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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Toda a loucura será incentivada

Nesta novela isso significa que ele fez da realidade uma porta para o interior da ficção. De lá pode testar a via contrária desta janela que julgamos ter para um autor.
Juan José Millás, o autor, escreveu um livro onde incluiu Juan José Millás, o repórter, que se desdobra num outro Juan José Millás, o ficcionista.
Chegando ao Juan José Millás ficcionista devemos aproveitar a ambivalência da palavra, tanto referindo o criar como a criatura da ficção.
Millás está atormentado pelos outros Millás, não sabendo qual deles é a aparição que o conecta ou afasta do leitor.
Há pelo menos um Millás que é uma alucinação, tal como as palavras e orações corporizadas que aparecem a Júlia, mas que está contido e tratado pela Literatura num arranjo que sana, senão o autor, pelo menos algumas das suas dúvidas.
Nada que possa acudir à peixeira que por amor a um filólogo se debate com as palavras e os seus sentidos e acaba por se descobrir por elas tiranizada.
Não que a capacidade para a expressão literária seja sinónimo de conquista de Liberdade. Millás no plural, os dois que são personagem e desdobramento ou vice-versa, continua submisso.
Pois um encontrou um tema de reportagem que o outro crê dar bons apontamentos para um romance e o outro encontrou o tema de um romance que para o outro dará uma reportagem extraordinária.
A ficção é a alucinação da reportagem (da realidade) ou a reportagem apenas um desdobramento das pistas que se recolhem para a ficção?
Lá estão de novo Millás presos entre o que é e o que daí se projecta, a linguagem e como esta se estabelece, para além de quem a estabelece.
Sendo morte assistida o tema à volta do qual deambula Millás, recusando repeti-lo porque já o tratara anteriormente no El País, pode dizer-se que a preocupação pelas alucinações não terminou.
A morte, intrinsecamente ligada à vida, oderá bem ser o desdobramento desta. Incompreensível mas desejada por uns tanto quanto outros desejam a vida plena.
Sem sequer referir os postulados das religiões, pode bem ser que a morte seja outra vida, inexprimível por enquanto.
Júlia, a mulher louca é-o porque recebe a visita de palavras que lhe pedem ajuda ou que, simplesmente, copulam em frente a ela.
Pode-se não classificar também assim aquele Millás que se vê preso na fronteira destas fitas de Möbius do poder da palavra?
O Millás que é autor continua de fora, protegido até certo ponto, mas por ser leitor de outros acaba por se transformar num leitor de si mesmo e estar captivo das suas deambulações dentro desta novela.
O seu narrador e o desdobramento deste devem continuar a instigá-lo à interrogação. E por lá continuarão eternamente, existindo em ambos os estados (realidade e alucinação ou impossibilidade e concretização), como o Gato Schrödinger.
Só que ao invés de abrir a caixa, trata-se de fechar o livro. E nem então saberemos qual o estado de Millás, tal como o autor - que fez uma personagem com o seu nome e descobriu que esta se desdobrava - não o soube quando terminou
Caso contrário não valeria a pena Juan José Millás ter escrito este livro que se fez mostrando o seu processo de criação.
As dúvidas que o fizeram avançam estão à vista porque a interrogação se tornou necessária aos passos seguintes de Juan José Millás.
Millás, autor em definitivo, que se interroga sobre a pertença da voz que se alude ser do escritor, mas que é de um narrador que partilha nome (que não identidade) com ele e ainda com um personagem.
Interrogando-se, Millás voltou a descobrir que tem de continuar a descobrir formas de olhar e de transmiti-las pelas palavras que retorcem na imaginação.
Assim consegue provar a quem o leia que as palavras continuam a ter poder, venham elas em que modalidade venham, pela mão de quem Millás seja.
Seja ele personagem, narrador ou autor, confia-se no trilho de Juan José Millás. E pede-se-lhe que o continue a traçar!


A Mulher Louca (Juan José Millás)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Agosto de 2014
192 páginas

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os absurdos da solidão

Os primeiros contos d'Os Objectos Chamam-nos confirmam desde logo as muitas obsessões de Juan José Millás como a relação com a mãe, as histórias de homenzinhos ou a mutação do ponto de vista da realidade.
Todo o livro é um catálogo dessas obsessões, mas de uma acima de todas: a de encontrar na realidade mais banal aquilo que é quase o surrealismo da interpretação humana.
Um misto de absurdo e extraordinário que tudo transforma quando a realidade se filtra pela mente humana.
Do primeiro ao último conto está lá essa transformação, da simples frase do amigo do narrador, em A Morta, que lhe diz "Olha para ela, está morta." e leva o amigo a descobrir como se distinguem entre os que percorrem o mundo vivos e mortos, à bizarra tarefa (coxear) de uma vida toda para adiar a morte da irmã de Rodrigo Fuertes em A morte retroactiva.
Há uma única distinção entre os muitos contos, a dos seus protagonistas. Crianças e jovens na primeira parte, adultos na segunda. Dessa divisão resulta a ideia de que as crónicas agrupadas sob o título As Origens são melhores do que aquelas agrupadas sob o título A Vida.
A relação de Millás com as suas memórias de infância são uma fonte de material melhor do que a vida adulta, como também se verificava comparando O Mundo com O Que Sei dos Homenzinhos.
Talvez porque a infância revista à luz idade adulta é uma fonte (muito) maior de matéria de absurdos. Mas nada trava o olhar deturpador do escritor ao longo de toda a vida.
Deturpador por fazer a modificação da realidade de forma a melhor servir os moldes que o escritor tem em mente concretizar.
Neste caso os moldes são a da fantasia que lança ao caos cada vida assim escrita e, com elas, a consciência do leitor é exponenciada para a solidão das personagens.
Porque quase todos os momentos em que decorrem as absurdamente maravilhosas releituras da realidade se dão quando as personagens estão à espera.
Isoladas ou mesmo quando acompanhadas, é nos tempos mortos que as personagens ocupam o silêncio interno com ideias que uma conduta impoluta impediria de serem expressas.
Felizmente que não há essa pureza de comportamento, ou estaríamos privados dessa transformação do mundano em extraordinário, que pela mão deste escritor é tudo o que queremos ler durante muito tempo.
Contados de outra forma, todos estes contos seriam piadas com uma valente tirada final. Mas nas mãos de Juan José Millás são comoventes e desarmantes estruturas de enorme precisão, escritas de tal forma que engolem para o seu pequeno universo o leitor.
Cada três páginas são pequenos universos auto-suficientes, mas no acumular de realidades paralelas, temos uma visão da imensidade que é incomparável.
Não há quem saia deste livro sem encarar o quotidiano como material de onde escaranfuchar ideias sobre os outros e si mesmos, formas de falar da realidade como quem fala na abstracção da sua própria imaginação.
Estamos todos a sós com as nossas próprias ideias, resta usá-las para à nossa volta criar tudo o que nos retirará da solidão.


O Mundo (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2009
176 páginas

terça-feira, 30 de julho de 2013

O Homem que queria ser Homenzinho

Em comum com O Mundo este livro tem a demanda por uma forma distinta de encarar a realidade. Aqui trata-se de uma experiência fora do corpo: uma pequeníssima versão do autor que deambula com uma consciência autónoma e, por vezes, em comunhão.
O conjunto destes dois livros sugere que, para Millás, a missão do escritor seja a de descobrir novas formas de encarar a sua realidade para justificar escrevê-la para os leitores.
Mas O Que Sei dos Homenzinhos também tem diferenças substanciais para com o livro anterior do autor, sobretudo porque a descoberta de um ponto de vista novo para a realidade não pretende recriar a visão alternativa de outra idade.
Na verdade este ponto de vista do Homenzinho é uma concretização já adulta. Adulta porque perversa, cheia de impulsos que a infância não reconhece.
O Homenzinho é quase como a libertação do Diabinho da consciência, com a liberdade para concretizar as fantasias do Homem. Aquelas inaceitáveis pela sociedade e pela lei: do voyeurismo ao assassinato.
Estamos perante a mesma dualidade entre Bem e Mal d'O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, com versões diferentes do mesmo homem a viverem autonoma mas intricadamente vidas próprias.
Num processo em que as duas consciências ora se fundem ora existem sozinhas, há disputas e comunhões perante as perversidades à disposição.
O Homenzinho é sempre quem quer ir mais longe, adulto recém-criado, logo sem noção das regras mas com toda a noção das pulsões.
Mata primeiro e depois exige ao Homem que mate igualmente. E o Homem dá-lhe excessos (tabaco e álcool) e cozinha uma lagosta tentando adiar a obrigação.
Combate interiormente as pulsões - que pode imputar ao Homenzinho - com as restrições morais. Pode querer ceder às primeiras mas receia as consequências práticas das segundas: não a culpa, mas a prisão.
Ao mesmo tempo, esta questão das duas consciências serve para ridicularizar a masculinidade tornada machismo.
O Homem enxofra-se com a partilha da sua mulher com o Homenzinho quando as consciências estão unidas, mas depois quase que exige ao Homenzinho que este se apresse a repetir o ritual de acasalamento com a única Mulherzinha (uma espécie de Rainha).
O que é do Homem deve ser só do Homem, mas a possibilidade deste ter acesso a prazeres que não lhe pertencem nunca está excluída.
Será para isto que o Homem - que não um escritor, neste caso - reinventa a sua realidade, dá justificações e racionaliza para poder trair, errar, prevaricar?
Ouvem-se expressões que tudo justificam e que criam Homenzinhos sem ser necessário o processo de replicação alcançado neste livro: Não tenho em casa aquilo que preciso ou Isto não é algo que faça com a minha mulher.
São temas que Millás quer tratar sem fazer tombar o livro para a forma de ensaio. Quer cativar sem deixar de lado as suas obsessões.
Esta, dos Homenzinhos, causa uma magnífica ânsia. Pois se um Homenzinho podia ser esmagado como um insecto na palma da mão, porque domina a vida do Homem?
Este Homenzinho é algo demasiado significativo do Homem e aquilo que se sabe dos Homenzinhos é que são uma raça demasiado estranha.
Podem alcançar o que quiserem por serem quase sempre invisíveis, mas procuram os vícios habituais. Têm para si a melhor das mulheres e o mais intenso dos êxtases mas desejam as mulheres grandes: aquelas que não podem ter.
São tal e qual (ou quase) os Homens, mas causam estranheza a quem os vê. Excepto aos escritores, pois a literatura está cheia destes Homenzinhos, diz-nos Millás. Certamente uns maiores que outros, mas todos excelentes protagonistas para um livro.


O Que Sei dos Homenzinhos (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Março de 2012
136 páginas

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Alucinar a realidade

O Mundo é uma portentosa mas perigosa porta de entrada no mundo de Juan José Millás, aproximando-se da sugestão de uma forma de narrativa autobiográfica que convida a acreditar que o escritor tão abertamente se confessa ao leitor.
Caberia ao leitor, não só entrar na intimidade do autor, mas (psic)analisar os seus receios, as suas interpretações mais ou menos bizarras da realidade.
O leitor não pode acreditar que Millás está assim tão focado nessa ideia de que a literatura faz as vezes da psiquiatria.
Mesmo se é claro que os temas-chave, sobretudo da infância, são confidências do autor, a verdade é que o livro se expressa como o resultado de uma tese que ele procurou entender durante toda a vida para melhor poder explicar como vive e porque escreve.
O significado conclusivo que ele quer é para a sua demanda de um ponto de vista que modifique a realidade, para a tornar mais interessante e não mais simples.
Um ponto de vista que se altere e se renove para que o mesmo suceda a uma realidade que não é mutável.
Algo tão simples como olhar a rua a partir de uma janela de uma cave ou algo quase no campo do absurdo como render-se à febre para recordar as alucinações por ela proporcionadas.
Trata-se de uma procura da infância que o autor aprendeu a prolongar para a vida adulta. A inocência substituída pela imaginação, o sonho substituído pelo trabalho.
O resultado é o desta ficcionalização da realidade, alegre reinterpretação dos factos em nome do prazer da renovação.
Ou contra a visão estagnada de si próprio, da vida que não vai a lado nenhum. Porque se não vai é porque alguém - ele próprio, eventualmente - o vai impondo perante as circunstâncias.
A visão da criança não entende essa necessidade de realismo. O trabalho do escritor contraria essa necessidade de forma crónica.
Com isto tudo não quero excluir a possibilidade do autor estar a lidar com o seu passado, pois na sua forma de memória episódica, ele não deixa de abordar episódios tristes ou traumáticos.
Se a ficção também serve a essa purga, fá-lo dando a possibilidade a quem a cria de ter um novo ponto de vista para encarar o seu passado.
Um ponto de vista fantasioso que envolve esse trabalho intelectual de recriar intenções alheias e significados casuais.
Trata-se de expandir a realidade, de lhe acrescentar elementos inexistentes para que os outros tenham ainda mais força ao se reflectirem na imaginação.
Com Juan José Millás escrever é mais do que repensar ou reinventar, é verdadeiramente reviver. E reviver com outra consicência.
Escrever - com qualidade, detalhe, beleza e precisão - é manter a consciência da febre da infância, usá-la proveitosamente, ir mais adiante no Mundo. Porque se o Mundo é a rua da infância, com o crescimento, todo o Mundo se assemelha a esse pequeno microcosmos - ora releia-se Naguib Mahfouz.
O Mundo exige, então, que, em vez de o reduzir sistematicamente a esse estreito pedaço de vida (o da rua e o da infância), se use essa semelhança como rampa de lançamento para uma outra visão de tudo o que existe.
Como os delírios febris da infância que criam uma sensação de realidade intensificada. Mas, pela literatura, contraria a fragilidade - de bolha de sabão diz o próprio autor - dessas visões.


O Mundo (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2009
176 páginas