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segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Bonne chance
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domingo, 26 de julho de 2015
Para acompanhar o que veio antes
Creio não se poder dar melhor elogio a um livro que não marca a primeira aparição do seu personagem principal do que este: deixou-me ansioso para ler todos os que o antecederam (e os que se seguirão, já agora).
Rui Araújo tem esse talento, de criar um personagem culto e arguto que dá vontade de acompanhar sistematicamente.
Um detective ao jeito daqueles que marcam a memória dos policiais que se têm por favoritos, ou seja, daqueles que transformam um crime num relato da sua própria intervenção.
O inspector Miguel Neves é desses, dos que marcam pelo que trazem, mesmo da sua vida privada, para a construção de uma história em que ele - e os personagens que o rodeiam - importa. Não se limita a ser um narrador que faz avançar a trama de um ponto de resolução ao seguinte.
Há que dizer que o processo de resolução é bastante detalhado, trabalhado como aquilo que, crê-se, é o método policial em vigor neste país.
Afinal estamos no campo da ficção que recorre a uma história verídica como base de trabalho que permita tornar a leitura engajante e, no final, deixar algo à consciência.
Nessa combinação de realismo e ficção, Rui Araújo usa as transcrições de interrogatórios ou as circulares de serviço de forma credível mas também muito escorreita.
Esses atributos são essenciais para um livro breve mas que, além do fio policial explora a personalidade do inspector, dando-lhe espaço para exibir a sua cultura - uma agradável extensão do autor, por certo, que já abrra o livro com o poema Farewell de Alexander Search/Fernando Pessoa como epígrafe - a par das suas relações pessoais, que confundem os meandros da sua mente investigativa.
Miguel Neves está casado com Tânea Sanz, jornalista de investigação que aponta o seu faro na direcção dos crimes de colarinho branco ligados a várias posições de Estado.
As ameaças que surgem podem ter origem no caso de qualquer um deles e o inspector terá de ser interventivo em ambas as descobertas para afastar o perigo que os ronda.
Esse perigo é um agradável tempero do livro, que nunca afasta por completo o seu protagonista dele, aliás deixando-o ir na sua direcção.
Não temos um herói em Miguel Neves, antes um homem cujas decisões deixam algo a desejar tanto no campo do planeamento das acções como da avaliação moral das mesmas.
Com isso o livro termina com um cliffhanger de verdadeira incerteza sobre se teremos um próximo volume dedicado ao inspector. Embora a racionalidade diga que assim será, é a esperança que o afirma com mais força.
A tragédia não parece ser inédita para o inspector. Percebe-se que no seu passado houve já a perda de outra mulher amada.
Isto revela não só a coragem do autor, mas também a inteligência com que torna conhecido o passado do seu protagonista para os novos leitores, integrando-o na narrativa para garantir contexto suficiente, sem escrever uma introdução que torne redundante a leitura dos seus outros livros.
Tudo isto combinado leva ao desejo que expressei logo de início, de acompanhar as investigações de Miguel Neves que já foram ficando para trás. Prometem e muito!

A Tentação do Abismo - Sanz Blues (Rui Araújo)
Gradiva
1ª edição - Fevereiro de 2015
196 páginas
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Da dissonância
A crítica a Até que o Mar Acalme sairá sempre fora do âmbito mais habitual da crítica literária, por levar em consideração a música que o acompanha e o distinge.
Não é o âmbito deste blogue fazer crítica musical e, portanto, tal não acontecerá. Apenas uma tentativa de avaliar o romance pela sua concretização em dois patamares artísticos.
Até porque uma crítica musical revelaria desde logo a incompatibilidade para com o estilo baladeiro enjoativo do autor que, mesmo assim, ouvi atentamente ao longo do livro.
Começando por falar exclusivamente do livro escrito, é um romance no sentido mais típico que a palavra hoje tem e que impeça que seja usada para toda a literatura.
Não é tanto pelas suas histórias de amor (em sentido lato) que o escrevo, mas pela sua dependência excessiva da serendipidade encaminhada para um final feliz apesar de alguns pontos de infelicidade.
Um conjunto muito limitado de personagens passam a vida em encontros e desencontros por si mesmos ou por intermédio dos seus parceiros.
Os casais - nem sempre amorosos - vão variando ao longo do livro, com o homem e a mulher dos casais que no final permanecem a terem fugido de infortúnios anteriores com aquela mulher e aquele homem que entretanto constituíram um outro casal.
Isto de permeio com uma porção de realismo extremo em que o desemprego coloca o protagonista na via de ser sustentado pela prostituição da mulher sem conseguir lidar com isso, enquanto outro personagem vê o seu casamento desfazer-se porque vive na expectativa de encontrar algo "mais" que só tarde demais perceberá que tinha em casa.
Este cruzar constante dos personagens tem sempre um estilo muito variado, indo do romântico em exagero ao divertimento provocatório.
Os capítulos dedicados aos diálogos entre dois amigos, homens, são os melhores com o autor a fazer uso de uma coloquialidade cheia de à vontade entre ambos. O reconhecimento da forma de intimidade por via de alguma dose de parvoíce acontece e consegue momentos divertidos.
Já os capítulos dedicados aos encontros românticos tornam muito evidente a origem de escritor de letras para canções do autor, com um abuso do lirismo sem efeitos práticos. O estilo de pensamento romântico, verbalizado ou não, está para lá da própria personalidade das personagens, não se distinguindo de umas para outras e não estando de acordo com a sua existência até aí.
Estamos muito mais perto de entender os capítulos como partes - canções? - individualizadas unidas pela retoma de personagens e não pela coerência da voz ou do estilo.
Nesse aspecto tenho, pelo menos, de reconhecer que este romance musical não é um artifício, é uma tentativa do seu autor de trabalhar a ideia de narrativa que se espraia pelos tempos vazios entre canções.
O problema é que as verdadeiras canções que ele escreveu estão quase em desacordo total com as "canções" que são cada capítulo.
Um desacordo de apreço, pois as canções que funcionam melhor são as de tema romântico que, pela sua brevidade e porque não estamos obrigados a crer que há poesia na pop, fazem melhor serviço do que os capítulos pouco interessantes a que correspondem.
Sobretudo, um desacordo de expressão. As letras e o próprio tom das canções chegam a contradizer o ambiente que o capítulo tentou expressar.
Não é necessário ir mais longe do que o primeiro capítulo que descreve uma cena de um homem à beira (literal) do suicídio e termina com o cliffhanger da dúvida sobre se ele o concretizará.
A música associada a esse capítulo (e que está no final do mesmo, o que é a forma mais habitual de surgirem associados) tem uma melodia animada e versos como Para um novo futuro/Que eu possa chamar meu.
A canção contradiz e elimina a tensão que o capítulo tentou criar, dizendo-nos que este personagem certamente continuará vivo por um qualquer milagre de último segundo (confirma-se!).
Lembramo-nos de um formato narrativo do cinema norte-americano mais mainstream que a noção de banda sonora pop só reforça.
A ideia interessante - ou não me teria disposto a ler o livro - teria de ter alguém mais capaz para a concretizar. Alguém que fosse tanto escritor como músico, experimentado em ambos os campos e capaz de trabalhar ambas as vertentes numa separação dialogante.
Miguel Gizzas fica-se apenas pela separação entre escrita e música.

Até que o Mar Acalme (Miguel Gizzas)
Gradiva
1ª edição - Setembro de 2014
292 páginas
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