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sábado, 4 de junho de 2016

Frustrações

Tenho imensa vontade de descobrir autores portugueses de quem possa gostar com firme convicção e a cada livro que me chega renovo a minha esperança.
Embora não me possa sentir traído senão por mim mesmo, os dois livros sobre os quais escrevo aqui desapontaram-me em tudo excepto o design das capas cuja simplicidade atraente mas eficaz é tudo aquilo que os textos que resguardam não são.

No Trilho dos Seis Zimbros é bem escrito ainda que alguns dos contos dependam demasiado de diálogos um pouco livres demais no uso informal da Língua.
O problema dos seus seis contos é que cada um deles é uma história que não resulta em nada de gratificante.
O autor inicia as suas histórias sempre de forma familiar. Não só cenários quotidianos ao entendimento como cenários já presentes em muita ficção em vários meios.
A expectativa é sempre que o autor tenha uma ideia original para rematar o texto, surpreendendo o leitor que se limitou a reconhecer os caminhos mais habituais.
O autor não tem essas ideias originais, limitando-se a ir de encontro ao que é lugar-comum perante a construção feita.
Pior, há textos que nem chegam a um clímax para a história que lhes cabe contar. Não uma resolução extraordinária, apenas um momento de elevação que justifique o esforço de criação.
No início do livro até há vários elogios - de amigos, crê-se - acerca da oralidade e do talento de contador de histórias.
Quem o oiça poderá ser beneficiado pela entoação e pelo ritmo que melhoram as histórias, mas pela via da palavra impressa o autor apenas consegue frustrar quem lê.

A Cruz do Assassino inverte o problema do livro de António José Alçada. O interesse da novela policial não está em causa, o problema é conseguir resistir à sua linguagem.
No Prólogo até se dá o caso do protagonista falar do escritor como sendo quem transforma a sua narrativa num texto com a devida organização. E mais do que isso, com uma escrita que pretende escorreita mas nutrida da erudição ao seu alcance.
Ao leitor esse aparece como um meritório objectivo. Mau é que esteja negado logo nas páginas seguintes.
O autor não consegue abdicar das palavras que estão em excesso. Sejam elementos redundantes para as descrições, sejam expressões que contextualizam de forma demasiado meticulosa.
Ao fim de três páginas tem-se logo uma primeira quebra de ligação ao livro, com tantos parágrafos para dar conta de algo que ocuparia uma só página.
A partir daí o esforço é para superar o incómodo que a escrita vai causando, um elemento de permanente desconexão.
O esforço vai incrementando de intensidade pela sua repetição e há um momento em que a resistência se esvai.
Querendo saber como a história termina e perante o tempo já investido, desistir de continuar a leitura é a derradeira frustração - ainda que, ao mesmo tempo, libertadora.


No Trilho dos Seis Zimbros (António José Alçada)
Esfera do Caos
1ª edição - Fevereiro de 2016
104 páginas


A Cruz do Assassino (Paulo Bicho Garcia)
Esfera do Caos
1ª edição - Outubro de 2015
104 páginas

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O eterno desconhecido

O Animé e o Manga são motivo de fascínio para quase todos, mesmo que se resuma às obras dos estúdios Ghibli.
Por isso esta partida para o Japão de Peter Carey em nome da comunhão com o seu filho dos códigos dessas expressões artísticas só pode ser uma escolha de leitura imediata.
Decisão reforçada, no caso pessoal, pelo facto de ser este um escritor pelo qual nutria um interesse já longínquo. E bastou um capítulo para reconhecer o talento que sempre vi ser-lhe gabado.
Carey é um ocidental inteligente no Japão, com ideias próprias acerca do que vê nos filmes e nas séries Japonesas.
O seu espírito vai disposto à descoberta mas já contaminado por uma vontade de reflectir.
O embate é imediato, descobrindo ele que em parte a sua visão das ligações do subtexto de Blood - O Último Vampiro (a boa tradução devia ter-se esmerado em procurar os títulos nacionais das obras) não passa de um erro de conhecimento da Língua Japonesa.
Depois virão as discussões sobre Mobile Suit Gundam em que Peter Carey projecta muitas visões sobre a guerra que lhe vão sendo sempre rebatidas.
Em vez de um grande significado de memória pós-Guerra a série foi feita para vender robôs de brinquedo.
Em vez de representar o isolamento das crianças em tempo de guerra, quando estas pilotam os seus robôs estão no ventre materno, protegidos mas também sensíveis ao impacto exterior.
Torna-se evidente o enorme problema de comunicação entre povos. Quase impossível perscrutar a cultura Japonesa, também porque eles se recusam a desenvolver as suas ideias perante o autor - respostas lacónicas ou simples negações das ideias que Carey já traz consigo.
Ao rever O Meu Vizinho Totoro com alguém que lho possa comentar, o resultado só reforça tal percepção. A sessão termina com apenas um terço do filme visto e com, adivinha-se, muito mais comentários do que aqueles relatados.
O que descobrimos é que só uma vivência profunda do Japão nos permite entender tudo o que se mostra nas imagens e que está escondido apenas para quem não tem os códigos culturais de leitura.
No entanto o livro deixa também a certeza que é justo que se coloque nestas obras a nossa deslocada experiência. Afinal Hayao Miyazaki diz ao autor que o mais importante é a imaginação e se esta desenvolver para lá dos significados que o realizador imputa, tal não deverá estar errado.
Peter Carey não se limita a Animé e o Manga. Visita e escreve sobre Kabuki, forja de espadas ou a dificuldade em definir otaku.
Isto torna a experiência mais rica e reforça a ideia de que o Japão continuará, de forma transversal, uma incógnita para forasteiros, por mais que o estudemos.

Em contraponto e complemento, o livro de Porfírio Silva é bastante mais detalhado na descrição de conceitos e eventos Japoneses.
Um guia que vai da religião à política ou que se preocupa com os ínfinos detalhes de como se prepara uma refeição transportável.
Trata-se de um guia encaminhador e facilitador por quem teve tempo de começar a viver o Japão e não apenas de percorrê-lo.
A parti de um ponto o autor já tem até a percepção dos detalhes sociais - transportes ou sanitários públicos - e interroga-se acerca das regras (escritas ou não) lá assumidas e que fazem pouco sentido a um ocidental na sua discrepância interna (de sensibilidades) quase irreconciliável.
Isto vai de encontro à descoberta feita por Peter Carey e, por muito que Porfírio Silva experimente e nos transmita as vivências locais, estas estão limitadas.
Um teatro Kabuki tem legendagem inglesa para que os restantes não sejam invadidos por estrangeiros.
Partes dos rituais religiosos têm folhetos em diversas línguas para que as restantes componentes sejam preservadas.
Parece evidente que nesta abertura controlada a visitantes os Japoneses resgauardam a sua existência e identidade.
Creio que a introdução aqui conseguida é já causa de um olhar enriquecido que dificilmente teríamos de outra forma. Infelizmente as fotogradias que acompanham o texto não estão tratadas com a qualidade necessária - do tamanho de reprodução ao enquadramente.
As referências à robótica - parte do trabalho do autor - são interessantíssimas e deixam a vontade de leituras (técnicas) adicionais pois o tema já tem sido escrutinado dentro e fora da ficção e tem com Porfírio Silva um importante grau de aprofundamento.
O facto da abordagem à robótica no Japão ser tão singular deverá servir como mais uma porta de entrada para o mistério que é o Japão.
Mesmo se, como disseram a Peter Carey, metade do conhecimento é pior do que a incompreensão total, não se pode deixar de tentar saber mais sobre o Japão.


O Japão é um Lugar Estranho (Peter Carey)
Tinta da China
Sem Indicação da edição - Setembro de 2010
176 páginas


Caderno de Tóquio (Porfírio Silva)
Esfera do Caos
1ª edição - Abril de 2015
224 páginas

domingo, 19 de julho de 2015

Não terá sido um inferno

O cadavre exquis pode dar numa leitura delirante que nos traz em suspenso à conta de tantas ideias a reivindicarem o lugar cimeiro enquanto se integram umas nas outras.
Ou pode dar nisto: autores que por mais que tentem não conseguem mostrar que se foram aproximando, antes usaram cada um dos seus capítulos para trazerem o livro de volta ao seu estilo e pretensões sem parecerem ter consciência do que veio imediatamente antes.
Há momentos em que o livro ganha fôlego e mostra uma narrativa em que as variações não desmontam o objectivo desta farsa.
Só que ao longo da maioria das suas páginas é dado a ler quatro conjuntos de ideias de narrativa que quase se poderiam marcar a intervalos regulares.
Não se trata de exigir cedências aos autores, apenas que cheguem a cada individual delírio irónico partindo do que veio antes.
A história varia muito o seu cenário, umas vezes estando no domínio dos Céus, outras indo parar ao "Inferno" do Estádio da Luz, para regressar sistematicamente à Assembleia da República - um verdadeiro Purgatório para o Diabo que tem de aturar as sessões encarnado num deputado.
Como esta última, há algumas ideias desta sátira que são boas. Outras têm o potencial para levarem o riso mais longe.
O problema vem de muitas outras não serem mais do que variações sobre eventos e personagens reais que não necessitam do trabalho da ficção para se mostrarem à luz da ridicularização.
Mudam-se os nomes, exageram-se uns detalhes, adicionam-se uns diálogos que não se prestam ao politicamente correcto.
A inventividade destas escolhas não é suficiente para elevar o texto acima da mistura de piadas e comentários maldosos que foram sendo ouvidos nos cafés ou lidos na internet.
O absurdo já lá estava todo e estes quatro autores viram nele uma porta para falarem do presente desalinho do nosso país.
Uma tentativa que merece o reconhecimento do activismo mas que não funciona, o que é aquilo que conta no final.


O Diabo dos Políticos (Fernando Évora, João Pedro Duarte, Miguel Almeida e Vítor Fernandes)
Esfera do Caos
1ª edição - Maio de 2014
200 páginas

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O tipo errado de "peregrino"

Estes contos de Pedro Miguel Rocha queres ser retratos de soluções utópicas para problemas do mundo actual. Do Acordo Ortográfico e da padronização do ensino da Língua  à força política e independência portuguesa.
Só com boa vontade se podem ver soluções para problemas reais quando os textos não vão para lá de uma estilo que tem muito de condescendente - até na mora com que muitos se despedem - o que lhe retira a aura de ingenuidade que pudesse ter.
Combinado com o abuso das parábolas, metáforas e personificação o livro parece mesmo um conjunto de textos infantilizantes que tomam o leitor por limitado.
A nenhuma outra conclusão se pode chegar quando um dos contos é sobre um rapaz que, num sonho, percorre um bairro onde moram os Sete Pecados Capitais e cresce para escrever um livro que transforma toda a Humanidade.
O autor até se mostra inspirado pela filosofia de José Saramago e sonha uma espécie de José Saramago e sonha uma espécie de Jangada de Pedra feita de Portugal e Galiza - ideia de Estado que o autor defenderá outras vezes - mas não há forma de levar a sério como literatura adulta estes Contos Peregrinos.
Ainda que Tiago Patrício a defenda passando para o leitor o erro pela incapacidade de se render ao sonho do autor.
Aos poucos, o cinismo quotidiano e a corrupção da linguagem roubaram-nos a hipótese de pensar a esperança e sempre que um texto evoca outras possibilidade é difícil deixá-lo chegar ao fim. O Censor que deixámos instalar dentro de nós avisa-nos do excesso de ingenuidade e faz soar um alarme porque estamos a entrar num terreno perigoso, próximo da utopia, um lugar cada vez mais impossível de visitar, tal como um futuro em comunidade.
Culpando o cinismo, Tiago Patrício transporta a rejeição do leitor para um patamar de falhanço humano.
Uma espécie de sentimento de culpa que ignora que é pela evolução - em direcção ao cinismo, se tal for sinónimo de maturidade e questionamento - que o leitor aprecia ou não o que está para lá da ingenuidade das ideias - o que, repito, não existe ou o escritor não referenciava Teixeira de Pascoaes.
Este posfácio tem, pelo menos, o mérito de desafiar o leitor - como tem o de Carlos Quiroga - a procurar no texto que o precede aquilo que outros nele viram.
(Não se encontra, mas tenta-se ainda assim...)
Só que com cada um dos quinze contos a ter o seu próprio posfácio, acabam estes por parecerem favores de circunstância na sua maioria.
Por autores melhores do que Pedro Miguel Rocha - Mário de Carvalho ou Ondjaki entre eles - que estes sejam mais significativos do que os próprios contos é um sinal terminal para o livro.
Estes contos são peregrinos por estarem muito mais para o lado do desajuste do que para o lado da singularidade.


Contos Peregrinos (Pedro Miguel Rocha)
Esfera do Caos
Sem indicação da edição - Maio de 2014
184 páginas

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Meia dúzia é muito pouco

Esta crítica inicia-se com uma aproximação a uma "nota de intenções". Tudo porque evitarei ao longo do texto o transtorno de abordar os contos de que não gostei.
Apontarei dois motivos para tal. O primeiro é a falta de vontade de conduzir textos que possam descambar para a enumeração cruel de defeitos quando a intenção do blogue é reforçar o prazer dos livros.
O segundo e mais significativo, é o facto de em vinte e um autores aqui agrupados uma minoria apenas - seis! - merecer um verdadeiro destaque.
Não quero com isto dizer que entre os contos dos quinze autores que não serão referidos abaixo não haja textos de leitura agradável, mas não se distinguem senão pela capacidade de não aborrecerem o leitor.
É necessário assinalar, também, que a par desses contos agradáveis há também vários com uma estrondosa falta de qualidade para figurarem neste volume.
Até porque se os contos maus fossem purgados do livro este seria, como um todo, visto com mais bondade, sendo o "agradável" aceite com agrado como o nível mais baixo da selecção.
O coordenador do volume, Miguel Almeida - a quem dedico esta breve nota por ter lido A Cirurgia do prazer e que no conto aqui presente repisa o mesmo terreno sem novidade -, cita Gabriel García Márquez no seu prefácio: "O conto... pega ou não pega".
Mas desta ideia o coordenador não retira o critério essencial para a sua selecção. Ficaram demasiados contos que "não pegam" a somar páginas ao volume que poderiam ter servido para dar pequenas bio-bibliografias de uma selecção mais breve de escritores.
Até porque esses contos que "não pegam" contrariam as características que o autor associa ao conto (que não lhe advém da forma): fulgor narrativo e essencialidade da linguagem.
Vários são os contos em que nem narrativa há, em que o conto é uma página auto-congratulatória de um diário de pensamento (não por acaso esses contos surgem quase sempre escritos na primeira pessoa).
Outros tantos - e alguns desses pertencendo também ao grupo anterior - confundem essencialidade da linguagem com o rebuscamento dos termos usados.
Não que haja um padrão para os contos que deixam por cumprir a noção que Miguel Almeida tem para o que eles devem ser - ou, pelo menos, a que devem aspirar - mas também não há um padrão para a recolha senão a liberdade dos próprios autores.
Portanto deixarei as noções acima para futuros leitores do livro aceitarem ou recusarem conto a conto, passando agora aos destaques que tentei que não fossem influenciados pela vontade de encontrar um oásis literário a cada sequência de páginas áridas.
Em Ana Fonseca da Luz destaca-se o humor com que cria os seus dois pequenos enredos de amor ou amizade que dão uma imagem de infracção das regras do quotidiano triste.
Carlos Vilela escreveu uma narrativa histórica com verdadeira essencialidade da linguagem, correcta e inventiva sem se dar a excessos. Ainda para mais com um ponto de vista original sobre o Conhecimento que enchia o mundo antes dos Descobrimentos. Numa descrição de um paraíso possível, fica uma crítica ao papel dos Descobrimentos que tende a ser esquecido nos elogios que a História ensina.
Há uma beleza da simplicidade na vida criada por Cristina Correia. Trata-se de um homem que se torna extraordinário por ser ele próprio e nada mais. Um conto que usa a realidade reconhecível sem nomear Espaço ou Tempo e que se foca na personagem para que ele cresça e seja o foco da narrativa e não um mero utensílio de reflexões da autora - seja o leitor a retirá-las de uma vida inteira ali escrita.
Um dos mais inventivos contos do livro pertence a Emílio Miranda, com a sua descrição da normalidade laboral mas protagonizada por seres celestiais. Entre o humor de The Office e uma revisão contemporânea da mentalidade de Deus/do patrão, ficamos com uma construção cheia de força que permanece até com o leitor menos atento.
Os contos curtos em que João Carlos Silva arrisca um esplendor de imaginação para falar da actual condição humana são uma verdadeira delícia. Facilmente poderiam ter-se tornado em sketches a tentarem atingir algum surrealismo, mas têm uma magnífica dignidade até no falhanço (interno, das personagens).
Vítor Fernandes fecha o livro e com esse posicionamento quase consegue compensar o grande número de páginas que estão entre ele e João Carlos Silva. Os seus contos breves têm uma maturidade que poucos outros mostram, chegando mesmo a evocar memórias de Mário de Carvalho ou Dinis Machado. Ele sim une fulgor narrativo e essencialidade da linguagem, fisgando o leitor com um magnífico domínio da Língua para que sofra uma manipulação de desfecho fulgurante e sempre inesperado.
São estes os autores - e como se percebe, mesmo assim alguns em patamares acima de outros - que merecem atenção entre os Contos do Nosso Tempo (julgo que ficaria melhor que o título referisse Contistas). Parecem-me muito poucos para um volume de quase quatrocentas páginas.


Contos do Nosso Tempo (Vários)
Esfera do Caos
1ª edição - Junho de 2012
384 páginas

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A (con)fusão de autor e narrador

Estes contos são exercícios de memória. Não sei se do autor mas, certamente, do narrador que aquele diz ser transversal a todos os textos  deste volume.
Digamos que, pelo menos, os locais dos eventos sugerem a coincidência entre autor e narrador. E isto é importante para a leitura global deste livro.
Até porque o livro comporta um intróito do autor que revela a insistência de alguns amigos de longa data na vontade de reler alguns dos seus contos, sugerindo que estes especialistas (palavra do autor) o são por (con)vivência directa com Fernando Évora - e as suas desventuras ou os seus relatos de café.
Os contos insinuam a necessidade de uma familiaridade com o contexto dos eventos - o contexto original de publicação em fanzines pode explicar tal noção. Não há ricas construções de ambientes e tanto os cenários como diversas personagens parecem fazer parte de um léxico comum, mais ou menos identificável por quem conheça aquelas personagens ou outras similares.
Nesta forma de escrita para um público "iniciado", talvez nos textos ressoem características dos locais e das culturas ali representadas, mas para quem lê os textos à distância geográfica fica apenas a curiosidade de infâncias distintas ou situações caricatas.
Tudo contado, demasiadas vezes, em jeito de despojamento realista, sem efeitos (ficcionais ou revisionistas) de êxtase ou catarse.
O relato assim deixa o leitor ora curioso ora frustrado, sem direito a confrontar o texto pois as histórias são tão singelas na sua composição que parecem de uma pessoalidade intocável - e que tal como está deveria ser intransmissível.
Rematando e comprovando esta ideia de memórias passadas a texto, Fernando Évora termina o livro com um Epílogo. Este é um conto novo em que ele continua o jogo de rememoriação para dentro dos próprios contos, citando a sua escrita e as suas verdadeiras ocorrências.
Dá a sensação de vir justificar a sua afirmação inicial de que o narrador de todos os contos é o mesmo e este acabam por se interligar, rematando o livro de maneira que este seja um contínuo e não uma compilação.
Forçado e desnecessário, dá uma estranheza ao livro que obriga, em definitivo, a confrontarmos esta ideia de continuidade com o primeiro dos contos, Cérebro, que traz logo abaixo do título um "Eu, o narrador, escrevi um conto de ficção científica".
Se estamos perante um modo de metalinguagem em que o narrador é uma personagem supra-contos e até supra-livro, então o autor deveria ter evitado pronunciar-se e ter reassumido a figura de narrador ainda o livro ia no intróito.
Neste jeito de revisão de vida - tal como denuncia o Epílogo até ao nada discreto último parágrafo - em que o narrador e o autor se confundem o livro não se une nem define o seu público além dos tais especialistas.


Amor e Liberdade de Germana Pata-Roxa (Fernando Évora)
Esfera do Caos
1ª edição - Agosto de 2012
130 páginas

quinta-feira, 15 de março de 2012

Nada mais do que um homem e uma mulher

Não duvido que a fruição de Alabama Song será maior para quem conhecer a dicotomia que parece estabelecer-se entre Terna é a noite e Save Me The Waltz, as leituras ficcionais que Francis Scott Fitzgerald e Zelda Sayre fizeram do mesmo período do seu casamento.
Conhecendo o tipo de reacção e interpretação que cada um teve aos mesmos eventos, a invenção de uma nova verdade sobre a sua vida comum tornará o romance numa partilha emocional de possibilidades abertas sobre ícones cujos segredos o leitor já tendia a perscrutar.
Não tendo eu tal intimidade com a  história do casal, acabo por ver neste livro algo como um primeiro esboço da verdade que merece que procure ambos os romances que eles escreveram e, ainda mais, uma biografia objectiva sobre temas que são mais profundos do que umas quantas dezenas de páginas podem mostrar. (Se o chegarei a fazer é, claro, uma discussão inteiramente distinta da vontade assim despertada.)
Mas um esboço que é um retrato integral que sobrevive a qualquer grau de ignorância do leitor - que, estou em crer, nunca será tão grande assim que não conheça os traços gerais deste casal ou nem mostraria interesse nesta obra.
Este é um livro que tanto fala de duas personagens reais como constrói duas personagens por mérito próprio.
O casal Fitzgerald definiu os anos 1920 porque Scott Fitzgerald os escreveu e depois ambos trataram de os viver.
Essa construção de uma Era por via literária e vivencial é substancial a este livro porque marca a divisão principal entre a o tempo de maior e menos dignidade do casal.
A exploração da realidade na ficção de cada um torna-se o principal e definitivo motivo de confronto entre ambos, com ela internada como histérica e ele bêbado sem capacidade para escrever com a qualidade anterior.
Até que cheguem a esse ponto, a indistinção entre as vidas deles e as histórias dele era motivo de enorme prazer e com poucos problemas então sentidos.
Zelda tornou-se nun ícone do desafio das convenções roubando a atenção à sua volta. Francis Scott brilhava no convívio com a multidão aduladora.
Criavam e mantinham um estilo de vida mesmo quando já não o podiam fazer e, também porque viviam em excesso a criação que ele devia colocar em papel, começaram a ver a sua estrutura de casal desmoronar-se tão rapidamente quanto a forma de ilusão que os equiparava directamente à década em que se moviam.
O casal é tocado pela tragédia auto-infligida mas nesta história é sobretudo ela que fica mal tratada. Uma mulher a quem foi roubado tudos ao longo da vida, sempre de maneiras distintas mas sempre por via de subterfúgios dados ora como naturais ora como acidentais.
A reputação, um filho, o verdadeiro amor, a possibilidade de ser bailarina, a vontade de ser escritora. Tudo isto lhe foi retirado ao longo da vida. Em cada momento a crueldade subindo de tom mas com as marcas de cada perda adiadas.
Até que chega o momento em que não é o azar do destino que lhe retira o que ela tanto fazia por merecer (deixemos o talento de lado) e todas os dramas lhe caiem em cima mostrando que foram os homens - com prevalência do seu marido - que lhe custaram que seja uma carcaça tratada a choques eléctricos e não a bela mulher que encantava multidões.
A menina do Sul dos Estados Unidos da América subiu ao topo da fama mas, para tal, foi perdendo todas as aspirações que uma digna filha de Juíz, também porque a promessa de uma vida de topo que o Alabama lhe trazia aconteceria num lugar pequeno demais para ela.
Se teve culpa de começar a perder a sua hipótese de ser uma mulher independente como o espírito da época - que era, também, o seu próprio espírito - lhe exigia, foi o marido que lhe terminou com as aspirações no roubo maior: o da sua vida enquanto matéria escrita e o da sua matéria escrita enquanto moldagem da sua vida.
Alabama Song é, portanto, o apagamento de uma mulher de enorme dimensão por detrás do poder de um homem falhado.
Isso o torna mais do que um texto dependente da fama das figuras escolhida, antes tornando tal fama numa forma de evidenciar como este tipo de drama a dois era inevitável, fosse qual fosse o meio em que o casal estivesse inserido.


Alabama Song (Gilles Leroy)
Esfera do Caos
1ª edição - Novembro de 2008
176 páginas

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Desconfiança em que confiar

Todos os leitores têm uma desconfiança própria para com alguns livros, aquilo a que se chamará preconceito e que sinto que aumenta tanto com o número e a variedade de livros que se lê. Mas que também aumenta com o exercício crítico sucessivamente realizado.
Essa minha desconfiança activou-se para com este livro quando já era tarde demais. Activou-se perante o título a que só dei a devida atenção já na página de rosto onde as reticências deixam de ser um pormenor que a mente tende a ignorar quando na capa estão em jogo os efeitos de cor.
Não tenho estatística que me apoie, mas não me recordo de título algum - ou título algum relevante - que faça uso de reticências.
O título do livro é o local onde tal marca de pontuação não faz falta. O mistério do que fica por dizer no título é, naturalmente, tudo o que vem depois dele mas que o terá originado.
Usar reticências no final do título do livro é abusar de um estilo que não tem razão de ser e que, por isso, gera a forte desconfiança de que vim falando.
A desconfiança, neste caso, mostra-se certeira e justa. Tal como no título, por todo o livro o abuso de um estilo inconstante e capaz de impressionar apenas os ingénuos. Trata-se do barroco do bacoco, se ninguém levar a mal que também eu jogue com as palavras.
A autora não atenua esse estilo em parte alguma do livro. Não evita duplicar as metáforas quando uma era suficiente. Não evita buscar um vocábulo menos lembrado para engalanar os seus parágrafos quando a banalidade do sinónimo mais comum lhe assentava melhor. Não evita qualquer adjectivo que a inspiração do momento lhe tenha sugerido quando a releitura mostra que é insensata a sua presença.
O estilo assim tão extravagante até seria útil em certas passagens que confessamente são delírios do protagonista, mas como permanente exercício de memória parece forçado, sobretudo nos tempos dedicados à assimilação da vida na pacata e simples aldeia tão tipicamente portuguesa.
Uma aldeia que até é a fonte das duas melhores ideias do livros, historietas de maldade (o pequeno delinquente que se impõe como tirano) e mitos (os fantasmas que percorrem encruzilhadas na estrada) que manietam as pessoas enquanto agigantam os espaços esquecidos na imagem global de um país.
O resto do livro é um thriller como desculpa para o exercício de linguagem que martela sempre a mesma nota.
Como vinha escrevendo, há passagens que precisavam de ser mortiças na linguagem, soar mesmo banais e corriqueiras. Porque não o fazendo, não matizando a memória do protagonista, a autora revela pela própria falta de surpresa as intenções perversas com que joga o entendimento do leitor.
Qualquer leitor experimentado lhe diria que a manipulação narrativa não se joga assim - sobretudo, assim tão tardiamente.
Desconfia o leitor porque o texto está a ser demasiado indiferente (como desconfiaria se estivesse a ser demasiado intencional) e fica mais alerta, tornando a surpresa em mera confirmação (da desconfiança, pois claro).
Entre a desconfiança a abrir e a desconfiança a fechar, está o miolo da confirmação de um livro falhado.


Na Senda da Memória... (Sónia Cravo)
Esfera do Caos
1ª edição - Setembro de 2011
160 páginas