Domingo, 4 de Março de 2012

Um mundo promissor e a protagonista que o ocupa

A saga Os Jogos da Fome é apontada a um público juvenil, como bem se poderá ver pelo triângulo amoroso que percorre a quase totalidade dos volumes (mas que, para ser justo, não é uma obsessão permanente).
Se consegue, em sentido inverso, seduzir um público de faixas etárias mais variadas é porque sabe construir, no pano de fundo da acção, uma abordagem cujos elementos políticos importam tanto quanto os elementos individuais ligados à protagonista e, mais ainda, sabe utilizar o tal triângulo amoroso como elemento de desenvolvimento desse pano de fundo.
Pois se é a acção - agora no sentido com que se usa para definir um género contendo um conjunto alargado de obras de ficção - que torna estes livros numa leitura que se deseja fazer sempre num contínuo veloz, é pela forma como estes integram e fazem reflectir sobre expedientes políticos - que, da ditadura à democracia, continuam a ser usados sem excepção - que eles vão além da distracção inconsequente.
A construção do mundo futuro com elementos políticos que seriam então arcaicos - sejam os Jogos Romanos ou a Guerra Fria - sublinha algo mais importante do que a realidade mais óbvia da crítica aos limites modernos do voyeurismo televisivo, algo que já era parte da provocação de Battle Royale (e falo, neste caso, do filme e não do livro que lhe deu origem e que não tive oportunidade de ler).
Começando pelo controlo da população pela imposição de medo perpétuo (algo que também não era estranho a Battle Royale) através da transmissão televisiva e visualização obrigatória por parte da população sob o jugo tirânico, a saga vai mostrando que a propaganda pode ser uma arma essencial na política.
A utilização de um instrumento tão pouco controlável mas tão abrangente como a televisão - em directo, ainda para mais - torna a situação mais interessante pois a manipulação torna-se recíproca e vai mesmo para lá disso.
Se o ditador a usa para controlar a população, também os protagonistas dos Jogos da Fome revelam que sabem muito bem como utilizar a sua presença perante as câmaras e, finalmente, é a própria audiência, incluindo aquela que está absorta pela propaganda e pelo gosto pela violência, que manipula o resultado do que está a acontecer recusando a morte dos heróis que se vê formarem nos ecrãs.
Outras considerações têm de ser feitas a propósito dos intervenientes que produzem o evento para a televisão. Os produtores, os estilistas, os maquilhadores...
Por mais pequeno que seja o seu papel, fica por saber (antes de algumas revelações de crença do política dos mesmos) se estarão obrigados a criar o melhor programa possível em que os jovens que vão morrer são apenas mais uma ferramenta ou se serão fanáticos igualmente culpados pela barbárie da qual retiram prazer em funções artística em vez de políticas. Uma questão que seguiu Leni Riefenstahl toda a sua vida e que implica julgamente morais além de estéticos para com a sua obra.
Em direcção ao final da saga a propaganda - bem como a encenação, a manipulação de afectos para com as personagens heróicas e alguma falta de escrúpulos naquilo que é filmável - revela-se como uma arma que ninguém pode ignorar, transitando do Governo para a Resistência e sendo usada efectivamente tanto como arma como contra-arma na exposição das falhas de segurança e da insegurança que deveria permanecer fora de câmara.
São temas que preencheram boa parte do Século XX e que mesmo agora estão em discussão; que não se perdem desde que e enquanto existirem meios de comunicação activos e populares onde os graus de liberdade - visados, executantes e audiência, pelo menos - estão para lá de qualquer possibilidade de controlo absoluto.
Mas este não é um conjunto de temas que a autora trate de perseguir e, não haja dúvidas, nas mãos de um autor mais interessado num público adulto (e, portanto, que colocasse um pouco de parte a protagonista) este pano de fundo - que é a essência do mundo distópico do futuro, afinal de contas - seria o verdadeiro protagonista.
A obra alternativa seria mais rica mas, eventualmente, ler-se-ia com menos ritmo. Não creio que tal fosse mau para o público juvenil a que, primeiro, apontava a obra, mas talvez apagasse aquele que é o forte da autora.
A sua escrita é eficaz porque, colando a narrativa à jovem Katniss Everdeen, esta constrói a sua personagem enquanto esta está em acção ao invés de tentar separar momentos de reflexão de momentos de execução.
Interagindo com os elementos que a rodeiam na arena ou tentando perceber os elementos de planos que só lhe são revelados parcialmente ou por elementos, Katniss mais do que se revela como personagem, evolui.
Katniss não é a perfeita combatente, mas tem a vantagem do instinto prático. Já no que toca à relação com a sua construção como heroína televisiva, ela é a menos capaz de entender o valor e a forma de lidar com tal situação. E, no entanto, as suas debilidades não desaparecerão por completo, mas darão lugar a formas pessoais de se salvaguardar e de levar por diante a libertação de um povo que a toma como inspiração apesar da sua falta de vontade.
Há um grande senão a fazer a esta descrição das forças da autora. Ao terceiro livro desvia-se parcialmente deste tipo de relação com a protagonista e divide o foco, sobretudo, com a realidade da Resistência.
O terceiro livro aprofunda a forma como se chegou àquele ponto de conflito, o que pareceria ir de encontro às expectativas de aprofundar as alegorias sobre o mundo passado e presente.
Não vai porque o conteúdo dedicado à guerrilha e às armas do poder instituído acrescenta muito material que parece não ligar bem com o resto da saga mas, sobretudo, obrigaria a que a escrita encorpasse em vez de continuar a depender da execução rápida e de uma personagem que já está quase totalmente definida (mesmo se lhe peçam ainda para assumir um novo papel).
O terceiro livro não se lê como os anteriores pois ao expandir a visão sobre os acontecimentos deste universo criado deveria ter também deixado de ter a âncora em que se transforma a protagonista depois de ter deixado de ser o elemento aliciante e individualizante da vivência no interior da arena onde decorriam os Jogos da Fome.
Até porque, se formos a olhar ao arco narrativo global desta trilogia, é em Peeta Mellark que encontramos uma personagem mais complexa e interessante.


Os Jogos da Fome (Suzanne Collins)
Editorial Presença
2ª edição - Outubro de 2011
256 páginas


Em Chamas (Suzanne Collins)
Editorial Presença
2ª edição - Outubro de 2011
268 páginas


A Revolta (Suzanne Collins)
Editorial Presença
1ª edição - Novembro de 2011
280 páginas

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

O miolo, finalmente

O segundo volume na saga de Dean Koontz é um livro superior ao que o primeiro livro faria supor.
Com o cenário e as personagens centrais estabelecidas, Koontz vai atrás da complexidade que se reconhece a Frankenstein, explorando as fronteiras ténues entre genialidade e loucura e entre humanidade e monstruosidade.
Só que, durante a maioria do livro, o Monstro não está em cena, nem sequer é referenciado. A história segue os dois detectives e uma quantidade crescente de personagens secundárias, o que obriga a olhar para o facto de que o recurso aos personagens de Mary Shelley são uma forma de poupar páginas de contexto e de apanhar os leitores já a meio caminho do conhecimento das personagens.
Esta saga poderia (deveria, até) ter sido uma construção de raíz de um universo novo, o que a pouparia às comparações sistemáticas.
Essas considerações mais alargadas sobre a natureza da saga são inevitáveis, creio eu, mas depois de se aceitar a dose de aproveitamente comercial envolvido,volta-se à constatação inicial de que este livro tem mais substância do que o anterior.
Sem dúvida que este é o miolo da história, mesmo que continue a acrescentar mistérios e personagens cujas correspondentes narrativas só ficarão resolvidas nos próximos livros.
Aqui a expectativa toma o lugar dos eventos o que levará a que o progresso na intriga pareça estagnado. Isso é bom para o trabalho do escritor, mesmo se (especulo eu) seja mau para a maioria dos leitores que desejam saber o que acontece.
Para ele, o interesse geral é mantido com a adição de uma figura guardada num tanque com forma de caixão e de uma criatura ainda por revelar que vive em túneis debaixo da lixeira onde Victor Helios se livra dos cadáveres que a sua actividade vai deixando pelo caminho.
Mas são as criações de Helios menos resguardadas pelo mistérios que transformam realmente o livro. Randal Seis e o padre confessor de Helio transitam do volume anterior e a ele juntam-se o casal de assassino Benny e Cindi.
Este conjunto traz ao livro uma reflexão sobre a necessidade de conciliação que é inata ao ser humano e que surge mesmo perante a construção de uma distopia baseada em máquinas biológicas desprovidas de sentimentos.
Mas a busca pela felicidade de ter o acolhimento de uma mãe, de ter uma crença superior às funções primárias ou de ter a responsabilidade da maternidade são complementos naturais a uma vida desenhada para servir propósitos de lógica purgada de tudo o resto.
São, mais ainda, instintos benignos que surgem numa população cujo único instinto primordial revelado até aí é o da violência.
As criaturas têm um gosto pelo assassinato - mesmo assim reservado apenas a alguns e por ordem estrita de Frankenstein - e pelo sadismo da morte ritualizada - por parte da população das castas mais baixas da nova espécie que desmembram os cadáveres para satisfazer brevemente os instintos de morte.
A ignorância de um dos dois extremos inatos à condição humana é o fundamento do falhanço anunciado das perspectivas de Victor Helios. Esse elemento, um inimigo com igual potencial ao de Deucalião, é o que dá vigor a uma saga que deixara dúvidas.
Este miolo da história de Koontz, não sendo totalmente original, é bem vindo. Só não faz sentido que só surja num segundo livro, pois seria mais lógico que Koontz tivesse saltado a perseguição a um serial killer do primeiro volume para começar desde logo a construir o grande vilão da saga e a mostrar as falhas nos seus planos de domínio do mundo.
Com isso teria, também, evitado adicionar tantos elementos à história que obrigaram a ter de alongar a trilogia para cinco livros de forma a resolver todas as pontas soltas.


Frankenstein - A Cidade das Trevas (Dean Koontz)
Contraponto
1ª edição - Setembro de 2011
256 páginas

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Economia à italiana

Andrea Camilleri percebeu que o mundo da alta finança é material de primeira para um romance irónico. Sobretudo quando esse mundo se cruza com o mundo das paixões tresloucadas que dá cabeçalhos sangrentos que vendem abundantemente.
Colocar os dois ao mesmo nível é uma forma de ridicularizar o mundo financeiro, mostrando que também este é feito de casos de promiscuidade (entre a banca e empresas), de adultério (entre directores e oportunidades de conseguir dinheiro em negócios paralelos) e de sangramentos (dos seres humanos pelas corporações anónimas).
Uma forma de mostrar, também, o quão sedentos de podridão andam tanto os que lêem ambos os tipos de jornalismo.
Isso é comum ao mundo inteiro, mas certamente é mais acentuado num país que teve Berlusconi como primeiro-ministro que misturou o abuso do poder com os escândalos sexuais. Dele para baixo, a mistura só podia ir tornando-se mais promíscua e é o próprio Camilleri a reconhecer que as personagens que criou foram facilmente inspiradas pelas crónicas judiciais italianas.
A Intermitência não é só isso, nem se esgota numa visão crítica do nosso vizinho europeu. Trata-se de um romance de acasos e reviravoltas, onde todos usam golpes baixos contra quem querem como parceiros de cama.
O calculismo é uma arma sempre à mão, mas as tolices da paixão são os grandes móbiles para que em vários momentos tal arma tenha de ser usada.
Camilleri nunca é um deus simpático com as suas criaturas, por isso não lhes permite que sejam somente elas a dominarem sobre as outras.
Aquele que julga ter vencido - e não vale a pena acreditar na experiência acumulada, pois há surpresas para lá da expectativa do lugar-comum de histórias como esta - não tem direito a continuar a sorrir quando lançou todos os outros para um mar de lágrimas onde acabarão afogados.
A economia italiana é uma questão vexante pela qual a sociedade quer um castigo severo. E Camilleri serve-lhes esta apetitosa vingança literária.
Esta é, no fundo, a forma substancial de contar a história em que uma mamma saída de uma igreja e sentindo-se abençoada por Deus despeja um prato de pasta na cabeça de Berlusconi. O que nunca aconteceu e constitui um enredo ridículo admito.
Já a forma como Camilleri imagina a vingança do destino sobre a canalhada é de uma admirável elevação que faz mais danos às reputações das figuras que aqui são representadas do que os reais ataques a tais protagonistas.
Aos leitores dará, também, mais prazer, embora admita que para os que expressam mais activamente a indignação com tais situações tal prazer não chegue a dar consolo.



A Intermitência (Andrea Camilleri)
Bertrand Editora
Sem indicação da edição - Julho de 2011
184 páginas

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

A dignidade da submissão

Os limites da condição amorosa, tanto masculina como feminina, podem ser definidos, inesperadamente, na história de um bancário que se reforma e da sua traidora mulher.
Por mais que os papéis que desempenham pareçam evidentes, as ambiguidades de ambos são fontes de extraordinárias descobertas da forma como cada um tolera as mais ferozes situações em que o compromisso do casamento os coloca.
A resistência dele vem ao de cima quando a traição dela é vivida mais abertamente. A dignidade dela vem ao de cima quando a dele está a esgotar-se.
Claro que, na maior parte do tempo, o leitor achará que ele é um velho e entristecido frouxo e que ela é uma maníaca insensível e detestável.
Mas em momentos diferentes, para lá de qualquer obrigação que o casamento imponha, ambos revelarão o amor que têm dentro de si e que tiveram de esconder do mundo por motivos que só a dureza deste explica.
Ele resistirá a todas as traições para que lhe seja concedido o privilégio de observar o ritual de limpeza em que ela se dedicava ao corpo mais do que qualquer amante. Esse ritual representa uma entrega pessoal excepcional, muito superior à do sexo.
Com isso ela recompensa o homem que compreende que as necessidades físicas da sua mulher estão para lá da sua capacidade de lhes responder, não porque ele seja insuficiente como amante, mas porque ela é insaciável.
Ela só revelará o grau do seu compromisso sentimental quando ele estiver demasiado doente para se valer a si mesmo. Em vez de contratar uma enfermeira é ela que responde a todas as necessidades do marido.
A partir daí deixa de sair da beira do marido e acaba mesmo por perder a compostura que mantinha atentamente com o seu ritual.
Só então percebemos que esta mulher guardava ainda amor ao seu marido e que, muito provavelmente, a cedência que fazia para que ele presenciasse o ritual era a única forma que encontrava para expressar esse sentimento porque sabia que, por via do sexo, tudo o que tentasse expressar pareceria insuficiente.
Só falta entender, pois, o tal fato cinzento. O fato que ela usou na primeira vez que viu o seu marido e o fato que usa na última vez em que ele a conseguirá ver a ela. O fato que é o de pré e pós-luto, aquele que lhe dá uma dignidade e que contém (sem disfarçar) a sua feminilidade.
O fato serve de teste para ela encontrar homens que respeitem o seu momento de perda, que não se ofereçam para a consolar quando o corpo do marido ainda mal arrefeceu.
Sim, porque este é o segundo marido de Adele mas não será o último. E por mais que ela o tenha amado, ela não poderá viver sozinha ou deixar de satisfazer os prazeres do corpo.
Ela tem de encontrar um homem sério e decente para lhe entregar o seu respeito e, depois, o seu amor. Mesmo se também o acabará por trair por imperativos biológicos.
"Cornos" e lágrimas são os elementos essenciais desta história que se ergue pelo talento de um escritor que tem a inteligência de saber que toda a grande literatura precisa de histórias que são fonte inesgotável de boatos e maus romances. Mas que servem também a que um bom escritor as use para olhar a psicologia humana em alguns dos seus momentos mais reles e, por isso, extraordinários.


O Fato Cinzento (Andrea Camilleri)
Bertrand Editora
Sem indicação da edição - Abril de 2009
128 páginas

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Cada vez melhor

Sequelas e prequelas são tácticas mais propícias ao Cinema e que, mesmo assim, geram desconfiança. Mas se a sequela de O Perito já tinha sido melhor que o original, esta prequela é o melhor dos três livros e um sinal da inteligência e adaptabilidade do seu autor.
Este seu thriller é intenso e imparável, precisando apenas de três personagens e uma selada carruagem de metro para levar a sua trama adiante.
Uma aventura mais solta, menos constrangida com o lento construir de personagens ao serviço de uma trama que acaba por chegar.
Aqueles que ainda estão por iniciar a sua viagem com o autor farão bem em começar por aqui, encontrando um conjunto de sugestões que prometem mistérios à espera de serem resolvido nos livros que se seguem.
As capacidades dos adeptos entrevêem-se e o leitor mais atento saberá orientar a sua desconfiança para detalhes que surgem, enquanto o leitor já iniciado limitar-se-á a entender as origens do que se passa.
O livro é curto porque se baseia em acção e não em explicação. Os acontecimentos estão em movimento e logo nos preocupamos com as personagens e não com a plausabilidade da construção das linhas mais importantes do universo fantástico que suporta os seus livros.
A dedicação aos personagens já estava nos livros anteriores mas aqui o equilíbrio entre elas e a trama maior do universo que crious está muito mais bem urdido.
São detalhes e não ponderações psicológicas que definem os personagens e isso move a própria acção.
No entanto, a maneira como Robert Finn lida com o seu universo é a mesma. Ele está mais interessado em preservar a rica ideia que teve do que fidelizar os leitores a uma personagem.
A ideia está para lá da sobrevivência de uma personagem ou outra e essa é uma liberdade que todos os escritores devem preferir numa série como esta.
Ao preservar a ideia e ao aplicá-la a vários cenários inventivos que não se tornem repetitivos, ele aproveita para mudar a sua escrita a cada cenário e, muito sinceramente, sente-se que a sua abordagem melhora passo a passo.
Esta prequela, como a sequela, parecerão menos volumes em continuidade do que aventuras paralelas dentro das hipóteses do seu universo.
Esse carácter pleno de adaptação, progressão e inovação que Robert Finn aplica à sua série têm-na tornado mais interessante.


Submundo (Robert Finn)
Publicações Europa-América
1ª edição - Dezembro de 2011
144 páginas

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Criação de um mundo onde até cabe a nossa imaginação

Revendo a crítica a O Caso Jane Eyre não sinto que tenha feito justiça ao trabalho de Jasper Fforde. Isso ou não senti desde logo a extensão da criatividade do autor.
O mundo que ele criou é tão extravagante que será sempre coerente, porque tudo o que lhe ocorre cabe nos interstícios do mistério dos vários departamentos das Operações Especiais cuja função está ainda por revelar ou das combinações retro-futurísticas do ano de 1985 do livro em que é possível viajar tanto através do núcleo do planeta como através do Tempo.
As ideias criadas pelo autor dariam azo a, de forma isolada, sustentarem outros livros, de ficção científica, policial, sátira revisionista ou banda desenhada de super-heróis.
E criar é um verbo merecido pois é raro haver algumas dessa ideias que se sintam serem repescadas de outros meios, mesmo para eles remetendo.
Fforde, em vez de tentar fazer render essas ideias e sustentar uma carreira multi-facetada decidiu-se a criar um inacabável multiverso onde todos os seus disparates - pedaços de humor descabido e surrealista - podem ir ganhando espaço e diversificando um texto que, desde logo, tinha uma premissa extraordinária, sobretudo para aficcionados leitores.
Esta detective literária que vai conseguindo entrar nos livros, desta vez, descobre que faz, também, parte da Jurisficção, um departamento meta-literário cujos mistérios de maior monta ainda estão por revelar.
Este conjunto de agentes que são também personagens de ficção são uma das partes substanciais do livro, mas não a única e até demoram bastante tempo a entrar em cena.
São, no entanto, uma criação que poderia dar origem a uma outra inesgotável série de livros dedicados às acções secretas passadas no interior dos milhões de livros publicados (ou por publicar) ao longo da História.
Não parece que Fforde o vá fazer pois os seus propósitos são os de criar literatura agradável ao mesmo tempo que se relaciona com um público mais experiente - sem perder  descaramento de tentar listar os dez clássicos mais chatos de sempre em que pode ofender algumas sensibilidades canónicas.
Por mais ideias que Fforde tenha, por mais géneros que misture, não deixe de ser um dedicado escritor que se foca nos jogos de palavras, nas coincidências linguísticas, nos jogos com as estruturas do livro e nas referências literárias.
Um dos melhores episódios do livro é aquele em que Quinta-Feira Seguinte tem de enfrentar o Tribunal d'O Processo conseguindo dar a volta ao juíz até que o advogado de acusação é lançado para os calabouços. Tão divertido de seguir quanto a comunicação das personagens da Jurisficção através das notas de rodapé, uma sedutora novidade que adiciona funções a um utensílio tão comum e pouco pensado da lituratura e que aqui transforma a dinâmica da própria leitura.
Se há uma certa erudição neste género de invenções ficcionais, não deixa o livro de proporcionar uma leitura veloz e animada para outros públicos.
Para que sirva de exemplo deixo aquela que é para mim a mais brilhante das ideias deste livros, de uma gritante simplicidade e de uma gritante genialidade. Trata-se do entroposcópio, nada mais que um frasco de compota meio por meio de arroz e lentilhas que, quando as coincidências surgem em quantidades demasiado grandes, permite a Quinta-Feira avaliar o risco de vida que corre. Basta agitá-lo e se o arroz e as lentilhas se organizarem (em vez de se misturarem) então o caso é sério! Simples e por isso tão curioso. Absurdo e por isso tão divertido.
O simples vem de mão dada com o extraordinário e ainda que Fforde não arrisque, como Douglas Adams, dar-nos a resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais, dá mesmo assim uma nova visão da criação da vida na Terra com um delicioso sabor a morango. Mais exactamente da criação da vida naquela Terra em particular, uma de muitas para as quais a protagonista ainda poderá vir a saltar com inoportunas consequências que são desvendadas ligeiramente e que podemos dedicar-nos a imaginar sem que nunca tenham de ser exploradas a fundo.
Em parte somos todos criadores a par com Jasper Fforde que nos lega um universo onde as dúvidas sao tão produtivas quanto as revelações.

Não posso terminar sem dar nota da tradução. Uma tradução conscienciosa e eficaz mas à qual falta a noção do uso corrente e corriqueiro da língua inglesa.
Apesar de todo o humor do livro, é quase certo que no original este será substancialmente mais eficaz e mais diversificado.
Alguns exemplos gritantes dessa falha surgem ao longo do livro, tornado as expressões impraticáveis ou deixando passar jogos fonéticos, mesmo que intraduzíveis, sem qualquer referência de rodapé.
Do primeiro caso destaco na página 254 a frase o que me dava a sensação de estar a ler desenhos animados às escondidas durante as aulas na qual "cartoons" deveria ter dado lugar a tiras (dominicais).
Do segundo caso deixo dois exemplos por ser o que mais afecta a riqueza do texto. 
Quando é que ele vai fazer-te perguntas sobre Jack Schitt? (página 104) é uma tirada de duplo sentido em que há um desprezo para com a personagem que fica perdido sem o entendimento que Jack Schitt é foneticamente idêntico a "jack shit", ou seja, "merda nenhuma".
Mais tarde (página 274) o avaliador da detective avalia-a com um F. Não por acaso o seu nome é Flanker, a uma letra apenas de "flunker": aquele que reprova.
Possivelmente o público que, por si só, não consegue penetrar nos resquícios de inglês do texto e compreender este humor nada tem a perder. Mas a tradução só ficava a ganhar com mais "esperteza de rua".
Em sentido inverso não posso deixar de destacar a sedutora capa, desenhada por Ricardo Cabral, de quem já falei aqui com grande admiração.


Perdida num Bom Livro (Jasper Fforde)
Guerra & Paz
1ª edição - Janeiro de 2011
340 páginas

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Joop Iscariotes (e a chata da Anne)

Nunca tive paciência para Anne Frank, sobretudo obrigado a ler o seu diário como exemplo desse género de escrita durante os anos de ensino obrigatório.
O único texto em que gosto de a ver como protagonista é esse certeiro pedaço de humor negro que diz o seguinte:

Anne Frank
Campeã Mundial do Jogo das Escondidas
1942 - 1944

Se comecei a ler este livro foi, precisamente, porque me referiram que ela não saía bem tratada dele.
É verdade que o livro não lhe é simpático, mas mesmo assim termina com um nobre acto em seu nome, uma redenção do verdadeiro protagonista deste relato num exagerado acto final que envolve um sacrifício contra um mártir terrorista com uma lógica ainda mais retorcida que o habitual.
Sem a Parte III, o livro teria acabado melhor, um pouco em aberto mas com a integridade do seu protagonista intacta.
Se tivesse terminado no momento em que Joop percebe que há culpa suficiente para distribuir por vários intervenientes e que ele não precisa de continuar a carregar a solo a culpa da captura de Anne Frank.
Afinal de contas, não fosse a sua traição e Anne Frank não teria cumprido o seu sonho de ser uma escritora publicada e reconhecida.
E não fosse isso, a Holanda não seria um país considerado como um dos poucos que tiveram um comportamento digno para com os judeus durante a ocupação nazi. Apesar de uns dez mil judeus escondidos durante esse período terem sido traídos pelos holandeses em troca de pequenas perspectivas de uma vida menos difícil.
Joop foi o Judas do comportamento holandês durante a primeira metade da década de 1940. Durante décadas odiado anonimamente por todos os admiradores de Anne Frank e até por si próprio, não fosse ele a colocar em movimento os acontecimentos que levariam à publicação do livro da jovem judia e a rapariga
Afinal ela escrevia no seu diário sobre como estar escondida era passar umas férias diferentes, queixava-se de ter de comer várias refeições de morango por ser o único alimento que o seu pai conseguia e preocupava-se excessivamente com o mau corte de cabelo que tinha feito e que Klaus poderia ver.
Ao mesmo tempo o pobre jovem Joop dedicava-se a todo o tipo de trabalhos durante o dia inteiro, fazia contrabando para conseguir comprar um ovo que adiasse a morte do pai doente e a sua preocupação passava consigo mesmo vinha apenas do sentimento de inutilidade que o assolava sempre que não conseguia um ovo para o seu pai.
Quem merece ser relembrado pelo seu sofrimento e esforço durante período tão conturbado? Para mim é óbvio, até porque os feitos de Joop revelam o quão difícil era a vida para todos os povos ocupados e esquecidos pela crueldade usada contra os judeus.
Se Joop não tivesse traído Anne, esta nunca teria sido o ícone que se tornou e eu não teria tido de ler o raio do diário que ela escreveu. Um diário que só tem interesse porque ela morreu, enquanto outros - de mais interesse, de mais valor, de mais talento... - morreram sem deixarem uma linha escrita.
Ainda para mais quando as sequências de maior personalidade e polémica do diário - aquelas em que revela as suas tendências lésbicas e o seu desabrochar sexual - acabariam de fora da versão com que nos ocupavam na escola, censurada na maioria das edições pelo pai de Anne que a queria como uma mártir impoluta. Uma personagem chata e fútil, portanto!
Claro que, nesse caso, também não teria lido este outro relato, com bastante mais valor literário e interesse enquanto saga de sofrimento e entretenimento na Holanda da II Guerra Mundial.
Fica ela por ela, embora me pareça que vale a pena suportar a omnipresença do diário de Anne Frank para ouvir Ricky Gervais dizer sobre Anne Frank que ela foi preguiçosa. Afinal tinha tido tempo para escrever um romance mas apenas deixou um livro que acaba um pouco abruptamente. E nem sequer escreveu uma sequela!


Uma Tulipa para Anne Frank (Richard Lourie)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Setembro de 2005
228 páginas

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

A alma de um romance português

Um homem preso na Tunísia e uma mulher desaparecida algures em África, consequências individuais de um caso de uma noite que liga destinos a três décadas de distância.
Que liga filhos como ligou os pais e que liga os últimos fogachos de contra-revolução portuguesa de 1975 ao jogo da diplomacia internacional corrente.
Mas há mais temas dentro deste livro que parece ter um título anunciador dos seus méritos. A história de amor entre Pedro e Inês ou a concepção corrente do papel que cada género deve desempenhar são temas que se ligam para desafiarem as convenções do leitor.
Olhamos para as personagens e reconhecemos deles algo mais do que os nomes como sinónimos dessa memória Histórica que, de Luís Vaz de Camões a Agustina Bessa-Luís, inspira ainda a Literatura.
Ele, Pedro, tem de inventar um deus para que possa sobreviver acreditando em algo que ocupe a solidão e compense o paladar e o olfacto que lhe levam a "merda" que come e a merda que produz se acumula.
Ela, Constança, mulher de seduções, é fugitiva mas poderá ter-se tornado vítima. O seu destino é feito de rumores mas ainda assim é suficiente para condenar Pedro ao sofrimento da prisão injustificada.
Falta ainda contabilizar Inês, a namorada de Pedro que está no Canadá e que quando deveria rejeitá-lo à conta da traição redescobre o seu interesse nele porque ele se transformou de um rapaz simpático num homem sedutor (mesmo que de outra mulher). Embora a paixão só dure o tempo da sua estadia no país de todos os imprevistos onde ela recusara acompanhar Pedro.
Embora os papéis não se definam da mesma maneira, o resultado é idêntico ao das relações que ainda definem hoje a maior história de amor do nosso Portugal.
Inês não morre mas fica perdida para Pedro devido às suas opções. Constança, como a rainha, é uma mulher desgostosa mas que resolutamente resiste sozinha. E ele, com nome de rei, dá sinal da sua nobreza restituindo amizade à mulher que o levou à prisão, mesmo sem recompensa que sobre ele recaia.
Tudo devido a uma paixão momentânea que carrega o peso de três décadas mas que fala da tragédia de sete séculos.
Uma tragédia que é nossa, dos portugueses. Talvez por aí se aceite que a sinopse diga que este é o romance da alma portuguesa, inquieta e insegura mas não apenas dos trinta anos que passaram desde o 25 de Abril.
A alma portuguesa mantém-se inquieta e insegura, apesar de todos os feitos e todas as paixões, desde que o país ainda não o era. Por tal continua a viver intensamente a mágoa melancólica do Fado que alimenta a antecipação da tragédia de todas as gerações.
A mágoa e uma certa obsessão com a morte são o que resta aos personagens no final do livro.
Só não era necessário que o final, onde os encantos de Casablanca se juntam a todas as outras referências que o escritor coloca no tabuleiro de jogo, fosse tão longo e reflexivo.
A resolução do livro - que até passaria bem sem ela - persegue em demasia a poesia reflexiva que dá às personagens uma faceta extra e um destino apenas semi-infeliz. Até mesmo a Constança, uma personagem central que passa o romance quase todo desaparecida sem que deixe, por isso, de se fazer personagem.
Tal não apaga que Vítor Serpa revela na escrita de um primeiro romance um domínio das palavras e uma profundidade das descrições. Características que podem, claro, ser apenas extensões do seu trabalho de jornalista.
Já a perspicácia que revela para a precisa orientação da narrativa mesmo quando troca de personagem a meio do relato de um mesmo acontecimento é sinal de alguém que merece, logo à primeira tentativa, o epíteto de romancista.


Tanta Gente em Mim (Vítor Serpa)
Publicações Dom Quixote
1ª edição - Abril de 2010
288 páginas