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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Equilíbrio encontrado

A segunda aventura no universo de C.A.O.S. começa com um prefácio de David Soares que só faz mal ao livro, ainda que a aparente erudição do texto prometa precisamente o contrário.
A tradição em que David Soares envolve a personagem Franco, que é o elo que se mantem entre os dois livros, parece bastante lógica, embora não tenha ficado demonstrada no primeiro livro.
Só que, a partir do momento em que começa a citar nomes de personagens, o alcance deles é tão lato que se torna impossível encontrar uma característica que seja comum a todos. Nem mesmo o facto de serem detectives, dado que Torpedo também lá surge...
Se Franco é tanto Phillip Marlowe como Marion Cobretti ou se é tanto John Hartigan como Martin Riggs, então de facto o "Velho" é tudo o que se queira lá ver ou, como parece mais certo, uma amálgama sem critério.
O prejuízo não vem apenas de o prefácio desconstruir um personagem em vez de o tornar mais vívido, mas de vir a criar expectativas para que ele seja o protagonista da história - mesmo se lhe refere como cascadeur (porque não duplo?) - quando, durante boa parte do tempo, ele está fora de cena.
Consciente do texto que leu, o leitor estranha que ao fim de algumas páginas José Franco tenha menos preponderância que Mário Lobo (a capa, mais ajuizadamente, cede lugar a ambos). E que seja para este último que está reservado o papel de Sam Spade da história, enquanto que o outro faz uma versão envelhecida de John McClane.
Sente-se que o prefácio tentou mitificar um personagem - e, com ele, os dois livros publicados e mais algum que venha a surgir - enquanto fazia o elogio prévio dos autores. Alguma vaidade antes de tempo.
Esta é uma crítica à opção editorial, pelo que depois de feita ficará de fora das considerações seguintes.

Comecemos pelo argumento, novamente do criador Fernando Dordio, que mostra uma evolução, para a qual não será alheio o facto de ter aqui uma história escrita em continuidade e não em episódios depois compilados.
Como também a restrição temporal a um único período lhe permite explanar a trama por dois momentos da acção decorrendo em paralelo, assim criando a tensão que antes não soubera produzir.
Continua a recorrer a uma construção da trama - um vilão de engodo e um outro do qual nada se chega a conhecer antes de ser abertamente revelado - que está longe de ser a mais encorajadora para o leitor e a temática de terrorismo informático não traz nenhuma novidade.
Mas usa esses elementos de maneira a separar o trabalho policial da intervenção conduzida à "lei da bala", o que trata de revelar o melhor do argumentista.
A maneira como Dordio retrata o ambiente na esquadra de polícia é bem melhor de como conduz as cenas de acção, sugerindo que o autor deveria encaminhar-se para um policial mais "clássico" do que manter-se com o thriller - de certa maneira, o que David Soares parecia sugerir, embora destacando a personagem errada.
Os dois cenários permitem, igualmente, criar uma situação mais clara para expôr a situação em jogo à medida que esta evolui.
Tal como permite um trabalho de composição de personagens para o qual não havia tempo na acção sem pausas do livro anterior.
Uma pena que Viriato não possa regressar num livro posterior, mas Lobo tem todo o potencial para ganhar a sua própria série - talvez numa lógica de herdeiro à força do papel de Franco.
O desenho de Osvaldo Medina é de uma qualidade acima da média - veja-se como define o personagem Viriato e aproveita as suas características para traçar excelentes vinhetas.
Não lhe falta dinâmica para as cenas mais enérgicas, também porque o seu traço rigoroso não deixa de evocar a sensação de liberdade que os esboços carregam consigo.
Perante o traço de Filipe Teixeira no último período da história anterior, creio que o de Medina não se adapta melhor aos momentos mais intensos do género de história aqui contada. A causa será a planificação menos ousada das pranchas dedicadas às cenas de acção, embora como também a preponderância das cenas de desenvolvimento seja maior, o livro ganhe em equilíbrio também por causa do desenho.
A sóbria escolha de cores volta a ser um dos elementos relevantes, embora me pareça que as pequenas variações dentro de uma mesma cena  não constituam a melhor opção.
A cor está aqui ao serviço do desenho, enquanto no livro anterior se notasse que a cor tinha de se sobrepôr ao desenho, em alguns momentos, em socorro do resultado final.
O resultado final é sugere todo um equilíbrio de enorme eficácia, logo à segunda incursão por este universo de ficção policial.
Se esta equipa poder regressar para outra história, sobretudo com Dordio a evoluir tão rapidamente, estou em crer que seria um volume (final?) muito interessante para C.A.O.S..
Mas com Franco e Lobo (se lhes somarmos o vilão Nero, devemos poder concluir estar perante referências mais ou menos óbvias aos Western Spaghetti) lado a lado.


Agentes do C.A.O.S.: Nova Ordem (Fernando Dordio e Filipe Teixeira)
Kingpin Books
Sem indicação da edição - Maio de 2011
94 páginas

Melhor ilustrado do que escrito


Agentes do C.A.O.S.: A conspiração Ivanov evidencia-se por ser um thriller revisionista dos anos que se seguiram à revolução de 1974.
Deveria, por isso, suscitar alguma atenção fora dos círculos bedéfilos, já que este período tem surgido a pouco e pouco na literatura portuguesa e, até mesmo, com este género de abordagem. Vermelho da Cor do Sangue, por exemplo, recebeu bastante atenção na altura da sua publicação e creio que um thriller com imagens só pode beneficiar a maneira como a acção funciona perante o leitor.
O lamento pelo diminuto público de Banda Desenhada, mesmo dentro do não tão extenso público leitor, não me leva, no entanto, a poder dizer que seria este o livro que recomendaria para que começassem a ler esta outra linguagem narrativa.
Sucintamente, a história faz-se, quase em exclusivo, de três episódios de acção, distribuídos por dois períodos temporais distintos.
Fernando Dordio, o argumentista do livro, utilizou algumas daquelas que são hoje das mais repetidas mas das menos lógicas estratégias para o género.
Logo a abrir, uma sequência de sonho - adicionada à história quando esta foi compilada num único livro - cria um ambiente que não se voltará a encontrar e que se limita a tentar criar um suspense de longo prazo que os episódios subsequentes não conseguem gerar.
No final, a resolução da trama faz-se com o ressurgimento de um personagem que, até aí, quase não existiu para além de um rosto desenhado por uma vez com o nome mencionado a acompanhar (que têm, inevitavelmente, de ser procurados no início do livro para se conseguir continuar a acompanhar o desenvolvimento). Esta aparição vinda de "parte alguma" tem a intenção de criar surpresa sem que a história tenha sido trabalhada para tal.
O início e o final do livro usam truques para fazerem a vez das ferramentas narrativas mas o miolo do livro não tem um tratamento melhor.
Precisamente na página 43, que marca o meio do livro, o autor recorre a um texto expositivo para ligar as pontas de 1980 e do Presente. Ao invés de tentar que a informação surgisse faseada ao longo e exposta através da acção, o autor quebra por completo o ritmo do livro (ainda que a primeira metade do episódio 2 fosse já de uma excessiva acalmia).
Um texto que deveria ser um complemento com informação mais específica mostra-se demasiado longo, repetitivo na sua linguagem e sem personalidade. Aquilo que deveria ser a carta de um pai a um filho não esconde a construção de um texto contextualizador num momento em que nenhuma outra solução haveria já.
No caso desta prancha não posso deixar de assinalar, igualmente, a falta de qualidade da sua planificação que faz ecoar de forma mais forte a sensação de informação forçada ao leitor.
Constituída por um grande plano da carta, mas depois encoberta por caixas de texto que não beneficiam nada a leitura já que a legibilidade das letras é igual nos dois suportes.
E não posso deixar passar, ainda, a presença de uma cómica referência do desenho à vida interna da Kingpin Books que está completamente fora de tom para imersão numa memória reinventada da realidade revisionista que o livro procura.
Apesar deste reparo, a evolução do desenho de Filipe Teixeira é o mais interessante de seguir ao longo do livro.
Ainda muito débil e inconstante no Livro 1, como se pode ver pela representação pobre e pouco coerente das faces dos personagens, atinge patamares de grande qualidade no Livro 3 (ajudado, evidentemente, pela arte-final de Mário Freitas) onde o trabalho de detalhes e a imaginação aplicada à planificação das pranchas ganham relevo.
As cores ajudam o desenho de forma muito evidente. A sua qualidade é uma constante do livro e a expansão da paleta ao longo da história (sobretudo a partir do Livro 2) leva a que a própria leitura do livro se vá abrindo ao leitor.
Sobretudo, são as cores que impedem que se recuse o livro durante o Episódio 1, ainda para mais quando o desenho surge numa abrupta transição de um Episódio 0 que terá sido desenhado já depois do Episódio 3 e que apresenta a mesma qualidade que esse último - e muita mais do que o Episódio 1.
Nos melhores momentos, o desenho e as opções de cor levam as cenas de acção a equiparar-se a possibilidades cinematográficas que muitos realizadores reivindicariam para si - veja-se a sugestão de slow motion da página 78, por exemplo.
Vale isso numa edição que, pelo formato, se aproxima do formato usado para a literatura de texto corrido e que merecia que o argumento justificasse mais tal analogia.


Agentes do C.A.O.S.: A conspiração Ivanov (Fernando Dordio e Filipe Teixeira)
Kingpin Books
Sem indicação da edição - Outubro de 2010
84 páginas