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terça-feira, 5 de agosto de 2014

A realidade restringe o escritor

Paolo Giordano continua a retratar personagens merecedoras de ternura através de conjuntos de episódios soltos, certamente enigmáticos.
Personagens falhadas e, por isso, mais humanas. Mais humanas do que admitiríamos que personagens criadas com palavras pudessem ser.
Personagens que, tal como em A solidão dos números primos, estão desconfortáveis no seu corpo. Porque é ele que as limita a um mundo que nunca se adaptará às suas necessidades.
Eternos desajustados, Paolo Giordano vai encontrá-los numa situação onde o alinhamento é tudo.
O exército. Mais do que isso, um exército em local de guerra, sujeito a situações que exigem uma atenção permanente que não se coaduna com a interrogação pessoal.
As unidades militares pensam como um todo, a individualidade é apagada atrás de uma noção de "corpo único" que se deve apoiar e defender sem que um dos seus membros vacile.
Os comportamentos de um indivíduo que seriam aceitáveis em qualquer momento tornam-se impossíveis de entender naquele tempo e naquele espaço.
Este é o traço mais interessante do segundo livro de Paolo Giordano, que ele tenha encontrado um submundo onde as restrições sobre o ser - e o corpo - humano sejam ainda maiores e onde a estranheza (diferença, se estranheza for motivo de repulsa) de cada um esteja ainda mais ameaçada do que sociedade quotidiana - que era, afinal, o tema do seu primeiro livro.
Infelizmente, as histórias com origem no contexto militar - em que o escritor esteve inserido para uma reportagem que acabaria por se transformar neste livro - não parecem propícias ao género que manipulação que ele quer fazer com as suas personagens.
No seu livro anterior a força do que estava em torno dos seus personagens vinha de uma consciência da realidade social que mantinha algo de indefinido. Um mistério completado pelo próprio leitor.
Neste caso os pequenos eventos são por demais realistas para que as personagens tenham uma parte indefinida. São várias as vezes em que o comportamento das personagens parece um absurdo naquela realidade restrita.
Pior do que serem realistas, parecem falhos de novidade ou de imaginação, derivações menores em torno de outras ficções militares onde as personagens cediam ao contexto.
Julgo que a culpa (maior) nem sequer é de Paolo Giordano, mas da vida militar que nada tem de novo após tantas décadas.
Está por transformar o contexto em que vivem estes homens - e, entretanto, mulheres - que de arma na mão respondem à tensão de deixarem de ser eles próprios para serem uma ferramenta na mão de decisores de maior patente.
Se experimentada in loco a vida dos militares no conflito Afegão é fascinante, esse fascínio parece menos óbvio ao tentar ser moldado às características do trabalho do autor. Tanto que as qualidades que o distinguiram não estão aqui patentes, elas próprias manietadas.
O verdadeiro conflito do livro é entre a expressão do autor e o ambiente em que ele quis trabalhar.


O Corpo Humano (Paolo Giordano)
Bertrand Editora
1ª edição - Abril de 2013
320 páginas

sábado, 6 de junho de 2009

A solidão dos números primos

Esta é a primeira recensão a que não dou um título de minha autoria.
Afinal de contas, o nome deste livro é por si próprio suficientemente contudente sem deixar de lado o seu mistério, sugestivo enquanto lança pistas daquilo a que vamos.
Foi por ele que primeiro - e acima de tudo - quis pegar neste livro.
O seu título é magnífico.
Depois veio a capa.
Umas vezes profundamente irritante, lembrando aqueles melodramas de má memória a que o cinema italiano pareceu (muitas vezes) reduzido durante a década de 1990.
Mas outras, cativante naquele olhar andrógino, castamente provocador, com vontade de desaparecer na folhagem.
Uma capa que exige esta relação de amor-ódio e que, assim, se torna, realmente, na mais precisa capa que o livro pedia.

Esse olhar é o de Alice e Mattia.
São dois fantasmas que carregam as grilhetas do medo, da culpa, da humilhação, do desgosto.
Dois fantasmas que apenas ao tocarem-se parecem ganhar corpo, mas que assim que o fazem parecem sentir o peso das suas grilhetas ainda mais. Ou, pelo contrário, talvez sintam essas grilhetas escaparem-lhes e não o consigam aceitar.
Há entre eles um amor que se manifesta de forma quase assentimental.
O que verdadeiramente lhes resta são as dores de serem humanos e imperfeitos.
As suas maleitas sentem-se a cada pedaço de história, a cada escolha, mas nunca são definidos nem sentenciados.
Nomeá-los seria desvalorizar a complexidade do ser humano. Tentar definir ou justificar os actos de ambos seria destruir a suspensão em que seguimos os seus percursos onde ressoam os nossos próprios e os de toda a Humanidade.
Entramos nestas vidas discretamente, pois elas são já duas farpas a penetrarem nos corpos, e não temos de ser nós a cravá-las mais fundo. Nós observamos e sofremos lado a lado com elas.
Paolo Giordano foi delicado com os seus números primos e, consequentemente, nós conseguimos admirá-los e estimá-los.
São nossos, também; somos nós, também.
Deixemo-nos, então, ficar a sós com este livro!


















A solidão dos números primos (Paolo Giordano)
Círculo de Leitores
1ª Edição - Abril de 2009
272 páginas