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domingo, 7 de novembro de 2010

Bases da grande literatura

Não sei quantos leitores de elevada exigência incluiriam Michael Moorcock numa lista dos mais significativos autores da sua biblioteca.
O seu Elric, que descobri primeiro através de uma versão em banda desenhada e, mais recente e devidamente, através da Saída de Emergência, agrada-me mas não me seduz ao regresso como Solomon Kane.
Mas é para ele e sob a sua égide que Michael Chabon inicia este livro. Aliás, esta compilação em livro de um folhetim originalmente publicado na The New York Times Magazine.
Com isto Michael Chabon está a provar, em definitivo, que é possível fazer grande literatura a partir de bases populares e inesperadas, seja o noir de Chandler em O Sindicato de Polícias Iídiches, a banda desenhada em As espantosas aventuras de Kavalier & Clay ou os serials neste caso.
Bases tanto inpiracionais quanto práticas. O género a sugerir um tema onde cabem ideias mais extensas. O ritmo e as sequências a oferecerem estruturas com possibilidades quase ilimitadas para o gosto e a demanda de Chabon pelo cuidado e a inventividade da linguagem.
Neste caso, a aventura de tom vertiginoso esconde toda a complexidade de um mais um estudo pertinente sobre a identidade judaica, o que ele já fazia com os dois outros livros que dele li.
Tal estudo não empastela a narrativa nem lhe encobre o interesse literário globalizado que tem ou, pelo menos, deveria ter quando lemos sobre estes dois fantásticos personagens.
Dúbios, complexos, dignos quando o seu carácter prometeria o oposto, cheios de recursos e com uma entrega inquestionável ao objectivo que está diante de si.
Mesmo quando se comportam de forma censurável mantêm uma dignidade digna de nota.
São, como já eram Elric e Conan, anti-heróis sedutores. São figuras complexas, com defeitos e sujeitos a críticas, que substanciam o percurso literário de aventuras que foram a um tempo ingénuas mas chegaram mais perto da mutação e evolução dos seus próprios leitores.
Personagens que percorrem um cenário parcialmente esquecido mas não menos digno de relevo. Um cenário que é, quando devidamente se procura desvendá-lo para lá do fim do livro, uma personagem tão significativa quanto os dois protagonistas.
Grande literatura partindo de um lugar inesperado que deverá levar os leitores a interrogar-se sobre a atenção que dão a este género em geral - e, no meu caso particular, a Elric em particular.


O único (des)apontamento a fazer à edição deste livro em Portugal vai para a não inclusão das 15 ilustrações realizadas por Gary Gianni para acompanhar o texto.
Deixo um magnífico exemplo do trabalho para que quem se apaixone por este livro possa vasculhar os recantos da net e ver as imagens, aproveitando certamente para reler o livro com elas ao lado.


















Cavalheiros da estrada (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Junho de 2010
176 páginas

sábado, 6 de novembro de 2010

O noir de hoje como no passado

Michael Chabon voltou a escolher um cenário extravagante e extraordinário para o seu livro.
Este pedaço de História alternativa tem o dom de unir o final da II Guerra Mundial ao presente com uma riqueza que torna tudo plausível e sedutor.
A partir do momento em que estamos capturados neste ambiente, o livro só pode melhorar.
Tal coisa acontece com a criação de Meyer Landsman, um polícia perdido no seio de um povo à beira de perder o local a que pertence.
Landsman é um homem que vive na fatalidade e que anda fatalmente distanciado dos que o rodeiam. É um papel para Humphrey Bogart no caso dele ser judeu e viver no Alasca
A sua ex-mulher é agora a sua chefe e o seu parceiro pertence ao povo que vai ficar com o seu pedaço de Alasca.
Tem apenas de encerrar os casos abertos para despachar o assunto para a administração seguinte mas logo se sente obrigado a resolver um assassinato cuja única relação consigo é ter acontecido no mesmo hotel reles em que ele agora mora.
Nessa senda sujeita-se a falhanço atrás de falhanço, mas progride sempre mais uma posição. Um ser humano pouco credível e um polícia pouco fiável, mas o único a quem ainda confiaríamos algo.
Um homem como o xadrez que odeia e que acompanha toda a trama mas só revela a sua verdadeira implicação no final.
O xadrez é essencial para a resolução da trama, mas também para que ela se inicie, não se trata meramente de sugerir que os personagens são peças jogadas para a frente e para trás.
Todos aqui decidem porque são obrigados, mesmo sujeitos a um xeque-mate certo têm de decidir a sua jogada seguinte.
Não há mais movimentos no tabuleiro, até porque o seu tabuleiro em breve ser-lhes-á retirado e eles, jogadores, ficarão a olhar para o vazio. E, ainda assim, têm de progredir, jogar por descargo de consciência ou obrigação.
Por isso só o noir servia a tal história - embora haja mais géneros e estilos na mistura - e no estilo brilhante de Chabon vêem-se bem os traços gerais do género tratados com respeito, paixão e convicção sustentando uma procura de modernidade.
Mais um grande livro de um autor que, suponho, se alguma vez falhar continuará a fascinar pela sua qualidade da sua tentativa.


















O Sindicato de Polícias Iídiches (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Outubro de 2009
380 páginas

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Talento intemporal

Bastou ler este livro uma vez para colocar Michael Chabon entre os meus autores favoritos, aqueles autores que têm um lugar especial entre as prateleiras lá de casa.
O tema, a idade de ouro da banda desenhada americana, ajudou. Foi esse o primeiro motivo que me levou ao livro.
O meu fanatismo pela nona arte - uso o termo por hábito, embora tenha dúvidas sobre a ordem dada por Ricciotto Canudo e sobre o seu prolongamento, até porque em mais do que um caso vem sendo reinvindicada esta posição em particular para a Gastronomia - deu-me o motivo para chegar à obra e a expectativa de me apaixonar rapidamente por ele.
Porém não me deu o entendimento para o que poderia estar prestes a descobrir - certamente na altura não fazia ideia, por desinteresse, do que é ou do que representa o Prémio Pulitzer.
O livro de Chabon revelou-se magnífico na altura e revela-se magnífico hoje.
Relê-lo hoje foi descobrir novas maravilhas em passagens que anteriormente tinham ficado escondidas pela força de outras.
Relê-lo hoje é verificar que os personagens ainda guardam traços que estão para lá da imagem que guardei deles.
O que, por outro lado, nunca foi esquecido e que nunca deixará de funcionar maravilhosamente é a profundidade dramática de Chabon num cenário que prometia ser mais adequado a um divertimento e a sua ambição na construção de um livro que seja, tanto pelo conteúdo como pelo estilo, um pedaço das décadas sobre as quais escreve.
Mais ainda, a pura criatividade e talento literário de Chabon colocam no livro algo que, longe de ser fundamental, lhe dá um fascínio maior. Falo dos capítulos praticamente autónomos - reli-os isoladamente ao longo dos anos - em que ele descreve os personagens e as histórias de banda desenhada que os seus próprios personagens criam ao longo do livro.
E a forma como ele o faz, com a delineação das palavras a conseguir o que nenhum grande artista seria capaz de recriar - basta comparar esses capítulos com os comics publicados pela Dark Horse.
Este livro ficará inscrito na História literária, acima de tudo pela sua qualidade, mas igualmente porque o seu retrato fulgurante da cultura popular de meados do século XX será parte da forte memória que a ficção lança para o futuro.
A banda desenhada americana tem influência no percurso americano, os bastidores da sua criação são tão importantes como as efemérides do surgimento dos super-heróis nas suas páginas.
O tema do livro poderá parecer incomum e uma escolha estranha para os leitores de grande exigência que não estão familiarizados ou desacreditam a banda desenhada, mas o tema não estará longe de ter a mesma relevância para o século XX como as guerra Napoleónicas tiveram para o século XIX.
E não me parece difícil que, no futuro, a obra monumental de Chabon possa ser vista numa perspectiva semelhante à de Tolstói.


















As espantosas aventuras de Kavalier & Clay (Michael Chabon)
Gradiva
1ª edição - Abril de 2003
672 páginas