Mostrar mensagens com a etiqueta Leya. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leya. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tão bem escrito que nada mais era necessário

João Ricardo Pedro escreve breves monumentos de notável beleza que se aproximam de um absurdo do prosaico.
O que não deixa cair ao chão tais episódios é o incrível cuidado de escritor que inventa - pela linguagem e pela sensibilidade - para cada capítulo uma notável sensação do extraordinário que há que aprender a ver.
Por momentos estamos em crer que há muitas vidas genealogicamente unidas que, de facto, dariam um livro - mesmo se a proliferação de episódios numa só família merece sempre uma desconfiança sobre se há tal sorte no mundo.
Bastaria que essas vidas ocorressem com a família de alguém que tivesse a sensibilidade de a entender e de a escrever. O problema é que quem vive tais episódio está demasiado ocupado a superá-los e digeri-los.
Fiquemos, pois, por quem os inventa e os trabalha, tornando o prosaico na matéria do brilhantismo.
João Ricardo Pedro é, numa metáfora que deverá estar cansada de ser usada mas que me parece vir a propósito, um escultor que retira todos os excessos à estátua que já se encontra no bloco de mármore.
Cada um dos seus capítulos, brevíssimos (na medida do tamanho que queremos que tenham) e intensos, está reduzido ao relato essencial da história que faz aquele momento. Mesmo quando parece o escritor perder-se em linhas mais experimentalistas, o resultado que nos espera é o deleite, assim mitigando - anulando mesmo - o perigo de perder a noção de alegria que vem de ler excelente literatura - mesmo quando esta é seríssima.
De tanto remover - volto à metáfora - poderá parecer que o escritor perdeu o fio que liga as suas várias peças.
Não é assim, na verdade o seu livro é uma exposição em que as peças se dispõem numa lógica cronológica e que, discretamente, completam um círculo de que o visitante só se apercebe ao ver a primeira das peças de novo explicada pela última.
Nenhum capítulo viveria sem os outros, nenhum estaria completo sem que os restantes o precedessem ou subseguem.
Por mais abandonados a si próprios que possam parecer, todos os capítulos são essenciais para criar uma visão final, um todo superior à soma das suas partes - ainda que haja partes solitárias de extraordinário valor - que se agrega com o sentido desejado.
Os espaços vazios entre cada peça - e é a última vez que recorro à metáfora - servem para o visitante as circundar, melhor entendendo a profundidade de cada forma e para que ouse descobrir o método do seu próprio avanço de uma para outra.
No limite, parece possível reajustar a ordem dos capítulos, seleccionar apenas alguns e, assim, refazer outras sagas e construir novos personagens, tudo com base no mesmo livro.
A soltura deste livro é um achado extraordinário que o torna numa saga familiar encorpada de um inesquecível valor literário. Tudo o que fica por dizer fica em favor do leitor, enquanto que tudo o que foi escrito não poderia ter sido esquecido.
Acredito que muitos leitores discordarão, falando da falta de um fio condutor mais determinado como causa para um falhanço do livro.
Tudo passa por querer encontrar tal fio discreto mas entrelaçado - o leitor que trabalhe um pouco, também - mas isso nem sequer importa verdadeiramente.
Quando alguém trabalha um texto até se apresentar de forma inspirada e com momentos de exacta perfeição, chamamos-lhe escritor e admiramos o seu talento. O resto vem com a prática, o factor que vai ganhando percentagem ao conjunto de inspiração e transpiração cujo bom resultado já dá para notar em O teu rosto será o último.

 
O teu rosto será o último (João Ricardo Pedro)
Leya
4ª edição - Maio de 2012
208 páginas

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Universos à espreita

Esta pequena colectânea tem quase um ano, mas o seu objectivo não sofre com o tempo que passa.
A divulgação dos autores da casa que a publica funcionará mais cedo ou mais tarde, se bem que na sua maioria estes são autores já largamente divulgados e, para a maioria dos compradores do Jornal de Letras, autores já lidos.
Admite-se, portanto, que a selecção é feita de contos breves que equilibrem a ausência de uma vertente comercial com um interesse literário que não seja negligenciável.
Nem por isso as expectativas devem diminuir. Pelo contrário, quem fez a selecção de contos conseguiu transmitir uma ideia de comunhão entre os autores.
Comunhão pelo que alcançam em poucas (às vezes pouquíssimas) páginas e que é a criação de eventos bem definidos com um universo a expandir-se para lá deles, ou seja, contos que nos deixam no ponto de reconhecimento da realidade que está logo por detrás deles sem que essa percepção dos bastidores impeça que o está no texto funcione por si só.
A fruição não é impedida pela eventual falta de vontade ou de imaginação de um leitor, mas talvez seja aumentada por essa perspectiva do que fica por dizer.

Vale a pena falar um pouco das tais descobertas que este livro permite, mais do que da mera readmiração de nomes já conhecidos.
Até porque são tantos os nomes a que dediquei pouca atenção como aqueles que conheço bem.
José Mário Silva suscitou interesse para ler mais com o seu Atendedor de Chamadas. Acima de tudo, pela brilhante forma de execução de que se lembrou dando a conhecer o universo em torno de uma personagem através das mensagens que recebe e ficam por responder. Ajuda também a aguçar o interesse que o seu conto nos deixe no limite da frustração à conta da falta de conhecimento sobre os motivos para a ausência de quem é, no fundo, o protagonista.
José Eduardo Agualusa, um autor que sempre me deixou desconfiado por algum motivo que a leitura das suas crónicas domingueiras na Pública não esclarece, traz um interessante toque de humanismo bilateral a um cenário a ferro e fogo que reconhecemos sem reconhecer a sério.
Fúria de Patrícia reis surpreendeu também por uma certa coragem com que retrata a mulher portuguesa e as lutas que tem de vencer em silêncio. A forma como aborda o conto torna a tensão - toda no interior da mente da mulher ao olhar o marido adormecido no sofá – palpável e o resultado surpreendente ou inevitável consoante o grau de pessimismo com que o olhemos mas, mesmo assim, um resultado que é uma vitória.
Os outros oito contos são igualmente bons mas como estamos no campo da descoberta, aqui deixo as que fiz e cada outro leitor poderá falar das suas.


Leya Contos (José Eduardo Agualusa, Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral, Dulce Maria Cardoso, Mário de Carvalho, Mia Couto, Ondjaki, Inês Pedrosa, Patrícia Reis, Urbano Tavares Rodrigues, José Mário Silva)
Leya
Sem indicação da edição - Março de 2010
64 páginas