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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O problema está no resto

A novela que se configura como o texto principal do livro é dos mais divertidos retratos de um país que se mantem num regime de brandos costumes... cada vez mais ousados.
Os costumes só são brandos por se manterem silenciados pela aparência da moralidade. Os lençóis, na verdade, não abafam som algum antes motivam que estes se agudizem.
A sociedade portuguesa, bairrista como sempre, está cheia de paixões e desamores entre o mesmo pequeno conjunto de personagens de historietas.
Daí que a história revele a coincidência ácida do destino encafuado num reduto que, até pela sua forma geométrica, se assemelha a uma rua onde ninguém escapa ao olhar atento do vizinho.
Há um trio amoroso pacificado, que sabe partilhar-se embora fingindo uma compreensão que tem de recorrer ao adágio "longe da vista, longe do coração".
Os sentimentos acalorados continuam a dominar o mais moderno dos animais sociais que, à conta de uma elevação racional a que se sente obrigado, aceita a construção de um cenário em que dá a si próprio a hipótese de uma decisão.
Tudo é uma ilusão que ele - pois quem senão o homem da relação se deixaria levar tão facilmente - prepara para se conformar de que a mulher não pode viver só com ele. Como cantava Juca Chaves há já muitas décadas atrás, "Esta é a vida que eu sempre quis / Eu sou cornudo mas eu sou feliz".
Não se trata de uma farsa, os sentimentos de todos são sinceros por todos os outros. Tem é de se continuar a mentir sobre o destino da outra metade do casal.
Deixou de ser possível fingir que não se sabe e, com isso, sossegar a consciência própria para parecer bem à sociedade em volta. Agora é preciso fingir que não se sabe apenas para parecer bem à sociedade em volta. Apesar do modernismo, a consciência dos outros sobre a consciência do seu próprio estado marital continua a ser motivo de uma vergonha que nenhuma racionalização vai levar a que seja superada.
E, por isso, os costumes continuam brandos e as vidas continuam mansas...

O resto do livro são, de facto, histórias. Mas não boas, lamento dizer.
O próprio autor descreve o motivo para isso no penúltimo dos seus textos, "Se não fossem as surpresas, a vida seria um imenso tédio.", bastando substituir a palavra "vida" por "histórias" e temos a condenação final merecida e dada pelo autor.
Tirando duas das histórias - e estou a ser generoso com uma delas - nenhuma deles consegue surpreender ainda que o autor faça o seu melhor para criar finais que sejam inesperados. Mais do que inesperados ele quer que eles sejam irónicos como a tirada final de vidas anedóticas.
Como num espectáculo de magia, o autor bem nos faz olhar para o lado contrário àquele onde vai decorrer o trabalho essencial do truque mas com uma falta de talento que leva a que, no tempo todo até à revelação final, já tenha deixado demasiado claro o seu método. Podemos fingir acreditar no truque mas apenas por simpatia.
A sua ironia final é sempre o final anunciado pois por mais voltas que sejam dadas, a espiral de acontecimentos nunca pode senão ir parar àquele ponto central sem escapatória.
O mesmo acontece, há que reconhecer depois de todo o livro lido, a Longe é um bom lugar mas cujas falhas são compensadas por uma construção mais extensa que inclui detalhes mais expansivos da intriga que lhe dão outros laivos de interesse sem que venham a depender do momento final.
Na extensão brevíssima de não mais que meia dúzia de páginas, Mário Zambujal consegue apenas seguir o caminho do inevitável.
Um caso em que a imaginação do autor já está deformada para um caminho específico que é o mais facilmente - ou preguiçosamente, lamento dizer - descoberto pelo leitor e, portanto, aquele a ser evitado pelo autor.
Depois do efeito do texto mais longo, estas suas histórias são fintas à mentalidade vigente, mas acabam sempre por ser simuladas mas nunca concretizadas.


Longe é um bom lugar (O resto são histórias) (Mário Zambujal)
Clube do Autor
1ª edição - Outubro de 2011
152 páginas

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Crónica do que se perdeu

Trinta anos passados, dos bons malandros Mário Zambujal passou aos loucos amantes. Duas crónicas de distância para dois Portugal diferentes. Dois livros que não podiam ser mais constratantes.
O primeiro tinha a inventividade que levava abelhas para um assalto à Gulbenkian. Este tem a evidência que a nova criminalidade nacional só tem razões desinteressantes e meios repetitivos.
Há, também, dados em comum entre os dois livros. Sobretudo a facilidade do jogo com a Língua Portuguesa, a sua abordagem solta das amarras castradoras mas reverente à eloquência que ainda suscita o prazer na leitura.
Mas até a Língua popularmente rudita passa de saborosa a estafada à conta da historinha aqui escrita.
Este livro tem uns casos amorosos, perturbações de desejos achados e perdidos (e achados novamente), tudo indigno a menos que se queira escrever uma telenovela.
Algo que compreenderia se fosse para massacrar a partir do seu interior com o género ficcional que Portugal mais idolatra, mas nem isso.
Há personagens que fazem o típico novo "malandro" - aldrabões que fogem para o Brasil depois do golpe
Não há ironia suficiente nessas figuras, nem na sua disposição dentro da trama, para evitar que o mistério que surge se resolva da forma absolutamente previsível.
Seja a forma do romance já sem graça - quando o rapaz que percebe que aquilo que queria esteve sempre à sua frente - ou a dos mistérios despachados "a metro" - com o telemóvel a vir em socorro da verdade como solução mais básica da vida moderna - o exagero não é grande o suficiente para o humor surtir efeito e o resultado final é um modelo colado ao que deveria ser ironizado.
Os amantes não são assim tão loucos e, portanto, a sua história não é assim tão risível. Vai daí que o país saia limpo desta (suposta) provocação.
Esta nova leva de malandros (nem que sejam mariolas das paixões), não por ser real e todos os dias surgir na televisão (ou, pelo menos, num dos poucos pasquins que ainda vende) mas por não ter charme nem uma vida interessante, não devia estar num livro.
Daqui por uns anos quando forem procurar o que era o nosso país por estes dias, com este livro vão achar que tudo é desengraçado.


Dama de Espadas (Mário Zambujal)
Clube do Autor
3ª edição - Janeiro de 2010
220 páginas

Saudades da malandragem

Esta é a crónica de um Portugal que tinha, inevitavelmente, de deixar de ser. Uma Lisboa repleta de malandros engenhosos e com passados que os tornam memoráveis.
Malandros com vidas de bairro mas ambições de grandeza.
Malandros que davam personalidade ao seu espaço, que davam colorido à sua cidade, que davam substância à sua era.
São criminosos de estilo, indispensáveis à memória de um local que se engrandecia tanto quanto se revoltava com eles.
Deixam saudades de um tempo que já não volta a ser, do qual ainda se lê com prazer (e depois com saudade).
São criminosos que não disparam senão sobre si mesmos, que recorrem a abelhas para o grande assalto que Portugal nunca vira, que formam uma quadrilha qual grupo de amigos a que queremos pertencer.
Divertido e admirado, assim é o livro que leva as personagens a bem mesmo quando lhes faz mal.
O destino do grande golpe criminoso é uma desgraça, mas é uma desgraça como não se verá outras. A desgraça é brava, é louca, é brilhante.
Só se pode tratar assim tão mal alguém de quem se gosta muito. E Mário Zambujal devia mesmo gostar desta classe de bandidos.
Este é um livro que deveria ter lido há muito, lá pela mesma altura em que descobria um outro retrato humorado e liberto perante a nossa Língua e os nossos Costumes, O que diz Molero.
Senti-me agora como quando era miúdo e descobria o prazer de ir à descoberta de outros bairros e tornar-me num malandro de ocasião... sem sequer gostar de brincar na rua!


Crónica dos Bons Malandros (Mário Zambujal)
Livraria Bertrand
2ª edição - Junho de 1980
220 páginas