Mostrar mensagens com a etiqueta Erri De Luca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Erri De Luca. Mostrar todas as mensagens

domingo, 10 de julho de 2011

Duelos

Será inevitável pensar, de forma geral, em O Velho e o Mar e Moby Dick. Mas O Peso da Borboleta não está em confronto com eles.
Sim, é um confronto entre um ser humano e um animal, mas não tem nem a fisicalidade do primeiro nem a complexa reflexão do segundo. Fará digna figura junto desses outros livros, mas é também bem diferente.
É um relato de duelos vários. O mais evidente será o do homem com o animal, mas são os confrontos individuais que realmente olham para o significado da existência do leitor.
O confronto do homem com a sua memória e o confronto do animal com o seu destino falam-nos daquilo que não sabemos mais como viver num ambiente de exigência física, diria mesmo de existência física.
A caçada vai de encontro ao que outrora foi uma necessidade e é agora uma escolha de uns poucos.
Como o próprio olhar para a nossa essência, até mais, o próprio desafio da nossa essência que é cada vez mais uma opção de uns poucos, seja pela brutalidade das experiências mais arriscadas ou pela simples interrogação sossegada diante de um livro.
O Peso da Borboleta é essa interrogação na forma mais preciosa, a que torna palavras na experiência, na que equipara a vida lida à vida experimentada.
O único duelo que o livro não trava - porque o vence ainda antes de darmos por ele - é o de nos levar para lá dele, sugerindo-nos a complexidade de um retrato em que se confundem as personagens (entre si e connosco mesmos).
Homem e animal partilham um nome, Rei dos Gamos, portanto como não haveriam de partilhar um destino?
Destino trágico, claro, para a qual partem os dois com disposição de tornarem mais uma caçada na última caçada.
A sua entrega a tal conclusão é um sacrifício que cada um faz por motivos distintos mas ainda em busca de um retiro com dignidade.
O gamo sacrifica-se porque a sua liderança está ameaçada pelos filhos e pela sua própria velhice. O homem sacrifica-se (como caçador) pela ligação a uma mulher.
Estão ambos confrontados com a mudança essencial da sua própria existência, o fim obrigatório da sua solidão. A sua presente independência
O gamo reinava solitário, olhando de cima mas não se misturando com o seu grupo. O homem vivia sozinho, distante da cidade mas auto-subsistente.
Vão ter de ceder esses postos e decidem, por isso, encararem aquela última caçada, sem medos nem ilusões.
Caem da maneira que acham mais própria, da única maneira que é por sua decisão. É um duelo de um para um e não uma decadência arrastada em comunidade.
O próprio protagonista (humano) diz que é uma disputa que se diferencia da pesca, porque a pesca é uma captura em massa. Só Ahab se distinguiu como pescador de uma presa só (diz ainda o protagonista e acrescentaria eu, também, o Velho).
Todos eles sabiam que a sua solidão só faz sentido quando vai de encontro à solidão do outro e da outra espécie. E levam isso às últimas consequências.
Só que, neste caso, o duelo essencial entre homem e animal é um duelo de natureza humana e natureza animal, cada uma delas confundindo-se entre os dois seres. O duelo interno do ser humano é expresso exteriormente pelo antropomorfismo.
Quem foi mais humano, se o gamo se o caçador, é uma conclusão a que se responde com um "ambos" pois os Reis dos Gamos tombam no final como um só. Aquela era uma vida só, uma vida solitária em busca daquela outra dimensão que se lhe equiparava.
De um lado ou do outro de um cano de espingarda, existe-se, mas apenas de ambos os lados ao mesmo tempo se é. Porque nessa altura é já como se não houvesse ameaça nenhuma. Nessa altura se larga a arma e se parte carregando o próprio peso da existência.
O peso da borboleta? Sim, esse peso com que cada um se esvaece para lá do palpável, embora antes dessa leveza cada um tenha de carregar o peso da vida que lhe está incumbida.
Falta saber quantos conseguirão encontrar a força para avaliar esse primeiro peso.
Sendo apenas o segundo livro de Erri de Luca que leio, este ainda mais pequeno do que o anterior, muito escrevi acerca dele.
Estas poucas páginas foram as que ele precisou para me convencer que é um génio literário. Um escritor de enorme sensibilidade e domínio vibrante das palavras.
O meu duelo agora é com o tempo que ainda terei de ver passar até que possa ler os seus livros mais longos.


O Peso da Borboleta (Erri de Luca)
Bertrand Editora
Sem indicação da edição - Abril de 2011
80 páginas

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Popular sabedoria

Três cavalos é como um móvel feito para ser sólido mas cuja beleza se revela pelo passar do Tempo.
Tem a desenvoltura manual e tem também a beleza artesanal, tem a solidez suavizada pelo detalhe, o peso do ouro temperado pelo trabalho de filigrana.
Três cavalos está repleto daquela sabedoria que não se escreve, que apenas se vive, de alguém que mete as mãos na terra e lê velhos livros à mesa do almoço.
De quem é refém de uma guerra que não foi sua. De alguém que não taxa o valor da amizade, independentemente de como ela é desniveladamente retribuída de parte a parte. De alguém que se convence não conseguir voltar a amar mas que ainda assim o faz.
Três cavalos tem a serendipidade de encontros que são como renascimentos e redescobertas de si mesmo.
Tem a memória acabada da vida que se levou e a esperança infinita da vida que está por vir.
Três cavalos é uma obra que se dá ao leitor pela sua escrita que é quase como um discurso de natureza popular, mas que dá ainda mais ao leitor por toda a sabedoria que só um discurso assim pode acalentar em nós.


















Três Cavalos (Erri De Luca)
Ambar
1ª Edição - Junho de 2004

120 páginas