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sábado, 7 de dezembro de 2013

Autora de autores

Iniciando-se a leitura de Greve a ideia que logo temos é de que estamos perante uma brincadeira fácil, daquelas que todos seriam capazes de criar caso a isso se dedicassem.
Claro que antes de a tal se dedicarem seria preciso nela pensarem, o que é o grande momento de génio de qualquer obra admirável.
No caso deste livro o momento de génio não se restringe a alcançar a ideia deste livro, vem ainda mais da insistência cumulativa do jogo feito com as muitas aplicações da palavra "ponto".
Catarina Sobral vai buscar muitas referências que a memória não produz facilmente e trata-as na procura de superar as convenções óbvias.
O acumular de referências linguísticas é mais do que matéria da imaginação, é a matéria-prima de um labor de escritora em busca de encontrar novas possibilidades dentro da tradição da Língua Portuguesa.
O contacto popular e oral com a Língua é assumido como complemento de inovação para os usos escritos da mesma, como que querendo preservar e perpetuar a inventividade que pertence a todos e que, neste caso, tem a vantagem de se dar de forma mais simples e que todos reconhecem, com a perspectiva de o fazer tanto para um público mais novo que ainda se molda à Língua Portuguesa e para um público mais velho que aprecia as suas possibilidades.
Um trabalho técnico de escritora que Catarina Sobral complementa com um trabalho de artista, fazendo com que as imagens superem as barreiras que as palavras encontram no seu caminho.
Nesse campo, a ideia de uso dos recortes que dão forma às cenas assemelha-se à usada nas palavras: os novos significados das imagens acrescentam aos significados anteriores das suas partes.
A "tradição" aqui é tanto a origem do material, que permanece visível e inalterada e apenas moldada a novas formas, como as referências dessa tradição da colagem, daquela inevitável que são as obras de Georges Braque no início do século XX e até aquelas da animação seja Terry Gilliam ou Zbigniew Rybczynski.
A conjugação de escritora e ilustradora é perfeita neste livro, fazendo de Catarina Sobral uma autora de uma identidade só.
Isso é mais visível na maneira como trabalha o livro como um todo, objecto de expressão que supera as ideias estabelecidas sobre o mesmo (algo que é habitual nas edições Orfeu Mini que entretanto foram lidas por aqui).
Trabalha-o desde algo tão "simples" como a brincadeira consigo mesma feita na contracapa do livro a algo tão "complicado" como a inserção do frontespício e da ficha de refência nas próprias páginas ilustradas do livro.
Pode dizer-se que se trata do reconhecimento das páginas e espaços do livro normalmente reservados a informações técnicas ou informativas como matéria de uso para corte e colagem global da forma do próprio livro.
Catarina Sobral consegue-o e nunca aliena o leitor no processo. O leitor é acolhido e acarinhado no seio do livro e encontra mesmo um desafio no Post Scriptum.
Esse funciona como o lançamento de um outro livro, uma sequela autónoma que a autora (provavelmente) nunca pretende escrever.
Trata-se de um repto ao leitor, para que este invente agora o seu jogo de linguagem, que se torne um autor (à sua escala) e amante da Língua.
Assim ela poderá seguir adiantes criando outras obras, mas legando a cada leitor - e, novamente, aos mais novos primeiro - uma independência da imaginação.


Greve (Catarina Sobral)
Orfeu Mini / Orfeu Negro
1ª edição - Outubro de 2011
52 páginas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Inclinado sobre o livro

O delicioso O Livro Inclinado tem uma história muito simples, feita de pequenos episódios caricatos causados por um carrinho de bebé que rola solto por uma ladeira abaixo.
Mas a história é acessória, ritmada e divertida nas suas quadras - dois traços que a tradução portuguesa mantém e até mesmo valoriza - e magnificamente ilustrada, mas acessória.
O que importa é compreender como o mecanismo constitutivo do livro, a sua inclinação, é motivo central do jogo de leitura e de significados.
Tal como com O incrível rapaz que comia livros, aqui se apela à interacção com o significado do livro como objecto dinâmico, mutável e surpreendente.
Ao quebrar a barreira do rectângulo - como os livros de pop-ups fazem de uma outra forma - este livro cria uma riqueza para o livro que obrigatoriamente fará o leitor a ele reagir e se indagar sobre o que mais pode, afinal, um livro ser para além da definição - que neste caso significará igualmente limitação - académica que se habituou a conhecer.
Mas há algo de ainda mais curioso na inclinação do livro. Com as letras a escorregaram nas páginas da esquerda (quando temos o livro aberto) e as figuras a escorregarem nas páginas na direita, o leitor é conduzido ao coração do livro, convidado a um mergulho quase literal no interior do objecto que se apresenta à sua frente.
Onde as imagens e as palavras colidiriam está um espaço em branco, mas está também a imaginação do leitor.
O livro não só se apresenta como objecto, como obriga (agradavelmente) o leitor a tornar-se parte do livro.
Todos estes efeitos que resultam de um artifício realmente tão simples - mas que alguém teve de imaginar de forma pioneira - e todos os outros que cada leitor poderá descobrir por si, tornam O Livro Inclinado numa obra que 100 anos depois ainda surpreende e ainda merece o culto que foi ganhando.


















O Livro Inclinado (Cristina Carvalho)Orfeu Negro/Orfeu Mini
2ª edição - 2009
48 páginas

terça-feira, 14 de julho de 2009

Conhecer e gostar dos livros

Fotografia respeitavelmente copiada do blog Pó dos Livros
por falta de máquina própria
.

Este sim é um caso para afirmar que "No meu tempo não havia livros assim!".
E por "livros assim" entenda-se um livro infantil que expressa ao mais infímo detalhe a relação que se deve ter com um livro, não apenas com o seu conteúdo, mas também com a sua existência física como objecto.
O Incrível Rapaz que comia livros trata de forma grandiosamente sugestiva e imaginativa da relação que se estabelece com um livro, do prazer que ele nos dá, a par do conhecimento. Trata também da forma como encaramos o livro, o respeito e o cuidado que lhe prestamos.
Um livro que ensina o prazer de lidar com o que se lê mas também com a forma como se lê.
Afinal de contas, devorar - no seu sentido figurado - pode ser tão nocivo quanto devorar - no seu sentido literal - um livro. Antes é preciso saber estabelecer uma relação com cada um destes objectos singulares, descobrir-lhe o exterior para lhe desvendar o interior.
Um livro sobre a boa prática do livro, não para ensinar "maneiras", mas antes para cultivar o prazer de fechar este livro e procurar outro para continuar a crescer literariamente (e não só, claro).
Um livro singularmente escrito, tao repleto de uma surpreendente imaginação que não deixará de encantar os leitores adultos; e admiravelmente ilustrado, encantatório e original, impossível de ser descrito mas obrigatório de ser olhado.
Um livro pensado para o prazer do livro até ao mais ínfimo detalhe - repito-me, é verdade, mas a razão para tal é indesmentível - com aquela divertida dentada que vem na contracapa da edição e que podem ver na foto.

Já agora, aconselha-se que vão descobrindo o livro aqui, numa iniciativa igualmente divertida e original que dá um renovado prazer ao livro com uma leitura alheia que se funde com a nossa própria.


















O incrível rapaz que comia livros (Oliver Jeffers)Orfeu Mini/Orfeu Negro
1ª edição - Março de 2008
36 páginas