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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Narração interveniente

O retrato de grande envergadura da política Europeia dos últimos cem anos pode ser traçada com uma trama no interior da Península Ibérica – com um saltinho a Paris.
Uma trama que muitas vezes passa por locais que estão longe de ser os mais fortemente assinalados no mapa. Tarragona, Beja ou, e sobretudo, Setúbal.
A cidade da autora é-lhe útil para construir uma base mais confortável para sustentar a construção do seu romance histórico, sendo em igual medida útil para demonstrar que as grandes ideias políticas podem ter repercussões mais interessantes em locais que podemos pensar serem de segunda linha.
Fica-se a conhecer Setúbal pela maneira como está escrita com tanto conhecimento e amor, dando ainda mais intensidade ao seu povo, sofredor, e aos personagens que vivem a saga do tempo que corre – sempre para os ultrapassar!
Este não é um romance histórico que usa os seus personagens para acrescentar melodrama à descrição de eventos excitantes por si mesmos.
Há um sentido crítico de quem olha a História como definição da identidade. Os acontecimentos transformam os personagens que estavam, precisamente, a tentar afectá-los.
O sentido crítico de Alice Brito, no entanto, não fala apenas aos personagens, também aos leitores que sentem que a narradora, a par da própria narrativa, trata de fazer julgamentos sobre os extremos políticos, sejam as diferentes modalidades de fascismo que se manifestarem na Península Ibérica ou as utopias de esquerda transformadas em pesadelos.
Abordando as facções ao longo de um século a autora faz ver como como os percalços que as ideologias causam e enfrentam das vidas vidas individuais estavam destinados a encaminhar a realidade até ao seu estado actual.
Como se o corrente e desapontante estado de coisas fosse um destino que alguém deveria ter conseguido prever. E como tal continua a ser verdade para o futuro próximo. A autora faz tudo isto com uma linguagem tão instigante quanto sedutora. Uma linguagem com gosto por jogos que não se intrometam na função essencial e que tem coragem de ser criativa com a forma como afirma a realidade de formas não habituais. Recorrendo, inclusive, ao calão como mais uma forma de enriquecimento da Língua.
Pela voz da sua narradora, Alice Brito intervém no livro e interage com o leitor. Fala das evidências da História e revolta-se com elas. Cola-se à credibilidade do linguajar dos personagens e eleva o texto às exigências do que merece ser Literatura.


O Dia em que Estaline Encontrou Picasso na Biblioteca (Alice Brito)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Abril de 2015
368 páginas

domingo, 11 de outubro de 2015

Só se for anjinho

Mais uma daquelas histórias que formam teorias da conspiração em torno de uma mescla de elementos religiosos, arqueológicos, científicos e místicos, que consoante a imaginação do autor farão maior ou menor sentido aglutinados.
Javier Sierra parece conseguir unir os pontos todos ainda que eles estejam tão afastados quanto agências de serviços secretos e uma raça de anjos banidos para a Terra ou uma mulher com poderes místicos e velhas fotografias Russas da (suposta) localização da Arca de Noé.
Ele compõe tudo isto de forma a parecer coerente dentro dos seus absurdos pressupostos, o que é um feito mais limitado do que parece.
Problemático é o sofrimento a aguentar para descobrir isso: a execução do autor é péssima.
Recorre à constante mudança de perspectiva para manter o leitor na ignorância e assim escusa-se a encontrar as devidas ferramentas para um thriller - que este livro não é!
As perspectivas soam sempre ao mesmo, um narrador quase omnisciente de cada situação em que o personagem que lhe serve de ponto de vista está inserido.
Falta ao autor um sentido de ritmo que faça valer a trama como mais do que um esquema para descrições dos factos verídicos em torno dos quais ele ficcionaliza.
Essas descrições são interessantes mas raras vezes estão bem integradas na corrente de leitura, ao invés surgindo em situações forçadas que se tornam em palestras.
Um desses absurdos casos é o do casamento dos protagonistas em que o noivo chamou o seu clã para explicar à noiva a sua história - e como ela se integraria nela daí para o futuro.
Esta é apenas uma das situações em que ela é usada pelo marido para que ele atinja os seus fins sem que ela reaja de forma séria.
No final ela consegue mesmo convencer-se de que ele lhe deu uma experiência religiosa por puro amor ainda que ela tenha sido escolhida e seduzida para uma relação que servirá para ele (e os outros anjos) a treinarem de forma a que o seu poder os envie para casa ficando ela abandonada.
Uma de apenas algumas manipulações que tornam os personagens e a trama idiotas. O que por sua vez destrói qualquer curiosidade que os factos despertam.


O Anjo Perdido (Javier Sierra)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Outubro de 2011
462 páginas

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Toda a loucura será incentivada

Nesta novela isso significa que ele fez da realidade uma porta para o interior da ficção. De lá pode testar a via contrária desta janela que julgamos ter para um autor.
Juan José Millás, o autor, escreveu um livro onde incluiu Juan José Millás, o repórter, que se desdobra num outro Juan José Millás, o ficcionista.
Chegando ao Juan José Millás ficcionista devemos aproveitar a ambivalência da palavra, tanto referindo o criar como a criatura da ficção.
Millás está atormentado pelos outros Millás, não sabendo qual deles é a aparição que o conecta ou afasta do leitor.
Há pelo menos um Millás que é uma alucinação, tal como as palavras e orações corporizadas que aparecem a Júlia, mas que está contido e tratado pela Literatura num arranjo que sana, senão o autor, pelo menos algumas das suas dúvidas.
Nada que possa acudir à peixeira que por amor a um filólogo se debate com as palavras e os seus sentidos e acaba por se descobrir por elas tiranizada.
Não que a capacidade para a expressão literária seja sinónimo de conquista de Liberdade. Millás no plural, os dois que são personagem e desdobramento ou vice-versa, continua submisso.
Pois um encontrou um tema de reportagem que o outro crê dar bons apontamentos para um romance e o outro encontrou o tema de um romance que para o outro dará uma reportagem extraordinária.
A ficção é a alucinação da reportagem (da realidade) ou a reportagem apenas um desdobramento das pistas que se recolhem para a ficção?
Lá estão de novo Millás presos entre o que é e o que daí se projecta, a linguagem e como esta se estabelece, para além de quem a estabelece.
Sendo morte assistida o tema à volta do qual deambula Millás, recusando repeti-lo porque já o tratara anteriormente no El País, pode dizer-se que a preocupação pelas alucinações não terminou.
A morte, intrinsecamente ligada à vida, oderá bem ser o desdobramento desta. Incompreensível mas desejada por uns tanto quanto outros desejam a vida plena.
Sem sequer referir os postulados das religiões, pode bem ser que a morte seja outra vida, inexprimível por enquanto.
Júlia, a mulher louca é-o porque recebe a visita de palavras que lhe pedem ajuda ou que, simplesmente, copulam em frente a ela.
Pode-se não classificar também assim aquele Millás que se vê preso na fronteira destas fitas de Möbius do poder da palavra?
O Millás que é autor continua de fora, protegido até certo ponto, mas por ser leitor de outros acaba por se transformar num leitor de si mesmo e estar captivo das suas deambulações dentro desta novela.
O seu narrador e o desdobramento deste devem continuar a instigá-lo à interrogação. E por lá continuarão eternamente, existindo em ambos os estados (realidade e alucinação ou impossibilidade e concretização), como o Gato Schrödinger.
Só que ao invés de abrir a caixa, trata-se de fechar o livro. E nem então saberemos qual o estado de Millás, tal como o autor - que fez uma personagem com o seu nome e descobriu que esta se desdobrava - não o soube quando terminou
Caso contrário não valeria a pena Juan José Millás ter escrito este livro que se fez mostrando o seu processo de criação.
As dúvidas que o fizeram avançam estão à vista porque a interrogação se tornou necessária aos passos seguintes de Juan José Millás.
Millás, autor em definitivo, que se interroga sobre a pertença da voz que se alude ser do escritor, mas que é de um narrador que partilha nome (que não identidade) com ele e ainda com um personagem.
Interrogando-se, Millás voltou a descobrir que tem de continuar a descobrir formas de olhar e de transmiti-las pelas palavras que retorcem na imaginação.
Assim consegue provar a quem o leia que as palavras continuam a ter poder, venham elas em que modalidade venham, pela mão de quem Millás seja.
Seja ele personagem, narrador ou autor, confia-se no trilho de Juan José Millás. E pede-se-lhe que o continue a traçar!


A Mulher Louca (Juan José Millás)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Agosto de 2014
192 páginas

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Plano semi-falhado

Perante uma premissa pouco habitual como é a de contar o processo de preparação de uma mulher para o parricídio - e não de dar o protagonismo a um assassino, algo que mesmo em Portugal já foi feito - o interesse é natural.
O processo de convencimento de si mesma, a experimentação com métodos de morte e a pesquisa amadora de como proceder para não ser descoberta são os momentos de enorme interesse que exalam um realismo importante para sustentar essa linha mais exagerada do livro contra o seu pano de fundo assente na realidade quotidiana.
Para chegar do impulso inicial à planificação eficaz, a protagonista utilizará o método que é o mais óbvio porque é o único de que é possível lembrarmo-nos: o recurso à ficção sobre assassinos (neste caso com prevalecência e Dexter).
Sem dar à protagonista acesso a um assassino profissional com desejos de tomar para si uma aprendiz, a autora consegue manter credível esta sua exploração da violência doméstica a partir do ponto de vista da libertação pela vingança - e libertação porque superação seria uma avaliação demasiado ousada.
Conhecemos tal violência pelos olhos da mulher que quer vingar-se dos maus tratos do pai, que quer honrar a mãe que não conseguiu proteger antes, que quer salvar os irmãos mais novos ainda sob o domínio daquele homem e que quer proteger a madastra que agora vê sofrer no papel que fora da sua mãe.
Esse aspecto torna-a digna do nosso entendimento e da nossa solidariedade, levando-nos a aceitar dela uma situação cuja moral é intencionalmente dúbia e a cuja ilegalidade é clara.
Por isso mesmo toda a trama paralela de resolução de um crime em que ela se envolve, e que pretende reforçar a ideia de uma subjugação social das mulheres pela violência, surge como um acréscimo desnecessário.
A trama policial está elaborada de forma razoável e obriga a que a protagonista e a sua colega jornalista mostrem talento ao mesmo tempo que uma detective - que tem uma atitude de antagonista mas que acaba por delas se socorrer - se mostra muitas vezes mais comprometida com os seus ressentimentos do que com o seu trabalho.
O mistério apenas satisfatório acaba por roubar o foco da autora para os momentos melhores do livro que são aqueles em que há um relatório na primeira pessoa dos esforços infrutíferos e das pressões inesperadas que a protagonista tem para aprender a ser uma assassina pela via de uma certa cultura popular.
O policial atrasa - e rouba páginas - ao thriller de terror psicológico que tem um interesse adicional por haver a pressão do pai sobre a filha - contado em recordações - e por haver a pressão da mulher sobre ela própria - não só para cometer o crime num apertado período, mas também pela forma como mina a sua própria felicidade -, criando-se assim uma situação mais interessante a pedir uma análise dos efeitos da violência que as vítimas perpetuam em si mesmas.
Como a investigação policial apresenta duas personagens adicionais que deveriam ter um destaque equiparado ao da protagonista se a ideia fosse que todas elas representassem uma dimensão diferente do combate contra a opressão masculina (mais do que violência doméstica).
Só que o verdadeira cerne do livro é a história de como uma filha se prepara para assassinar o pai e isso reduz as outras duas mulheres a pouco mais do que estereótipos representando outras versões de subjugação que, mesmo assim, obrigam a desvidos à principal orientação do livro.
Apesar do caminho paralelo de ambas as histórias que se aproximam - não se sente que se toquem de verdade - no final, o livro está partido entre elas, com o assassinato por resolver a diminuir o alcance do assassinato por executar.


Quando o Ódio Matar (Carina Bergfeldt)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Junho de 2014
384 páginas

domingo, 13 de julho de 2014

Dos que não são Dan Brown

Uma conspiração de contornos fantasiosos no limite do impossível é sempre capaz de apelar a qualquer leitor, em qualquer ponto do mundo.
O exotismo da localização da acção e das peripécias descritas aliam-se a um tema "quente" de tal maneira que uma qualquer pequena variação continua a vender, por mais que os livros se mostrem como exibições dos talentos de pesquisa e manipulação de dados do seu autor.
A hipótese de contrariar este ocupação global das livrarias, sobre a qual ouvi um certeiro "Credo, isto está cheio de Dan Browns", pode passar por livros como este O Terceiro Bispo.
Desde logo um livro que aparece com uma lógica de abordagem local, trazendo a acção até Lisboa - mesmo se com ligação directa ao Vaticano - e dando o protagonismo a uma figura realista e exemplar da actualidade nacional.
Para o leitor português poderá ser caso para estranheza inicial, este de não encontrar um protagonista que seja quase um herói, brilhante a nível intelectual se não igualmente a nível físico, vagueando pelo mundo ao sabor de uma conta sem fundo à vista.
A estranheza só pode vir a transformar-se num prazer de descobrir o modelo de um investigador nacional que poderia ver-se perpetuado.
Se nos falta a tradição da detective privado, um jornalista desempregado que tem de aceitar um trabalho de investigação secreto da parte de um advogado seu amigo pode ser uma ideia para continuar a explorar.
Com "esperteza de rua", contactos antigos e uma rede de colaboradores em potência feita de todos os seus colegas igualmente no desemprego, este é um investigador cuja eficácia está dependente de vários elementos e cujo trabalho não é imune a falhas.
Ele investiga um caso que vai interligar as profecias de São Malaquias, o terceiro Segredo de Fátima e a situação excepcional de haver dois Papas vivos.
Esta criação literária apontada em específico ao público português firma-se também no aproveitamento de uma série de elementos religiosos do nosso país - e que não são poucos, como se reconhecerá - para a trama global.
Os jogos de poder no Vaticano vêm dar com o já revelado último Segredo de Fátima, o que torna ainda mais interessante o que sucede no livro.
Não é uma grande descoberta de segredos por revelar que toma o protagonismo do livro, antes a forma como toda a informação pode ser (re)interpretada para dar sentido a uma manipulação "do povo".
O livro torna-se numa antítese do que costuma ser este género literário, dando conta de como se pode convencer o leitor com uma narrativa que é, na realidade, uma mentira com vários elementos verdadeiros - e, por isso, vendida como uma revelação e não apenas uma ficção.
A conclusão é que estamos perante uma versão realista - até cínica - do mistério investigativo mas que na sua subversão continua a cumprir para com as expectativas do género.
Sobretudo porque tem a inteligência de optar pela brevidade eficaz em lugar da exaustiva demonstração de conhecimentos do seu autor (coisa que por vezes se assemelha a uma arrogante exibição do autor perante o leitor).
Apesar desta destacada eficácia que a narrativa mostra, ficou um corte por fazer ao livro.
Os capítulos que descrevem aquela que é uma das teorias sobre o que realmente aconteceu na Cova da Iria são dos mais bem escritos do livro e dos que mais captarão o interesse dos leitores.
No entanto não fazem falta, não acrescentam nada que não tivesse sido escrito de forma mais sucinta noutro ponto do texto e parecem uma exibição de Frederico Duarte Carvalho do seu talento para a recriação histórica.
Isso acontece porque surgem como capítulo soltos no meio da narrativa que depois ficam esquecidos, sem uma utilização daquele cenário para a conclusão do livro.
Espera-se que possa haver um próximo livro protagonizado por Joaquim Barata para saber se Frederico Duarte Carvalho continua a criar um género em estilo próprio e se esse estilo está apurado ao máximo.


O Terceiro Bispo (Frederico Duarte Carvalho)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Novembro de 2013
304 páginas

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Fotos sem memória

Marginal, a linha que liga Cascais a Lisboa e que separa uma classe alta de uma classe trabalhadora, tornando uma mulher marginal entre a família do seu marido.
Uma mulher que encontra na Revolução dos Cravos a sua própria transformação pessoal, momento de libertação.
Se os relatos (ficcionais) nos dizem que o Maio de 1968 levou os Franceses a fazerem uma revolução sexual, aqui descobrimos que o Abril de 1974 exigiu na nossa terra - um país parado no tempo - uma revolução da sexualidade: a mulher a ter de encontrar o seu papel na sociedade e um espaço onde possa viver de forma independente.
Essa mulher recorda o seu universo circunscrito àquele  e àquele tempo transformador, comandado por uma série de fotos resgatadas ao seu extermínio.
O cenário inicial é uma ideia tão forte que poderia ser a premissa de um conto de Kafka ou de uma ficção de Borges.
Uma rapariga encontra no lixo uma quantidade imensa de negativos de fotografias da sua vida e da sua mãe que nenhuma das duas alguma vez viu.
Fotos que arrastam a mulher para uma viagem por dez fotos e décadas de vida, mais de sofrimento do que alegrias.
As fotos antes da era digital eram usadas com cautela e raramente. Registos de obrigação, de aparências, tiradas nos momentos em que as pessoas e as famílias deviam parecer felizes.
Algumas tiradas em momentos significativos, as outras tiradas em momentos de acontecimentos pouco habituais.
Todas elas dependentes de uma excepcionalidade que não fala do quotidiano. Não se faziam - e nem hoje se farão - fotos das tragédias verdadeiramente transformadoras.
Essas tragédias são, muitas vezes, momentos a solo: descobertas interiores que não permitem continuar a ver o mundo da mesma forma.
As fotografias contrariam essa mudança, preservando a memória de um mundo que deixou de existir, que nunca existiu senão para a foto: "Sorriam!"... mesmo que não o sintam!
Por isso é que os negativos são, de facto, lixo. São-no no início do relato e depois confirmam-se como tal no final.
Os negativos fixam o tempo e o local, o quem e o como. Por isso os negativos obrigam a sofrer a tristeza das transformações com que a pessoa lidou antes, transformando a realidade em memórias pessoais.
Essas, ao contrário das fotografias, é pessoal e intransmissível. Moldada por cada um como melhor lhe serve a vida.
A memória não deve ter registos, deve poder estar dependente da vida que cada um leva no Presente e não do que os outros nos dizem com os momentos fotografados que ficaram para trás - afinal, há sempre outro alguém atrás da câmara!


Marginal (Cristina Carvalho)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2013
152 páginas

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os absurdos da solidão

Os primeiros contos d'Os Objectos Chamam-nos confirmam desde logo as muitas obsessões de Juan José Millás como a relação com a mãe, as histórias de homenzinhos ou a mutação do ponto de vista da realidade.
Todo o livro é um catálogo dessas obsessões, mas de uma acima de todas: a de encontrar na realidade mais banal aquilo que é quase o surrealismo da interpretação humana.
Um misto de absurdo e extraordinário que tudo transforma quando a realidade se filtra pela mente humana.
Do primeiro ao último conto está lá essa transformação, da simples frase do amigo do narrador, em A Morta, que lhe diz "Olha para ela, está morta." e leva o amigo a descobrir como se distinguem entre os que percorrem o mundo vivos e mortos, à bizarra tarefa (coxear) de uma vida toda para adiar a morte da irmã de Rodrigo Fuertes em A morte retroactiva.
Há uma única distinção entre os muitos contos, a dos seus protagonistas. Crianças e jovens na primeira parte, adultos na segunda. Dessa divisão resulta a ideia de que as crónicas agrupadas sob o título As Origens são melhores do que aquelas agrupadas sob o título A Vida.
A relação de Millás com as suas memórias de infância são uma fonte de material melhor do que a vida adulta, como também se verificava comparando O Mundo com O Que Sei dos Homenzinhos.
Talvez porque a infância revista à luz idade adulta é uma fonte (muito) maior de matéria de absurdos. Mas nada trava o olhar deturpador do escritor ao longo de toda a vida.
Deturpador por fazer a modificação da realidade de forma a melhor servir os moldes que o escritor tem em mente concretizar.
Neste caso os moldes são a da fantasia que lança ao caos cada vida assim escrita e, com elas, a consciência do leitor é exponenciada para a solidão das personagens.
Porque quase todos os momentos em que decorrem as absurdamente maravilhosas releituras da realidade se dão quando as personagens estão à espera.
Isoladas ou mesmo quando acompanhadas, é nos tempos mortos que as personagens ocupam o silêncio interno com ideias que uma conduta impoluta impediria de serem expressas.
Felizmente que não há essa pureza de comportamento, ou estaríamos privados dessa transformação do mundano em extraordinário, que pela mão deste escritor é tudo o que queremos ler durante muito tempo.
Contados de outra forma, todos estes contos seriam piadas com uma valente tirada final. Mas nas mãos de Juan José Millás são comoventes e desarmantes estruturas de enorme precisão, escritas de tal forma que engolem para o seu pequeno universo o leitor.
Cada três páginas são pequenos universos auto-suficientes, mas no acumular de realidades paralelas, temos uma visão da imensidade que é incomparável.
Não há quem saia deste livro sem encarar o quotidiano como material de onde escaranfuchar ideias sobre os outros e si mesmos, formas de falar da realidade como quem fala na abstracção da sua própria imaginação.
Estamos todos a sós com as nossas próprias ideias, resta usá-las para à nossa volta criar tudo o que nos retirará da solidão.


O Mundo (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2009
176 páginas

terça-feira, 30 de julho de 2013

O Homem que queria ser Homenzinho

Em comum com O Mundo este livro tem a demanda por uma forma distinta de encarar a realidade. Aqui trata-se de uma experiência fora do corpo: uma pequeníssima versão do autor que deambula com uma consciência autónoma e, por vezes, em comunhão.
O conjunto destes dois livros sugere que, para Millás, a missão do escritor seja a de descobrir novas formas de encarar a sua realidade para justificar escrevê-la para os leitores.
Mas O Que Sei dos Homenzinhos também tem diferenças substanciais para com o livro anterior do autor, sobretudo porque a descoberta de um ponto de vista novo para a realidade não pretende recriar a visão alternativa de outra idade.
Na verdade este ponto de vista do Homenzinho é uma concretização já adulta. Adulta porque perversa, cheia de impulsos que a infância não reconhece.
O Homenzinho é quase como a libertação do Diabinho da consciência, com a liberdade para concretizar as fantasias do Homem. Aquelas inaceitáveis pela sociedade e pela lei: do voyeurismo ao assassinato.
Estamos perante a mesma dualidade entre Bem e Mal d'O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, com versões diferentes do mesmo homem a viverem autonoma mas intricadamente vidas próprias.
Num processo em que as duas consciências ora se fundem ora existem sozinhas, há disputas e comunhões perante as perversidades à disposição.
O Homenzinho é sempre quem quer ir mais longe, adulto recém-criado, logo sem noção das regras mas com toda a noção das pulsões.
Mata primeiro e depois exige ao Homem que mate igualmente. E o Homem dá-lhe excessos (tabaco e álcool) e cozinha uma lagosta tentando adiar a obrigação.
Combate interiormente as pulsões - que pode imputar ao Homenzinho - com as restrições morais. Pode querer ceder às primeiras mas receia as consequências práticas das segundas: não a culpa, mas a prisão.
Ao mesmo tempo, esta questão das duas consciências serve para ridicularizar a masculinidade tornada machismo.
O Homem enxofra-se com a partilha da sua mulher com o Homenzinho quando as consciências estão unidas, mas depois quase que exige ao Homenzinho que este se apresse a repetir o ritual de acasalamento com a única Mulherzinha (uma espécie de Rainha).
O que é do Homem deve ser só do Homem, mas a possibilidade deste ter acesso a prazeres que não lhe pertencem nunca está excluída.
Será para isto que o Homem - que não um escritor, neste caso - reinventa a sua realidade, dá justificações e racionaliza para poder trair, errar, prevaricar?
Ouvem-se expressões que tudo justificam e que criam Homenzinhos sem ser necessário o processo de replicação alcançado neste livro: Não tenho em casa aquilo que preciso ou Isto não é algo que faça com a minha mulher.
São temas que Millás quer tratar sem fazer tombar o livro para a forma de ensaio. Quer cativar sem deixar de lado as suas obsessões.
Esta, dos Homenzinhos, causa uma magnífica ânsia. Pois se um Homenzinho podia ser esmagado como um insecto na palma da mão, porque domina a vida do Homem?
Este Homenzinho é algo demasiado significativo do Homem e aquilo que se sabe dos Homenzinhos é que são uma raça demasiado estranha.
Podem alcançar o que quiserem por serem quase sempre invisíveis, mas procuram os vícios habituais. Têm para si a melhor das mulheres e o mais intenso dos êxtases mas desejam as mulheres grandes: aquelas que não podem ter.
São tal e qual (ou quase) os Homens, mas causam estranheza a quem os vê. Excepto aos escritores, pois a literatura está cheia destes Homenzinhos, diz-nos Millás. Certamente uns maiores que outros, mas todos excelentes protagonistas para um livro.


O Que Sei dos Homenzinhos (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Março de 2012
136 páginas

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Alucinar a realidade

O Mundo é uma portentosa mas perigosa porta de entrada no mundo de Juan José Millás, aproximando-se da sugestão de uma forma de narrativa autobiográfica que convida a acreditar que o escritor tão abertamente se confessa ao leitor.
Caberia ao leitor, não só entrar na intimidade do autor, mas (psic)analisar os seus receios, as suas interpretações mais ou menos bizarras da realidade.
O leitor não pode acreditar que Millás está assim tão focado nessa ideia de que a literatura faz as vezes da psiquiatria.
Mesmo se é claro que os temas-chave, sobretudo da infância, são confidências do autor, a verdade é que o livro se expressa como o resultado de uma tese que ele procurou entender durante toda a vida para melhor poder explicar como vive e porque escreve.
O significado conclusivo que ele quer é para a sua demanda de um ponto de vista que modifique a realidade, para a tornar mais interessante e não mais simples.
Um ponto de vista que se altere e se renove para que o mesmo suceda a uma realidade que não é mutável.
Algo tão simples como olhar a rua a partir de uma janela de uma cave ou algo quase no campo do absurdo como render-se à febre para recordar as alucinações por ela proporcionadas.
Trata-se de uma procura da infância que o autor aprendeu a prolongar para a vida adulta. A inocência substituída pela imaginação, o sonho substituído pelo trabalho.
O resultado é o desta ficcionalização da realidade, alegre reinterpretação dos factos em nome do prazer da renovação.
Ou contra a visão estagnada de si próprio, da vida que não vai a lado nenhum. Porque se não vai é porque alguém - ele próprio, eventualmente - o vai impondo perante as circunstâncias.
A visão da criança não entende essa necessidade de realismo. O trabalho do escritor contraria essa necessidade de forma crónica.
Com isto tudo não quero excluir a possibilidade do autor estar a lidar com o seu passado, pois na sua forma de memória episódica, ele não deixa de abordar episódios tristes ou traumáticos.
Se a ficção também serve a essa purga, fá-lo dando a possibilidade a quem a cria de ter um novo ponto de vista para encarar o seu passado.
Um ponto de vista fantasioso que envolve esse trabalho intelectual de recriar intenções alheias e significados casuais.
Trata-se de expandir a realidade, de lhe acrescentar elementos inexistentes para que os outros tenham ainda mais força ao se reflectirem na imaginação.
Com Juan José Millás escrever é mais do que repensar ou reinventar, é verdadeiramente reviver. E reviver com outra consicência.
Escrever - com qualidade, detalhe, beleza e precisão - é manter a consciência da febre da infância, usá-la proveitosamente, ir mais adiante no Mundo. Porque se o Mundo é a rua da infância, com o crescimento, todo o Mundo se assemelha a esse pequeno microcosmos - ora releia-se Naguib Mahfouz.
O Mundo exige, então, que, em vez de o reduzir sistematicamente a esse estreito pedaço de vida (o da rua e o da infância), se use essa semelhança como rampa de lançamento para uma outra visão de tudo o que existe.
Como os delírios febris da infância que criam uma sensação de realidade intensificada. Mas, pela literatura, contraria a fragilidade - de bolha de sabão diz o próprio autor - dessas visões.


O Mundo (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2009
176 páginas

quarta-feira, 19 de junho de 2013

No limbo da Britanidade

Eis uma história feita de exploração histórica, mistérios de estilo gótico, descrição do trabalho policial, melodrama romântico, segredos familiares, obscurantismo social de pequena aldeia e procedimentos de tribunal.
Como os melhores dos livros, não se trata de um livro de género, vendável de acordo com uma etiqueta, mas um livro que usa todas as realidades e ferramentas necessárias para criar um retrato intensivo, funcional e credível das suas personagens e dos acontecimentos em que elas se envolvem.
Resumindo, um estudo do comportamento humano perante uma situação excepcional, da primeira morte até à resolução final com todos os momentos de permeio explorados.
Claro que, enquadrando a história na forma (lata) de policial, o autor – como vários outros têm feito – encontra um processo chamativo para remexer na noção da História tal como existe hoje em relação a um qualquer momento específico.
Trata-se de fazer uma revisão séria da consciência dos muitos comportamentos que ficaram por confessar numa forma que enganadoramente chamará os desejosos de mero entretenimento.
Um procedimento policial num tempo – e numa geografia – onde as limitações tecnológicas eram acentuadas e que os julgamentos morais (e populares) tinham consequências ainda mais ferozes do que hoje, o ónus coloca-se todo no trabalho humano.
Os erros humanos não dão apenas conta do envolvimento comunitário que há entre os investigadores e os suspeitos, ganham relevo para a investigação, torna-se significativo para o caminho que esta levará.
Essa dimensão humana vem tornar o livro num objecto de leitura universal e intemporal, apesar da limitação cénica e temporal.
Mais do que a vida das personagens, o livro trata de explorar um momento na vida Inglesa, destacando os traços da tradição que se mantinha viva no seio das pequenas comunidades britânicas.
Simon Tolkien vinca o espírito da época através do trabalho de escrita que recorre ao adensamento do ambiente: detalhado mas encerrado a noções do exterior. Uma vila inglesa cristalizada, arrastando consigo as memórias assombradas dos séculos passados e claustrofobicamente recusando que o resto do mundo ali surgisse.
Vinca-se um sentimento latente de Britanidade no que ela tem de melhor. Da severidade dos pequenos elementos (Vitorianos, diria-se) aos grandes ambientes de comunidade auto-suficiente.
Faz tudo isto para poder perturbar essa placidez prolongada à força do silêncio de décadas.
Uma placidez nascida de uma inconsciência readquirida perante o mundo, uma crença inocente na bondade alheia que deveria ter sido perdida em definitivo.
Por isso é que o autor se decide a perturbar tal comunidade não só com o crime – representando a ferocidade do mundo moderno – mas também com o Passado – o reavivar da memória tão depressa escondida por tão pouco ser analisada.
Um trabalho de enorme dedicação à descrição da atmosfera da época que não descuida a eficácia que a componente policial também precisa.
Aliás, a meticulosa descrição alia-se à desenvolta narração para recriar um ambiente de familiaridade literária com usos nem sempre típicos, chegando a aliar a leitura moderna – veloz, emocionante – ao prazer antigo de pausadamente conviver com as personagens e os ambientes.
Único lamento acerca deste livro é que a edição tenha começado pelo segundo livro dedicado ao detective William Trave. Porque a sua definição pessoal teria sido ainda melhor e porque fica a sensação de que poderemos acabar unicamente com este livro publicado por cá.


O Rei dos Diamantes (Simon Tolkien)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2012
416 páginas

terça-feira, 9 de abril de 2013

Separado do livro

Ao fim de poucas dezenas de páginas o protagonista utiliza o seu próprio conhecimento d'O Deus das Moscas para caracterizar a realidade ao seu redor.
A referência tem um efeito bipolar sobre a maneira como se encara a leitura do livro e como, depois, se faz a sua análise.
Assenta o universo em que se desenvolve a narrativa num mundo reconhecível e em que os personagens estão ao nível dos leitores. Isso evita que o esforço de criação seja demasiado grande apenas para convencer que há uma impossível erradicação de referências num futuro literário mais ou menos distante.
Carrega consigo o peso da referência de grande qualidade que procura agigantar o livro numa comparação que tem menos hipóteses de perdão do erro e mais minúcia na identificação de elementos de pouca originalidade.
Essa segunda parte da carga que a referência traz consigo tem de ser o próprio ponto de partida da abordagem, pois a relação entre os dois livros é demasiado breve para ser aceite. Nada mais além das crianças num mundo sem adultos à vista.
Se é discutível se O Deus das Moscas é um livro distópico, sabemos pelo menos que ele serve de comentário a uma outra noção de civilização que poderá estar a chegar. A Floresta Mecânica não poderá ser sequer equacionado como integrante da literatura distópica visto que os seus métodos de isolamento dos personagens se passam - assim nos indica a própria referência - no presente.
Aliás, A Floresta Mecânica não pretende falar sobre uma outra sociedade ou uma sua recriação por via da anarquia ou de valores individualistas dos jovens. Este livro é um thriller adolescente - e esta é uma adjectivação importante sobre o qual voltarei a escrever adiante.
Enquanto thriller, o seu comentário social contemporâneo acaba por ser feito acidentalmente, muito embora recordando momentos importantes da política mundial.
A maneira como os grupos extremistas no interior do colégio-prisão se comportam, um obedecendo a todas as regras da sociedade exterior e outro tentando ao máximo quebrá-las mas ambos tentando não sofrer castigo, lembram a política de estados moderna.
Entre as ameças de países que se pretendem afirmar sem vir a perder os benefícios que têm e as ameças invisíveis afirmadas em discurso pelas potências dominantes, são ao nível anti-diplomático o mesmo tipo de relação que funciona entre os jovens confinados e as regras externas que continuam a pender sobre eles na forma de castigos executados de formas invisíveis.
Como demasiadas vezes na literatura adolescente, estes são temas que surgem na visão do livro que têm leitores mais velhos, normalmente a braços com esta mesma função de análise que agora me ocupa.
Na verdade o contexto é muito mais simplista, centrado na dimensão individual do herói, das relações que cria ou que tenta evitar (por considerar que o seu tempo naquele colégio será breve) e na sua busca de uma forma de fuga.
Se ele é o herói da história é porque a sua individualidade o torna mais significativo do que os restantes miúdos que já estão dentro do colégio. Escolho escrever significativo e não interessante pois ele mostrar-se-á capaz de desvendar alguns dos mistérios do colégio mas não crescerá de herói (ou protagonista, se preferirem) para personagem.
A culpa da falta dessa transformação vem muito da falta de um "antes" mais aprofundado, de uma contextualização de quem ele era até ao momento de ali chegar que vá além da enumeração de atributos genéricos: orfão, desentrosado, inteligente.
O herói é a ferramenta essencial no desenvolvimento da trama em vez desta ser a ferramenta no desenvolvimento da personagem, típico de thrillers em que o contexto é mais importante do que as personagens, que como já se viu não é o caso aqui.
Em torno dele ocorrem várias reviravoltas, por vezes demasiado evidentes ou absurdas, quando não ambas ao mesmo tempo.
A partir desse mecanismo, a leitura torna-se cada vez mais veloz à medida que o livro avança. Mas não porque se crie tensão para que o leitor vire as páginas, mas antes por desinvestimento nas situações e nas personagens.
Pois se a trama não depende de nenhuma personagem em específico, torna-se bizarro enfrentar o facto de estarmos perante um livro onde nenhuma morte pode, realmente, ocorrer.
A violência é inócua. Armas, só as de paintball e, portanto, sangue e morte são uma miragem. Os alunos castigados desaparecem e o seu destino é apenas especulado. Uma morte, quando ocorre, é apenas uma nova revelação.
O adjectivo adolescente que tinha destacado influencia significativamente o livro porque causa uma esterilização do perigo, levando o leitor a separar-se do livro a cada momento, sem um verdadeiro sentimento de perigo ou ansiedade que se encorpore no thriller.


A Floresta Mecânica - Os Variantes (Robinson Wells)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2012
328 páginas

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Um novelo inextricável

Há duas personagens que têm de se deslocar para Roma e a sua história é, de alguma forma, o condutor do livro.
Não passa por eles o objectivo maior, o de escrever a História de Roma no início do século XVI, onde os pecados se multiplicavam e geravam atracção e repúdio na mesma escala, quer aos habitantes de então quer aos leitores de hoje.
Equilibrar a ligação entre ambos as narrações em duzentas páginas apenas parece uma tarefa razoavelmente simples quando outros romances históricos estendem as suas linhas narrativas por muito mais anos e muitas mais personagens.
A autora contraria essa possibilidade pela maneira como escreve, algo que noutras circunstâncias - talvez as revistas de História com que colabora - seria motivo de elogio mas não neste livro.
A sua correcção gramatical enche os parágrafos de quebras de leitura forçadas por um excesso de vírgulas e complementos. Tal não lhe permite libertar-se como escritora e ser uma artesã da narração: usar a Língua como matéria que lhe serve e não subordinar-se às suas regras.
Piora tudo porque prolonga os parágrafos em demasia, digressionando pela História de Roma a partir do início do relato das acções dos protaonistas
Ao fim de um parágrafo - o que, no caso, é exactamente o mesmo que dizer de uma página - podemos ter sentido curiosidade pelos detalhes que a autora relata mas perdemos contacto com os traços da acção. Ou focamo-nos na acção e não há atenção que resista ao arco histórico que se prolonga pelo meio.
É o próprio texto a criar uma sensação de divisão entre a história e a História: fios de duas cores enrolados num único novelo,
Parecem juntar-se mas continuam a ser diferenciados entre si. No novelo ou se submetem à forma em que estão presos ou então tudo se desfaz, como aqui.
De tal maneira isto acontece que o livro vai cada vez mais depressa perdendo o seu interesse e lê-se para tentar chegar a uma resolução.
Logo depois, com o livro fechado, tudo se dissipa.
Os factos de interesse perderam-se porque não estão estruturados num contexto mais lato e sistematizado.
As personagens nunca chegaram a materializar-se perante o leitor e as suas acções perdem-se.
O teor do livro, louvando o misticismo como causa subjacente da queda - mais uma, claro - eminente de Roma, pouco mais é do que fumo que se afasta com um movimento rápido.


A Queda da Babilónia (Montserrat Rico Góngora)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Maio de 2012
216 páginas

sábado, 31 de março de 2012

Finalmente, brilhantismo

Mesmo sem os dois tomos que completam a trilogia iniciada com O Príncipe da Neblina - que não parecem ser essenciais para entender o percurso como autor - é possível perceber que passos deu Záfon para chegar desse seu primeiro livro até este segundo tomo de histórias em torno do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Sempre com o seu gosto pelas assombrações dos contos góticos, Zafón tentou encontrar um público mais abrangente tentando primeiro exagerar a influência romântica dos mesmos e acabando por quase o substituir pelo melodrama de baixa qualidade.
Ao mesmo tempo, Zafón foi procurando uma plataforma literária que lhe permitisse solidificar os momentos de detectivismo com as vertentes aventurosa e bibliófila bem equilibradas.
O Jogo do Anjo é o livro em que ele consegue a combinação correcta, sem abdicar das várias hipóteses narrativas que lhe proporciona o mais largo espectro de géneros. Quer isto dizer que ele percebeu que o seu género de história funcionaria melhor por diminuir o tom do romance trágico e fazendo prevalecer uma combinação do gótico com um noir desavergonhadamente saído das páginas de velhos folhetins.
Mesmo para o estilo de escrita que ele cultiva, estas formas literárias recuperadas ao século XIX e usadas neste preciso rácio, são as mais indicadas para ele.
O ambiente que ele cria para a Barcelona de antes da segunda Guerra Mundial está povoada de casas amaldiçoadas e ruas mal iluminadas. Fundem-se perfeitamente, assombrando por demasiadas possibilidades à espreita, reais ou imaginárias.
Polícias corruptos e velhos diabos, todos acercando-se de David Martín, um jovem escritor a braços com as agonias dos primeiros passos profissionais.
Os tormentos das obrigações e das motivações do jovem escritor têm origem na sua venda aos diabos reais e ocultistas: editores que só se preocupam com dinheiro e uma figura sombria que não é nomeado como tal mas que deixa todos os sinais de ser o próprio Lúcifer.
Algo mais existe num escritor que se entrega sem descanso ao trabalho, um desígnio que determina a necessidade de criar e, com isso, influenciar o mundo.
Por via das suas criações, cada livro um filho de que não pode abdicar mesmo se nunca deva ver a luz do dia, Davida Martín está a criar o seu próprio tormento.
Barcelona é tão demoníaca quanto ele a recria da sua torre de vigia de onde lhe chama a "cidade dos malditos".
Mas é o seu outro livro, uma base para a criação de uma nova religião, que mais lhe arranca as entranhas, que mais avisa sobre o poder da narrativa.
A exposição da sua alma traz delícias e perigos que só a nobre arte de narrar poderia conter e, por isso, fica-lhe a culpa das desgraças que poderá desencadear neste mundo - a das que, desde logo, desencadeia sobre si mesmo.
Esta exclusiva motivação pela dificuldade (e intensidade) da vida de escritor vem em benefício do livro de Zafón proporcionando uma estrutura bem mais sólida do que as anteriores.
A história é sobre a vida do escritor e o parto dos seus livros e o cerne mantem-se sempre aí. As pequenas derivações ou as variações de tom, são sempre maneiras de integrar as muitas ideias que Zafón mostra, mas que servem à definição da personagem central e à maneira original de reinventar a vocação de escritor.
A importância dos livros, do trabalho de escrita e do próprio Cemitério, sempre influentes e longe de serem curiosidades exóticas para ornar alguma banalidade romanceada.
Não é por isso que Zafón deixa de fora de mais este livro os seus temas predilectos - pessoais, acaba-se por crer - que, no caso essencial da tutelagem emocional e criativa dentro do mundo dos livros, tanto desagua como parte de Martín.
A sugestão é de que Zafón já não procura apenas definir o reencontro com figuras parentais desaparecidas mas está em vias de entender como passar essa responsabilidade adiante.
Se David Martín é uma representação ficcional do próprio Carlos Ruiz Zafón poderá não ser uma especulação completamente correcta, mas que este é o melhor dos seus heróis (evitei deliberadamente a palavra "personagens" pois não há maneira de esquecer Fermín), também porque é dos que acumula mais falhas, persistindo nos seus erros em nome do que lhe nasce naturalmente. E não nos podemos revoltar com essa sua insistência pois é das poucas coisas que sempre o acompanhará.
O Jogo do Anjo é a concretização dessa beleza imperfeita do labor de escritor que o livro traduz numa visão mais saborosa - porque extravagante.
Trata-se de um livro a guardar, independentemente do desapontamento anterior ou das emoções que os tomos seguintes venham a proporcionar. Talvez só o espírito completista se perturbe com tal decisão.


O Jogo do Anjo (Carlos Ruiz Zafón)
Booket / Planeta Manuscrito
1ª edição - Maio de 2011
576 páginas

quinta-feira, 29 de março de 2012

Para satisfazer o mercado e o ego

Ainda que Carlos Ruiz Zafón diga que este é um dos livros que recorda com maior apreço, é o menos interessante de entre os que dele pude ler.
A sua introdução ao livro deixa a sensação de que tenha sido pela resistência do livro a uma década de más edições que ele tanto o aprecia. Um sentimento de pai à espera do ressurgimento do filho pródigo que o seu sucesso com A Sombra do Vento viria, finalmente, a proporcionar.
Deve ser esse o motivo - a par de ser o seu livro "mais pessoal" - pois logo no primeiro parágrafo da introdução o autor diz que o favoritismo dos autores recai sobre obras independentemente da sua qualidade literária.
Essa não abunda neste livro que o esfaimado sucesso levou a ser reeditado para disfarçar o tempo de espera por um novo livro.
Marina não é mais do que uma versão mais cheia d'O Príncipe da Neblina. E à conta disso, uma versão menos interessante.
Os temas são os mesmos: a busca de uma figura tutelar e o heroísmo do primeiro amor, sobretudo. Mas também os detalhes menores da história se repetem, do prenúncio mecânico (relojoeiro) dos perigos orgânicos que se aproximam ou a jovem rapariga envergando o alvo vestido de pureza.
A história tem o mesmo rasto de mistérios obscurecidos pela sombra do sobrenatural: uma aventura detectivesca nas mãos de protagonistas que, pela sua juventude, olham ainda para o inexplicável como brumas de magia.
Trata-se de glorificar o acto de fé dos ingénuos que ainda partem por um bairro desconhecido (já o dizia Dinis Machado em O que diz Molero) e encontrar uma aventura sem medida.
O mesmo terror gótico os assombrará mas tal só existe como forma de brindar os jovens com as peripécias que prometem a morte a quem tem ainda tanto que viver. Bem ao contrário d'O Príncipe da Neblina onde o terror impregnava a essência de uma história feita da aventura de pura amizade - um amor em sentido lato - entre dois rapazes.
Falta a Marina a agilidade desse outro livro que levava o leitor de susto em susto crendo que esses sustos teriam consequências concretas sobre as personagens.
Aqui a história parece demasiado cheia por um núcleo que não é mais do que uma derivação por terrenos de fascínio acrescido quando comparados ao arco narrativo que liga o início ao fim do livro e que não precisa.
Núcleo fechado, quase independente, sem desfecho que toque o arco narrativo que revela o verdadeiro tema do livro.
Um arco narrativo que não é mais do que a história simples de um amor cândido mas condenado. Uma tragédia de apaixonados escrita melhor por outros.
O miolo fantástico do livro parece estar lá porque é esse o terreno de eleição de Zafón e ele não sabia que mais fazer com as suas personagens entre a descoberta e a perda dos seus personagens. Como se duas matrioshkas desemparelhadas coubessem, por acaso, uma dentro da outra.
Marina é uma releitura do que estava para trás com um aviso do que está por vir (e de que falarei na crítica que se segue, a A Sombra do Vento).
Só se entende que tenha honras editoriais por preencher o vazio de vendas e o desejo do autor ver a sua obra recuperada com qualidade e cuidado.


Marina (Carlos Ruiz Zafón)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2010
264 páginas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Um bom livro juvenil

Lancei-me à tarefa de conhecer o máximo da obra de Zafón por via do seu primeiro livro, sabendo de antemão que se tratava de uma novela dirigida a um público juvenil.
O seu grande benefício está precisamente em ter sido escrita (1993) quando os leitores ainda podiam ser tratados como jovens e não como os jovens adultos de hoje em dia que obrigam a que os livros tenham um retrato do mundo que conhecem pelo meio da literatura.
Tendo sido escrito para os jovens, consegue romper a barreira que os separa do público adulto e mais exigente, que aqui reconhecerá um conto gótico classicista deslocado para um período em que o grande avanço tecnológico é um projector de cinema caseiro.
Motivo de serenidade, portanto, que não haja mensagens de telemóvel ou chats de internet a tomarem o lugar da boa construção narrativa - e a gerar a rejeição dos leitores amadurecidos que quererão experimentar este livro por conta dos mais recentes do autor.
O herói não tem mais do que 13 anos e o seu arqui-inimigo é o ser que dá nome ao livro, de grandes e misteriosos poderes.
A luta desigual vive de mais do que o desequilíbrio das capacidades e das chances de cada um triunfar. Vive de mais do que o confronto do entendimento puro e pueril do Bem com a matreirice antiga do Mal.
Vive, sobretudo, da capacidade de vitória e derrota que o mais novo dos oponentes revela no espaço do desconhecido que lhe sobra entre o que descobre e o que nem imagina sobre o inimigo.
Zafón alimenta a história dos medos naturais do rapaz recém-chegado a uma aldeia, vindo da cidade para escapar à guerra.
Elementos habituais - e sempre eficazes - para esses medos são a atmosfera tensa da nova casa há muito entaipada, os perigos fantasmagóricos que aguardam nos destroços de um antigo barco afundado, a vida sugerida pelas estátuas que ocupam o espaço central de um jardim de que ninguém cuida ou um misterioso faroleiro com conhecimentos da velha maldição cigana que está finalmente em marcha.
Perante isto, os perigos de se perder no jardim ou se afogar por entre os escombros são tanto realistas como carregados do sobrenatural que o indefinido mas poderoso vilão insufla naqueles objectos inanimados que tentam se voltam contra ele.
Max enfrenta tais terrores em nome do grande amigo que fez naquele Verão e da promessa que fez ao faroleiro (um mestre que o toma sob protecção); e que esse amigo serve de cavaleiro andante à irmã de Max, entendemos que as voltas que Zafón dá em torno desta pequena estrutura de relações é de uma nostalgia dos feitos - reais ou imaginados, amorosos ou aventureiros - que muitos adultos alcançaram, em tempo de férias, quando tinham a idade dos protagonistas.
Uma nostalgia que sublinha o prazer pronto a ser desvendado pelos adultos leitores para lá das aventuras que mexem com os mais novos que não saberão nada de tal sentimento.
Também etravés da escrita de elevado cuidado, Zafón vai mexer com essa nostalgia. Neste caso, nostalgia pela possibilidade de saborear a linguagem no processo de encarnar as personagens que disputam à imaginação própria o divertimento (quando não deslumbramento) que ela ainda saberá criar.
Conclui-se que a ligação ao livro serve tanto as camadas juvenis e adultas, sendo uma boa entrada na leitura ou uma boa recordação de como outrora tal se fez.
Quanto aos jovens adultos, parecem (tristemente) condenados a ficar de fora dos que podem apreciar este livro.


O Príncipe da Neblina (Carlos Ruiz Zafón)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2011
208 páginas

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Editorial sueco

Capitalizando a moda dos policiais suecos, Três Segundos é o exemplo que me leva a especular que uma parte da escrita policial nunca conseguirá sair do país e, nela incluída, uma parte da que é melhor escrita.
Isso fica a dever-se a um papel de elucidação que os policiais nórdicos parecem ter e cujo funcionamento para o público que mora longe da região onde se reune a frieza dos países nórdicos pode não ser eficaz. Mas este é um tema que se tornará mais evidente ao longo desta crítica.
Três Segundos é um thriller e não tanto um policial (distinção que é importante para mim), problema que a correspondência entre "ficção criminal" (tradução literal) e "romance policial" não resolve.
Na estrutura de Três Segundos não há pistas ou expectativa de revelação de um culpado, há uma construção de um conjunto de eventos cujas intenções e cujos causadores estão bem patentes.
O que vem depois é um desfecho que não tem nada de inesperado, mas que vem contribuir para o ponto argumentativo que o livro está prestes a fazer.
Um desfecho que tem dois momentos essenciais, um primeiro que envolve reféns e uma explosão e um segundo que envolve política. O primeiro é o momento de acção, o segundo o momento de explicações.
O segundo momento depende da revisão dos elementos que levaram até ao primeiro, numa repetição que torna a leitura irritante na falta de expectativa no que esteja por desvendar. A única coisa que sobra por saber é a resposta a duas perguntas "Quem sobrevive?" e "Quem será preso?".
É o problema de utilizar uma estrutura cinematográfica americana para a história, com o momento de acção como culminar antecipado de uma história que deveria fazer durar o seu tema criminal.
Um problema sobretudo quando para além da vertigem da acção o livro faz-se da procura de fidelidade à realidade da Suécia.
Isso reflecte-se estruturalmente na sequência de capítulos que vão do facilitismo do page turner à delonga da reprodução do quotidiano de ambos os lados da acção criminosa. Ora muito breves e escritos com grande economia para servir as acções, ora longos e palavrosos para servir o realismo descritivo, os capítulos acabam em desequilíbrio acentuando a mudança radical de ritmo com que o leitor atravessa o livro.
Isto não impede que existam partes muito bem escritas e igualmente eficazes. Duas que se destacam são a vida no interior da prisão e a envolvência final com a personagem do detective Ewert Grens.
A relação com um ambiente fascinante nas suas duras regras e a relação com uma personagem que nos motive a acompanhar a trama de uma ponta à outra. Se o ambiente seria o que nos faria manter o foco no livro, o personagem - mesmo se a tornam um depósito de vários estereótipos e a sua existência tem vários pontos demasiado vagos por culpa desta ser o primeiro contacto que temos com ele mas não ser a sua primeira aparição - seria a presença recorrente que nos tornaria leitores sistémicos dos autores.
Nenhuma delas dura páginas suficientes, mecanizadas no objectivo principal do livro, mas são bons enquanto duram trazendo a lume o que de melhor pode ser explorado num policial sueco.
Um objectivo central que é o de denúncia de processos desumanizados que os poderes políticos e policiais exercem na Suécia para travarem a invasão das máfias estrangeiras. Denúncia do pouco valor dado à vida humana, sobretudo dentro das prisões, e da total falta de consequências para comportamentos indignos do governo local.
A consciencialização de um povo para quem (parece-nos) a existência é tão serena que se esquece de que já existe crime dentro das suas fronteiras é um objectivo reforçado pelas páginas finais onde os autores separam factos de ficção. Aí indicam que apenas pessoas e locais foram inventados e que, pelo contrário, as descrições do tráfico de droga ou da utilidade desta para as autoridades na gestão dos presos são retirados directamente da realidade.
Se essa realidade é universalmente interessante em certos pontos, também é universalmente desinteressante nos momentos em que repassa culpas para que os suecos deixem de encarar os seus burocratas com ingenuidade.
A exploração insuficiente dos elementos geralmente admiráveis - acima referidos - acentua o facto de haver elementos que não funcionam fora do seu país de origem.
A escolha dos livros a publicar não pode somente adaptar-se à moda vigente mas tem de ser capaz de se sustentar para lá da sua integração nesse momento que terminará.

Não podia terminar sem fazer um reparo à tradução. Feita a duas mãos - suponho que um casal - é assinalável a coerência interna da mesma.
No entanto há uma diferença no resultado final que parece distinguir o trabalho de cada um e cuja culpa final até pode recair sobre a revisora. Trata-se de um número não muito elevado mas notável de gralhas que são na sua maioria artigos de género contrário ao do substantivo que se segue ou pedaços de frases pertencentes a duas formas de tradução que ficaram no resultado final quando uma deveria ter substituído a outra.
Estas gralhas desaparecem sensivelmente a meio do livro e isso parece indicar o ponto em que o livro "mudou de mãos".
Num momento em que os livros em língua inglesa são igualmente acessíveis e bastante mais baratos é necessário que a qualidade dos detalhes - capa, papel, impressão, tradução... - torne os livros em português mais apetecíveis que a alternativa.
Detalhes que sejam credíveis, também, pois com uma tradução feita a partir do inglês pelo menos que se indique o título original correcto. Ninguém acredita que um policial sueco tenha um título inglês...


Três Segundos (Roslund e Hellström)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Junho de 2011
496 páginas

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Os retalhos da realidade

Como a viagem de avião na qual o protagonista-autor passa a maior parte deste livro, este livro é um processo em caminho e não uma ligação entre dois pontos.
Há uma pergunta de partida sobre o porquê do avô do protagonista-autor ter dado o nome ao seu barco. E até há uma descoberta da resposta a essa pergunta.
Só que não há um longo processo de estruturação da saga familiar em torno dessa pequena interrogação que parece ter passado de geração em geração até se tornar no grande mistério do protagonista-autor.
As razões das aventuras inexplicadas do seu avô, em alto mar ou em terra firme, são o propósito inicial do protagonista-autor para falar de si, dos seus pais e do seu avô. Mas ele não o conseguirá assim como o julgava possível, acabando por perseguir pequenos fragmentos de informação em torno dos quais ele poderia trabalhar para alcançar uma narrtiva convincente.
Ficcionalizar em torno dos dados que se têm é um processo de fechar caminhos, estancar as dúvidas numa organização satisfatória mas talvez não sedutora como será o mistério tal como ele existe como ponto de partida e, depois, como muitos pontos de chegada.
Aquilo que o protagonista-autor acaba por mostrar é a sua procura pelo detalhe do que foram os seus antepassados. A afinidade emotiva do avô pelo artista de murais Aurelio Arteta ou a coragem do seu pai a enfrentar ondas gigantes ao largo da ilha de Rockall são temas em que ele se torna um especialista.
Ele é tanto pesquisador como rememoriador, relendo diários alheios e fazendo confissões próprias.
O protagonista-autor tem o ofício de respigador, compilando e agregando os fragmentos possíveis da sua narrativa. Ele deixou de ser romancista para se dedicar ao detalhe, deixou de procurar uma imagem grandiloquente e geral de uma descendência familiar para penetrar a fundo nos momentos que definem a sua imagem do seu avô e do seu pai.
A partir desse momento deixou de ser capaz de escrever o romance como prometera no início da narrativa e passou a ter de (d)escrever o processo de desvendamento de um traço que conjuga História e histórias.
Assim a sua narrativa são, na verdade, duas aventuras (dois romances, até): aquela que se lê nas frinchas de texto que olham as histórias do que os antecederam e aquela que traduz a sua própria demanda para preencher as falhas do seu conhecimento.
A sua escrita é a sua aventura, aquela que se equipara às dos seus antepassados e que, por isso, tem de facto de figurar lado a lado com elas.
O seu livro é o processo de união, uma reconstituição da verdade para o protagonista a que assistimos com deleite equivalente àquele com que esperamos a revelação maior do porquê de ter existido um barco que se chamava Dois Amigos.
Até porque essa revelação chega e não parece nada literária, traz aquele desapontamento fascinante que só vemos porque estamos a ler o romance e a sua construção ao mesmo tempo. Caso contrário a ficção teria trabalhado a revelação até o seu âmago se tornar anti-climático de tão extraordinário.
Dessa forma o livro é um método experimentalista - com emails transcritos, registos da distância a percorrer pelo avião em que viaja ou descrições minuciosas de escolhas de filmes para visionamento (situação que até na própria vida descartamos da memória, quanto mais na ficção) - de trabalhar o retalho da realidade.
Sem alienar o leitor, Kirmen Uribe deu em olhar para as costuras da manta de retalhos e demonstrar que há lá tanto para ver como no padrão aleatório que o olhar distanciado torna em agradável conjunto unificado.


O Dois Amigos (Kirmen Uribe)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2011
184 páginas

domingo, 14 de agosto de 2011

Crime à beira-mar plantado

Não se sabe o que esperar de um livro que é, até certo ponto, um texto de História (melhor, da particular História do crime nacional). Mas que, no fundo, é uma revelação do Passado para a modernidade.
Os relatos apresentados são aquilo a que chamaria um discurso do comediante intelectual. São construídos naquela forma de quem conta uma história pontuada de comentários irónicos, mas a quantidade (e qualidade) da informação impede sempre que se reduza o que se lê à mera piada curiosa.
No seu conjunto - embora ainda estejam longe de uma totalidade, visto que haverá um segundo volume e sabe-se lá quantos casos ficam de fora - dão um retrato de um país que sempre viveu perante uma violência generalizada e gigantesca.
Violência que era partilhada entre os criminosos e homens da lei. À violência (ou mera ameaça de tal) dos primeiros respondiam os segundos, por vezes, com medidas extremas.
A violência era regra abusada por todos, pelo que se tornava natural conviver com o incómodo permanente causado pelo crime e o espectáculo macabro causado pelo julgamento (cuja sentença, de tempos a tempos, lá conseguia encontrar a sua forma de justiça).
Havia um ou outro acto de clemência, mas a população tinha o gosto por seguir as consequências da violência e, sobretudo, as revelações idioticas dos menos brilhantes dos seus executantes.
Claro que nestes relatos não há só um festim de carnificina. Há também detalhes fascinantes a reter, dos pessoais aos Históricos.
Até os primórdios daquilo que as séries de investigação criminal tornaram em léxico comum surge aqui, como na forma como se começaram a fazer recolhas para descobrir traços de sangue subsistentes num chão lavado.
Mas a violência está primeiro, fascinante e, acima de tudo, clarificadora sobre a convivência deste país com o crime e o seu relato. O número de textos literários escritos a partir de alguns dos crimes aqui presentes surpreende e acaba por nos entristecer que a versão moderna dessa leitura popular tenha passado das mãos de Camilo Castelo Branco para as dos jornalistas do Correio da Manhã.
No fundo é uma leitura essencial - e muito bem conduzida por um interessado com um minucioso grau de pesquisa feita - para um Portugal de outrora que se vai alongando para o século XXI de formas menos honrosas - isto, claro, se entendermos a justiça violenta de outrora como honesta apesar de errada.
Só em direcção ao final do conjunto dos relatos perde-se a sensação de descoberta. O interesse já não é tão acentuado pois a novidade já se esfriou mas, sobretudo, porque os Roubos de Sacristia não têm a panache do Banditismo à Moda Lusitana nem os Crimes do Diabo aguçam os nervos como as Mortes de Alcova.
Estruturalmente, este era um livro em que a escalada de violência vinha a calhar, pois era também uma escalada de riso.
O mesmo, já agora, se deve dizer das ilustrações que vão passando de leituras próprias dos relatos a reproduções dos mesmos. Mas, lá está, julgo que tal continua a ser culpa da menor inspiração que a Inqusição causa quando colocada lado a lado com um (imaginário) "par de cornos".


Crime e Castigo no país dos brandos costumes (Pedro Almeida Vieira)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Abril de 2011
200 páginas

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um private dick português

Há mais de um português calcorreando as ruas de Nova Iorque, mas só um as pisa vendo as calçadas desenhadas que temos por cá.
Um "Sherlock" lá do beco, que foi investigar para Nova Iorque como se esta fosse o Bairro Alto das comadres que tudo sabem e tudo contam.
A sua vida divide-se entre a admiração pela sua Newark e a saudade do seu Portugal. Dois pedaços da sua identidade que já é tão Nova Iorquina como é Portuguesa.
Ele já é tanto um detective de gema daquela cidade como é um saudosista membro da comunidade emigrante.
Ele até pode estar envolvido no roubo com mais ramificações que aquela cidade já viu, mas a sua vocação são as descobertas dos mistérios de "faca, alguidar e cornos". Os gangues da cidade envolvem-no na investigação mais importante, dão-lhe uma pista, mas é o caso do marido amantizado com uma brasileira que lhe proporciona uns avanços.
Só que ele é mais Archie Goodwin do que Nero Wolfe. Como lhe costumam dizer, falta-lhe o golpe de asa, falta-lhe a perspicácia para fazer sentido do acaso.
Ele é um detective sem a dureza que os private dicks precisam, mas tem a poesia de um saudosista poeta do povo.
Como ele diz da sua profissão, colecciona segredos mas gosta mesmo é de banalidades. Casos fáceis feitos de rotinas que, no fundo, lhe deixem tempo para fazer a vida que gosta, preenchendo-a de figuras excepcionais (e comuns, não esqueçamos) e de hábitos de reconhecível prazer.
E não há figuras mais assinaláveis do que aquele conselho de quatro "sábios" que ele consulta. Quatro velhos de vão de escada ainda mais rabugentos por terem tido de abdicar do seu Restelo.
Este é um detective privado português em Nova Iorque, arrastando a cidade para o seu nível de romantismo envelhecido e saudoso, ao invés de se erguer à sofisticação da Grande Maçã.
Cá por mim, que também sou português, já me deixa saudades e quem me dera que ele tomasse aquela cidade mítica de assalto, que ela já parece tão nossa...


O Trompete de Miles Davis (Francisco Duarte Azevedo)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Fevereiro de 2011
304 páginas

quarta-feira, 30 de março de 2011

A voz das mulheres

Aurora Boreal é um thriller todo feminino. Por ter sido escrito por uma mulher, por ser protagonizado por outras três - a suspeita, a polícia e a investigadora/advogada - e por ser demonstrativo da capacidade feminina num ambiente negro e masculinizado.
Um ambiente que não é apenas o do policial, mas também o da religião organizada e até mesmo a das firmas de advocacia.
Instituições tipicamente patriarcais - como quase todas as instituições se pensarmos bem no assunto - das quais os homens ficam aqui secundarizados.
Não só secundarizados mas ultrapassados na coragem e na determinação por mulheres que aparecem grávidas, dominadas pelo pai ou com o cuidado de crianças a seu cargo. Três estados em que a mulher deveria ser menos forte ou, no mínimo, menos ousada, mas que aqui é quase uma motivação extra.
Motivação para encontrar mais força, para ser mais astuta e para se revelar mais mulher.
Apesar disto, a defesa do estatuto da mulher não é um processo puro, muito menos puritano.
Chegando ao final do livro a verdade entra em acção e revela um outro aspecto do carácter feminino, dominante por ser falsamente submissa.
Não é um choque contra o que veio antes, é o aviso para não se ser ingénuo na leitura.
E, logo depois, mesmo mesmo a fechar, a ironia dá um toque verdadeiramente negro ao que foi escrito. É o alívio porque de entre as mulheres finalmente surge um homem que não terá de sofrer e vingar como elas.
Tudo isto num policial muito interessante, o essencial do livro está claro.


















Aurora Boreal (Åsa Larsson)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2010
328 páginas