Como se fosse sua obrigação abordar todos os detalhes que se reconhecem dos conflitos - com preponderância para o mais recente - em que os EUA se envolveram.
Isso é mau para a série porque a sua relevância política e social já não se vinca no seu exagero de até onde leva a realidade de Manhattan como Estado.
Os autores estão a tomar o ponto de vista dos que estiveram do outro lado dos referidos conflitos de forma débil, pouco sentida e mais como de um comentário intelectual. A força de colocarem a guerra junto ao peito dos americanos dissipou-se.
Como tal, a sua relevância artística também se apaga à medida que os acontecimentos globais suplantam o indivíduo.
A personagem central, o jornalista que assume aqui um papel subjectivo, que toma uma opção como cidadão e não como repórter, tem menos material para evoluir como foco da série.
Era o seu comprometimento que deveria interessar, depois de reflectir sobre o entendimento que um povo faz das notícias e de como estas são manipuladas, pensar o papel do jornalista que está envolvido no ponto central dos eventos que julgamos à distância.
Acabam por ser dois blocos narrativos menores - e, curiosamente, atrasados no friso cronológico - que são mais ricos.
The Island traça um inusitado retrato do equilíbrio real que se cria entre as duas frentes de homens na guerra. As amizades que são indiferentes a ideologias e que permitem que homens sejam companheiros em paz. Mas também são as amizades circunstanciais que tombam ao primeiro sinal de problemas. Amizades de guerra, amizades sob tensão.
No Future é centrado na psicologia de um único homem. Um polícia que vai de um lado ao outro do que está correcto. Um homem que cede até ao limite, que se torna um terrorista mas defende uma réstea de humanidade como pode.
Um problema evidente este de estar mais interessado no que é secundário.
A própria génese de uma série que necessita de ser longa pode justificar esta perda de fulgor, mas senti mais obrigação do que prazer como leitor enquanto a série mostrou constrangida.


















DMZ: The Hidden War (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Julho de 2008
144 páginas



















DMZ: Blood in the game (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2009
144 páginas



















DMZ: War Powers (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Setembro de 2009
168 páginas


















DMZ: Hearts and Minds (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Junho de 2010
192 páginas

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Da velhice e da linguagem

A velhice é uma dor profunda a necessitar de uma réstea de crença na magia das surpresas que a idade leva a já não aguardar.
Colocado num lar um homem sente ter perdido o pouco que lhe sobrava, reage mal e revolta-se.
Pouco a pouco muda, sem querer realmente deixar que os outros vejam isso. É um novo universo pessoal a construir e renovada utilidade a descobrir.
Escreve cartas de amor a uma mulher abandonada ou encontra uma personagem central da poesia nacional.
Mas, acima de tudo, purga demónios. Num lar todos têm memória e todos têm passado.
Todos recordam e julgam o país onde viveram e todos têm confissões a fazer. A dele é apenas mais uma.
A tal "máquina de fazer espanhóis" é aquela sofreguidão com que, de tempos a tempos, cada um rende o país que ama.
Uma máquina que se activa de cada vez que alguém diz "mais valia sermos uma província de Espanha" para amaldiçoar os erros deste país mas sem nunca conseguir deixar de defender a independência desse pedaço de terreno com que se identifica.
Os velhos no lar juntam as suas alegrias e as suas censuras a um país que quiseram ver perdido mas que nunca conseguiram abandonar.
A máquina move-se sempre sem sucesso. A velhice é o momento de confessar que se tentou andar nela e continuar seguindo, até ao fim, onde sempre se esteve.

No caso de valter hugo mãe, a forma de escrita é, inevitavelmente, tão notada quanto o tema.
A sua falta de maiúsculas assemelha o texto a um telegrama, sequências rapidíssimas que raras vezes se interrompem durante a leitura.
Digamos que lhes falta a quebra do stop para se dar conta de que uma nova frase se iniciou.
O efeito de leitura com que se mesclam as frases causa novos efeitos de compreensão, sugere outros significados, aproxima o texto de uma liberdade que esperávamos da poesia em prosa.
Não quero com isto dizer que o texto não seja perfeitamente entendível e estruturado.
Apenas que a leitura tem características distintas. O texto deixa-se atravessar como se os pontos finais estivessem a unir as frases e não a separá-las, a ligar a cadência com que as lemos, a acrescentar velocidade em vez de nos dar a pausa entre elas.
Não creio que seja isto que o autor procurasse, pois não é sistemático nem evidente um jogo com estas características, mas é um efeito interessante.


















a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Fevereiro de 2010
312 páginas

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Lições em Humanidade

Estes dois pequenos contos de Melville fazem sentido juntos por serem duas demonstrações de como se deve encarar a vida.
Cocorocó fala da aceitação da vida. Um galo, magnífico cantor, é o desejo de um homem e é-lhe negado. A família que o mantém, tão pobre e doente, prefere a riqueza do ânimo que esse galo transmite ao dinheiro. Morrem felizes e em conjunto porque a vida esteve cheia uns dos outros e do belo canto daquele galo. E o homem que o desejava aprendeu a preciosa lição da humildade, de valorizar o que tem e não o que é inalcançável. A inveja era a verdadeira face da sua existência sorumbática e contra ela toda uma família deu a vida e ele honra-a com a sua prometida felicidade futura.
Feliz Insucesso parece ainda mais desesperado. Um homem arrasta o seu sobrinho e um criado para a estreia de uma invenção revolucionária. Trata-os mal porque sabe que a glória o espera e eles se queixam e duvidam. Arriscou dez anos naquele momento e tudo falha. Mas nessa altura já não maldiz o que aconteceu, resigna-se ao facto de que a vida não se pode reduzir a um objectivo tão fugaz. Que a vida se deve apreciar no momento em que acontece e não ser aposta numa eventualidade, num momento que define a imortalidade do seu próprio nome. O homem só aceita isso quando a sua vida se encaminha para o fim, mas entrega tal conhecimento ao seu sobrinho que ainda tem tanto por viver. Não será pois esse o legado que ele tinha a deixar. A lembrança do seu nome está no rapaz que aprendeu a apreciar a vida com ele.
Nenhum dos contos é um manual sentimental de auto-ajuda. São histórias de derrotas - o homem que deseja o galo e tem de o ver morrer, o homem que batalhou toda a vida por uma invenção que falha - de onde brotam alegrias, de onde brota a humanidade dos que as vivem.
A concretização do melhor lado humano obriga a que se pague o preço da derrota.


















Feliz Insucesso (Herman Melville)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
92 páginas

domingo, 5 de dezembro de 2010

Encerrando-se

Ser engolido por uma baleia é ver-se no interior de um universo fechado, claustrofóbico, assustador.
Um universo onde se sobrevive mas no qual não há saída, mesmo quando há um vislumbre do que se passa lá fora, quem foi engolido não tem capacidade para abordar o que se passa.
Ser engolido pela baleia é um isolamento incompleto em que todo o exterior entra sem que possam dar algo de volta ao exterior.
Assim estão Stevie e Michael, ambos na sua velhice com o corpo e a mente a cederem, incapacitados. Ele, Michael, sobretudo, já sem voz, quase sem energias devido ao cancro.
Mas o universo não se fecha sobre eles apenas porque a idade faz ceder as suas forças, o universo foi fechado por eles próprios muito tempo antes.
Cada um viveu a sua história separadamente, percorrendo os caminhos possíveis do ponto em que estavam juntos e tiveram de se separar até ao momento em que já não se podiam unir mas estavam de novo ligados sem alternativa.
Quando as suas vidas se tocaram, decidiram ainda assim continuar sozinhos.
No fundo, deixaram-se engolir pela baleia do seu medo que foi, também, um cuidado com o outro.
O seu medo maior não foi o de se ferirem uns aos outros, foi de permitirem um ao outro redimirem-se mutuamente.
Como se o carinho e o perdão que o outro teria por eles fosse a condenação a uma dor permanente de quem tinha sido o ser humano melhor e o amante mais sincero.
Ambos acharam merecer ser encerrados naquele silêncio culpado sem fuga e ambos evitaram as poucas hipóteses de fuga que poderiam ter existido.


















Dentro da Baleia (Jennie Rooney)
Bertrand Editora
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
224 páginas

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Homenagem ao malandro

Um grupo unido de sete homens lança-se numa vingança contra duas províncias de França, Issoire e Ambert, que surgiram a um deles como dois olhos persecutores.
Começam por rimas gozosas e logo seguiram para planos elaborados de vexame e confusão.
Estava bêbado aquele que entre eles se se amedrontou com um mapa num sótão escuro. Estavam todos, aliás.
Estavam bem assim, juntos, entretendo-se entre eles em doses iguais de se maltratarem e apoiarem mutuamente.
Em grupo, nenhum homem é como singularmente se comporta. É como o grupo necessita, dando-lhe tudo o que pode e recebendo tudo o que deve.
Falo do sexo masculino pois é dele que conheço melhor o comportamento. Igualmente porque (sinto que) é nele que permanece o gosto pela rebeldia juvenil, pela inconsciência e pela existência de grupo.
É nele que permanecem os códigos de grupo e o companheirismo sólido sem julgamento.
Estes sete compinchas comunicam entre si com versos Alexandrinos e desconfiam apenas para se congratularem com a falsa surpresa de ver os outros cumprirem com o esperado.
Seguem os planos ousados, absurdos e divertidíssimos que criam sem parar para reflectir em consequências.
O grupo move-se, apoia um dos seus porque o grupo é cada um deles, consciência colectiva e corpo agregado.
Tudo isto tem um humor nonsense, um absurdo sem limites que os homens que guardam companheiros de longa data saberão apreciar como versões exageradas dos seus velhos truques.
Malandros assim já não existem mais, mas ainda existimos muitos bem parecidos.

Crítica escrita ao som da memória de Homenagem ao malandro de Chico Buarque.


















Os Pândegos (Jules Romains)
Livros do Brasil
Sem indicação da edição - Sem indicação da data
288 páginas

sábado, 27 de novembro de 2010

Pequeno apontamento

Mesmo sendo um homem de Ciência - se assim posso atrever a chamar-me pelo curso que tirei e pela área de trabalho onde me inscrevo - e leitor tão assíduo como variado, não me sinto capaz de me lançar a este livro para o apresentar a um futuro público leitor sem reduzir a sua importância e a sua vastidão.
Daí ter chamado a este texto Pequeno apontamento, assinalando assim que, desta vez, pretendo apenas dar uma pequena amostra do que o livro nos conta e reforçar a ideia de que não há senão mais e mais material para lá ser aprofundado.
As revoluções científicas, como entendidas aqui, não são verdadeiras revoluções, mas alterações de estatuto de teorias dentro de determinadas áreas, normalmento substituídas por outras que possam explicar todos os novos dados constatados.
No interior dessas áreas há alterações fundamentais ao entendimento da realidade, mas nas áreas relacionadas a aceitação dessas alterações é pacífica e natural, alterando-se apenas uma ferramenta com a qual essas outras áreas trabalham.
Este livro traça pois uma realidade bem diferente daquela que nos é ensinada, de que a Ciência evolui de grande descoberta em grande descoberta, de teoria radical em teoria radical, mas antes se faz passo a passo, de um campo de trabalho para o outro.
A lição não serve só à Ciência, mas a quase todas as áreas das quais se traçam Histórias pautadas por grandes nomes, génios e , esquecendo
Mas este é apenas uma pequena revelação - que nem é revelação nenhuma, verdade seja dita - que este livro tem hoje, como à data da sua publicação original.
Na verdade, o livro traça importantes linhas sobre o conhecimento humano, sobre a sua progressão e sobre a relevância deste progresso mesmo para os leigos.
O livro é fulcral a todos os que querem Saber, assim mesmo, com letra maiúscula.


















A Estrutura das Revoluções Científicas (Thomas S. Kuhn)
Guerra & Paz
1ª edição - Setembro de 2009
288 páginas

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pequenos papéis de um homem maior

Seria a leitura mais proveitosa se eu conhecesse melhor o texto integral de A Origem das Espécies?
É uma pergunta importante que não terá resposta até que (eventualmente) percorra esse outro livro, mas não deixei por isso de encontrar entendimento sobre um homem importantíssimo para o conhecimento moderno, algo que só fica provado pela polémica que o seu trabalho ainda provoca em locais dominados por fanáticos.
As suas cartas e os seus apontamentos mostram-no como um pensador perpétudo, um homem para o qual a ciência não parava à porta de casa.
Provam-no as cartas que troca com a mulher reflectindo sobre o próprio sacramento que vão partilhar ou os apontamentos regulares que mantém sobre a vida dos seus filhos depois continuados pela mulher.
Isto prova também que ele encontrou uma companheira capaz de o desafiar e de o compreender. Um pensado tem, muitas vezes, uma incapacidade para ser feliz, mas não parece ter sido o caso deste homem.
Os seus papéis mostram isto. Se tal é verdade passará por ler uma biografia mais detalhada de Darwin, mas acima de tudo, acredito que fica por ler a sua obra essencial onde ele investiu tanto de si.


















Escritos Íntimos (Charles Darwin)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
112 páginas

Com um olho no ecrã


Eis um livro que se deve ler com um olho no ecrã. Um livro que vive melhor quando o conjugamos com a visualização dos filmes de Herzog.
Mas mesmo este livro tem de ser apenas um livro e se é preciso falar dele como tal, devo dizer que as reflexões de Grazia Paganelli são excelentes leituras por si mesmas.
Diria que são, como espero que os textos que aqui escrevo sejam, pedaços independentes de literatura que nos enriquecem o pensamento e que saiem valorizados pela relação com as obras do realizador.
À falta da possibilidade de visualizar as obras lado a lado com os textos, a entrevista com Herzog entrelaça-se na reflexão, acentuando as melhores ideias desta.
Sendo verdade que a entrevista é conduzida em direcção às ideias expressas pela autora, acontece também que esta tome caminhos próprios pela voz do realizador que se encontra desafiado a reflectir sobre si próprio como não fizera até aí.
Ao longo da entrevista, Herzog faz quase um ensaio sereno sobre si próprio, sobre o seu cinema e sobre o cinema que o rodeia.
Muito honesto, fala da criação de um cinema feita por si e que se tornou numa obra. A falta de linhas orientadoras com as quais se identificasse, perseguiu temas, recusou associações e inventou formas.
Na sua entrevista explora as particularidades da obra que criou da forma que apenas ele conseguiria, sem tentar criar um mito de si próprio, mas oferencendo um ponto de entrada a um pensamento demorado sobre a própria arte do seu cinema, um pensamento que poderá depois ser enriquecido pelo retorno às teses apresentadas por Grazia Paganelli e, finalmente, por serem confrontados com os filmes de onde nasceram.


















Sinais de Vida - Werner Herzog e o Cinema (Grazia Paganelli)
Edições 70
Sem indicação da edição - Abril de 2009
270 páginas

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sangrar culpa

Desenhado com uma certa anonímia que permite que o espaço onde a história se passe se assemelhe à assunção de de ruralidade nacional feita por qualquer leitor, independentemente da sua nacionalidade (ou não tivesse sido primariamente publicado em França), o livro permite que a sua leitura seja enquadrada na familiaridade de um universo pessoalmente entendido.
É verdade, também, que conhecendo a restante obra de Rui Lacas saberemos situar os elementos deste seu mundo, bem como a evolução dos traços de originalidade da sua utilização particular da onomatopeia como parte integrante da estrutura da página desenhada.
Mas faz sentido falar da história como universal, deslocalizada no tempo e espaço - passado local ou presente de países inominados -, mas cujo fulcro é o percurso que vai da tentação ao crime e deste à penalização.
Uma medida do passar do tempo, que é sempre curto para chegar da tentação ao crime e muito longo para chegar depois à punição, e que a história trata de contar em sentido inverso, tratando demoradamente o primeiro período e desenlaçando o segundo tão subitamente quanto merece acontecer.
Nesse aspecto o livro revela não ser tanto sobre a vingança, como a primeira impressão fará parecer, antes sobre a retribuição.
Não há nada para ver nessa retribuição a não ser o seu momento final. Por comparação, conhecer e medir o acto é muito mais importante.
Vemos o preço que cada um paga pelo seus actos quando, a pouco e pouco, admite a ignomínia dos mesmos.
A retribuição chega por mão própria, quando a acumulação desses pequenos pedaços de admissão de culpa é suficientemente forte para que o pecador se revolte contra eles. A absolvição é impossível e nesse momento arca, finalmente, com as consequências por completo.
A vingança, se continuarmos a querer chamar-lhe assim, está em sangrar lentamente tudo ao alvo da mesma até que apenas sobre a culpa e esta pese demais.
A concretização física de todo este acto é um efeito e não um objectivo.


















Obrigada, Patrão (Rui Lacas)
Edições Asa
1ª edição - Outubro de 2007
96 páginas

domingo, 21 de novembro de 2010

Desvario na primeira pessoa

Não tenho interesse particular na vida dos yuppies de Wall Street, embora entre Wall Street e American Psycho já tenha visto o quanto essas personagens podem ser (brutalmente) interessantes.
Ainda assim, uma autobiografia fazia-me duvidar. 600 páginas de um homem a contar a sua própria história não prometiam uma leitura muito fascinante.
Mas começa o prólogo com a iniciação do Lobo na correctagem com a promessa e que ele ainda vai a tempo de se tornar alcoólico e o interesse muda de orientação de imediato.
A partir daí as 600 páginas correm e há uma verdadeira alucinação de uma vida de excessos e de falta de convicções de qualquer espécie.
Esta é uma vida que podia ter sido criada por Hunter S. Thompson, carregada de drogas, sexo e dinheiro.
Ou, dito de uma forma mais evidente, vida carregada de poder e inconsciência, possibilidades ilimitadas sem sentido crítico que as ampare.
Com uma preferência por Quaaludes, o Lobo de Wall Street - ou Gordon Gekko, ou Don Corleone, ou Kaiser Soze - não dá tréguas a si mesmo no relato da sua queda até ao abismo.
Com uma escrita tão acelerada como os seus acontecimentos, com a recriação de diálogos desvairados e com uma falta de pudor perante a humilhação, esta autobiografia é um livro de plena brutalidade vivida demasiado depressa para um ser humano comum.
A queda dá direito a uma pequena retoma lá mais para o final, mas são 9 anos de loucura sempre à mão de semear, para uma pequena hipótese.
Quem disser que não adorou entrar no raio desta montanha russa de concretização, paranóia e ferocidade, provavelmente estará a mentir.
Se perguntarem se o livro dá uma ideia do limite que o ser humano é capaz de atingir, respondo sim.
Se perguntarem se o livro constata que o domínio de nós mesmos e da realidade está quase sempre para lá de nós, respondo sim.
Se perguntarem se o livro é essencial para termos consciência de qualquer um destes aspectos, aí responderei não. Mas que foi uma trip daquelas... lá isso foi!


















O Lobo de Wall Street (Jordan Belfort)
Editorial Presença
1ª edição - Setembro de 2010
632 páginas

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Personagem autor

O Especialista faz de si próprio personagem, ou não construísse um novo nome para ele próprio quando decide abandonar a profissão que tinha. Tem muita pose, como convém a um assassino - ou a um ex-assassino que, no final de contas, não pode fugir do que sempre foi.
Ao leitor afirma que não retira prazer da matança, mas deixa que o relato se alongue com os contratos que o encheram de orgulho.
Com os seus parceiros faz a contabilidade dos saltos de mulher para mulher, mas logo se apaixona até à monogamia.
O personagem não é todo ele fabricação, é também em parte pura complexidade humana.
José retira prazer da leitura, sobretudo da poesia, mas também ouve rock nos auscultadores.
pontua a sua vida com citações dos clássicos em Latim mas distribui alcunhas com o sabor do calão.
A sua pose distante cede ao conforto de uma mulher, os seus instintos calculistas vergam-se quando ela duvida.
Quanto do livro é ficção e quanto do livro é reprodução do seu autor?
A pergunta surge mas a resposta não interessa verdadeiramente. Ainda assim temos a fixação em sabê-lo.
Que leitor não acreditará que os prazeres de José são também os de Rubem?
José é tão humano como nós. Poderia ser tão real como nós, mas está na página.
Rubem é tão real como nós. Poderia ser tão ficcional como os seus personagens, mas viveu mais do que a conta.
Não sabemos exactamente quem é José, como não sabemos exactamente quem é Rubem. Adivinhamo-los pelos pormenores, pelo pouco que contam.
Rubem parece deixar um pouco de si em cada um dos seus noir, ou gostamos de assumir que sim por ele ter sido polícia.
Deixemos que ele nos deixe várias vezes mais a adivinhar, sobretudo enquanto os seus livros tiverem esta desenvoltura no manejo da língua, esta ferocidade cinematográfica e este encanto de imperfeição brilhante.


















O Seminarista (Rubem Fonseca)
Sextante Editora

1ª edição - Setembro de 2010
136 páginas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O fim como o início

A caminho do final da saga, Fitz ainda está obrigado à busca e à luta por um objectivo.
O primeiro é a sua humanidade, à qual ele tem de regressar depois de ter sido acossado pela ira irracional do seu tio.
Recuperar a sua humanidade dar-lhe-á uma hipótese de vingança, mas significa também abdicar do prazer de viver livre como o seu lobo e voltar a sentir a dor física e mental de todas as perdas e de todas as crueldades que lhe caíram em cima.
E o seu objectivo seguinte, o final, é o que finalmente concluirá a demanda da época conturbada da linhagem Visionário.
Acima de tudo, a fantástica incursão por terrenos desconhecidos onde o poder da magia traça o percurso termina como começou a saga, bem escrita, com gritante originalidade e com uma atenção detalhada à composição das fortes personagens que dão vida à história.
Disse-o várias vezes ao longo das críticas aos anteriores volumes e aqui o repito novamente, na construção intensa das personagens e na forma como eles se comportam no ambiente particular do género que obriga a uma reflexão sobre a identidade humana está mais do que a base de uma grande saga, está a base da boa literatura.
Que o último livro seja o primeiro cujo título não se refere mais ao Assassino mas sim ao Visionário, um verdadeiro elemento da linha real, não é nada menos do que justo.
O rapaz que cedeu tudo o que tinha, que abodeceu a todos os compromissos e chamamentos, descobriu no final o seu papel que ninguém lhe poderia ter ditado nem traçado.
Quando ele finalmente arrebatou a sua própria existência, quando fez emergir o seu poder e a sua decisão, a partir daí conquistou um nome próprio.
Pode ter perdido tudo o resto pelo caminho, mas conquistou a sua identidade.
A Saga do Assassino levou-nos ao nascimento do Visionário e embora até ao fim seja, realmente, uma demanda, no fim por algo já tão ténue como um pequenho chamamento repetido no interior da sua cabeça, é uma conquista humana ambientada num mundo de fantasia único.


















A Vingança do Assassino (Robin Hobb)
Saída de Emergência

1ª edição - Janeiro de 2010
448 páginas



















A Demanda do Visionário (Robin Hobb)
Saída de Emergência

1ª edição - Julho de 2010
480 páginas

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

No coração do conflito

Com DMZ Brian Wood trouxe a guerra para o coração de um país que, depois da sua Guerra Civil, não mais sentiu o conflito no seu próprio território.
Sendo esse coração Manhattan, zona onde está a única ferida no tecido geográfico e sentimental norte-americano, o trabalho tem tanto de estima como de dor.
Manhattan está entregue ao conjunto de habitantes que restou, mas está também na ponta do mapa que os dois exércitos pretendem conquistar. A ferida americana tem de ser protegida e estimada, tem de ser do povo mas é nela que é preciso esgravatar se se pretende acordar a consciência desse mesmo povo.
Aqui mostra-se claramente o que é a guerra a um povo para quem os mais violentos conflitos do século XX existiram apenas de forma quase imaterial, mesmo quando contestados profundamente.
A violência era sempre levada pelos soldados americanos até a um outro país e apenas era devolvida aos familiares que enviavam familiares para a frente de batalha e recebiam de volta nada mais que condolências.
A ficção de DMZ faz o assentimento de que os EUA precisa de compreender de forma directa o que é a guerra e o que ela comporta.
DMZ coloca os EUA no papel inverso, o papel que nunca teve, o papel de invadido ao invés de invasor.

A partir daí a ficção plena de força retrata com bastante sentido de oportunidade, ou não tivesse acompanhado temporalmente o clima político e social difícil que viviam, e com bastante compreensão da realidade, como o prefácio de um soldado americano a um dos volumes atesta, a possibilidade de uma guerra de dentro para dentro.
O primeiro passo da série é criar uma noção imediata de reconhecimento e plausabilidade. Dar uma vida ao espaço, com igual extensão de diferenças e peculiaridades como tinha no momento em que lá não existia guerra.
Isso é mais claro e mais bem sucedido quando se vê no final de DMZ: Body of a journalist um dossier jornalístico sobre a vida na cidade, com referência a locais frequentados, entrevistas de rua e fanzines ou livros como objectos culturais lá nascidos.
Dar uma vida a um tempo característica das condições criadas mas com um grande paralelo com a realidade americana presente.
Tendo esse ponto conseguido, tendo estabelecido uma vida para a sua personagem central em traços largos, a série persegues temas críticos.
Em DMZ: Body of a journalist é a manipulação de imprensa e da informação, a forma como o jornalista é usado e abandonado, como a sua vida é manobrada real e virtualmente e como a informação é sempre uma ferramenta com um intuito preciso. O problema é que a informação é, pois, forjada e forjar ainda tem dois significados antagónicos...
DMZ: Friendly fire é mais cruel ainda e desnuda a violência de que são capazes os soldados e o povo. É um alerta para a perda da inocência causada, para a realidade oca da elevada moralidade local.
O julgamento do que é a verdadeira realidade de um soldado no espaço do conflito, da evidência não desculpabilizante dos erros possíveis de ocorrerem, passa depois a ser também a divisão de culpas entre quem lá está e quem manifesta o sentimento que esses soldados apenas exprimiram com a força das circunstâncias que lhes atiçaram.
Só a história de DMZ: Public works é que me parece ter surgido cedo demais na narrativa global. Os interesses económicos de uma guerra eram uma constatação urgente, mas os resultados práticos da abordagem feita não são ideais.
Este pedaço de narrativa não é tão forte como os restantes e fica enclausurado na demonstração de um argumento. Se esta história não existisse o resultado para as vidas desenhadas era o mesmo.

Claro que DMZ, sendo uma série de banda desenhada, não conseguirá atingir o público que verdadeiramente deveria.
A maioria dos que o lerem já terão consciência da realidade, já terão acesso à informação e um sentido crítico às ocorrência bélicas em que o seu país se envolve.
Nem por isso a utilização de um meio popular e tão facilmente acessível deve ser menos do que evidenciada, sobretudo nesta forma que por pouco não será, para bastantes pessoas, um incentivo à rebelião e ao terrorismo.
Não é, pois como já disse, há um carinho na construção de uma comunidade sensível em torno do ground zero, por isso para os restantes de nós, leitores com uma perspectiva distinta, com um entendimento multifacetado tanto da vida interna como da presença externa dos EUA, toda a série se mostra como uma obra de ficção de alto nível.
Se não precisamos dela para ganhar consciência, pelo menos podemos apreciá-la sem rodeios nem julgamentos imprecisos.


















DMZ: On the ground (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Junho de 2006
128 páginas



















DMZ: Body of a journalist (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2007
168 páginas



















DMZ: Public works (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Setembro de 2007
128 páginas



















DMZ: Friendly fire (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Março de 2008
128 páginas

domingo, 7 de novembro de 2010

Bases da grande literatura

Não sei quantos leitores de elevada exigência incluiriam Michael Moorcock numa lista dos mais significativos autores da sua biblioteca.
O seu Elric, que descobri primeiro através de uma versão em banda desenhada e, mais recente e devidamente, através da Saída de Emergência, agrada-me mas não me seduz ao regresso como Solomon Kane.
Mas é para ele e sob a sua égide que Michael Chabon inicia este livro. Aliás, esta compilação em livro de um folhetim originalmente publicado na The New York Times Magazine.
Com isto Michael Chabon está a provar, em definitivo, que é possível fazer grande literatura a partir de bases populares e inesperadas, seja o noir de Chandler em O Sindicato de Polícias Iídiches, a banda desenhada em As espantosas aventuras de Kavalier & Clay ou os serials neste caso.
Bases tanto inpiracionais quanto práticas. O género a sugerir um tema onde cabem ideias mais extensas. O ritmo e as sequências a oferecerem estruturas com possibilidades quase ilimitadas para o gosto e a demanda de Chabon pelo cuidado e a inventividade da linguagem.
Neste caso, a aventura de tom vertiginoso esconde toda a complexidade de um mais um estudo pertinente sobre a identidade judaica, o que ele já fazia com os dois outros livros que dele li.
Tal estudo não empastela a narrativa nem lhe encobre o interesse literário globalizado que tem ou, pelo menos, deveria ter quando lemos sobre estes dois fantásticos personagens.
Dúbios, complexos, dignos quando o seu carácter prometeria o oposto, cheios de recursos e com uma entrega inquestionável ao objectivo que está diante de si.
Mesmo quando se comportam de forma censurável mantêm uma dignidade digna de nota.
São, como já eram Elric e Conan, anti-heróis sedutores. São figuras complexas, com defeitos e sujeitos a críticas, que substanciam o percurso literário de aventuras que foram a um tempo ingénuas mas chegaram mais perto da mutação e evolução dos seus próprios leitores.
Personagens que percorrem um cenário parcialmente esquecido mas não menos digno de relevo. Um cenário que é, quando devidamente se procura desvendá-lo para lá do fim do livro, uma personagem tão significativa quanto os dois protagonistas.
Grande literatura partindo de um lugar inesperado que deverá levar os leitores a interrogar-se sobre a atenção que dão a este género em geral - e, no meu caso particular, a Elric em particular.


O único (des)apontamento a fazer à edição deste livro em Portugal vai para a não inclusão das 15 ilustrações realizadas por Gary Gianni para acompanhar o texto.
Deixo um magnífico exemplo do trabalho para que quem se apaixone por este livro possa vasculhar os recantos da net e ver as imagens, aproveitando certamente para reler o livro com elas ao lado.


















Cavalheiros da estrada (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Junho de 2010
176 páginas

sábado, 6 de novembro de 2010

O noir de hoje como no passado

Michael Chabon voltou a escolher um cenário extravagante e extraordinário para o seu livro.
Este pedaço de História alternativa tem o dom de unir o final da II Guerra Mundial ao presente com uma riqueza que torna tudo plausível e sedutor.
A partir do momento em que estamos capturados neste ambiente, o livro só pode melhorar.
Tal coisa acontece com a criação de Meyer Landsman, um polícia perdido no seio de um povo à beira de perder o local a que pertence.
Landsman é um homem que vive na fatalidade e que anda fatalmente distanciado dos que o rodeiam. É um papel para Humphrey Bogart no caso dele ser judeu e viver no Alasca
A sua ex-mulher é agora a sua chefe e o seu parceiro pertence ao povo que vai ficar com o seu pedaço de Alasca.
Tem apenas de encerrar os casos abertos para despachar o assunto para a administração seguinte mas logo se sente obrigado a resolver um assassinato cuja única relação consigo é ter acontecido no mesmo hotel reles em que ele agora mora.
Nessa senda sujeita-se a falhanço atrás de falhanço, mas progride sempre mais uma posição. Um ser humano pouco credível e um polícia pouco fiável, mas o único a quem ainda confiaríamos algo.
Um homem como o xadrez que odeia e que acompanha toda a trama mas só revela a sua verdadeira implicação no final.
O xadrez é essencial para a resolução da trama, mas também para que ela se inicie, não se trata meramente de sugerir que os personagens são peças jogadas para a frente e para trás.
Todos aqui decidem porque são obrigados, mesmo sujeitos a um xeque-mate certo têm de decidir a sua jogada seguinte.
Não há mais movimentos no tabuleiro, até porque o seu tabuleiro em breve ser-lhes-á retirado e eles, jogadores, ficarão a olhar para o vazio. E, ainda assim, têm de progredir, jogar por descargo de consciência ou obrigação.
Por isso só o noir servia a tal história - embora haja mais géneros e estilos na mistura - e no estilo brilhante de Chabon vêem-se bem os traços gerais do género tratados com respeito, paixão e convicção sustentando uma procura de modernidade.
Mais um grande livro de um autor que, suponho, se alguma vez falhar continuará a fascinar pela sua qualidade da sua tentativa.


















O Sindicato de Polícias Iídiches (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Outubro de 2009
380 páginas

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Talento intemporal

Bastou ler este livro uma vez para colocar Michael Chabon entre os meus autores favoritos, aqueles autores que têm um lugar especial entre as prateleiras lá de casa.
O tema, a idade de ouro da banda desenhada americana, ajudou. Foi esse o primeiro motivo que me levou ao livro.
O meu fanatismo pela nona arte - uso o termo por hábito, embora tenha dúvidas sobre a ordem dada por Ricciotto Canudo e sobre o seu prolongamento, até porque em mais do que um caso vem sendo reinvindicada esta posição em particular para a Gastronomia - deu-me o motivo para chegar à obra e a expectativa de me apaixonar rapidamente por ele.
Porém não me deu o entendimento para o que poderia estar prestes a descobrir - certamente na altura não fazia ideia, por desinteresse, do que é ou do que representa o Prémio Pulitzer.
O livro de Chabon revelou-se magnífico na altura e revela-se magnífico hoje.
Relê-lo hoje foi descobrir novas maravilhas em passagens que anteriormente tinham ficado escondidas pela força de outras.
Relê-lo hoje é verificar que os personagens ainda guardam traços que estão para lá da imagem que guardei deles.
O que, por outro lado, nunca foi esquecido e que nunca deixará de funcionar maravilhosamente é a profundidade dramática de Chabon num cenário que prometia ser mais adequado a um divertimento e a sua ambição na construção de um livro que seja, tanto pelo conteúdo como pelo estilo, um pedaço das décadas sobre as quais escreve.
Mais ainda, a pura criatividade e talento literário de Chabon colocam no livro algo que, longe de ser fundamental, lhe dá um fascínio maior. Falo dos capítulos praticamente autónomos - reli-os isoladamente ao longo dos anos - em que ele descreve os personagens e as histórias de banda desenhada que os seus próprios personagens criam ao longo do livro.
E a forma como ele o faz, com a delineação das palavras a conseguir o que nenhum grande artista seria capaz de recriar - basta comparar esses capítulos com os comics publicados pela Dark Horse.
Este livro ficará inscrito na História literária, acima de tudo pela sua qualidade, mas igualmente porque o seu retrato fulgurante da cultura popular de meados do século XX será parte da forte memória que a ficção lança para o futuro.
A banda desenhada americana tem influência no percurso americano, os bastidores da sua criação são tão importantes como as efemérides do surgimento dos super-heróis nas suas páginas.
O tema do livro poderá parecer incomum e uma escolha estranha para os leitores de grande exigência que não estão familiarizados ou desacreditam a banda desenhada, mas o tema não estará longe de ter a mesma relevância para o século XX como as guerra Napoleónicas tiveram para o século XIX.
E não me parece difícil que, no futuro, a obra monumental de Chabon possa ser vista numa perspectiva semelhante à de Tolstói.


















As espantosas aventuras de Kavalier & Clay (Michael Chabon)
Gradiva
1ª edição - Abril de 2003
672 páginas

domingo, 31 de outubro de 2010

A parte chata

Quando li a sinopse deste livro esperei um policial em jeito de profiler com a dimensão própria de um auto-didacta que se treinou, entre livros e observação sistemática, num estudioso do carácter humano através das feições.
Já quando comecei a ler o livro a implausível justificação para o seu decorrer pareceu-me um MacGuffin que colocava o livro entre Hitchcock e Kafka.
Passando os elementos divulgativos que o autor introduz à sua profissão, parece que o livro vai enveredar por uma perseguição injustificada ao protagonista e capaz de ser confundida com obsessão pouco saudável.
O livro não joga nenhuma dessas cartadas, começa a ser meramente ilustrativo das acções de uma perseguição monótona e demasiado visível, e vai terminar sem graça nem desafio.
A narrativa está manca por ser tão directa, tão clara, tão objectiva.
Tudo o que acontece é a verdade identificada de imediato pelo protagonista. Tudo o que acontece é maldoso mas desfaz-se.
Não há nenhum dos elementos da tragédia, esta obra é como o relato do intervalo no bom funcionamento da vida do seu protagonista ou, ainda mais, esta obra é a contradição ao que disse Hitchcock: este é a parte chata da vida que não deveria ter feito parte da ficção.


















O Fisionomista (Jacinto Borges)
Chiado Editora

1ª edição - Junho de 2010
128 páginas

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fábula real

Se há uma pergunta em Fábula de Bagdad é se a liberdade é uma conquista ou um bem pelo qual se paga o preço elevado da dignidade e da coesão.
Se a liberdade permite que o indivíduo se liberte de constrições que o pareciam diminuir - no caso dos leões, ser alimentado quando o instinto é caçar - até que ponto o indivíduo perde a noção de grupo e a força que este lhe traz para seguir uma trajectória determinada exclusivamente por si.
Em que momento pode a liberdade deixar de ter significado e transformar-se em solidão?
Até onde se pode ir se o mundo que é entregue - mais do que entregue, forçado - a estes leões está meramente despojado de vida?
Do ponto de vista animal, o mundo apresenta-se através de conceitos imberbes, gerados para completar os espaços da realidade felina.
Daí que seja impressionante confrontar-nos com a megalomania humana quando os leões são incapazes de conceber que "criaturas daquele tamanho" (tanques blindados, entenda-se) tenham inimigos, quando tais objectos são precisamente o que atrai predadores bélicos maiores.
O olhar ingénuo destes animais é o que nos fala sobre nós mas as suas acções ausentes de influência humana são o que nos censura.


Embora a tradução do título leve a perdas de significado (como Pedro Moura bem assinalou), a indicação portuguesa tem muito sentido, não só por estes ensinamentos humanos dados por animais, mas até pelo traçado realista com algumas características mais imaginativas que sugerem a efabulação - e tal fica bem resumido no momento em que uma das leoas se vê perante a representação de um leão alado - com a expressividade facial a conjugar o animal e o humano, bem como o reconhecimento e a surpresa. Os animais são o contacto directo entre o real e o inimaginável nesta história.
Como o antropomorfismo não é total nem simbólico, ou seja, os animais não têm o porte humano nem, pelo contrário, as suas características servem para acentuar os traços de humanos, estamos de facto muito próximos de Esopo ou Beatrix Potter, com a capacidade expressiva dos animais a servir para demonstrar uma ideia forte sobre a realidade.
Tal como os muitos tons ocres e amarelos - e suponho que realistas considerando o ambiente onde se desenrola a história - do livro são asfixiantes mas também deles surgem mais facilmente pequenas maravilhas, tanto para o que será o ponto de vista animal, como para o ponto de vista do leitor.
A "Fábula" faz sentido aqui para resgatar um ambiente onde a destruição é a única expectativa. Que se baseie numa história real é uma surpresa mágica que reforça todo o significado do livro.


















Fábula de Bagdad (Brian K. Vaughan e Niko Henrichon)
BdMania
1ª edição - Dezembro de 2007
136 páginas

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O herói (fora) do cinema

Este ano já tivemos oportunidade de acompanhar uma reinvenção de Robin Hood como herói superlativo da História inglesa.
Não era o herói certo porque o Robin Hood do cinema quer-se aventuroso, divertido, espirituoso. Numa palavra, colorido.
Já neste livro, o contrário resulta e a rispidez realista do Robin Hood mafioso é algo que temos verdadeira vontade de ler.
A reinvenção mais crua e até mesmo mais plausível do que foi a vida de um mito tem razão de ser.
A violência e a crueldade que conhecemos do período onde o autor inseriu o seu Robin Hood exige uma resposta igual de um personagem que tem um poder incomparável sobre um grupo que se expande - em números e em território - facilmente e que tem de dominar com a mesma dureza com que estes homens aprenderam a viver.
A história de Robin Hood é a mesma que conhecemos já, apenas contada de uma perspectiva mais severa.
E Robin Hood tem traço humanos que o tornam mais do que um mero Padrinho, mas são pormenores que o tornam mais rico como personagem e que são, afinal de contas, plausíveis.
Esta é a reinvenção do herói que funciona, porque fora do cinema este Robin Hood pode existir.


















Fora-da-lei (Angus Donald)
Objectiva
1ª edição - Abril de 2010
374 páginas

domingo, 24 de outubro de 2010

Divertimento portátil

Diria que era uma perspectiva inesperada que Christopher Moore tivesse já uma mão cheia de livros editados em Portugal.
Afinal, não é um autor com um talento assinalável para a escrita e nem o humor é um género de apreciável expansão por cá.
Em Minha Besta ficam evidentes as deficiências narrativas de Moore que tem lapsos que exigem algum raciocínio de completação e, outras vezes, algum exercício de esquecimento para que a história continue unida e flúida.
Já o seu humor tem o dom de fazer precisamente o contrário, manter o leitor obcecado com os detalhes das suas ideias.
A visão de Christopher Moore tem uma liberdade infantil sobre o que o potencial do mundo e um reaccionarismo provocador que não aceita limites para o que pode fazer com o mundo.
Acho que esta combinação fica bem resumida naquela que é, provavelmente, a mais persistente ideia deste livro, quando um grupo de amigos gastam meio milhão de dólares com uma prostituta que tem um truque para se potenciar, pinta-se de azul. O motivo que os levou a isso foi, pois claro, a descoberta de uma vontade partilhada da sua infância, a de foderem um estrumpfe.
Valeria a pena reflectir sobre se um livro será o meio certo para Christopher Moore. Um programa de sketches ou meia hora de stand up poderiam funcionar melhor, baseados apenas nas ideia de Moore e sem necessidade de consistência narrativa.
Claro que esses dois meios impediriam que abríssemos um livro e sermos prendados com um início como Mataste-me, meu estafermo! Tu não prestas! ou que andássemos a lê-lo em público e a tentar conter o riso.
Ter a hipótese de andar com um pedaço de humor assim no seio da "boa sociedade" torna-o ainda mais divertido.


















Minha Besta (Christopher Moore)
Gailivro
Sem indicação da edição - 2008
344 páginas

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pequenos objectos

Quando viajo gosto de fazer o circuito de livrarias, se é que se pode chamar assim a entrar em todos os locais remotamente semelhantes a uma livraria e ir pedindo direcções até uma próxima ou melhor livraria.
Foram várias as surpresas agradáveis que tive ou os motivos para inveja que trouxe ao regressar ao nosso país.
Nas surpresas assinalaria a Toletta, por exemplo, que é uma grande livraria - ocupa quatro cantos numa intersecção de ruas - com identidade de pequena livraria acolhedora, que vende livros antigos a peso usando uma velha balança de merceeiro.
Quanto a invejas, a maior será sempre a quantidade e qualidade de edições de banda desenhada que são editadas com os jornais, em capa dura, papel de qualidade e preços óptimos.
Mas uma das coisas que mais me importou assinalar foi a Juke-Box Letterari. Podem ver na imagem do que se trata, um expositor colocado em algumas das paragens de Vaporetto (e, como poderão notar, nas paragens de Metro de diversas outras cidades) onde se distribuem pequenas edições literárias.
Nesta paragem em particular o primeiro número lançado já estava vazio, noutra todos os livros tinham sido levados e somente na paragem que dava para uma universidade é que todos os livros ainda estavam disponíveis em boa quantidade - e não tirarei ilações daqui, embora me pareça que não fosse um local de regular reposição dos pequenos livros.


Voltando à mesma ideia sobre a qual já escrevera, ninguém se parece importar com a pouca qualidade do papel e da edição - que não deixa de ser cuidada, atenção! - na altura de ler ou de publicar.
Há desde poesia a horror, há experimentação literária, e os seus autores não têm medo de que estas edições possam parecer mais descartáveis do que coleccionáveis - e isto apesar de todos os textos estarem acompanhados de ilustrações de capa interessantes e prefácios de pessoas "assinaláveis".
Estes pequenos livros são tratados como invólucros, veículos para chegar às pessoas e pensados como temporários, recicláveis.
Não faço aqui uma defesa do desprezo do livro, antes penso a mistificação do livro até por ser bastante picuinhas no que trata ao estado geral dos meus livros.
Julgo é que temos de colocar a ideia do livro ao nível popular, ao nível do transversalmente acessível, não só a quem possa ler mas a quem queira publicar.
O que importa a publicidade impressa, o que importa a página que se rasga num virar mais vigoroso se o escritor consegue contactar e tocar as pessoas com as suas palavras?
Não quero dizer que em Portugal não haja quem trabalhe para abrir portas a escritores sem oportunidades, mas não tenho lembrança de um processo assim tão generalizado, diversificado e apoiado como este.
Suponho que o meu objectivo verdadeiro seja o de colocar o escritor e o livro ao nível de qualquer banal profissão e objecto, respectivamente, para sentir que mais pessoas chegarão à possibilidade de ser um e ainda mais pessoas chegarão à realidade de ler um, de novo respectivamente.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Da bela morte

Há vários anos atrás, numa vontade súbita de ler Thomas Mann, optei por Morte em Veneza e não por A Montanha Mágica.
Apesar de ser este segundo aquele de que mais tinha ouvido falar, o outro era mais maneiro para um adolescente - tratava-se de uma edição de bolso da Europa-América.
Na altura de preparar as leituras que me iriam acompanhar na viagem a Veneza, Morte em Veneza este livro encabeçou a lista (pequena, confesso, que o trabalho não deixaria muito tempo a leituras) dos livros que mudariam temporariamente de país.
Foi uma decisão que se revelou mais do que perfeita e suponho que, tanto antes como depois de mim, muitos serão os que chegarão a essa mesma constatação.
Quando o ambiente que extravasa do livro se confunde com o ambiente que nos rodeia há uma espécie de magia resultante de uma concretização literal da palavra que nos fascina.
Daí que, de futuro, em qualquer viagem, vá tentar associar com precisão o livro que me acompanha à cidade por onde passarei.

Sobre a releitura do livro, foi ainda mais fascinante. A escrita portentosa e sugestiva mas serena, a economia de meios com que Mann conta uma história a que me apetece chamar absoluta por dizer tudo - ou sugerir - o que é importante sobre Cultura, Beleza e Morte, elementos de que não me recordava quando me lembrava da trama mas que são inesquecíveis agora.
Embora o livro seja magnífico, o seu texto diz-nos precisamente que a busca do artista pela beleza absoluta nunca deve ser concretizada.
Caso contrário este queda-se, deixa de decidir ou actuar e espera apenas pelos vislumbres da perfeição que encontrou. O artista desiste do seu papel crendo ou temendo que a Beleza, visibilidade do Espiritual, a ocorrer, seja sempre superior ao seu papel de procura da mesma.
Assim como o artista, também qualquer homem que se renda ao objecto que nem sonhava desejar está a menorizar o seu papel na criação do divino - entendido como o que supera toda a sua própria capacidade de entendimento, mesmo pela via dos cinco sentidos.
Talvez a peste seja um preço justo pela apreciação dessa beleza e pelo arrebatamento irreal, mas esperar a morte em troca do mero vislumbre da perfeição é rejeitar o que se é.


















Morte em Veneza (Thomas Mann)
Colecção Mil Folhas/Público

Novembro de 2002
98 páginas