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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Melhor humorado

De entre as colaborações de James Patterson com outros escritores, este parece ser aquele em que o parceiro conseguiu contaminar o livro com uma personalidade própria, tornando-se num verdadeiro aliado e não numa escritor completista.
A Amante marca uma variação ao estilo de livros que o autor produz, o que evita que se lhes assemelhe em demasia, pelo que isso deve assinalar-se desde logo.
Há intricada conspiração que começa com um homem a ver o alvo da sua paixão a tombar da janela de casa e termina com encobrimentos no interior da Casa Branca.
Pelo meio há trocas de identidade, o envolvimento das agências governamentais, escândalos sexuais, chantagens políticas e um plano para manobrar os Estados Unidos da América num ressurgimento da divisão mundial em superpotências.
Para que o exagero da trama sempre condensada na individualidade do protagonista se afaste do que é típico de Patterson conta que o livro não seja apenas um entretenimento descomplexado mas que se leve a sua história com uma distanciada ironia.
Afinal, acrescenta-lhe uma dose de comédia do absurdo que vem do cerne do seu protagonista.
Um sujeito que passa tanto tempo a ser um eficaz repórter como a deixar-se absorver pela informação inútil acumulada na sua mente.
O facto dessa característica lhe advir de um duvidoso passado que envolve a passagem por instituições de saúde mental acaba por tornar a leitura  adicionalmente interessante pois não há um heróismo simplista e ridículo.
A moralidade é duvidosa de forma transversal, como se lê desde o início quando o protagonista invade a casa da sua paixão para lá colocar cãmaras escondidas... a pedido dela.
O pessoal e o político entram em rota de colisão do jornalista online e correspondente da Casa Branca que se apresenta sempre ao estilo dos heróis do cinema.
Estilo que faz um bom par com as muitas referências cinematográficas que ele cita - que no início são algo irritantes mas depois se tornam apropriadas visto que não só contribuem para o humor intrínseco ao personagem como reforçam a ideia da construção da trama com a roupagem e o ritmo de um filme.
Afinal a referência mais óbvia é Absolut Power, filme de Clint Eastwood em que ele próprio é um ladrão que testemunha o assasinato da amante do Presidente.
Para finalizar há que dizer que a história acerca de Franklin Delano Roosevelt - seja verdadeira ou apenas um mito - que este livro actualiza e complexifica era boa demais para não ser(vir à) ficção. Também por aí este livro faz sentido com divertida irreverência.


A Amante (James Patterson e David Ellis)
Topseller
1ª edição - Junho de 2014
352 páginas

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Mais (mas melhor) do mesmo

James Patterson é cada vez mais um nome de marca que dá garantias de venda mesmo de livros que só parcialmente terão sido escritos por ele.
É de crer que isso se fique a dever a um excesso de ideias que ele não tem tempo/vagar/disciplina (riscar o que cada um considere menos exacto) de concretizar por si só.
Em Invisível temos novamente uma ideia cheia de potencial: um serial killer cujo método de actuação de escolha é a simulação de incêndios acidentais para enconbrir pistas, perseguido por uma analista do FBI cujo discernimento pode estar comprometido quando o seu interesse nasceu da morte da sua própria irmão.
Partindo do ponto em que a analista ainda tem de provar que há um caso a investigar, o livro usa bem o jogo de egos em que assenta este género de perseguição.
Um ego crescente - e em risco de estoirar - na sua habilidade para iludir os perseguidores e um ego a lutar por se manter intacto contra o acumular de derrotas.
O desenvolvimento das personalidades das figuras nos dois campos deste confronto aproveita o espaço de dúvida inerente ao verdadeiro conhecimento que há de parte a parte com a criação de um conjunto de mensagens ditadas pelo serial killer que trazem informação adicional ao leitor, aumentando o interesse numa caça que se sabe estar menos perto da sua conclusão do que pareceria.
Curiosamente essas mensagens acabarão por dar corpo a uma reviravolta de contornos exagerados - ainda que no contexto destes livro não funcione mal - que parece provar a premissa de que Patterson continua a ser o pai destes livros.
Pela maneira de estruturar a história mantendo a informação essencial para si próprio em nome de um efeito surpresa final que surge num pedaço de história que parece à parte do livro até aí. Enquanto que a informação periféica enche capítulos aproximando o livro do romance e afastando-o do thriller que, muito pragmaticamente, deveria ser em exclusivo.
Que a vida emocional dos dois polícias de serviço ocupe mais tempo do que o desenvolvimento do assassino é paradigmático de que Patterson continua a ser o principal autor destas histórias. Afinal estes dois polícias são um antigo casal sob tensão romântica ao trabalharem juntos por um objectivo maior que ultrapassa as suas desavenças.
Esta parece ser a única abordagem dramática (?) que o autor consegue descortinar para as relações entre elementos de diferentes géneros dentro das forças policiais, como a série NYPD Red - a par dos volumes de Alex Cross - tem deixado evidente.
Os livros de James Patterson acabam por se englobar numa redoma de análise na qual a sua classificação (a haver uma...) cai numa escala auto-referencial dos que resultaram melhor ou pior no conjunto de livros - cada vez mais similares entre si, varie o tema o quanto variar - que dele se leram nos últimos tempos.
Este cai para o lado da satisfação depois de se ter experimentado a frustação de um Eu, Alex Cross.
O grande trunfo do escritor está no facto da percepção dos seus livros ficar sempre num patamar intermédio acima do razoável no qual algumas boas ideias vão - por mais um pouco - valendo mais do que essa uniformização do seu trabalho.


Invisível (James Patterson e David Ellis)
Topseller
1ª edição - Julho de 2014
352 páginas

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Por melhorar

Décimo sexto volume da saga de Alex Cross e há uma conclusão a tirar, mesmo sem ter lido todos os volumes para trás: isto já não é um policial.
Alex Cross já não é trabalhado aqui como o grande detective que, noutros volumes, se sente que ele terá sido.
Fisicamente e mentalmente imponente, Alex Cross faz cada vez menos trabalho, passando mais tempo a correr de arma em punho atrás de informações que lhe são dadas em vez de ele ter de as procurar.
Claro que há uma grande trama sobre como um político importante tem matado mulheres e os seus corpos são desfeitos num triturador de madeira.
Só que, tirando um final curioso em que o "ao serviço da nação" toma proporções interessantes, a trama funciona numa espécie de visão genérica de thriller de Thomas Harris com promessas de horrores e personagens arrebatadoras por todos os motivos (humanamente) errados.
Nem os horrores nem as personagens são explorados, substituídos por um avanço constantes da acção.
Aquilo em que James Patterson se foca a propósito da sua personagem é a família, numa exploração cada vez mais sentimental que parece ter invadido esta saga a partir de outras das suas obras mais recentes.
Desde logo ao colocar como primeira vítima uma sobrinha de Alex Cross, personagem que não chegamos a conhecer bem, mas que é capaz de colocar em polvorosa o detective que irá lutar mais vincadamente contra o secretismo do FBI e da NSA.
Essa personagem poderia ter sido uma mulher anónima pois na verdade o efeito emocional que ela traria a Cross seria, como é, sempre suplantado pelo causado pela ameaça de morte eminente que paira sobre a avó do protagonista.
A dirupção na família é o melhor componente deste livro e o que deveria ser um mecanismo secundário acaba por disputar o protagonismo com o restante.
Na verdade, ganha mesmo esse protagonismo porque é aquilo em que as personagens melhor são aproveitadas.
O que deveria acontecer é que a tragédia familiar deveria afectar os poderes de investigação de Alex Cross, mas como este não está a usá-los o drama acaba por funcionar por si só.
A velha senhora sobrevive ainda mais uns volumes pois parece ser o pólo oposto do detective nos momentos das discussões.
É duvidoso que ela alguma vez venha a morrer mas devia. Sobretudo neste volume, onde a sua morte teria adicionado ao drama do detective e obrigado-o a transformar-se o que daria novas possibilidades à série.
Está necessitada de se recentrar em casos que aproveitem a totalidade das capacidades do detective permitindo-lhe alguma amplitude de decisões no que concerne à família. Para o bem e para o mal, a avó dele continua a ser uma âncora para Cross.
Não deixa de ser um daqueles livros cujos capítulos curtos funcionam muito bem enquanto se viaja em transportes públicos.
Deveria ser mais do que isso mas James Patterson parece estar demasiado mecanizado num processo de criação que não lhe permite fazer mudanças importantes.


Eu, Alex Cross (James Patterson)
Topseller
1ª edição - Outubro de 2014
384 páginas

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A progressão que tarda

O segundo livro desta saga permite uma análise menos "séria" do que o primeiro, que levantava dúvidas pertinentes acerca do negócio dos livros.
Sabendo que essas não serão respondidas tão cedo e que, provavelmente, ninguém mais se preocupará com elas, passo a ler um policial escapista como já deveria ter conseguido fazer com o primeiro.
A colagem aos cenários de filmes continua, desta vez com a máfia e um justiceiro envolvidos numa trama em que o Passado vai apanhar e complicar o Presente.
Uma história com uma grande dose de "espectáculo" mas que se pode permitir ser menos espampanante que a do primeiro tomo, agora que o público está conquistado - na medida do possível e sempre condicionado pela opinião a cada novo livro.
Uma história, igualmente, melhor escrita. Não só com uma melhoria no que toca aos diálogos, que eram um dos problemas que mais ficavam na memória no livro anterior, mas sobretudo no domínio da trama.
Bem estruturado, o livro dá mais informação ao leitor do que aos seus protagonistas, permitindo que se acompanhe o progresso da investigação a partir de uma posição de avaliação.
No entanto a antecipação não é total e o livro guarda ainda surpresas apontadas tanto aos seus protagonistas como ao leitor antes de passar da investigação ao thriller propriamente dito - com perseguições, com cenas de confronto, com tiroteios.
Mesmo assim há que assinalar o grande defeito deste livro: a sua componente romântica que continua a arrastar-se e a tomar demasiado tempo aos protagonistas, sobretudo o masculino.
O seu interesse pela parceira continua no que é um quadrado amoroso em que ela está casada - mas o marido está à beira de a perder para um vício de analgésicos - e ele próprio tem uma namorada - psicóloga da polícia e o par ideal para ele.
O comportamento adolescente dele na sua vida privada impede que a sua personagem seja levada tão a sério quanto deveria.
Deixar sempre em suspenso a hipótese dele romper com o comportamento profissional para reacender uma velha paixão nunca permitirá que ele se transforme num memorável polícia ficcional.
Da maneira como as relações pessoais lhes ocupam tanto a mente, pelo menos seria interessante ver isso começar a tornar-se num empecilho ao trabalho, levantando riscos que tornassem a investigação mais periclitante.
Por enquanto - e suspeito que indefinidamente - é apenas um (quase) romance com algo de patético.
Não é por esse "romancezito de escritório" que continuaremos a seguir estas personagens. Terá de ser por elas próprias, pelas suas personalidades, pelo seu profissionalismo e pela sua eficácia.
Como a relação dos dois detectives principais está inquinada deste o primeiro dos volumes e seria necessário anular a parte romântica ou ousar avançar com ela o mais depressa possível para que depois eles pudessem progredir como personagens e como dupla.
Pois se os casos já começam a avançar em qualidade, esta grilhete impedirá que a qualidade geral do livro progrida até onde promete poder chegar.


NYPD Red 2: À Margem da Lei (James Patterson e Marshall Karp)
Topseller
1ª edição - Abril de 2013
336 páginas

quarta-feira, 5 de março de 2014

O habitual e o radical

Passaram-se menos meses desta vez, mas o apelo deste vício escapista já se voltava a fazer sentir e não há motivos para o contrariar.
Com uma mesma personagem a ser protagonista de livro para livro não há já muito a analisar sobre isso, sendo a variação de cenário que dá pistas de leitura interessantes. Sobretudo acerca da gestão do público e das intenções do autor ao longo de uma série com um grande número de tomos e vendas de enorme .
Desta vez Cross enfrenta um crime macrabo e de enorme crueldade - o massacre e a mutilação de uma família inteira - que o leva a uma teia de assassinatos que servem de controlo político aos líderes de poderes instituídos em países africanos cujos regimes variam entre a democracia duvidosa e a confessa ditadura.
O livro beneficia de um cenário tão diferente dos anteriores para ganhar uma certa frescura. Ainda só tivemos três livros da série editados por cá, mas suponho que essa seja uma das necessidades constantes (embora um ou outro livro possa não conseguir começar com tanta originalidade como esperado) para a série durar vinte e um tomos até agora.
Claro que essa frescura significa, no caso deste thriller, descrições desinibidas de cenas violentas. Isso é um risco perante um público generalista como é o desta série, mas a motivação para tal torna-se entendível perante as intenções do autor - e nem pode ser julgada sem as ter em conta.
Essas intenções passam pela consciencialização para as atrocidades cometidas naquela zona do mundo - depreendendo-se que a um público norte-americano pouco informado sobre o que não seja a sua realidade local.
A impressão violenta da escrita serve, precisamente, para vincar o quão a realidade é ainda mais violenta. E surge combinada com cenas de exposição, como aquelas em que Cross tem de visitar e servir num campo de refugiados no exacto momento em que este é atacado.
Haverá quem não goste de ver o personagem a servir de vazão à moralidade do autor - que, por outro lado, tem por norma incluir nos seus livros referências elogiosas a obras que sejam do seu agrado - e não porque esta não seja a mais correcta, porque gera uma variação que pode existir mal sob o nome de Alex Cross.
Essa dimensão de denúncia leva Cross a um destino e a uma actuação que são um desvio acentuado ao que é hábito na série.
A forma como Alex Cross pretende actuar - a solo! - num país que lhe é estranho tem mais que ver com um herói de acção desligado de bases reais do que a de detective urbano recorrendo à sua análise de psicólogo.
Parece tratar-se de uma aproximação a um papel misto entre espião e mercenário, em que a coerência da personagem é levada ao limite - se o atravessa ou se fica microscopicamente aquém dele é uma decisão que cada leitor fará no momento de ler o próximo volume.
Sabendo o leitor que Cross não poderá morrer ou a série terminaria, é preciso que este comece por aceitar o extraordinário desta situação.
Sendo verdade que Patterson não deixa que, desta vez, Cross se safe imaculadamente ou sem ajudas alheias da situação em que se envolveu, também o é que há uma leitura egocêntrica - e um pouco egoísta num protagonista cujos filhos já perderam a mãe e cuja família é colocada em perigo várias vezes - de Cross acerca do seu papel de herói do mundo todo.
Por isso, uma certa despreocupação com o nome do personagem que comanda a série e uma atenção quase exclusiva aos acontecimentos poderá ser a combinação ideal para o apreço deste livro. Depois se verá se a série evoluiu.
Afinal, de todas as criações de Patterson que até agora conhecemos, Alex Cross continua a ser a mais interessante (ainda que o potencial de Private - Agência Internacional de Investigação possa vir a mudar essa opinião).


Alex Cross: A Caça (James Patterson)
Topseller
1ª edição - Novembro de 2013
384 páginas

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quem escreve?

Chamar para protagonistas um par de detectives da brigada especial dedicada a crimes cujas vítimas têm grande exposição púbica é uma ideia com potencial para fazer um comentário à sociedade contemporânea e as suas obsessões.
Claro que isso é uma expectativa própria para livros que não sejam os de James Patterson, cujas intenções são as de proporcionar a leitura de thrillers de acção intensa a ritmo rápido.
Isso é cumprido, como quase sempre acontece com o que o autor publica, mesmo se no final a leitura se assemelhe muito a uma "tarefa cumprida": não é um livro mal escrito mas é apenas mais um entre a produção do autor; não é um livro de que se desgoste, mas no final sobra-nos alguma indiferença por ele.
Para servir essa dose de acção e ritmo, Patterson aproximou-se desta vez das regras do cinema, ou não fosse o nome do seu parceiro de escrita o de alguém que já escreveu argumentos e que mantém uma série policial passada em Los Angeles.
Nesse sentido, Patterson coloca Hollywood em Nova Iorque e cria uma investigação em que o vilão se rege pelas regras de um argumento que ele escreveu na sua cabeça para provar a todos que está ao nível daqueles que o rejeitam sistematicamente.
Esta ideia não é nova e não é levada a bom termo (veja-se aqui um exemplo da mesma e melhor usada) por um conjunto de motivos que são importantes de assinalar - e que, talvez não por acaso, se assemelham aos mesmos males que se assinalam nos argumentos de várias grandes produções cinematográficas actuais.
Identifica-se desde logo uma inverosimilhança pelo exagero de habilidades dadas ao vilão. Não só ele é um mestre do disfarce como tem conhecimentos de explosivos e dos meandros do funcionamento da cobertura televisiva de eventos. Tudo vindo, somente, de anos a ser usado como figurante.
Depois é apercebido o vazio das personagens que se comportam na medida exacta daquilo que a história precisa e nada mais. O caso de como a parceira do vilão se conduz até à sua própria morte o exemplo acabado de como não chegam a construir-lhe uma personalidade pois a sua utilidade é limitada e breve.
Finalmente, é notório que o livro tem como objectivo maior lançar as bases de uma parceria com tanto de romântica como de profissional - o detective recebe como parceira temporária (para se tornar definitiva) uma antiga namorada por quem nunca deixou de ter sentimentos - e não criar um verdadeiro perfil de departamento policial que lida com os extremos da popularidade moderna e da ilusória familiaridade.
Estes aspectos denotam uma menor falta de cuidado de Patterson com os seus livros que, não desmerecendo a sua assinatura no quanto a sua leitura possa ser chamativa, não parecem justificar o enorme sucesso que outrora garantiu para si.
Aqui se levantam questões de outra ordem quanto aos livros em que o nome de James Patterson surge a par de um outro autor.
Se estruturalmente - capítulos sempre breves, escrita na primeira pessoa para o protagonista e na terceira pessoa para os restantes, história auto-conclusiva sempre com uma abertura a sequelas - o esquema do livro é o que Patterson tornou reconhecível como seu, o uso das palavras denota grandes diferenças de livro para livro.
Forma-se a ideia de que Patterson fornece as ideias e o cunho vendável do seu nome a cada livro, mas depois esse fica a cargo do co-autor.
Se compararmos os diálogos deste livro com outros assinados por Patterson, temos aqui os menos inspirados (num ou noutro momento aproximando-se do ridículo) enquanto que a sucessão de cada acto está, provavelmente, entre as tratadas com mais vigor narrativo.
Se antigamente se falava nos "negros" como essenciais para que o miolo do livro se encorpasse, hoje esses "negros" podem ter começado a exigir que o seu nome não fique apagado na obra final.
Só que, ao invés de melhorarem os pontos que eram as fraquezas do autor principal, podem estar igualmente a adicionar-lhe as suas.
Fossem mais significativas as obras em que tal está em causa e valeria a pena investigar como funcionam realmente estas simbioses/aproveitamentos.


NYPD Red (James Patterson e Marshall Karp)
Topseller
1ª edição - Agosto de 2013
336 páginas

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O vício de voltar

O segredo com a série Alex Cross é o de deixar passar tempo suficiente para que os defeitos de um volume estejam esquecidos e sobre apenas o interesse pelo personagem.
Apesar de alguns momentos de má exploração, há que reconhecer que Cross é uma sólida criação de James Patterson.
Psicólogo e polícia, pronto para ser herói de acção ou enfrentar investigações no domínio do noir, Alex Cross está a pouco de ser um super-herói de superação humana e o certo é que oferece a todos os leitores a abordagem aos casos que lhes interessa pessoalmente.
Dito isto, não se pode deixar de admitir que este volume é superior ao anterior, mais sólido e bem estruturado, e mesmo melhor para cativar leitores.
Trata-se de uma história cheia, com várias etapas e complicações a intrometerem-se entre Cross e um seu arqui-inimigo de volta ao activo depois de uma fuga da prisão.
(Aqui gera-se um problema, dado que o retorno deste vilão significa uma falta de contacto com os seus "feitos" anteriores. Apesar de Patterson integrar na narrativa parágrafos que contextualizam o passado que cross tem em comum com os outros personagens - e que funcionam como resumos dos seus livros anteriores - só uma imersão nos encontros anteriores permitira captar toda a essência que torna o adverário num arqui-inimigo.)
Se nestes livros há sempre uma necessidade de ter um arco narrativo fechado mesmo que personagens de outros volumes surjam, este volume permite-se jogar com vários arcos narrativos que se fecharão no momento em que também se fecha o arco narrativo mais longo.
A multiplicação do efeito de adversidade causado pelo arqui-inimigo de Cross - por imitação ou discipulado - permite complicar o papel que ambos têm de jogar na trama.
Melhor ainda, permite dar muitas expressões diferentes ao que seriam cenas de assassinato mais ou menos semelhantes.
A inovação e a extravagância dessas cenas são as metas de Patterson para manter o interesse do livro, o que ele consegue alcançar, acrescentando aos muitos assassinos uma utilização da sociedade do espectáculo voyeurista dos dias correntes.
Um excitante malabarismo que Patterson termina com um pouco de vertigem a mais, deixando em aberto o retorno deste personagem vilanesca promissora - que tem menos tempo de antena do que o desejável mas voltará para outros confrontos.
(Novamente enfrentamos o problema da "bagagem" que o personagem carrega e que nos falta conhecer, o que torna o arco narrativo simples mais satisfatório do que o arco narrativo que terá, pelo menos, mais um volume ao longo da série.)
Um passo mais numa série que tem essa virtude maior de ir levando consigo os leitores numa lógica de fiabilidade do personagem no seio de situações cujo grau de satisfação variam.
Se o sucesso de Cross em cada uma delas é garantido, o seu comportamento continua a ter traços humanos credíveis.
Sobretudo incongruências que se esperava que um psicólogo criminalista de excepção soubesse reconhecer e eliminar em si, mas ainda mais o misto de arrogância por despreocupação e inconsciência por habituação face aos perigos que são uma constante.
Ainda que perto do tal estatuto de super-herói, é a sua parte humana que traz os leitores de volta a cada nova aventura.
Com mais alguns meses e um esquecimento leve, de certeza que me dedicarei ao vício de entretenimento que Patterson criou com esta série em particular. Nem que seja para me indignar um pouco...


Alex Cross: Perigo Duplo (James Patterson)
Topseller
1ª edição - Maio de 2013
384 páginas

sábado, 6 de julho de 2013

O investigador privado. E a sua equipa?

De entre os títulos de James Patterson que a Topseller tem vindo a publicar, Private - Agência Internacional de Investigação parece-me o mais satisfatório.
Parte disso tem a ver com a criação de um detective mais próximo dos modelos clássicos deste género de personagem colocado na liderança de um policial.
Jack Morgan, um detective "à antiga", que quer dizer que ele tem uma conduta construída à medida que as coisas acontecem e nem sempre coerente.
Com uma moral balançando entre o que cada caso representa para ele - justiça ou vingança, um simples pagamento ao fim do mês ou um grupo de pessoas com quem não quer nenhum contacto - ele rege-se segundo as alianças que tem a cada momento, o que o deixa numa relação difícil com todos mas, sobretudo, a polícia como já se foi vendo neste primeiro livro.
A personagem afasta-se ainda mais do comportamento a roçar o super-heróico de Alex Cross, até porque tem à sua volta um séquito de colaboradores que assumem funções igualmente importantes.
A equipa em torno da personagem central permite trazer lógica ao que é uma agência de investigação no tempo actual que já não pode depender de um homem só indo de porta em porta.
Ainda mais do que isso, a equipa permite desmultiplicar os esforços da agência, cobrindo vários casos com várias causas e efeitos distintos. 
Claro que, por outro lado, o grupo permite criar uma dinâmica de relações amorosas e dramáticas (influência de Maxine Paetro, creio) que traz de volta o traço novelesco que mencionava a propósito de Confissões de uma Suspeita de Assassínio.
Isto permitirá segurar os leitores mesmo quando a imaginação de Patterson comece a falhar em originalidade, como já se nota aqui quando um dos três casos do livro - o dos assassinos em série, o caso menos lógico na dinâmica de uma agência de investigação - tem vários elementos a que já faltam novidade.
Será necessário que os autores insistam na caracterização de todos os investigadores como já têm feito com Jack Morgan que ainda não é uma personagem vincada e de corpo inteiro mas que já tem vários traços cativantes.
Além da sua moral que o molda ao trabalho, tem também traços pessoais fundados na realidade: o facto de ele ler Sedaris, como se este fosse um porto de abrigo para as suas más decisões através do olhar crítico sobre o núcleo familiar sempre disfuncional.
Devo neste ponto voltar a frisar que o papel dele é igualado por cada um dos seus colaboradores, até porque isso acrescenta à falha maior do livro, que vem da narração.
Já se viu que Patterson trabalha invariavelmente com a narração na 1ª pessoa, mas com a necessidade de ir trocando de personagens (raramente juntas) leva a mudanças para a narração na 3ª pessoa.
Essa variação é, creio que transversalmente, vista com maus olhos e deveria ser evitada, até porque não consegue ser feita com uma continuidade que disfarce o intercalar das vozes entre si.
Infelizmente tenho de terminar com um julgamento da tradução do livro que, na sua maioria, é eficaz, legível e fiel ao que será o original do texto.
No entanto, a fidelidade ao texto original torna-se um problema quando se começam a verificar traduções acríticas dos vocábulos em inglês.
Tratar como "futebol" o desporto americano ("football") ou chamar "caneta USB" Ao dispositivo informático ("USB Pen") são questões de pormenor mais ou menos corrigíveis automaticamente pelos próprios leitores.
Já ter uma expressão absurda como "sem gastar um níquel" em que o elemento químico se substitui à moeda norte-americana ("nickel") ressoa com maior gravidade perante melhores soluções, como a idiomática do nosso país - sem gastar um tostão - ou a conciliadora das unidades monetárias dos dois lados do Atlântico - sem gastar um cêntimo.
Este novo estilo de escrita - veloz e coloquial, mais do que detalhada e trabalhada - em que a Topseller aposta em força no nosso mercado (onde surgiu esporadica e não sequencialmente) vai exigir que os tradutores sejam adaptáveis e sem um estilo fixo (como acontecia com Alex Cross, malgrado a deficiente intervenção do revisor).
Ou, então, que se forme um grupo de tradutores mais jovens, formados em sociedade e coloquialidade americana pelo cinema (sobretudo), e com a desenvoltura para saber, por exemplo, onde não traduzir.


Private - Agência Internacional de Investigação (James Patterson, Maxine Paetro)
TopSeller
1ª edição - Abril de 2013
384 páginas

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A família que se desfaz por dentro

Misto de thriller e novela, os segredos da família explorados a pouco e pouco num cenário de fundo que permite continuar a história como uma série que se move tanto para o futuro como para o passado.
Iniciado com um assassínio, convence o leitor a acompanhar a família por aquilo que dela se revela de mais perverso ao ponto de ninguém confiar que os do seu próprio sangue sejam inocentes.
Lançando bases para uma quantidade incontabilizável de mistérios - já ocorridos ou por ocorrer - deixando tudo em suspenso para uma nova investigação de assassinato no livro seguinte (muito embora a partir daí o título-chamariz deixe de fazer sentido).
Por isso é que o ponto de vista inabitual da história é tão precioso para o seu objectivo, permitindo o acompanhamento da investigação a par de uma visão privilegiada do que se passa no seio da família. Mesmo se a exploração da narração na primeira pessoa - que parece ser uma característica omnipresente nas obras de Patterson mas pode ser insuficiente para o próximo volume - leva ao máximo a vontade do leitor em dar crédito ao que se passa no livro.
A exploração de todas as angústias adolescentes num cenário titilante - que inclui romances com desaprovação parental, exigência académica desmesurada e rebeldia tardia - assume um protagonismo tão grande quanto o thriller ele próprio, pois esse dá a escala unitária ao livro e ela dá a escala global da série.
Mas se as angústias adolescentes são as vulgares para qualquer pessoa nessa fase de crescimento, é pelo extremar da forma como ocorrem e das consequências que têm que Patterson e Paetro vão conseguir controlar as ocorrências de crimes dentro de um núcleo tão restrito de personagens.
A adição de um ambiente corporativo, potencialmente de especulação científica, que actua sobre as capacidades físicas, psicológicas e sociais dos jovens ajuda a transpôr a barreira da idade da protagonista. Visto que esse ambiente corporativo é pertença dos adultos da família - que têm papéis ainda mais perversos na vida dos jovens - o lado de crítica aos limites da parentalidade e da sociedade é um factor de maturidade para a história.
Nestas circunstâncias, a protagonista (e irmãos) criam vários antagonistas para si, numa clara disposição das peças num combate entre jovens e adultos.
Todos acabam colocados em causa por esse processo, não havendo classificações óbvias de "justos" e "vilões". O que têm em comum é o facto de nenhum deles ser agradável mas terem qualidades e defeitos que, a cada momento, são motivos de simpatia ou desprezo. Mesmo os pais excessivamente severos têm um momento de humanização.
Isso exige a abertura da caracterização do máximo de personagens com o mínimo de elementos, algo que está bem dominado ao longo do volume.
Menos bem dominados são os tempos da narrativa, que adia a resolução do assassínio até que não possa deixar de ser significativo em termos dramáticos mas, igualmente, simplista dentro do thriller.
Ou o facto do livro ser feito numa escrita directamente dirigida ao público - um calculismo que faz vacilar os leitores - em vez de uma qualquer forma diarística.
Ou, e sobretudo, alguma debilidade para cavalgar a dúvida interna à família - e, até, a dúvida consigo própria - considerando a narrativa pessoal.
Entre aspectos positivos e negativos, são os desejos finais da protagonista em se tornar detective com a incerteza sobre se ela não se revelará violenta, que deixam uma avaliação final de crença maior nas potencialidade da série do que nos seus defeitos. 


Confissões de uma Suspeita de Assassínio (James Patterson, Maxine Paetro)
TopSeller
1ª edição - Abril de 2013
288 páginas

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um bom compromisso

A Topseller começou a publicar a série já para lá do meio - este é o livro 12, a série vai em 20 - o que causa um problema na abordagem ao livro.
Fez-me começar a suspeitar de tal o facto de uma das informações que me parecem essenciais para definir o personagem tal como ele é em 2006 - a morte da mulher - surgir como pouco mais que um incidente no final do prólogo dedicado a uma outra personagem, o Carniceiro de Sligo.
Ora, tão grande trauma deveria motivar um livro por direito próprio, embora tal não fosse essencial - quantas personagens conhecemos já com a "vida" em andamento?
Mas a carta de um psicopata que nunca saberemos quem é e os doze anos de intervalo em que Alex Cross fez a transição de agente de agente de polícia para o FBI e agora para mero psiquiatra a servir de consultor à polícia são prova mais do que suficiente que estamos perante uma versão secundária do momento que definiu o personagem.
Já antes me referi, a propósito dos thrillers de David Baldacci, que sinto haver um erro em não arriscar com o primeiro volume de uma série e ter de vir a fazer avanços e recuos numa história contínua. Talvez seja um problema de falta de habituação a sagas deste género no nosso país, o que se poderá resolver se continuar o trabalho de edição agora começado.
Porque é quase certo que a série Alex Cross vai continuar ou não acabasse o livro com um cliffhanger que é um gancho comercial do autor para vender o próximo livro - e que não permite a Cross sequer um dia de paz antes de voltar ao que acabou de fazer por quase 400 páginas.
Mesmo assim creio que há um certo acerto no que a Topseller fez, uma forma de compromisso com os leitores. Temos direito a conhecer um pouco do passado e da psicologia do personagem em que estamos prestes a investir e podemos contar com alguns livros pela frente até que o livro mais recente esteja publicado e seja preciso acertar a cronologia.
Isso dará tempo suficiente para muitos leitores se familiarizarem ou incompatibilizarem em definitivo com Alex Cross antes que seja preciso pensar realmente sobre como a decisão presente definirá a publicação futura dos livros passados.
Ficamos com os traços essenciais de Alex Cross num livro que funciona como um volume independente, tornando-o num bom começo embora deixando as personagens permanentes da série - o próprio Alex Cross, a família deste e os vários elementos de forças policiais que a ele estão ligados - caracterizadas de forma deficitária.
A compensação vem da existência de uma segunda personagem central neste livro, o próprio Carniceiro, que se revela uma personagem perversa até demais.
No entanto, o caso do Carniceiro é o oposto do de Alex Cross, tem características a mais. Se é plausível que ele seja um assassino para a Máfia que é um psicopata e violador em série nos tempos vagos, já é mais difícil de sustentar a crença na plausabilidade dele manter uma família secreta em total ignorância da sua verdadeira ocupação como fachada para uma vida mais segura.
Três ocupações a tempo inteiro haveriam de causar algum tipo de quebra na rede de subterfúgios que o Carniceiro mantem, o que torna a presença da família numa desculpa insatisfatória para um conjunto de cenas de acção finais de grande exagero.
Até lá chegarmos, a divisão do livro entre a investigação de Cross e as actividades do Carniceiro tornam a leitura num assomo de vontade acelerada de descoberta. Reforçado, claro, pelos capítulos curtos e escrita que aponta à eficácia e à desenvoltura acima de tudo o resto.
A investigação de Cross é mais atabalhoada do que a consideração que a polícia tem por ele deixaria antever, o que se torna no traço mais interessante da personagem pelo grau de imperfeição que acrescenta ao retrato.
Mas a estrutura está de tal forma montada que os protagonistas não chegam a tornar-se antagonistas directos, ainda que Cross suspeite do envolvimento do Carniceiro na morte da sua mulher. E se a qualidade de um inimigo é a melhor medida de um detective, a ideia de vingança que é a motivação maior de Cross acaba por deixar algo a desejar.
Sobretudo quando o final se desenrola e as acções de Cross - como as do polícia que o acompanha, já agora - passam sem grande consideração moral quer do autor quer do próprio personagem.
Não sei se enveredar pelas margens da Lei é um hábito de Alex Cross, mas de supetão essa atitude marginal deveria servir para colocar em causa a aura de herói e adensar o núcleo da personagem.
O resultado, no que toca à questão de quem matou a mulher de Cross, não é conclusivo - nem satisfatório na maneira como é apresentado, acrescento - o que pode deixar mais marcas para o futuro comportamento dele.
Estamos perante várias hipóteses e questões em aberto que poderão ser respondidas no futuro, justificando que a mesma personagem protagonize vários livros em série. Já quanto ao fulcro da história, que se inicia e encerra neste único volume, é uma agradável leitura que se concretiza com curiosidade e rapidez, pontos essenciais a um thriller apontado ao mais vasto público possível.
Se a leitura deste thriller não é ainda mais vertiginosa para quem entra nas suas páginas, é pelo acumular de erros de revisão que o livro tem.
Nota-se que a tradução é muito fiel à Língua Inglesa corriqueiramente usada pelos norte-americanos - em alguns momentos talvez fiel demais, podendo haver algumas expressões passadas para uma correspondência portuguesa - e, não sobram por isso dúvidas, que parte do revisor a transformação de algumas frases em texto erróneo.
O revisor tratou ou de emendar - raramente bem - as palavras ou a ordem das mesmas no seio de algumas frases. Essas emendas levam a que as frases - aquelas que seriam possível salvar - mostrem carecer de alguns acrescentos para continuar a fazer sentido.
Para dar dois exemplos próximos que demonstrem o que digo, recorro às páginas 288 e 289. Na primeira lê-se "Embora a localização do condomínio a bem conhecida..." onde deveria estar "Embora a localização do condomínio fosse bem conhecida...". Na segunda lê-se "Porque supostamente sou eu que doido?" onde estaria "Porque eu sou supostamente doido?".
Estou em crer que não pode haver um trabalho de revisão da tradução sem haver um passo atrás para compreender como a expressão existe no original, coisa que muitos dos leitores do livro poderão fazer por si próprios à conta do contacto com o cinema (se mais nada) americano.
Mesmo se desconfie que, muitos desses mesmos leitores, nem darão por este estrago significativo!


Alex Cross (James Patterson)
Topseller
1ª edição - Novembro de 2012
384 páginas