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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Surja mais vezes

Este é o livro que se deveria ter seguido a Morte com Vista para o Mar, o livro em que Gabriel Ponte progride das saudades da investigação provocadas pela sua assistência ao caso da ex-mulher para uma tentativa de se tornar num detective privado.
Ao bom estilo dos polícias caídos em desgraça, um detective privado sem licença e dependente de favores antigos que nem deveriam ser cobrados.
Algo particularmente interessante num país onde o conceito de detective privado parecer não estar legislado.
Contratado por dois Romenos em busca de uma rapariga, Gabriel Ponte tem de mover-se nos limites da Lei, umas vezes do lado correcto para poder recorrer aos seus conhecimento na Polícia Judiciária, outras do lado errado para poder actuar como a polícia não pode.
Tudo mantendo uma fidelidade moral ao seu sentido de rectidão que será inevitavelmente testada contra uma rede criminosa bem urdida e sem quaisquer escrúpulos.
Depois de no primeiro livro ter surgido um retrato onde o pior do Portugal actual intersectava o mais mesquinho do Portugal de sempre, Pedro Garcia Rosado proporciona agora um retrato mais amplo de uma Europa onde todos os negócios se tornaram possíveis e que, por isso, deixou de ser criteriosa, tornando os países periféricos em entrepostos de todo o tipo de itens, até os que não o deveriam ser.
Mesmo que o vilão deste livro seja uma espécie de líder de cartel, muito organizado e cheio de artimanhas, acaba por ser este o tipo de realismo a que se deve aspirar nos livros de Ponte.
É um mafioso e, ao mesmo tempo, um líder comunitário influente, capaz por isso de se mover nos mundos visíveis e subterrâneos onde o poder se perpetua.
Um realismo não tanto da história, mas do contexto da mesma, que mantendo-a assente na realidade presentes impede que se torna num chorrilho de exageros (como no caso das ruínas de um coliseu romano tornado em ringue de combates até à morte de Morte na Arena).
Tem de se apontar ao autor uma falha, ainda assim, um retraimento nas descrições das "cenas chocantes" a que a história dá origem.
Não por um valor de "choque", mas para retirar o leitor do seu conforto e com essas cenas levar o leitor a uma reflexão para lá do fim do livro. Além de terem todo o potencial para reforçar o carácter dos personagens.
O aviso na capaz é um chamariz que não se sente estar justificado, tendo os mesmos efeitos de distorção de uma classificação etária excessiva atribuída para proteger algum do público potencial.
No restante é a qualidade de Pedro Garcia Rosado a proporcionar uma história coesa e repleta de tensão continuada - depois de um segundo livro em que parecia gerada de forma artificial através de alguns episódios mais trabalhados.
Sobretudo com o aproveitamento de personagens secundárias como (e sobretudo) Ulianov, vindo de uma outra saga de livros do autor.
Este aspecto, que já se verificava no livro anterior, denota uma inteligência do autor que capta o interesse de leitores agora chegados para os seus livros anteriores.
Ainda mais interessante é a maneira como essa utilização de personagens de um micro-universo para outro criam uma sensação de macro-universo ficcional em potência no qual o cruzamento de protagonistas poderia gerar novas hipóteses, de multiplicação das linhas narrativas e de avanço da extensão geográfica da acção.
Parece-me, estruturalmente, o melhor dos três livros lançados até ao momento mesmo se acaba com um cliffhanger exagerado - de novo Ponte como herói de acção e não o personagem que já foi contruído - que precisará de uma explicação muito boa.
Fica-se em suspenso mas com a certeza de se vir a reencontrar Gabriel Ponte. E. quanto a isso, não há dúvidas de que é o que se quer!


Morte nas Trevas (Pedro Garcia Rosado)
Topseller
1ª edição - Maio de 2014
352 páginas

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A parte da indiferença

O segundo livro protagonizado por Gabriel Ponte é o verdadeiro thriller anunciado a propósito desta nova saga de Pedro Garcia Rosado.
Repleto de cenas passadas em túneis subterrâneos onde elementos de equipas de intervenção da polícia se têm de confrontar com um adversário inesperado e feroz na luta corpo-a-corpo.
Cenas essas que surgem no interior de uma história onde a ganância e a violência se combinam num espectáculo - rentável e ilegal, obviamente - bem ao gosto da animalidade humana.
Um história, ao fim e ao cabo, recheada das ideias extravagantes que costumam ancorar muitos filmes (bastantes de segunda categoria) de Hollywood desde os anos 1980 - embora com diferentes matizes ao longo dos anos.
Tal trama torna a leitura veloz mas nem tanto voraz. Há alguma indiferença que acelera o leitor em direcção ao final do livro.
Apesar da tentativa de colar esta história a um cenário reconhecível, a sua implausabilidade e vulgaridade temática não permitem mais do que um reconhecimento de que o autor estrutura bem a história e continua a escrever bem - sobretudo diálogo com verve, perto de constituírem tiradas clássicas.
Mesmo tendo sido feita a integração de cenários da capital portuguesa, a história não consegue transmitir a sensação de ser nacional. Parece uma história genérica que poderia ser colocada em qualquer ponto do mundo sem nunca transmitir a sensação de lhes pertencer - ou de pertencer a outro sítio que não um cenário falso desenhado para um filme.
Parte da culpa está, também, na forma como Pedro Garcia Rosado não consegue dar vida à Lisboa do livro.
No primeiro tomo, Caldas da Raínha surgia como um local que acolhia Gabriel Ponte mas que não era bem definido. Ao deslocar o ex-inspector até Lisboa, Pedro Garcia Rosado tenta torná-la numa personagem mas acaba por não conseguir senão enumerar alguma toponímia sem conseguir definir uma verdadeira geografia - e uma geografia dramática!
O próprio comportamento da personagem central está em desacordo com o que fora em Morte com Vista para o Mar.
Gabriel Ponte é agora demasiado impetuoso e dado a um certo papel de herói de acção que difere da racionalidade e capacidade conciliatória que constituíam as suas primeiras forças.
Depois de no primeiro livro o autor ter chamado ao trabalho o retirado inspector usando-o como consultor externo, agora fá-lo colocando-o a investigar por conta própria a morte de um amigo.
Não deixa de ser uma abordagem aceitável, mas sugere menos uma evolução daquilo que Gabriel enfrenta do que uma procura de situações o mais agarradas a um pretenso realismo - que, como se vê, é impossível de manter neste livro.
Morte na Arena é o livro mais excitante - talvez até se deva dizer "bombástico" - da saga de Gabriel Ponte mas é, também, o menos interessante.
Se facilmente conquistará leitores, também deixa de lado o interesse que o primeiro livro viera criar a propósito de um detective português falível mas pleno de potencial.
A versão de "durão" aqui apresentada parece pertencer a um outro personagem e é difícil conciliar este livro com o seu predecessor.


Morte na Arena (Pedro Garcia Rosado)
Topseller
1ª edição - Agosto de 2013
352 páginas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A crença em Gabriel Ponte

Depois de uma única e isolada leitura de entre a obra de Pedro Garcia Rosado, dediquei-me à sua mais recente criação com afinco.
Eis-me perante o ex-inspector Gabriel Ponte, promissora personagem que alia as excelentes capacidades de investigação a um passado maculado, dicotomia própria de uma figura de noir.
A grande dúvida sobre o seu carácter é a causa do seu afastamento da Polícia Judiciária e aquilo que o distingue do mero polícia reformado.
E embora não seja uma mulher fatal a vir bater à sua porta e a requisitar os seus serviços, o triângulo amoroso irresolvido entre a sua ex-mulher e a sua ex-amante não deixam de vincar ainda mais a linhagem de Ponte entre alguns dos que se tornaram do mais detectives privados da literatura.
Com o interesse adicional da sua ex-mulher ser a inspectora responsável pelo caso e a sua ex-amante ser uma jornalista atrás do mesmo tema.
Se Portugal não possui o atractivo dos cenários Nova Iorquinos para que o autor se aproprie do noir, a opção por este retrato do "Portugalzinho", uma aldeia de dez milhões de habitantes, é a segunda melhor opção.
Como este país é pequeno! E, por isso, o círculo de personagens não tem como não se conhecer e como não se relacionar - com maior ou menor desagrado.
Além de estarem a braços com um assassinato que só pode ter um de dois motivos: dinheiro ou sexo. Ou, em preferindo a portugalidade, por ganância ou dor de corno.
Um toque de ridículo ao serviço de uma inteligente manobra de dificuldade investigativa nascida tão somente do pensamento redutor dos vários departamentos da polícia, com o crime económico para um lado e os Homicídios para o outro, nenhum conseguindo "pensar fora da caixa" e relacionar hipóteses diversas.
O encontro com a tradição policial num cenário nosso, do eterno e falso país de brandos costumes - recordo o livro de Pedro Almeida Vieira -, dá uma sensação de satisfação que é mais do que a mera alegria bacoca de ver Portugal assim representado.
É uma satisfação porque faltou quem regularmente descobrisse o país como um conjunto de possibilidade para um cenário de literatura criminal.
Este primeiro tomo, apesar de ser um esforço literário descomprometido e descomplexado, merece que se reconheça que é escrito de forma muito cuidada - capaz de aliar a eficácia necessária à continuada qualidade - e que acaba por atingir níveis críticos mais profundos do que se suspeitaria.
A única falha grave do que é, de resto, uma estrutura muito inteligente vem da manipulação das revelações acerca daquilo que constitui o erro no passado de Grabriel Ponte.
Ou havia uma espécie de prólogo longo onde essa história fosse revelada, algo bem ao estilo dos contemporâneos thrillers, ou a informação era mantida na obscuridade para criar a dúvida crescente no leitor.
A revelação tal como acontece retira-lhe força e não é capaz de criar qualquer suspense. O personagem passa por ela semi-incólume aos olhos do leitor, o que não é aceitável nem literaria nem moralmente.
O livro resulta como um todo amenizando essa falha que por momentos o desvirtua e, no final, Gabriel Ponte consegue persuadir o leitor a continuar com ele por outras desventuras.


Morte com Vista para o Mar (Pedro Garcia Rosado)
Topseller
1ª edição - Fevereiro de 2013
320 páginas

sábado, 12 de maio de 2012

Períodos desfasados

A diferença entre o policial e o thriller é a diferença literária entre a execução e a enumeração.
Esta afirmação não será universal, mas ao fim de Vermelho da Cor do Sangue foi ela que me surgiu, não como uma revelação mas como uma aceitação da inevitabilidade.
Um thriller não pode ficar à espera do último capítulo para, numa cena montada para o efeito, fechar a narrativa e revelar o cerne do mistério que alimentou as suas páginas.
O thriller tem de seguir a repetição de uma estrutura mais curta, acção-revelação-acção, e depois garantir que a estrutura global funciona para lá disso.
A leitura torna-se, sobretudo, num exercício de espera. A cada desenvolvimento da trama suportamos algumas páginas de perseguições, confrontos ou vigilâncias e depois voltamos à parte substancial da história.
Isto é a causa de o livro ler-se de um fôlego só - uma qualidade que costuma ser muito relevante. E acredito que os fãs do género não deverão ficar senão contentes de encontrarem a mesma qualidade dos thrillers de paragens anglófonas.
Até porque Pedro Garcia Rosado liga o pós-25 de Abril com o presente e, mais importante ainda, o nosso país com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas com bastante agilidade.
Só que a agilidade não disfarça a pouca credibilidade da forma como ele o faz, através da aparição (e perseguição) de uma injustificadamente bem preservada relíquia, altamente incriminatória, de um crime de quatro décadas atrás.
O presente, neste caso, é muito menos interessante do que o passado. Aliás, o seu interesse é como consequência desse passado que merecia mais protagonismo - e bem o poderia ter, considerando a agitação do Verão Quente.
Há, por isso, um inevitável desfasamento entre a acção que ocupa o Portugal de 2012 e a reflexão que fala do Portugal que nascia em 1975.
Pedro Garcia Rosado pensou numa intriga que, além do interesse que tem como policial nos meandros políticos, o tinha como retrato crítico da cultura dominante na nossa sociedade.
O livro não consegue fazê-lo porque a acção é a parte maioritária do livro. E, em seu maior prejuízo, as intrigas de curta duração que têm de fazer mover os personagens acabam por tornar previsível o que o largo intervalo de tempo entre causa e consequência devia ajudar a esconder.
Direi, por isso, que o livro funciona como entretenimento e revelação de que há escritores na nossa língua com talento para o género que outros fazem com mais regularidade. Mas podia funcionar como algo mais.
Faltou-lhe alguma sabedoria - que a prática deverá trazer consigo - para tomar algumas decisões mais perspicazes e usaria uma associação simples para o demonstrar.
Lendo-se o título sem o acompanhamento do desenho da capa, parece tolo como uma das afirmações de Jacques de la Palisse. Mas se lhe tirassem o "vermelho" o seu poder de sugestão era maior e ficaria bem complementado pelo design da capa sem parecer redundante.


Vermelho da Cor do Sangue (Pedro Garcia Rosado)
Edições Asa
1ª edição - Julho de 2011
304 páginas