segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Escrever pela humanidade

Os homens quando se vêem a nú diante de si mesmos sentem o maior dos repúdios e a maior das vontades de destruirem essa consciência.
Mas sendo impraticável - impossível não, mas certamente difícil de o fazer a toda uma aldeia - destruirem-se a si mesmos, destroem aquilo que os confronta consigo próprios, sejam meros desenhos ou um estrangeiro que olha para a aldeia de uma nova forma.
Um homem justo é o espelho em que a monstruosidade dos restantes se reflecte e, conscientes de si mesmos, estes homens sentem uma raiva perante de si que não conseguem tolerar.
A raiva e o medo são dois das mais fortes motivações do homem, a primeira servindo geralmente para dominar a segunda. Já quando as duas se combinam, com os homens enraivecidos e assustados consigo mesmos, o resultado é muito mais violento, capaz de os levar ainda mais para lá da brutalidade desumana que já haviam revelado.
Os homens não pretendem senão apagar a memória de si mesmos, dos seus actos, dos seus pecados, da sua ignomínia.
Brodeck escreve contra o esquecimento, contra o silenciar da realidade, contra o apagar do passado.
Mas é ele que carrega esse fardo da memória, ele que tem de penitenciar toda a sua aldeia.
Ele e a família que o acompanha, como a mulher que carrega no ventre o texto que Brodeck escreve para si mesmo, o mesmo ventre de onde nasceu a filha que ele adora, a filha de mais um crime que os homens da aldeia cometeram.
Brodeck será o último homem justo, que quer apenas que todos saibam que é inocente, que não procura a vingança que facilmente poderia ter.
Ele sobreviveu a tudo para reencontrar a sua mulher, embora isso se tenha relevado impossível, porque nenhum homem justo é recompensado neste mundo. Pelo contrário, é castigado vezes e vezes sem conta.
Brodeck escreve o relatório sabendo que com ele pretendem os restantes limpar as suas consciência. Brodeck escreve o seu próprio texto sabendo que ele não pode permitir que as consciências se percam assim.
Não há mais espaço para ele, homem justo, naquela aldeia ou sequer neste mundo. Mas se ele se submete não se rende.
Submeteu-se a ser um cão mas sobreviveu. Submeteu-se a branquear o que os outros haviam feito mas revelou as suas verdadeiras feições.
Terá de bastar que seja apenas ele a sabê-lo, mas Brodeck não se deixou conspurcar, ele escreveu como hipótese de permanecer o homem que pretende, mesmo que nunca consiga voltar a ser o homem que fora.
Ele escreveu para fazer sobreviver a sua humanidade, para nos revelar até que ponto estamos dispostos a perder a nossa.
Estamos mais do que confrontados com nós próprios quando nos vemos no espelho que é Brodeck, reflexos dos homens daquela aldeia.


















O Relatório de Brodeck (Philippe Claudel)
Edições Asa
1ª Edição - Setembro de 2009
256 páginas

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Popular sabedoria

Três cavalos é como um móvel feito para ser sólido mas cuja beleza se revela pelo passar do Tempo.
Tem a desenvoltura manual e tem também a beleza artesanal, tem a solidez suavizada pelo detalhe, o peso do ouro temperado pelo trabalho de filigrana.
Três cavalos está repleto daquela sabedoria que não se escreve, que apenas se vive, de alguém que mete as mãos na terra e lê velhos livros à mesa do almoço.
De quem é refém de uma guerra que não foi sua. De alguém que não taxa o valor da amizade, independentemente de como ela é desniveladamente retribuída de parte a parte. De alguém que se convence não conseguir voltar a amar mas que ainda assim o faz.
Três cavalos tem a serendipidade de encontros que são como renascimentos e redescobertas de si mesmo.
Tem a memória acabada da vida que se levou e a esperança infinita da vida que está por vir.
Três cavalos é uma obra que se dá ao leitor pela sua escrita que é quase como um discurso de natureza popular, mas que dá ainda mais ao leitor por toda a sabedoria que só um discurso assim pode acalentar em nós.


















Três Cavalos (Erri De Luca)
Ambar
1ª Edição - Junho de 2004
120 páginas

domingo, 15 de Novembro de 2009

Toda a literatura

Este é um épico sobre um mundo extraordinário que nos deixa bem presente na mente as infinitas possibilidades da Manha e do Talento, magias extravagantes e originais que nos fascinam pela libertação da imaginação mais livre e inocente que possuímos.
Este é um épico sobre uma personagem a braços com os dilemas mais pungentes que o ser humano enfrenta até hoje, com as expectativas combatendo as emoções, com a crença combatendo a sabedoria, com o mundo combatendo o próprio homem.
Fitz nasceu para uma vida que não lhe pertence, para um destino que deveria ser escrito por todos menos por ele.
No entanto a sua própria existência é fonte de alterações nos destinos de todo um reino e vezes sem contas ele é chamado a tomar decisões que determinam os destinos das próprias pessoas a quem a vida dele deveria pertencer.
Fitz é chamado a muito mais do que desejaria e a muito mais do que deveria, mas isso não um torna um herói, apenas num rapaz a lutar pela sua própria consciência, pela sua própria individualidade, pela sua própria coerência e pela sua própria existência.
Fitz é um personagem da mais rica literatura que, neste caso, pertence a um género muito específico.
Mas um género de pouco serve se não for tratado com o mais capaz talento, um talento para lá de qualquer classificação genérica.
Refraseando George R. Martin, toda a literatura deveria ser assim.


















A Corte dos Traidores (Robin Hobb)
Saída de Emergência
1ª Edição - Outubro de 2009
368 páginas

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Uma personagem a sós

http://www.uwo.ca/french/films/Film%20Images%202007-2008/La_pianiste_2.jpg
Isabelle Huppert como Erika Kohut

Senti-me atraído para A Pianista por ter visto e admirado o filme que Michael Haneke fez dele.
Por Michael Haneke ter arrancado a Isabelle Huppert uma interpretação tão surpreendente quanto intensa, o ressurgimento do título A Pianista na minha mente foi como um foco apontado à leitura.
Há em A Pianista uma personagem extraordinária, Erika Kohut, que não era afinal apenas fruto de uma inspirada actriz.
Ela é a essência de subjugação voluntária para que se lhe activem os sentidos, para que se sinta viva por entre a dormência da sua vida, embora nunca liberta da rendição a que se acostumou ao morar com a mãe.
Mas uma personagem assim, mesmo que fique na memória, não consegue verdadeiramente viver sozinha.
E com isto quero dizer que a escrita de Elfriede Jelinek teria de a suportar, teria de a espicaçar, teria de a acariciar.
Não o faz. A escrita de Elfriede Jelinek tem a eloquência fria de um relatório, um atestado analítico à psique de uma personagem.
Uma frieza que assenta mal, que obriga a uma disputa entre a paciência e o prazer do leitor.
Elfriede Jelinek parece capaz de analisar de forma distante a sua personagem, mas com isso afasta também os seus leitores.
Há aqui uma personagem radical mas que precisava de um outro tratamento para que a acompanhássemos com mais intensidade.


















A Pianista (Elfriede Jelinek)
Edições Asa
2ª Edição - Outubro de 2004
336páginas

domingo, 8 de Novembro de 2009

Contar o que não se deve

Augusten Burroughs é um desbocado capaz de listar os "broches sagrados" - que lhe foram proporcionados por padres -, tentar seduzir um operador de telemarketing para que a empresa dele nunca mais lhe ligue ou insinuar que o marido da sua colega de trabalho anda a fazer sexo com a própria filha como retribuição por ela ter gritado com ele sem razão alguma.
Mas nada disto parece uma exploração saída de uma imprensa cor-de-rosa sedenta de escândalo e choque.
Augusten Burroughs parece muito mais uma versão sem restrições nem limites da nossa vida quotidiana, de quem faz aquilo que bem entende perante as situações quase banais, tornando-as assim em motivo notável para a escrita.
Ele não tem vergonha, não porque pretenda fazer-nos abrir a boca de espanto mas porque aceita verdadeiramente a sua concepção diferente da vida e acha que partilhá-la será catártico para... o leitor, claro!
Se não fosse ele a escrever assim, seria impossível para aquela velhota confessar-lhe que a mãe lhe dava clísteres de Dr. Pepper e depois a obrigava a beber o líquido que saía.
A nossa própria vida ganhar contornos aceitáveis e partilháveis quando encontramos alguém igualmente para lá da "normalidade" - as aspas são para que tentem definir o que é, afinal, esse conceito.
Fácil é rir alto e bom som de tantos pormenores deliciosos que se soltam destas crónicas. Fácil é dizer "Só mesmo a um tipo assim!".
Difícil é depois ter de perceber que a nossa vida, tirando as notas mais extravagantes, não é tão diferente desta, mas que no nosso caso estamos um pouco mais constrangidos a ser boas pessoas e aturar o que se passa.
Augusten Burroughs coloca-se a jeito para que qualquer pessoa o ache seu companheiro, porque não se contam histórias assim na praça pública, não se é neurótico para uma audiência de desconhecidos porque isso atrai uma avalanche de bizarrias de volta.
Só que ele tem um certo sadismo apontado ao mundo, disposto como uma bofetada ou uma chamada de despertar. Cada um tem as suas próprias histórias negras a precisarem de catárse, de serem contadas em voz alta com histerismo e gargalhadas.
Augusten Burroughs apenas colocou as dele cá fora primeiro para dar o exemplo.


















Pensamento Mágico (Augusten Burroughs)
Contraponto
1ª edição - Julho de 2009
292 páginas

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Mais tréguas como esta

Se disser muito simplesmente que A Trégua é uma lição sobre o Amor, chegarão a um lugar-comum de imaginarem um qualquer romance lamechas com pretensões de psicologia barata.
Se disser, pelo contrário, que A Trégua é o retrato de como a vida se espraia para a eternidade mesmo nos momentos mais ténues, julgarão que se trata de um romance sobrecarregado de intelectualidade.
A Trégua, muito provavelmente, é tudo o que existe pelo meio de ambos os pontos e que os une ou separa.
A Trégua é um diário (literalmente) de um homem a caminho da reforma que se atormenta com o que poderia ter sido, com o tempo vazio que terá de ocupar, com as memórias que ressurgem ou se perdem.
Um homem que tem, ao fim de vinte anos de imaculada viuvez, o encontro com uma jovem que o arrebata.
Ele, julgando-se perto demais do fim - da vida, das possibilidades, do merecimento - não é capaz de se entregar ao que verdadeiramente sente. Demora demais até aceitar que poderá estar perante algo que merece mais do que a sua desconfiança.
Crente no inevitável fim daquilo que vive naquele momento, ele não encarará esta porção da sua vida senão como encara a própria vida, um tempo a ter de ser ocupado, um ócio sem justificações.
Por isso esconde, até de si mesmo, a felicidade conjunta que encontrou e que vive, Quando a deixa despontar não é ainda tarde demais, mas há uma dramática lição para aquele homem que tanto atormentava a própria alma.
A trégua do título é o tempo que Deus lhe concede de alívio das dúvidas mundanas, um alívio que será por natureza breve e que confundirá aquele que o sente por se parecer demais com a verdadeira salvação, a eternidade feliz concedida antecipadamente.
A trégua não é a disponibilidade de tempo para aquilo que ele quiser. A trégua é o esquecimento da inexorável passagem desse tempo e das tragédias que se encontram na revisão do tempo que ficou para trás.
A Trégua é um livro absoluto, uma Alma traduzida em palavras e um pedaço de literatura brilhante.


















A Trégua (Mario Benedetti)
Cavalo de Ferro
1ª edição - Abril de 2007
168 páginas

domingo, 1 de Novembro de 2009

Ficar aborrecido

Lê-se O Perito e sente-se que estamos a braços com um autor cheio de ideias e perfeitamente capaz que é vitíma das circunstâncias editoriais.
Não digo que Robert Finn não tenha escrito o livro que pretendia, mas parece ter-se resignado às convenções de um género porque é aquele que, neste momento, está em voga.
No fundo O Perito tem dois livros dentro de si.
O primeiro é um policial simples que está enriquecido por uma dupla protagonista que são como pólos atraídos um para o outro, mas igualmente repelidos.
Um casal a trocar picardias, ele um inglês estranhamente impetuoso e ela uma americana estranhamente resguardada.
São, com as devidas distâncias, um Boogie & Bacall para os tempos actuais - sendo que tenho consciência que a este comentário não seré estranha a leitura recente de À Beira do Abismo.
O segundo é um livro de fantasia onde velhos textos sobre magia podem ser manuais eficazes, que podem trazer ao mundo moderno de poderes que rivalizam com a ciência mais avançada ao mesmo tempo que o impregna do classicismo que só os combates de florete podem ter.
Separados dariam dois livros muito apetecíveis e certamente com muito mais páginas para cada um se desenvolver e respirar.
Juntos dão, ainda assim, um agradável e eficaz livro que, apesar de tudo, escapa à repetição da fórmula que parece condenado a repetir.
É caso para ficar aborrecido com Dan Brown e o seu sucesso que obriga a uma formatação da imaginação - ou, pelo menos, da expressão dessa imaginação.


















O Perito (Robert Finn)
Publicações Europa-América
1ª edição - Julho de 2009
392 páginas

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Urdidura

Eis um título que assenta perfeitamente ao texto que dele se desvenda.
Esta obra é, de facto, a disposição de um conjunto de fios ficcionais que se correm paralelos ou consecutivos parece pouco importante, já que o autor nos vai enredando naquilo que é quase um loucura de memórias.
Memórias que ganham forma na sua expressão literária e que, por isso, estão sujeitas a serem entrecortadas e afectadas por repetições, imagens perdidas, metáforas, referências bizarras e devaneios.
Fios ficcionais que precisam então de um outro fio, uma trama que os cruzasse e agregasse, que lhess desse consistência.
Falta-lhes um entendimento que os atravasse, que seja transversal a todas as divagações.
O livro chega a ter momentos em que é um pequeno deslumbramento imagético e sonoro - tanto que vale a pena ler algumas passagens em voz alta - mas a maior parte do tempo tem como que uma alucinação no seio da qual não se consegue alinhavar o essencial.


















Urdidura (João Rebocho)
Teorema
Sem indicação da edição - Abril de 2001
180 páginas

domingo, 18 de Outubro de 2009

A personagem, a essência

http://image.guardian.co.uk/sys-images/Film/Pix/pictures/2007/01/31/marlowe460.jpg

Marlowe é íntegro, ele é o bastião da moral possível num mundo capaz de enveredar pelos actos mais ignominiosos.
Ele é o último dos existencialistas, fiel a si próprio, pois não são "25 dólares mais despesas" que o levaram a escolher esta profissão.
Talvez Marlowe não consiga dormir descansadamente à noite, mas é sem sobra de dúvida aquele que menos mal pode dormir.
Ele opera como a sua consciência lhe permite, fiel apenas a si e ao seu empregador, à justiça que esse pacto envolve.
A justiça externa não lhe interessa verdadeiramente, só ele resiste ainda num mundo vulgar, só ele ele é a fonte de irrisão que confronta esse mundo.

Se nos perdermos no rumo incerto de À Beira do Abismo, não tem mal. Nem Chandler conseguia ter a certeza de como morriam algumas das suas personagens.
Não interessa aqui desvendar - nem por nós, nem por Marlowe - os eventos. Interessa que eles se sucedam e acelerem em direcção à sua própria colisão.
Interessa que eles criem uma sensação, porque À Beira do Abismo é um ambiente, um mundo para que Marlowe exista e lance as suas deliciosas tiradas.
Um mundo que é dele, que só existe onde ele está, que só existe no espaço imediato que o rodeia.
E Marlowe é uma das mais memoráveis e indispensáveis personagens da literatura americana.
Talvez seja isso o essencial a ser dito!


















À beira do abismo (Raymond Chandler)
Contraponto
1ª edição - Julho de 2009
200 páginas

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Para se deixar levar

Ao ler este livro, é preciso saber deixar-se levar pela sua linguagem.
É preciso permitir ser-se arrastado e hipnotizado por este poema em prosa, que ora é extático ora é sofrido.
A história contada em qualquer outra forma não ocuparia mais do que uma única páginas. Bastaria uma composição de escola para explicar o amor desgostoso e impossível de que Elizabeth Smart nos fala.
Mas esse seu amor - este é um relato autobiográfico - dá-lhe o poder de reinventar cada momento da sua memória numa beleza torrencial da linguagem.
Linguagem que expressa a concepção do mundo que esta mulher tem, uma concepção absolutamente subjectiva em que os grandes problemas que a circundam só interessam quando afectam o seu amor directamente.
A sua emoção jorra profundamente sobre a sua linguagem, o mundo dela é feito daquelas palavras e daquela fixação amorosa.
Não sei se será uma obra-prima do género como assinalam, mas sei que é um pequeno e belo livro que precisa realmente que o leitor se entregue a ele.

Já agora, é contraproducente ler o prefácio da tradutora.
Além das informações biográficas sobre Elizabeth Smart que ajudam a contextualizar a história que se segue, está também cheio de considerações intelectuais sobre o texto que condicionam as expectativas do leitor.
Depois de lido o prefácio é difícil largar a tendência para tentar captar as "collages" e, realmente, deixar-se levar pelo texto.


















Junto à Grand Central Station sentei-me e chorei (Elizabeth Smart)
Teorema
Sem indicação da edição - Abril de 1997
124 páginas

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

A riqueza da Ficção Científica

Darwinia é um livro de uma riqueza e complexidade extraordinária que dificulta a sua simples classificação.
A originalidade do texto, a sua riqueza e agregação de referências permitem apenas dizer que se encontra no seio da Ficção Científica.
Darwinia fala de Cosmologia, aproxima-se do Cyberpunk, trabalha sobre a especulação científica e a História alternativa e toca o imaginário dos Universos Paralelos.
Darwinia liga Edgar Rice Burroughs a William Gibson, ou melhor dizendo, homenageia a Ficção Científica mais aventurosa e aponta baterias ao melhor do que se apresentava já como linha condutora para o género.
Darwinia tem uma riqueza de imaginação enorme que lhe permite vaguear quase casualmente entre estes sub-géneros, lançando o leitor em especulações e viagens extraordinárias para as quais basta a composição de pequenos momentos, quase apenas sugestões, para nos deixarmos convencer.
Darwinia é uma leitura surpreendente até ao fim, uma lição em Ficção Científica e um prazer singular.
Não será um livro propriamente fácil, mas é de uma enorme recompensa.


















Darwinia (Robert Charles Wilson)
Saída de Emergência
1ª edição - Setembro de 2009
320 páginas

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

A grande comédia

Em A Pesca do Salmão do Iémen temos muitas formas de informação a surgir entrecaladas na narrativa.
São notícias, emails, excertos de uma biografia, a transcrição de interrogatórios, diários vasculhados...
São formas distintas de olhar os acontecimentos, cada qual correspondendo a uma perspectiva encoberta.
Cada qual revelando a falsidade do comportamento de uns e de outros, dos políticos, dos cientistas, dos jornalistas, dos terroristas, dos poderosos.
Cada um destes tem um interesse próprio n'A Pesca do Salmão do Iémen, um projecto que só pretende apagar as diferenças entre os homens, fazer desaparecer os seus sedentos interesses.
Com as pernas mergulhadas no rio, a cana expectante pela mordidela do salmão, todos os homens são iguais seja qual for a sua classe, homens feitos de esperança pela boa fortuna da pescaria.
É um projecto megalómano, quase imposível, mas pelo qual há um trio de personagens que luta.
Personagens que pelo meio da ridícula hipocrisia generalizada continuam a lutar por uma crença, por um milagre, por um feito assinalável.
Eles lutam, sempre com a consciência de que a sua recompensa pode ser somente o desapontamento, pode ser somente um culpabilizante apontar de dedo.
Não importa que o empreendimento tenha tido sucesso, pois só a desgraça alimenta a informação, verdadeiramente.
Não importa que os homens tenham concretizado o milagre sonhado, pois só o que pequeno pormenor que lhes escapou fica para ser contado.
Não importa que as suas intenções sejam as mais belas, pois só o cínico olhar dos restantes terá espaço na memória colectiva.
É o retrato do nosso mundo, uma cruel sanguessuga sem consideração por aqueles que ainda lutam.
Que no meio destas tribulações o milagre tenha podido ter o seu lugar, que no meio deste lugar uma preciosa e delicada história de amor tenha podido nascer, só nos leva a uma conclusão: já não podemos apreciar a Humanidade, mas temos ainda de nos comover com alguns dos seus singulares indivíduos.
A comédia deste livro está para lá da sátira (política, social, económica), é a comédia da cada vez mais trágica Humanidade. E essa, talvez não faça rir tantos assim!

Não podia acabar sem deixar uma nota de elevado apreço pela magnífica composição da capa.
O padrão em relevo que atravessa o salmão é um prazer de sentir na pele enquanto seguramos o livro aberto para o ler.
E mesmo antes de ler as primeiras palavras, já estava desejoso de ler o livro que possui tão atraente capa!


















A pesca do salmão no Iémen (Paul Torday)
Edições Asa
1ª edição - Agosto de 2009
288 páginas

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

A escrita de um pensador

Kleist é um pensador. Um pensador de uma eloquência e de uma pertinência incontestáveis.
Isso não impede que seja um pensador com quem é possível identificarmo-nos e com quem é possível debatermos.
É um pensador que aponta sempre à evolução, à progressão de ideia para ideia até encontrar o sentido último do que começou a dizer.
Um dos seus textos, aliás, versa exactamente sobre isso mesmo, sobre a constituição das ideias à medida do discurso, de como estas se compõe e modificam perante as palavras e os sentidos inesperados que se tomam ao longo do discurso.
Por isso mesmo, por ser um pensador assim, é um pensador com as suas idiossincrasias, dualidades e erros.
Mas a essência do que ele diz vive para lá de quaisquer defeitos que queiramos apontar à composição do discurso.
A sua pertinência não seria maior se todos os seus textos fossem refinados a um ponto em que nenhum pequeno defeito lhes pudesse ser apontado, ao ponto em que a linguagem estivesse tão densamente reconstruída que fosse já impossível pensar as ideias do texto por ser preciso antes pensar o texto ele próprio.
E isso é mesmo o mais prazeiroso de tudo, o encontro com a inventividade literária com que Kleist escreve.
Seja sobre a forma de carta, de fábula, de oração religiosa ou de ficções construídas em nome de personagens em cuja pele faria mais sentido opinar como opina, Kleist constrói uma obra muito rica e interessante, cujo prazer rivaliza com a sua riqueza.
A fluidez das palavras, a qualidade destes textos acaba por melhor fazer afluir as ideias com que nos presenteia.
Nem a forma nem o conteúdo tentam ser a componente mais rica deste trabalho, antes a forma parece sempre a mais propícia a elucidar-nos sobre o tema em causa.
Tema esse que pode passar da estética à política, da arte à sociedade, da intelectualidade à natureza.
Nenhum tema parece contraditório ou simples para Kleist, porque é na forma como ele os trata que a sua coerência se revela.
Kleist reflecte sempre contra o pessimismo dominante, contra o erro instituído e contra o facilitismo generalizado.
Por isso ele precisa da vivacidade e da paixão da sua linguagem, para fazer vingar o seu discurso e as suas ideias, para obrigar a que as retamos e trabalhemos.
E consegue-o, sim, como o consegue!


















Sobre o teatro de marionetas e outros escritos (Heinrich von Kleist)
Antígona
1ª edição - Junho de 2009
160 páginas

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Num mau filme

Se houve tempos em que o Cinema adoptou a linguagem literária, agora o efeito parece cada vez mais invertido.
Encontro com o Medo evidencia isso mesmo, num género que se propicia demasiado a tal efeito, o thriller sobrenatural.
Encontro com o Medo é construído, de forma clara, em cenas.
Reconhece-se facilmente o mecanismo que coloca o texto muito a jeito de ser adaptado ao grande ecrã, montado e cortado para funcionar para um espectador.
Só que, à conta disso mesmo, temos cenas ora demasiado palavrosas - onde se reconhece de facto o efeito de câmara com que todas aquelas palavras inúteis seriam substituídas - ora demasiado crípticas - querendo agilizar uma determinada cena, acaba por não lhe dar o conteúdo certo para a fazer funcionar.
O problema adensa-se quando o leitor - pelo menos um leitor que tenha lido alguma BD das últimas décadas, que tenha visto alguma das séries de televisão que surgiram na descendência de Millennium ou um dos muitos filmes que Hollywood tem dado à luz com repetitiva cadência - se confronta com terreno muito batido, sem nada de distinguível.
O final - e foram precisas três tentativas para lá chegar - é de uma facilidade preguiçosa que se lança directamente à jugular de uma sequela, além de deixar a nú a pouca imaginação da escritora, que tentando ser original e obscura já revelou a verdade por detrás do verdadeiro vilão que ainda há-de atormentar a equipa de investigação com poderes psíquicos.
Não sei porque raio 6 milhões de americanos acabaram por comprar este livro. Afinal estamos numa sociedade altamente dependente da imagem e, nesse domínio, há exemplos muito melhores disponíveis na televisão quase todos os dias.
Encontro com o Medo até poderia funcionar nesse registo, mas escrito dá um mau filme.


















Encontro com o Medo (Kay Hooper)
Casa das Letras
1ª Edição - Maio de 2009
288 páginas

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Uma crónica de Tróia

Dares Frígio é um cronista de uma guerra que conhecemos bem de textos míticos.
A sua narrativa é sóbria e cheia de informações que a tornam numa fonte de enorme relevância e credibilidade histórica.
Literariamente o texto não é particularmente rico ou relevante, mas é eficaz ao tornar mais palpáveis e reais as personagens que sempre me pareceram ter nascido de uma imaginação genial.
Aqui ausentam-se os deuses e surgem as fraquezas humanas. Sem a influência dos deuses, Heitor, Aquiles e Hércules estão mais expostos às suas próprias falhas e motivações.
Os heróis são aqui mais humanos do que nos lembramos deles, levados à guerra pelas suas fixações com mulheres. São, afinal, personagens com que podemos finalmente relacionar-nos e não só admirar.

O estudo introdutório de Reina Pereira é muito rico em informação, mas serve mais os propósitos dos estudiosos.
Não tanto pelas citações que invocam os textos clássicos mais conhecidos, mas porque envolve uma pesquisa que não serve como introdução ao leitor comum.
A quantidade de citações em grego original ou a avaliação das qualidades sintáticas exigem conhecimentos mais vastos.


















Da História da Destruição de Tróia (Dares Frígio)
Publicações Europa-América
1ª Edição - Setembro de 2009
138 páginas

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Da vida cruel

Veneno é um pequeno texto de uma enorme crueldade.
A luta de uma criança estropiada contra uma cobra é o retrato da crueldade da própria vida.
O rapaz e a cobra começam a luta pelas suas próprias vidas, ele apertando-lhe a cabeça com o único braço que tem bom e ela esmagando-o com o seu aperto.
Ele busca ajuda na aldeia mas os seus pais fogem do que lhes parece um monstro.
Ele busca ajuda na aldeia mas o feiticeiro local anuncia aquilo como um castigo divino.
Ele busca ajuda na aldeia mas os homens temem aproximar-se dele mesmo podendo salvá-lo facilmente.
O rapaz está sozinho, mas mesmo contra todas as adversidades luta e defende a vida que mais ninguém parece apreciar.
Não se trata apenas do combate contra a cobra, trata-se do combate pelo significado da sua vida, ele que só com um braço sonhava ser fantocheiro. Não só sonhava como conseguia e encantava as restantes crianças, mesmo que os adultos não lhe dessem valor algum, mesmo tendo sido o barulho do seu último espectáculo de fantoches a atrair a raiva da cobra.
E o rapaz luta sem desistir, é a sua vida mesmo que ninguém de entre os que observam a cena pareça apreciá-la.
Até que ele se deixa convencer totalmente, ele que já evitara pedir ajuda ao sacerdote para não lhe interromper as orações, finalmente deixa que a cobra o morda.
Então percebemos... Não é a morte que derrota alguém, é a descrença, a desistência.
Quando se consente que não há mais propósito em lutar, então uma pessoa derrotou-se a si mesma, ainda que tenha vencido a luta pela sobrevivência.


















Veneno (Saneh Sangsuk)
Ambar
1ª Edição - Abril de 2002
64 páginas

sábado, 26 de Setembro de 2009

Meticuloso

Não são infundadas as afirmações de "viciante" para o livro de Stieg Larsson, embora seja pelos motivos menos óbvios se olharmos para a actual vaga de bem sucedidos thrillers.
Larsson não tem de recorrer a twists quase mirabolantes para compôr o seu policial.
Pelo contrário, quem tem o hábito de ler este género encontrará diversos pontos em que as suas próprias deduções coincidirão com aquilo que o autor acaba por resolver na sua trama.
Mas é na própria construção meticulosa dos eventos, na preparação sistemática da investigação e na composição cuidada da expectativa - e sua posterior resolução - que Stieg Larsson torna este livro numa obra a que não se consegue fugir.
A construção de Os homens que odeiam as mulheres é demorada e cuidada, clássica mesmo.
A complexidade e extensão das relações e eventos obrigam à atenção do leitor, obrigam a que este se embrenhe no livro. O livro é, ele próprio, um desafio.
E, claro, a maior aposta é, como todos os grandes romances, independentemente do seu género, na composição das suas personagens e das relações entre elas.
Independentemente dos eventos em torno deles, são Lisbeth Salander - uma memorável personagem da literatura - e Mikael Blomkvist, as suas vidas e a sua aproximação tão singela quanto perturbada, que importam. A importância deles é maior do que a simples resolução do mistério e de todos os seus graus e interstícios, embora isso mesmo não seja negligenciável.
Talvez por isto mesmo se justifique o sucesso do livro, porque exige dos leitores não habituados a este tipo de narrativa bastante mais do que o habitual, não chegando a nenhum ponto onde simplesmente corta com toda a lógica anterior. O leitor tem de estar empenhado até ao final.
O leitor precisa disso, precisa de voltar a sentir que o romance que lê investe tanto nele como o leitor no romance.
À conta de ser tão meticuloso com aquilo que proporciona ao leitor é que o livro é tão viciante.


















Os homens que odeiam as mulheres (Stieg Larsson)
Oceanos
2ª Edição - Novembro de 2008
544 páginas

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Uma experiência

[The+Little+Men,+Reality+Shoe,+2004,+videoinstallation.jpg]
Cena da instalação vídeo "The Little Men" (The Blue Noses Group)


Este romance de Lydie Salvayre é uma experiência que se torna imensamente difícil de classificar, de resumir de forma perfeitamente explícita.
Isso mesmo torna este romance tão interessante de seguir, ainda que agora me debata perante aquilo que direi para tentar passar essa mesma percepção.
Este é o relato de uma viagem turística pelos lugares mais pobres da Europa, pontos exóticos para a classe burguesa.
Só que a autora não está aqui para falar dos guetos nem dos eventos exteriores que se podem visualizar.
Aqui o que interessa são as dinâmicas do grupo que se forma, ele próprio uma mistura complexa de personalidades e formas de estar.
Do escritor intelectualmente superior à analfabeta mulata de quem decidem tomar conta, passando pelo condutor do autocarro que provém dos bairros que eles se propõem visitar, o grupo parece fazer o retrato mais abrangente da sociedade, capaz de discutir a precisão de Nietzsche enquanto usa o exotismo da viagem como catalisador sexual, capaz de discutir teoricamente as razões de toda a pobreza que se espraia do lado de fora e sem ver, mesmo à sua frente, a capacidade que todas as pessoas têm de sentir e de se encantar, independentemente da sua condição.

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Lydie Salvayre, por Léa Crespi

O que Lydie depois faz é escrever uma espécie de confissão permanente da sua consciência de escritora, falando com ternura ou ironia das suas criações. Fazendo reparos de quem sabe as regras de como montar um programa televisivo – é disso que estamos próximos, um reality show em que os voyeurs-leitores estão vidrados nos voyeurs-personagens - e apesar de ter de as cumprir consegue escapar à sua opressão.
Lydie vai desmontando a própria lógica da construção ficcional, como que dando conta ao leitor das falhas que são, afinal, intencionais e que levam o leitor a desafiar as ideias fáceis de formar sobre aquilo que vai lendo.
Este livro é uma verdadeira experiência em todos os seus níveis. Uma experiência que, a ter de ser comparada, apenas poderia ser com aquilo que Michael Haneke faz nos seus filmes. Uma experiência social, escrita para a geração que tem a televisão como motor mais comum.
E ao fim de dois livros, devo dizer que, mesmo não vendo Lydie Salvayre como uma grande escritora – não confundir com ver como má escritora - é certamente uma desafiante experimentalista a ter em conta.


















As boas consciências (Lydie Salvayre)
Terramar
1ª Edição - Janeiro de 2002
132 páginas

domingo, 13 de Setembro de 2009

Demasiado hype faz mal

O O Caso das Mangas Explosivas chegou-me às mãos com alguma sorte e quando, finalmente, chegou a sua vez de ser lido, suponho que estava pronto para uma revelação de dimensão considerável embora, confesse, o livro tivesse falhado em despertar-me o interesse.
Mas não havendo crítica que não desse conta do magnífico que o livro é e tomando nota dos comentários tão ilustres e elogioso que alguém como Le Carré fez, haveriam de anunciar algo inesquecível.
Mas o hype faz mal a tudo, como aqueles que viram o filme com esse nome exacto bem saberão.
Aquilo que acabei por ler foi um curioso romance, inteligente na sua sátira aos medos e desejos dos ditadores que se munem do fanatismo religioso (mas de todos os ditadores em geral) para melhor controlar o seu país.
Há algo de perfeitamente burlesco na paranóia que esse ditador consegue impôr a si mesmo, baseando-se em todos os factores errados quando na verdade todos aqueles que o rodeiam realmente o tentam matar.
Há algo de perfeitamente nonsense na forma como um país vai lidando com os seus prisioneiros e os seus heróis, ao ritmo das vontades de cada novo líder e das suas pretensões (ou falta delas).
São boas ideias, onde a crítica velada tem os seus efeitos certeiros, com pormenores que extravasam a crítica da ideologia ditatorial para falar da de todos, como na crendice que rege o nosso General Zia, que abre o Corão à sorte para encontrar uma passagem que lhe sirva de "horóscopo para o dia" (é assim, aliás, que ele deduz que o querem matar).
Mas além dessa sátira há uma nuance dramática sobre a herança de um pai - militar que se suicidou - e o comportamento pessoal - amoroso, por exemplo - contra a conduta militar que parece um pouco fora de tom.
Hanif não joga as suas peças com igual desenvoltura e o romance parece perdido entre duas possibilidades.
É uma boa leitura mas insuficiente, seja culpa do hype ou não. Mas parece-me que foi a vontade de dar ao mundo uma visão caricatural das ditaduras e um conhecimento de uma literatura praticamente desconhecida que levou a que se gerasse tanto burburinho.


















O caso das mangas explosivas (Mohammed Hanif)
Porto Editora
1ª Edição - Julho de 2009
336 páginas

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Há momentos em que convém

Alguns amigos meus têm estranhado por me verem a ler esta saga, num misto de perplexidade de me encontrarem com um género que me é pouco habitual e julgamento crítico de superioridade intelectual.
Há mais do que um motivo para que tal aconteça, mas deixarei aquele que se possa apresentar de forma concludente.
Esta saga aglutina características tão diversas de uma forma coerente e capaz, talvez não perfeita em si mesma, mas perfeita perante o objectivo que a rege.
É uma obra despretensiosa, que se propõe a cativar um leitor pelo divertimento que lhe proporciona.
Com uma parcela de novela - capaz de irritar o leitor masculino a páginas tantas - , outra de mitologia inserida no mundo moderno, outra de aventura e mistério, outra de puro humor negro e ainda outra de comentário social, a saga de Sangue Fresco consegue engajar o leitor no seu universo peculiar de forma simples e eficaz.
Melhor ainda, consegue manter o leitor por lá, abstraído e confortável, desejoso de mais um regresso, de mais uma peripécia, de mais um reencontro com as personagens.
Por estes motivos, esta saga conseguiu gerar uma igualmente interessante série televisiva e consegue agregar um público diversificado.
Em somatório, Dívida de Sangue é uma viagem de dois dias por um pedaço de entretenimento sólido e cativante.
E isso, mais do que nos bastar, por vezes convém realmente.


















Dívida de Sangue (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª Edição - Julho de 2009
256 páginas