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sábado, 28 de julho de 2012

Negócio da Memória

Esta crítica não pretende colocar em causa a importância dos anos em que Pinochet dominou sobre o Chile. Ou a importância de se cultivar a memória de tais anos, dos muitos e cruéis actos perpretados pelo general no poder.
Aliás, como o post de abertura já indiciava e mais de três anos de escrita têm ajudado a compreender, não há frase mais acertada sobre o acto de escrever enquanto registo primordial da memória e, mais importante ainda, da memória colectiva do que aquela que abre a sinopse na contracapa: Escrevo porque tenho memória e a cultivo escrevendo...
Não poderia, pois, vir contrariar a necessidade de se ler este livro até ao fim. O que não é o mesmo que dizer que seja aprazível fazê-lo.
Não se trata de sofrer perante a imagem das muitas vítimas - que ganham o direito a ser representadas pela figura "palpável" do jovem Oscar Lagos Ríos - mas antes perante a própria formação do livro.
A compilação dos artigos que Sepúlveda escreveu durante três anos, para vários jornais tanto na América do Sul como na Europa, funciona mal como livro pois fica à mostra uma repetição que cansa o leitor, por mais que este queira respeitar a importância que possa reconhecer ao livro.
O facto dos artigos terem sido escritos num intervalo tão breve e para tantos públicos diferentes obrigou a que o escritor recorresse à mesma informação por várias vezes, nem sempre de maneiras distintas entre si.
O seu tema era apenas um, Pinochet (de forma directa ou não), tal como o seu objectivo era apenas um, consciencialização.
Os vinte e dois artigos aqui reunidos vão dando conta de outros detalhes, sobre o Chile e sobre o próprio autor sobretudo, mas as suas muitas páginas começam a parecer-se com um discurso repetido vezes sem conta, apenas modificado na sua forma para melhor se adaptar a cada local onde seria revelado.
Resta pois uma ideia incomodativa sobre o livro que alerta para o 30º aniversário do Golpe de Estado de Pinochet, que no final de contas foi uma decisão de negócios.
Artigos e autores relevantes que tenham escrito sobre a ditadura de Pinochet terão sido vários ao longo dessas décadas.
Mas apenas este escritor vende substancialmente em Itália, Portugal, Grécia e França (os países onde o livro foi editado simultaneamente, algo anunciado com refoço na contracapa).
Fica o esclarecimento sobre o mundo actual pela memória de um tempo passado: tudo se transforma em negócio.


O General e o Juíz (Luis Sepúlveda)
Edições Asa
3ª edição - Outubro de 2003
96 páginas

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um avô contando histórias

Este é o terceiro livro de Luis Sepúlveda que leio desde que iniciei este blogue e, assim de memória, serão pelo menos outros tantos que havia lido antes.
Não se trata de um autor que ache bom o suficiente para estar sempre a regressar a ele, até porque apenas por uma vez - com Diário de um Killer Sentimental - ele esteve próximo de deixar uma marca permanente na minha existência de leitor.
Mas é um escritor com um uso agradável das palavras e livros de leitura breve que se encaixam bem de permeio com duas outras quaisquer leituras. É, se tal classificação existisse, um escritor de meio da tabela que não surpreende positiva ou negativamente perante as expectativas geradas.
O que é o que volta a acontecer com este livro, embora pela primeira vez me tenha sentido cansado de ler as histórias do autor - apesar de não ocuparem mais do que uma mão cheia de páginas.
Como no seu último livro que li, Histórias daqui e dali, Sepúlveda usa seu melhor estilo de contador (oral) de histórias.
Há mesmo uma revelação de que é essa a sua forma de se atirar a estes pequenos relatos quando abre uma das suas histórias dizendo que é a favorita dos seus netos.
Não há nada de mal nisso, aliás era o forte do livro anterior que me passou pelas mãos. Mas o livro anterior tinha uma capacidade de sedução que este parece ter perdido.
Trata-se das histórias contadas que deixaram de ser exóticas com uma base emocional com que nos podemos identificar. Passaram antes a ser histórias muito mais chegadas ao próprio escritor, em grande parte dedicadas a pessoas que conhece ou admira e a situações que viveu.
Por isso é necessário gostar do homem para se gostar do que nos conta. É preciso ter-se sentimentos fortes por ele para se admirar os nobres sentimentos que ele quer transmitir.
Estes pedaços de realidade que ele vai trazendo à baila não são admiráveis pedaços de literatura, são apenas memórias simpáticas em que ele passou a ser personagem.
Verdade que ele viveu muito - ou, pelo menos, viajou muito e cruzou-se com muitas pessoas inusitadas - mas isto já são as histórias que um "simpático velhote" tem para legar a uma família que o recorde como figura tutelar, uma lenda para gerações que estão por vir.
Se os leitores fazem já parte dessa família é uma questão que estará por responder. Desconfio que as vendas do livro dirão "Sim" a isso, mas também sinto que Luis Sepúlveda presumiu demais ao tomar os leitores como mais dos seus netos.


As Rosas de Atacama (Luis Sepúlveda)
Porto Editora
1ª edição - Outubro de 2011
144 páginas

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Histórias de toda a gente

Estas não são histórias daqui e dali mas histórias de todo o mundo.
Ainda que situadas em grande parte na América Latina ou, ocasionalmente, na Europa, são histórias que se destacam dos seus locais de origem para se sediarem nas emoções dos seus protagonistas.
Através dessas, estas histórias tornam-se universais. Em todas elas reconhecemos amigos ou familiares que guardam a mesma imagem para nós que aqueles que Sepúlveda convocam guardam para ele.
São relatos nossos, como são dele. Sabemo-los como lembranças no diário, conversas com amigos ou recordações relatadas aos netos.
São formas expressivas de deixar assente a importância das emoções de momentos mais ou menos importantes no traço geral da existência, mas muito significativos na vida de quem conta.
Nessa configuração de entendimento destas histórias, a escrita de Sepúlveda assenta de forma perfeita.
A sua expressão é solta, animada, liberta, ritmada e sentida.
Nestes relatos curtos sentimo-la em força, sustentando toda a memória, não caminhando para um clímax mas elevando o prazer do início ao fim.
A emoção e forma de a expressar são, de facto, os traços mais importantes de um contador de histórias para que as possa tornar, realmente, em histórias de todos os que o ouvem.
Porque, de facto, lendo estas páginas, o livro soa-nos aos ouvidos como da boca de quem o sentiu.


















Histórias daqui e dali (Luis Sepúlveda)
Porto Editora
1ª edição - Novembro de 2010
160 páginas

domingo, 10 de janeiro de 2010

Memória com cinema dentro

Os comunistas derrotados por Pinochet são agora quase ridículos.
De jovens reaccionários chegaram a velhos que procuram namoradas em sites da internet e contam com a noção do ridículo as peripécias dos seus tempos de militantes activos.
Estão agora reunidos para se reabilitarem perante si mesmo, para se recompensarem por aquilo que o seu país lhes negou.
Mas aquele que deveria liderá-los, o Sombra, um mestre Zen da revolução, morre a caminho da reunião ao levar com um gira-discos na cabeça que uma mulher zangada atira pela janela para se vingar do marido.
E é o marido dela que assumirá, então, o lugar de o Sombra, ele próprio um revolucionário tornado cinéfilo, com dotes de argumentista sem público.
Só que o grupo segue mesmo assim para recuperar o dinheiro de um dos velhos bancos ilegais que haviam sobrado quando o golpe de estado ocorreu.
Estamos perante uma comédia, feita de velhas memórias, esperanças aparentemente derrotadas e finalmente do sucesso inesperado e contra todas as previsões.
Contra os vários percalços eles lá conseguirão recuperar o dinheiro.
Por entre a tristeza natural que os ensombra, por entre o retorno das tristes memórias do que perderam com o tempo, conseguem uma recompensa para o que foram. O país finalmente dá-lhes algo de volta.
Algo que é, afinal, mais do que o dinheiro, é o estranho reconhecimento de memória que o detective a investigar a morte do Sombra tem para com eles, como se ele fosse o retrato da memória do próprio país, uma memória menos padronizada e mais revisionista para com heróis feitos dos eventos aparentemente menos admiráveis.
Um detective como já não se fazem, saído de um velho filme de Hollywood que o marido a quem agora falta um gira-discos tanto admira.
Podia ser o argumento de um filme, inusitado, feito sobretudo da preparação para os acontecimentos, com personagens caricatas a superarem-se a si mesmas. Podia ser uma simples revisão do que significaram estes homens para o Chile. Mas é a junção de ambos que o torna interessante.




















A sombra do que fomos (Luis Sepúlveda)
Porto Editora
1ª edição - Outubro de 2009
160 páginas