sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um obra-prima

O prefácio deste livro abre dizendo que se trata de uma obra-prima, um peso desnecessário para o leitor que fica desconfiado de um elogio fácil ou da sua incapacidade de se aperceber da qualidade da obra.
Começando-se a ler o texto deparamo-nos com uma história que vive de uma simplicidade extrema, como se fosse uma história tão comum que se conta sem quase se dar conta. É uma pequena memória que ressurge pouco antes de uma missa por um defunto, missa essa que três pessoas diferentes querem pagar o que o padre vai recusando.
Mas quando finalmente se revela a verdadeira natureza do texto, descobre-se a grandeza que encerra.
Se a história é simples, história de homens numa terra pequena, história que se perderia na memória, aquilo que ela encerra é grandioso: o retrato de um país, o retrato de uma guerra, o retrato de um povo dividido em classes, o retrato de uma evolução, o retrato das relações dos vários poderes.
Por via do pequeno e fechado relato de uma qualquer aldeia espanhola percebemos as dinâmicas e os infortúnios que definiram a Guerra Civil e que levaram à revelação daquilo de que os homens são capazes.
Nesse aspecto há aqui muito daquilo que também surge em O Relatório de Brodeck, homens a tentarem lavar a culpa dos actos que cometeram quando se viram rendidos a uma dose de medo e outra tanta de raiva.
Aqui, no entanto, não há inocentes, quanto muito há tolos, crédulos, falsos puritanos.
E todos estão obrigados a sentir o peso do vazio que substituiu a humanidade quando uma mula é a única presença na missa que se vai rezar.
Sinal de que o mundo está despedaçado e louco e de que os homens devem esvaziar-se ainda mais para conseguirem ignorar tal tormento.
Em pouquíssimas páginas, com um estilo tão recatado mas ainda mais duradouro, Sender conta-nos muito mais do que um mero país, conta-nos a lição que demasiadas vezes esquecemos, pois só os que não recordam o passado estão condenados a repeti-lo.
E afinal Requiem por um camponês espanhol sempre é uma obra-prima, nem era preciso anunciá-lo.


















Requiem por um camponês espanhol (Ramón J. Sender)
Campo das Letras
1ª Edição - Agosto de 2007

88 páginas

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