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sábado, 18 de junho de 2016

Mal intencionada

Perante o regresso de Tilly à pequena cidade onde nasceu o leitor interroga-se sobre as suas reais intenções.
A referência à sua louca mãe, largamente desprezadas pelos restantes habitantes, soa a uma desculpa depois de décadas afastada.
Mais fácil seria levar a mãe daquele lugar de onde a raiva a expulsou e o desprezo agora a recebeu de volta.
Tilly vai ficando deixando-se ser mal tratada. Parece sofrer de masoquismo, sofrendo quando se suspeita que terá a fugir de outra dor.
Se a dor que aquele lugar que lhe desfez a infância é menor do que aquela que a empurrou de volta é uma comparação que o romance só permite fazer demasiado tarde.
Por isso Tilly permanece perante o leitor como uma figura penitente. Até que o romance, não tanto o personagem, precisa de algo mais.
Precisa, sobretudo, que o talento de Tilly entre em acção. Daí que Tilly comece a deixar-se ser usada pelas mulheres da cidade para que lhes confeccione vários vestidos.
Não se trata de uma procura de aceitação, uma crença que o leitor não tem nem vê no personagem.
Tilly investe o seu próprio dinheiro em criar roupa que rivaliza com a das grandes casas de Moda, o que é excessivo interprete-se essa atitude como o exercício do seu talento para que não perca a mão ou como uma afirmação de superioridade contra uma sociedade desinformada na Austrália dos anos 1950.
Os vestidos fazem falta, sobretudo, a Rosalie Ham que aprimora a sua escrita aquando das descrições cujo destaque é ainda maior por entre uma escrita tépida.
O trabalho mantém Tilly na cidade o tempo necessário para que ela encontre alguém disposto a amá-la e ela volte a crer na maldição que os locais sempre lhe atribuíram.
O que na idade adulta parece significar crer que as atitudes alheias a encaminham para um desfecho trágico.
A partir daí o romance assume um tom mais negro onde a dissimulação toma prevalência. Tilly torna-se na tecelã de uma cruel vingança que, quando se confirma, parece desproporcionada e coloca em causa a própria leitura que se faz da protagonista.
Desde logo porque a autora se dedica a escrever capítulos pouco estimulantes sobre a criação de roupas para teatro que não criam expectativa alguma para o final que se esperava ameaçador.
No entanto é-o sobretudo porque o livro termina sem uma ponderação moral de quanto a pequena cidade merece que Tilly deixe todos os seus habitantes sem nada senão os trajes ridículos e abafados que criou para a peça de teatro que levaram a palco.
Não bastando a humilhação que causou, Tilly causa uma destruição completa, até contra o único que a tratou bem, um polícia que admira tecidos excepcionais ainda mais do que ela.
A autora quer fazer crer que Tilly foi tão mal tratada que a sua vingança está justificada. Mas ela tanto foi mal tratada pelas pessoas como pelo próprio destino (ou pela própria autora...).
Um personagem à deriva ao longo do livro. O seu comportamento deveria sugerir mistério de identidade. Ao invés mostra a indecisão que a autora teve sobre o que queria alcançar com o livro.
Falta um verdadeiro antagonismo a Tilly que não passe pelas suas próprias acções. Algo mais substancial do que as figuras com que ela popula a cidade.
Com eles a autora intenta um retrato dos pecados que estavam escondidos debaixo do puritanismo da Austrália rural dos anos 1950.
Para tal bastava ter menos de uma mão cheia de personagens bem definidas e melhor exploradas.
Como a autora quer reforçar o direito da protagonista à sua vingança, ela prefere acrescentar personagens com uma regularidade obsessiva e pouco ajuízada.
Personagens que têm uma presença de pouca duração e que se tornam todas demasiado parecidas visto que não ganham identidade.
A já referida tepidez da escrita reforça esse sentimento como também o faz a falta de imaginação da autora que distribui os mesmos (ou o mesmo tipo) de pecados - sexuais - pelos personagens.
São falhas em demasia no que é, evidentemente, um primeiro livro. O que significa que é mais uma intenção do que uma obra devidamente acabada.
Só a sua adaptação ao cinema justifica que recaia a atenção sobre o livro nos antípodas do seu país de origem, ainda que seja tratado - de forma injustificada - como uma espécie de clássico moderno Australiano.


A Modista (Rosalie Ham)
Editorial Presença
1ª edição - Novembro de 2015
272 páginas

sábado, 28 de maio de 2016

O fardo da imaginação

Yann Martel continua a ser um homem cheio de imaginação. O problema, como com A Vida de Pi, é que lhe falta a inspiração e a transpiração para moldar as suas ideias na forma de boa ficção.
De tal maneira ele tem imaginação que desta vez ele concebe três histórias que em 1904, 1938 e 1980 (e pouco) vão dar a Tuizelo, uma aldeia em Trás-os-Montes.
Essa região é que constituiu as tais Altas Montanhas de Portugal, sendo que lá para meio do livro é dito que essa é uma denominação que lhe deram, se para afastar interessados ou para a publicitar de forma falaciosa, não se sabe.
Não importa, esse é mais um elemento da imaginação do autor, que ele usa como forma de elevar ao "maravilhoso" a base realista que cria com a qualidade da sua pesquisa.
Pelo menos crê-se que assim seja, pois não há vontade de verificar a realidade de conduzir um Renault no início do século passado ou a exactidão do percurso que Tomás faz por Lisboa.
O que deve interessar realmente é que em 1904 Tomás que caminha às arrecuas vai atravessar Portugal ao volante de um carro, máquina que desconhece por completo. Que em 1938 Eusébio ouve uma descrição de como Agatha Christie é a versão moderna dos Evangelistas antes de realizar uma autópsia cheia de impossibilidades. Que pelos anos 1980 Peter vai, por impulso, viver com um chimpanzé com quem avista o último dos rinocerontes-ibéricos.
Ainda assim estes são eventos superficiais, pois não podemos esquecer que Martel está à procura de significados profundos para a Fé e o Amor.
O que deve interessar ainda mais é que pelos anos de 1980 o chimpanzé de Peter se assume como mais um elemento da vida da aldeia e é o único que consegue encontrar o mítico rinoceronte. Que em 1938 Eusébio descobre que o corpo humano, como a história de uma vida, é composto por muito - mas muito! - mais do que orgãos. Que em 1904 Tomás persegue uma extrapolação miraculosa que fez a partir do diário de um padre e da sua referência a um crucifixo que trouxe de África.
Esta trindade de homens que perderam as esposas está numa espécie de viagem em contínuo que os leva de "sem casa" a "em casa", reconciliando-se com Deus, que se deverá concluir ser o esquivo rinoceronte.
Tal como os macacos que vão atravessando a narrativa devem ser as verdadeiras formas dos anjos dos quais ascendemos à nossa condição, pelo que Tuizelo deve ser um qualquer Éden onde homens e macacos podem conviver pacificamente e comungarem com o divino.
Haverá quem veja nestes elementos motivo para assombro. Seriam se o autor fosse além de uma tentativa tosca de dar sentido à salganhada.
Na verdade esta conclusão é apenas uma das muitas que se podem tirar do livro pois o verdadeiro resultado é um vazio de sentido.
Martel tentará fazer crer que está a depositar a responsabilidade nas mãos do leitor, mas na verdade está a ser preguiçoso com as decisões que tinha de tomar para os seus personagens e o seu estado de permanência no universo que criou.
Tal como está a ser preguiçoso quando se permite qualquer excesso incoerente com a etiqueta de realismo mágico, a que o autor não pertence.
Pois se falamos da sua "rica" imaginação, aponte-se aquilo que ela disfarça: a pobreza da sua escrita.
Há uma suposta procura de requinte escrito que resulta em metáforas pavorosas, seja porque se tornaram ridículas ou porque perderam o seu sentido. Basta transcrever um parágrafo para demonstrar ambos os casos.
O amor é uma casa na qual a canalização nos traz novas emoções gorgolejantes todas as manhãs e os esgotos descarregam as nossas disputas e as janelas claras se abrem para deixar entrar o ar fresco da boa vontade renovada. O amor é uma casa com fundações inabaláveis e um telhado indestrutível. Ele teve uma casa assim em tempos, até que foi demolida.
Más metáforas são, ainda assim, mais desculpáveis do que a absurda abertura do livro onde inúmeros nomes de ruas de Lisboa são citados. Além de proporcionar sonoridades exóticas,  a geografia inútil só serve para maçar, mesmo aqueles que não conheçam a Língua Portuguesa.
Até mesmo nisto se vê a indecisão de Martel, pois se todo o livro é uma parábola, que evitasse as exaustivas descrições dos problemas que o Renault dá ao longo do caminho.
Yann Martel não sabia qual dos livros escrever e escreveu os três. Agregou melhor a primeira e segunda parte, deixando para a terceira (e menos má) um remate mal conseguido. O todo é, aqui, menor do que a soma das suas fracas partes.
Para um livro que durante dois terços quer fazer crer que a escrita e a sua interpretação podem refazer a ligação entre o Homem e Deus, não há pior do que falhar ele próprio em qualquer solidez literária.
A única indecisão de que Martel não sofre é aquela que o condena, pois continua a perseguir reflexões sobre a influência da religião (da crença, será mais justo) nas pessoas confrontadas com a morte.
Até mais especificamente, sobre a aceitação da ficcionalização como elemento preponderante da experiência espiritual de cada um.
Um objectivo que se projecta como ainda mais pretencioso do que é perante a falta de qualidade do trabalho que o sustenta.
Ficasse ele pela simplicidade - com as histórias trabalhadas como contos cómicos - e seria a sua imaginação digna de alguns elogios.


As Altas Montanhas de Portugal (Yann Martel)
Editorial Presença
1ª edição - Abril de 2015
320 páginas

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Romance sob a luz de ETs

Sob a promessa de Ficção Científica vamos encontrar temas adolescentes, de entre os quais se destacam uma obsessão quase permanente pelas relações amorosas e a dificuldade do emparelhamento acontecer a contento.
Os personagens têm a idade correcta para tal, pois nestes mundos os autores encontram sempre forma de tornar os adolescentes nos protagonistas ou mesmo nos únicos sobreviventes mas perante um evento da magnitude de uma invasão alienígena apontada ao genocídio da raça humana, seria de esperar que as suas personalidades se alterassem ou, pelo menos, que os eventos acabassem por esmagar essas velhas prioridades.
Seria de esperar que Ben não passasse o tempo a tentar usar o seu sorriso sedutor para com a sua colega de "esquadrão de morte".
Sobretudo, seria de esperar que Cassie não acordasse depois de baleada e tivesse como sequência de preocupações "Onde estou? A minha arma? Alguém me viu nua!".
Cassie é a personagem que assume contornos de protagonista, embora não a acompanhemos durante todo o tempo.
Que ela seja a protagonista é um problema para Rick Yancey que, honestamente, não parece ser capaz de definir uma personagem feminina.
Ele começa por a definir como uma miúda no processo de ascender a Ellen Ripley, capaz de se decidir por matar um soldado moribundo à conta das dúvidas de que ele possa ser um alienígena.
Muito lá mais para diante ela parece dominada por um histerismo hormonal que pelo seu exagero deve ser o único meio que o autor vê a definição de uma rapariga.
Para quem matou um soldado depois de pouca hesitação, chegar a um ponto em que está a retirar estilhaços das costas de Walker e a sua grande preocupação é o rabo dele e não que ele seja um alienígena e assassino é sinal de uma clara degradação de personalidade que vem do facto do romance eminente ter mais importância do que o perigo eminente.
Não se trata apenas de Cassie, pois Yancey escreve os seus personagens masculinos de forma igualmente deficitária.
Em geral, neste mundo, todos se expressam de forma limitada e onde a linguagem internética toma o lugar de uma expressão séria das suas emoções ou da sua visão do mundo.
Uma tentativa de desculpar isso como sendo a mentalidade adolescente - mesmo que fosse, um autor tem de a transformar e melhorar - não consegue fugir ao facto da escrita de Yancey ser apenas funcional mas a tentar surgir como elaborada - como se tivesse de ser substancial porque tudo o resto não é.
Lamentavelmente o autor está longe de estar em controlo das suas próprias pretensões e a vazia procura de estilo acaba por chegar ao ponto de fazer o autor contradizer-se. Em parágrafos consecutivos! (Exemplo rápido: um personagem lamenta não poder ver a sua própria cara durante um certo evento para depois dizer que está a viver uma projecção de consciência.)
Com tudo isto nada disse da Ficção Científica. O pouco que há a dizer é que parece ser pouco desenvolvida a partir de um número reduzido de ideias que de original nada têm.
O desenvolvimento também era desnecessário pois as quatro anteriores vagas da invasão surgem apenas em referências rápidas como analepses para que não se possa acusar o Presente do livro de estar descontextualizado.
Aquilo que essas analepses deixam perceber é que os alienígenas, com a tecnologia ao seu dispôr, têm um plano pouco consistente para dominar o planeta.
Como se estivessem decididos a dar aos humanos uma hipótese de os derrotar... Ou como se a trama deste livro dependesse sempre de elementos de conveniência que a tornam inconsistente.


A 5ª Vaga (Rick Yancey)
Editorial Presença
1ª edição - Maio de 2015
400 páginas

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

América, personagem

Galveston começa com o estabelecimento de um cenário que se poderá quase considerar um clichê do noir.
Um homem de mão de um mafioso de Nova Orleães coloca-se em fuga depois do que parece ter sido um atentado à sua vida mandatado pelo homem a quem responde.
Consigo leva uma prostituta cuja vida salvou e que não passa de uma jovem rapariga perdida na vida.
As personagens soam como os arquétipos do género e correndo estrada fora parecem destinados a uma variação mais dentro do género.
Isso muda depois de Nic Pizzolatto esboçar o seu cenário, económico e reconhecível.
Afinal, na peugada destes dois vai o medo que eles sentem. Se alguém para além desse sentimento não o sabemos.
Juntos não dão por si atraídos um para o outro, ele sujeito à pulsão para com um corpo jovem, ela sujeita à segurança de um corpo gasto.
Nem sequer vão sozinhos, Roy o homem à procura de redenção e Rocky a rapariga à procura de aceitação.
A irmã dela, Tiffany, junta-se-lhes e é Rocky quem se coloca numa situação periclitante, arrancando-a às garras do seu padastro à força de bala.
O que eles percorrem é a América esquecida, procurando um lugar onde eles próprios possam assim permanecer.
O seu refúgio é um motel em Galveston onde as pessoas não estão de passagem. Lá vive uma comunidade de inadaptados - um adjectivo mais simpático do que o mais instintivo falhados.
Logo a comunidade vê em Tiffany a hipótese de se recuperar, de produzir alguém de bom que possa dali recuperar e retornar à sociedade.
Cuidam dela, apaparicam-na, chegam a levá-la à praia - que está logo ali mas parece tão distante do motel no Texas como um qualquer destino paradisíaco do outro lado do mundo!
Roy adquire confiança de que pode confiar àquela gente as duas raparigas, mesmo se o passado delas vem para atormentar o idílio (à escala do que o cenário pode oferecer).
Todos os passados podem, afinal, ser apagados quando se chega a um novo local. Só a perspectiva do que virá interessa quando se está perdido no coração da América.
Para Roy o que virá é um cancro prestes a matá-lo. E com ele a vontade de deixar um legado que recupere a sua imagem para si próprio: um futuro, não para ele, mas para elas as duas.
Claro que sabemos que não será bem assim, pois as prolepses que nos trazem de 1987 ao presente dizem-nos que Roy permanece vivo e carregando o tormento da sua sobrevivência - não só psicológico mas também físico.
Não sabemos o que terá acontecido mas sabemos que a história daquela fuga terá um desfecho tormentoso. Tal como a tempestade que em 2008 se encaminha para Galveston promete tudo destruir!
Roy não pôde selar a sua vida num momento de redenção antes de uma morte precoce e dolorosa como talvez ache que merece.
Afinal, como leremos, o passado não pode ser reescrito por vontade exclusiva dos que o carregam. Há que garantir que os à sua volta o apoiam e nem todos são como as duas irmãs encatadas pela pureza de Tiffany.
Roy tem de recorrer aos seus talentos antigos enquanto Rocky vai escorregando de novo para o papel a que ele pensava tê-la afastado.
Nesse momento ficamos com a certeza que Nic Pizzolatto escreve a essência da América neste noir. Um banho de sangue para uns para que outros possam ter direito ao seu naco de esperança.
Nem mesmo esse corte brutal com o passado evita que a ilusão do futuro deixe uma dúvida na sua origem.
Roy sabe-o e espera que o passado o reencontre. Teme que seja o passado que reclama a sua vingança, espera que seja o passado que lhe deve um agradecimento.
Pela pena de Nic Pizzolatto toda esta história é voraz e imparável, escrita numa vertigem que emula a velocidade alimentada pela mistura de receios e vícios dos seus personagens.
As personagens são como são e tomam decisões como quem não tem opções nem pode hesitar. As razões ficam para quem tem tempo de parar para pensar. Aqui só podem agir e seguir adiante.
Nic Pizzolatto faz valer o seu estilo e escreve na senda de Raymond Chandler, reconhecendo que é o espírito do conjunto (e do tempo e do lugar) que interessa e que sai como grande personagem do seu livro.


Galveston (Nic Pizzolatto)
Editorial Presença
1ª edição - Fevereiro de 2015
240 páginas

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Fraca introdução

Eu sei que este livro foi escrito para os "jovens adultos", mas um policial é um policial e tenta os leitores.
E deveria ser um policial nórdico quanto muito com o grau de choque reduzido para o público a que se destina.
O cenário inicialmente montado promete ser o que normalmente vemos como a revelação dos segredos negros de uma sociedade habitualmente considerada ideal, rapidamente  esta se transforma num mistério liceal à americana onde a componente de relações entre grupos de maior e menor popularidade tem primazia.
A trama é relativamente eficaz, ainda que totalmente implausível, com uns adolescentes a enfrentarem e vencerem a máfia local.
Daí vem essa sensação de que o livro se inspira nas aventuras ficcionais que costumam chegar do outro lado do Atlântico e que não se compadecem com o realismo que vimos a associar aos policiais nórdicos.
Essa evocação só faz com que história revele a sua gritante falta de originalidade que mostra que a autora tentou posicionar o seu livro dentro de uma etiqueta que tem sucesso (quase) garantido quando, ao mesmo tempo, recorria a processos que destoam, por completo, desse género.
A tentativa da autora colar a sua heroína a Lisbeth Salander só demonstra que a autora não tem capacidade para criar algo que não seja um derivado.
Não importa que a autora até coloque Lumikki Andersson a brincar com essa ideia de que ela é como uma filha da personagem Stieg Larsson (com Hercule Poirot, valha-nos a presunção de Salla Simukka para nos fazer rir!), pois não é pela auto-consciência de personagem e autora que a imitação passa a ser mais meritória.
A imitação leva Simukka a escrever a sua protagonista adolescente como uma exímia lutadora, hacker e espia.
Não bastava que a rapariga não tenha idade para tal, mas ainda por cima ganhou a sua perícia nas diversas áreas completamente sozinha.
A autora nunca caracteriza a fundo Lumikki, passando o livro inteiro a sugerir um segredo profundo que a tornou naquela máquina de eficácia e secretismo quando se trata de combater o crime.
O segredo não passa de um caso de bullying a que Lumikki respondeu com violência, ou seja, nada que recupere o livro para uma história dos negros segredos da sociedade Finlandesa.
Ainda menos algo perto de ser plausível como justificação para o que lemos que ela é capaz de fazer e cuja preparação é referida como umas visitas ao ginásio.
Para um caso em que a autora está a criar uma forte personagem feminina que sirva de modelo às suas jovens leitoras e perde a mão, levando-a para o patamar logo abaixo da super-herónia.
Ter usado uma estrutura policial apenas eficiente como base para o seu drama adolescente foi, no mínimo um facilitismo literário, no máximo uma estratégia comercial.
Se a ideia era proporcionar uma introdução ao género em causa, talvez numa forma tendencialmente asséptica, a leitores mais jovens (e impressionáveis?), a autora falhou.
A simplificação acaba por não exigir algum esforço a esses leitores (nem vale a pena mencionar os que estão para lá desse ponto) que ficam vidrados na componente de angústia adolescente e não recebem o estímulo de uma trama intricada.


Vermelho como o Sangue (Salla Simukka)
Editorial Presença
1ª edição - Janeiro de 2015
216 páginas

domingo, 12 de abril de 2015

Admirável criatura

O mundo em que vivemos era capaz de reduzir a história de um tigre vingativo e assassino a uma nota de rodapé em corrida veloz pelo ecrã do telejornal.
Há que ter o bom senso de abdicar desse ruído de histórias reduzidas a títulos e a coragem de se acomodar com calma descobrirá o caminho para uma história abrangente de vários entre os domínios deste mesmo mundo.
Muito antes dessa percepção haverá um thriller na natureza entre um caçador ilegal, um tigre de mau carácter e aqueles que depois lhe terão de dar caça.
Uma história de violência premeditada, de vingança e da forma possível de justiça.
Através dela descrobe-se que O tigre aqui descrito é, mais do que um predador natural, um psicopata com sede de morte, tanto capaz de montar um paciente ardil como de explodir em violência bruta.
A partir dela vai-se mais longe e descobre-se que o Tigre é animal de memória obsessiva e uma determinação estóica para contra-atacar os que lhe fizeram mal, contra quem usa uma astúcia nada temperamental.
Fica-se com a certeza de que o espécime - O tigre - que motivou este relato particular tem dimensão para rivalizar com vilões ficcionais. E ainda com a consciência de que esta espécie - o Tigre - tem traços de personalidade que o equiparam ao próprio Homem.
Ou ainda que o superam, como fica bem patente sempre que o livro desvenda os mitos que se encontram dispersos pelo mundo e que o endeusam com justificado temor e ainda mais admiração.
Os mitos são apenas a vertente mais fascinante daquilo que aqui se desvenda sobre o Tigre. O resultado Antropológico da constatação do que faz d'o Tigre um ser justificadamente reverenciado.
A Biologia pela qual o Tigre se supera a tantas outras espécies que deveriam colocar-se no topo da cadeia de forças da fauna global.
A História que atesta dos casos que marcaram a consciência da Humanidade e que nos torna capazes e reactivos perante um Tigre, ainda que seja a primeira vez que o enfrentemos.
Um conhecimento revelador e que tem o poder transformador para quem o leia - certamente pessoas escudadas da vivência dos perigos da tundra - incutindo receio e espanto que o Tigre merece.
Tudo pela força e sabedoria do trabalho de John Vaillant, que não só nos envolve aquando do relato mais excitante de perseguições e confrontos, como depois o faz de forma tão ou mais feroz quando se trata de tudo o resto que tem para dizer.
Sobretudo porque a transição da história para a História é sempre feita de forma imperceptível e com uma naturalidade que é impossível de negar.
Não há maneira de encarar um movimento d'O tigre sem ir adiante no conhecimento que o Tigre exige. Para usufruir do tal thriller que motiva o livro é necessário atravessar o Tempo e saber que posição ocupa este animal na linhagem da sua espécie e saber que papel representa essa espécie na memória partilha do Mundo.
John Vaillant compreendeu e respondeu à ânsia de compreender as repercussões particulares da caça que O tigre deu aos habitantes do extremo da Rússia em 1997 relatando muito (tudo será impossível de conhecer, assume-se) do que veio antes desses dias de carnificina.
Conhecendo no final a argúcia d'o Tigre e a forte marca que deixou na Humanidade, a leitura transforma-se em plenitude pela eminência deste ser.


O Tigre (John Vaillant)
Editorial Presença
1ª edição - Outubro de 2014
376 páginas

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Problema de escala

Robert Harris é um excelente ficcionalista da História, capaz de criar interesse até num episódio desconhecido e cuja relevância parecia escassa para este leitor.
O seu trabalho de transformação da espessura da investigação num escorreito relato é tao eficaz que consegue fascinar o leitor ainda com poucas páginas lidas.
A sua exploração desses erros imensos que os homens tentam esconder na sua pequenez mas que marcam a memória da Humanidade é feita com a perspicácia de quem está a desvendar um mistério à medida que escreve, embora o desfecho lhe seja já familiar.
O genuíno interesse do autor pelo tema transmite-se ao leitor e permite-lhe arriscar fazer mais do que meramente recontar o Passado.
Através dele permite ao autor julgar o Presente e afirmar a persistência nos actos menos nobres.
Mostrando que no século XXI se repetem as mesmas estratégias indignas do século XIX, com os "espiões" a manipularem informação para justificarem os seus preconceitos, a interpretarem a realidade consoante quem queiram que ela sirva e a contornarem os mais primários conceitos da Justiça em favor das suas próprias intenções.
A única mudança foi a escala, naquela altura estando acusado um homem (mas um representante de todos os judeus, já vilipendiados) e por estes dias estando acusados povos inteiros.
O escrutínio ficcional dos métodos de então adiciona sentimentos à análise objectiva do que correu mal (eufemismo para a intencionalidade do erro humano), intensificando o espanto pela tão longa demora até ao surgimento de um paladino casual em defesa de um homem tão evidentemente inocente.
E até mais do que a demora, a falta de inteligência de tantos para interpretarem a informação à sua frente com correcção, o que reforça o medo de que estejamos sempre sujeitos à interpretação errónea de um qualquer bem intencionado funcionário: patriótico mas pouco inteligente!
A História pela pena de Harris é um romance sábio que transforma o Passado no prenúncio do Futuro.
Aquilo em que Robert Harris não é excelente - e por vezes é até sofrível - é no seu trabalho com os personagens centrais.
Valha a verdade que a amostra é pequena até agora, com apenas um outro livro lido além deste, mas os problemas são os mesmos, a escolha de um ponto de vista que não é o mais benéfico a longo prazo e a incapacidade para transformar o personagem que nos conduz numa figura que ganhe corpo a partir da folha.
Picquart, o militar/espião que aqui luta pelo reconhecimento da inocência de Alfred Dreyfus que ele próprio foi capaz de fazer, atravessa o livro sem se destacar por um traço de personalidade mais vincado.
Em certos momentos é um amante apaixonado, noutros um militar que deseja a elevação do Exército que integra. Chega mesmo a ser alguém com uma relação exageradamente perspicaz para com o homem acusado de traição.
Não era necessário que ele surgisse como um mártir (que em parte foi) ou um herói, apenas como alguém com uma razão interior precisa para a forma como encara esta sua missão.
Esta sua adaptabilidade constante, que serve as necessidades da trama e as alterações de contexto de cada momento, nunca lhe permite coerência - que não se deve confundir com imutabilidade - existencial.
Aliás, se há um traço do seu carácter que parece persistir com o leitor é o de indiferença final para com tudo o que faz, como se fosse um sociopata funcional. Pena que não seja intencional.
No final do livro, quando os eventos já se esgotam, Picquart não se mostra capaz de levar o leitor adiante. Os últimos capítulos têm o peso de uma obrigação.
Esse desequilíbrio entre a personagem que é o próprio corpo da História e a personagem que é apenas a condutora do livro é o que impede que estejamos perante uma obra imprescindível.
Talvez esteja a ser por demais exigente, mas apesar do meu interesse em Robert Harris ter aumentado com mais este livro, sinto que ele ainda não cumpriu com o que vais deixando antever ser capaz.


O Oficial e o Espião (Robert Harris)
Editorial Presença
1ª edição - Junho de 2014
496 páginas

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Geografia Americana

A narrativa acerca de Matthew King é feita pela voz dele mesmo e no Presente, obrigando o leitor a partilhar o que ele sente a cada momento com uma intensidade acrescida.
Não é um método inovador mas neste caso prima pela eficácia consistente que impede que se perca a ligação com a história deste homem.
Advogado descendente da realeza Havaiana com a mulher em coma prestes a ser "desligada da máquina" e com duas filhas das quais conhece muito pouco e com quem não sabe lidar.
Tendo-se sempre entregue ao seu trabalho, que sabe que lhe consumiu mais tempo do que o devido, encontra-se pela primeira vez na vida a braços com uma situação que é incapaz de racionalizar e que o vai levar numa viagem de múltiplas descobertas.
Descoberta de si mesmo, descoberta da verdadeira amplitude da realidade escondida pela fachada feliz do seu casamento e descoberta da fidelidade emocional associada à turbulência adolescente da sua filha mais velha.
Não que esta descoberta se afigure fácil, pois se há característica permanente em Matthew, mesmo perante a mais dolorosa adversidade, é a de total alheamento.
Matthew não muda de imediato, nem mesmo quando descobre que a mulher o traía e que foi isso que afastou a filha para um colégio interno.
Só durante a road trip que se segue, uma peregrinação de amor em busca do homem que deveria importar mais do que ele à sua esposa, é que ele começa a desabrochar como personagem multidimensional.
Que a transformação aconteça ao longo desses momentos em que ele foge do território que costuma conhecer torna-a mais credível, mesmo sendo ainda uma transformação súbita que se segue a um verdadeiro twist no desenvolvimento da história.
A viagem acrescenta momentos de um certo humor (sombrio, apesar de tudo) que alivia a carga emocional do livro.
Somado à contenção com que a autora escreve, que sustém a tristeza brotante da trama sem retirar sensibilidade às palavras que se lêem, o humor ajuda muito a que o melodrama não desabe sob o peso da sua crescente melancolia caótica.
Ainda que parte desse humor seja artificalmente gerada com a presença de um segundo adolescente - amigo e apoio da filha de Matthew - e que seja mais honesto e dilacerante quando nasce da honestidade infantil da filha mais nova de Matthew.
As jovens raparigas são mesmo duas excelentes personagens que marcam a diferença pela maneira como afectam o seu pai, protagonista masculino mais sério mesmo que não avesso a um diálogo de interrogação interior de alguma fragilidade - como se emocionalmente nunca tivesse deixado de ser adolescente, apenas desse o salto para se mostrar um homem.
Talvez por nascerem de experiências mais pessoais da autora, creio que teria sido interessante ver as duas filhas de Matthew tomarem as rédeas da narrativa, sem que isso queira dizer que ele não é uma personagem à altura da narrativa ou de cânones pessoais de memoráveis personagens (masculinas).
Só a sua relação com a herança - um território imenso prestes a ser vendido para um grande projecto imobiliário - sobre a qual ele tem a decisão final (mas cuja posse partilha com um imenso número de primos) me parece menos explorada do que deveria ser para que nos momentos finais do livro se acreditasse mais na sua atitude.
De entre os descendentes do título, ele como descendente da própria imponência do arquipélago do Havai está menos bem composto do que as suas filhas como descendentes do desfasamento entre um casal.
A importância da sua decisão para a sobrevivência do Havai e da sua identidade histórica (que ressente não ter perseguido antes) como mais do memórias nunca é tão bem definida como a mais simples significância dos terrenos como legado palpável que possa deixar às filhas.
Mesmo assim, a autora consegue ainda transmitir uma ideia do Havai como cenário dramático de força - e até força histórica - que é raro vermos por cá na ficção que se serve da região como paraíso turístico.
Com Os Descendentes fica-se com a forte promessa de uma nova voz ficcional Americana e com o nascido interesse acerca de uma geografia Americana que parecia quase não existir na boa ficção.


Os Descendentes (Kaui Hart Hemmings)
Editorial Presença
2ª edição - Janeiro de 2012
304 páginas

domingo, 31 de agosto de 2014

Como uma dupla deve ser

Os motivos para que o público se mantenha fiel aos policiais nórdicos fica bem patente com a diferença - positiva - que estes marcam para outros exemplos do género.
A manutenção de um apego a um realismo funcional que permite falar da realidade local enquanto melhor serve o estabelecimento das personagens, da trama e do cenário envolvente.
Facilmente se explica o que isso significa de forma prática, comparando duas leituras pouco espaçadas.
Para James Patterson a formação de uma dupla de investigadores serve para "apimentar" os momentos menos agitados do thriller.
Para Jussi Adler-Olsen a formação de uma dupla de investigadores serve para nos falar de uma realidade semi-silenciada de discriminação racista - e religiosa - na Dinamarca, ao mesmo tempo que estabelece a desconsideração a que está submetido o protagonista - por lhe ser atribuído um assistente Sírio sem formação policial - e a relevância que a ingerência desse "corpo estranho" terá no Departamento Q.
A criação da relação entre a dupla é o motor que faz avançar a investigação, com Assad a obrigar Carl a romper com a sua apatia para com o trabalho gerada por uma experiência debilitante em que viu morrer um colega mas, igualmente, por um desprezo geral pelo mundo à sua volta.
Tanto pela curiosidade leiga - mas muito inteligente - com que aborda o trabalho policial  e que terá uma influência directa no caso, como pelo desconforto social e pessoal que cria num polícia que se dedica a queimar tempo até poder ir para casa.
A aparição de Assad dará mesmo um contributo indirecto a outras investigações, dos casos actuais para os quais Carl já não é chamado, mas a que não resiste a evidenciar alguns detalhes. No fundo a fazer a extrapolação que os "colegas" não conseguem e que condenou os casos para o arquivo que ele agora tem de gerir.
São duas óptimas personagens que se tornam complementares sem nunca perderem o antagonismo de personalidade que soma interesse à sua relação.
Uma relação que é mesmo uma personagem (colectiva) por si própria, criada com superação em relação à soma das suas partes.
Por eles este é um Departamento que tem de ser seguido com enorme atenção, com a relação entre os seus efectivos ainda em processo de consolidação.
Estes (três) personagens são, para já, melhores do que a trama policial. Essa é interessante, tem potencial para atingir outros patamares, mas não é gerida com a necessária precisão.
O facto de acontecer simultaneamente em dois pontos temporais (um avançando em direcção ao outro) leva a uma gestão menos interessante da informação disponibilizada ao leitor.
O leitor avança mais depressa do que os protagonistas, o que leva a que a resolução da trama compense isso com um exagero mais ao estilo do thriller do que do género de policial cerebral que o livro vinha sendo até aí.
O truque que o autor usa aqui para o tipo de resolução que lhe deu jeito não pode ser reproduzido constantemente pois seria já uma certeza - e não apenas um risco - a perda da ligação aos seus leitores pela perda de plausibilidade.
Com os casos arquivados - em definitivo, digamos assim - o autor terá mesmo de abdicar da conveniência com que provas antigas e esquecidas surgem para fazer avançar a nova investigação.
Por mais que isso seja interessante como prova de um superior intelecto de Carl e uma demonstração de que apenas uma dedicação a tempo inteiro a um único caso pode produzir resultados de topo - novamente, o realismo funcional a ajudar a caracterizar um personagem e a criticar a realidade do país natal do autor.
Só que com estes personagens que já descobrimos, não há forma de não darmos uma (e talvez ainda outra vez, se for necessário) o benefício da dúvida a Jussi Adler-Olsen e continuar lendo os seus esforços.


O Guardião das Causas Perdidas (Jussi Adler-Olsen)
Editorial Presença
1ª edição - Junho de 2014
424 páginas

sábado, 28 de dezembro de 2013

O todo é menor que a soma das partes

São duas as ideias de livro que Markus Zusak tenta fazer funcionar em conjunto, mas que se enfraquecem uma à outra.
De um lado está a possibilidade de os livros serem a salvação do espírito durante os tempos mais terríveis da História que colocam em causa o conceito de Humanidade.
Do outro está a Morte como funcionária de recolha de corpos com visão priveligiada para as vidas dos vivos.
A primeira é aquela ideia que é mais sólida, preenchida de pequenos episódios que reforçam o corpo da ideia no romance. A utilização conjunta da outra ideia prejudica-a, enfraquecendo a atenção isolada que ela merecia ter.
Essa outra ideia surge como um truque de realismo mágico para chamar atenção para o livro com uma "dose extra" de extravagância criativa.
O uso da Ceifadora como uma funcionária ora contente com a função, ora sobrecarregada pela Guerra - e atrocidades cometidas para além dela - e que possa revelar um lado humano com algo como um sentimentalismo invejoso por algumas vidas que preferia ter no lugar da sua surge como uma ideia cheia de potencial. A ter de ser explorado como mote único, tornando a Morte numa personagem e não numa narradora conveniente para ser omnisciente e opinativa.
A sensação definitiva acerca do papel da narração por parte de uma Morte sentimentalmente amenizada é a de vir tornar num conceito inócuo as mortes de milhões de pessoas às mãos dos Nazis, permitindo uma leitura suave para um público jovem.
Se há algo que a ideia principal do livro não necessita é de ser transformada numa história de sensibilidade juvenil.
A força da história d'a rapariga que roubava livros é o apelo que tem para todos os leitores, não importando quão longa a relação afectiva que criaram com os livros e a leitura.
A relação de Liesel com os livros não poderia ser iniciada de maneira mais estranha - com um manual para coveiros - nem ter uma continuação menos ortodoxa - um livro ilustrado, de meras treze páginas, pintado por cima das páginas de outro - de tal maneira que os roubos que faz são o elemento mais normal da sua relação.
Rouba o primeiro livro a quem lhe enterra o irmão morto por um comboio. Rouba o segundo a uma fogueira desatendida. Mesmo aqueles que lhe são dados foram roubados à dureza humana ou à austeridade da vida.
Bastaria isso para falar de forma intensa sobre as vidas no tempo da maior barbárie humana.
Afinal, os livros foram os primeiros inimigos que o Partido Nazi tentou purificar, queimando os que não se enquadravam com a sua visão do mundo.
Os livros não são uma metáfora para o que aconteceria aos judeus, são um seu paralelo menos cruel mas não menos dramático.
Que os livros surjam como objecto de salvação de vidas é uma combinação natural que deveria estar mais explorada, ao invés da história se desmultiplicar - muito por culpa da escolha da narradora - em personagens e eventos que favorecem o charme do livro mas prejudicam a fortaleza narrativa.
Os episódios relacionados com os livros e a leitura demonstram bem isso por parecerem demasiado raros num livro de mais de quatrocentas páginas.
A salvação de jornais velhos demonstra que as palavras nunca perdem a força para um espírito a necessitar de consolo e para um corpo a necessitar de saber do mundo depois de tanto tempo fechado numa cave.
A utilização de um exemplar de Mein Kampf para um judeu se esconder à vista de todos fala do poder transformador de um livro e de como este escuda do mundo quem o segura.
A criação de um novo livro - sobre amizade - por cima das páginas desse mesmo manifesto faz prova de que a imaginação ainda é capaz de recorrer à criação para vencer qualquer adversidade.
Esta é a ideia que sobressai do livro ainda que esteja enfraquecida pela adição mal ponderada da restante.


A Rapariga que Roubava Livros (Markus Zusak)
Editorial Presença
1ª edição - Fevereiro de 2008
468 páginas

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Aviso bom de ler

No posfácio do livro a autora diz que quis escrever como se libertada de todas as regras. Que a "escrita fosse como uma febre" e o resultado um "rock 'n' roll" literário.
Ler isto no posfácio proporciona uma clarividência sobre aquilo que se leu e que não se saberia desde logo enquandrar.
Um texto de uma energia ininterrupta que é um relato biográfico  bastante preciso - jornalístico até certo ponto - interrompido por momentos em que a objectividade sobre o passado dá lugar a um discurso directo e torrencial que penetra profundamente na realidade da depressão do qual o distanciamento não nos pode dar uma visão completa.
Pode-se dizer que é como a letra de uma canção funcionando como uma narrativa (poética, eventualmente) interrompida por refrões menos controlados mas emocionalmente mais ferozes.
Capítulo a capítulo, estrutura-se um álbum em movimento contínuo. Um estrutua de canções entre o êxtase e a dormência, mas sempre feitas de refrães que não dão descanso à alma.
Essa dimensão emocional pauta o livro como manifesto sobre a depressão e como ela se manifesta nas formas mais intensas.
Adiciona ao livro um sentido de interiorização que deve chegar a todos, acerca da consciência do que é a depressão e, não sei se como  dos limites que devem imperar sobre o uso de tal palavra por leigos.
Sobretudo aos jovens imersos numa cultura de glorificação da depressão.
Essa é, aliás, uma implicação importantíssima do livro - ainda que não explorada em demasiada - sobre a exploração comercial que se alimenta das fases depressivas dos jovens. E, portanto, as promove.
Não só pela parte da indústria farmacêutica mas também cultural, com o caso do rock (e, em particular à época a que a autora se refere, o grunge) a servir de exemplo liderante.
Não se trata, em qualquer dos dois casos, de uma exploração cínica em busca de polémica, pois a autora não despreza os muitos casos reais de depressão que exigem medicação ou que se exprimem pela criação.
A autora não despreza a necessidade das receitas prescristas ou a autenticidade das letras escritas, lança o aviso a todos os que acabarão por lidar com uma doença cada vez mais comum e que não necessita de exageros.
Chamada de atenção para a falta de ponderação nas implicações das decisões comerciais - cuja prioridade é colocada ao nível dos doentes/consumidores.
Um aviso escrito pela exposição total de quem viveu em depressão desde que, aos dozes anos, tentou concretizar uma primeira tentativa de suicídio e que experimentou todos os tipos de medicação.
Há que respeitá-lo pela coragem com que é feito mas creio que, sobretudo, há que lê-lo pela maneira como é conseguido.


Nação Prozac (Elizabeth Wurtzel)
Editorial Presença
2ª edição - Novembro de 2003
360 páginas

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A razão do crime e o crime da Razão

Faz falta uma expressão portuguesa que tenha a equivalência do "crime novel", uma certa genralidade que permite compreender que o crime tem um papel central na história sem as implicações de investigação ou concretização do nosso "policial".
À falta de ideia melhor, assumo o Romance de Crime (e não Romance Criminal), para acentuar a importância do Romance com a complementaridade do cenário em que se move.
Agora sinto-me à vontade para falar de Casamentos e Infidelidades como um Romance de Crime, a história patética e assutadora - ambos os adjectivos nascidos da sua sua banalidade - de um homem que se decide matar a mulher para a poupar a vê-lo divorciar-se dela para estar com a sua nova paixão.
Como o título revela desde logo, a trama não fica neste "um para um", antes ganha contornos cada vez mais complicados em torno dos muito intervenientes que são, sem excepção, tudo aquilo que fazem por não parecer ser.
Das fragilidades que uns julgam ver nos outros sobra muito pouco, na verdade, mas de tão simples que seria de resolver, a situação central do livro torna-se no elemento essencial que motivará o passeio pela mente de Philip Bartels.
Este homem típico de uma classe média pacificada e insatisfeita decide-se e depois duvida do tal assassinato misericordioso.
Ao leitor é exposto o seu processo mental, pelo qual ele se vai convencendo das razões - a fragilidade e o embaraço da mulher - para o crime que quer cometer.
O mais consternador é o facto de parecer que ele, realmente, é capaz de crer na bondade das suas intenções, uma forma de ser um moderado tresloucado ou um psicopata com empatia.
Fica então exposto perante nós um personagem que tendo tudo para viver contentado, se decide pela liberdade e pela felicidade, concretizando-a através de um método que parece quase inocente, num tempo em que as aparências e a submissão feminina eram a norma.
E com ele fica exposta aquela sociedade que se vale das aparências, que é um tempo onde a sociedade recuperou a grande inocência depois da Guerra ter demonstrado o quão longe disso podem estar os seres humanos.
Como aliás estão aqui, pois a ideia da mentira e do crime não está só com o nosso protagonista, mas também com todos os que em torno dela gravitam.
Nenhum personagem está muito distante dessa hipótese de poupar o outro à tristeza, matando-o.
Obstinadamente, insistem em acreditar nos próprios mitos que a sociedade lhes impinge.
A par dos pecados e crimes para com os outros a que estes personagens se dedicam, há outro a que quase todos eles também cedem, um crime contra si mesmos e que é o do seu apagamento.
Uns e outros vão aceitando levar a existência que não querem mais porque acham que o seu par não sobreviverá à verdade, de que eles precisam de ser livres.
Mas se nunca ousaram tentar libertar-se é, também, porque querem acreditar na sua importância para a vida alheia dos seus presentes ou futuros cônjuges.
Equilíbrios precários para viver bem em sociedade e consigo mesmos, de pessoas com ainda menos escrúpulos do que o protagonista.
O final do livro volta a instalar a dúvida sobre até que ponto a única sinceridade possível pode vir dessa vontade de matar alguém para lhe poupar embaraços e dificuldades, de lhe poupar ter de se recolocar em sociedade, em novas mentiras - mesmo se felizes agora!
Claro que não se chega a dar tal conclusão, mas a mente humana tem esta capacidade de criar os cenários mais desejados, matizá-los com as cores de consciência mais úteis e por aí argumentar até se convencer a si e a quem oiça.
Até porque o termo de comparação será o maior dos criminosos, aquele que sem nenhum tipo de envolvimento e decidindo-se a ganhar a sua felicidade, é também aquele que recusa todos os momentos em que poderia salvar as restantes consciências e colocar todas as vidas nos eixos.
Assim se faz um emocionante retrato da sociedade que vivia de aparências, imaginava crimes e racionalizava
as razões para os cometer.


Casamentos e Infidelidades (John Bingham)
Editorial Presença
2ª edição - Julho de 2009
188 páginas

domingo, 11 de agosto de 2013

O homem que "quase"

Os Monty Python na sua abordagem ao Santo Graal tinham um Sir Robin que era a personagem que quase lutara com o Dragão de Agnor, que quase enfrentara a Galinha de Bristol e que quase se mijara pernas abaixo na batalha de Badon Hill.
O homem sobre quem Jô Soares agora escreve é o seu equivalente no campo da anarquia política mundial do século XX.
O homem que quase matou o Arquiduque Francisco Fernando, que quase perdeu a virgindade com Mata Hari, que quase safou Al Capone de acabar na prisão...
A sua vida é feita destes maravilhosos quases, dos quais ele não fugia, antes se via incentivado a procurar outro quase a que aceder.
Claro que ele nunca desejou ficar-se pelo quase, mas certamente que ter tido sucesso teria impedido que ele persistisse e orbitasse todos esses grandes momentos da História.
Até aquilo em que ele é bem sucedido - e pelo que ele é protagonista deste livro - é um sucesso que é um falhanço.
Pensando nas muitas acções empreendidas por  Dimitri Borja Korosec ao longo dos anos, o seu único sucesso a ser contabilizado é mesmo uma "invenção de merda". Uma forma de comunicar entre celas de prisão através da tubagem das sanitas, implicando que qualquer descarga do autoclismo interrompia o sistema.
Jô Soares gosta de encadear a História e olhar para os falhanços. São, não só mais humorístico, são mais humanos.
Os absurdos que preenchem esse lado da História que não conta para ninguém - a não se, eventualmente, para os próprios intervenientes, ou não haveria um diário do protagonista para consultar - torna a realidade extraordinária por envolver esses episódios extraordinariamente absurdos.
Por cada assassino que acerta há dez que falham de forma ainda mais exuberante.
Que um único homem possa, então, ter falhado sozinho por tantas vezes e contra o seu destino - nasceu com dois polegares em cada mão que o tornavam num atirador ainda mais exímio que os seus companheiros - é ainda mais assoberbante... mas também excitante de seguir e delicioso de gozar.
Ele atravessa a linha do trágico para chegar de novo ao cómico.
Como não poderia deixar de ser quando o seu jurado arqui-inimigo é um assassino anão com tendência para voar de janelas de comboio.
São estas as personagens extraordinárias que só a ficção pode resgatar ou acrescentar à História, que detalha sempre os sucessos.
Mas os sucessos são pontuais - mesmo se são eles a afectar a História de forma definitiva - enquanto os insucessos marcam o quotidiano sem qualquer descanso.
D'O Xangô de Baker Street para este livro, nota-se que Jô Soares se tornou mais escritor - a narrativa tem mais coesão - sem perder o mais puro da sua condição de humorista.
O falhanço parece ser aquilo que Jô Soares mais reivindica como matéria para ser um humorista "por escrito". E assim está à vontade para brincar com a realidade sem a desrespeitar.
Tal como o Brasil é o local que melhor lhe serve para ser cómico e terno ao mesmo tempo - é lá que os melhores momentos deste romance acontecem.


O Homem que Matou Getúlio Vargas (Jô Soares)
Editorial Presença
2ª edição - Abril de 2013
256 páginas

sábado, 10 de agosto de 2013

Fora do cânone

Um humorista é um criativo a tempo inteiro, que tem de olhar para a realidade - Presente e Passado - para lá encontrar matéria que remolda aos efeitos que pretende alcançar.
Normalmente, efeitos de espanto por uma visão nova de absurdas conjugações entre as muitas hipóteses que o mundo contém em si.
Jô Soares não se poupou na pesquisa nem nos muitos tons de matéria que juntou: Sherlock Holmes, Dom Pedro, Josephine Baker e Jack, o Estripador (além das muitas personagens da vida pública brasileira).
Sendo personagens culturalmente instituídas, têm de se lhe encontrar momentos dignos de ficção - ou nova ficção no caso de Holmes - nos interstícios dos registos oficiais. E de humor.
Parodiar figuras admiradas sem as ultrajar enquanto foge aos cânones e torna detalhes da História brasileira acessíveis e interessantes a todos, essa é a grande conquista de Jô.
Quem pega no livro tem de aceitar que é tanto leitor de uma obra como é público de uma performance de humor.
A narrativa, entendida como uma estrutura cerrada de eventos, não chega a ser o objectivo central de Jô Soares, que prefere manter a liberade de escolher e moldar os episódios que melhor servem os seus dotes de humorista.
Só depois vem a missão de escritor que ele assume, inevitavelmente ou não tivessem sido alguns dos grandes escritores brasileiros os primeiros revisores e críticos da obra que estava a ser escrita.
Por isso, o livro nunca se torna pouco "sólido". A história é concluída sem deixar pontas soltas - excepto as que o autor quer, mas já lá vamos - e as várias personagens permanecem intactas em direcção às suas vidas ou aos seus cânones.
Concluir a história é a função última - mas cuidada - do escritor, que prefere primeiro colocar em posição os muitos elementos de humor.
Os jogos de palavras, as associações de situações casuais a protagonistas ficcionais/ficcionados, a comédia de costumes ou a afectação e vulgarização do grande detective.
(Sobre a comédia de costumes vale a pena destacar em como, usando um género próprio do seu país, Jô Soares revela todo o prazer que tem em criticar o seu país, de então e de agora, mas revelando nessa crítica quanto afecto lhe tem.)
A estrutura em torno das muitas piadas pode ser um pouco frágil, mas aguenta-se contra análises pessimistas, pedindo que se aceite aqui um ligeiro grau de implausabilidade que melhora o percurso pelo livro.
Até porque só acelerando livro fora, se descobre essa piada maior, a do "falhanço" do policial. A investigação não progride bem, Holmes distrai-se com uma bela mulata, Watson mal consegue dar conta do seu estômago e, no final, o criminoso escapa impune.
Esta é uma aventura que nunca poderia entrar no cânone de Sherlock Holmes, até porque os seus brilhantes poderes dedutivos são afectados pelo contexto que é o errado para as suas conclusões estarem certas.
Pelo contrário, é uma deliciosa história de origem para o vilão Londrino, feita de cartas marcadas que Holmes, jogando em campo alheio, nunca teve realmente hipótese de descobrir.
A tirada final da piada é apontada ao leitor, que se ilude com o título e vai atrás da personagem errada. Mas não tem mal, pois é uma piada da qual não há como não rir!


O Xangô de Baker Street (Jô Soares)
Editorial Presença
6ª edição - Março de 2013
280 páginas

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Acreditar no Humano... quase

Uma personagem diz, muito cedo no livro, que a história que será contada ao narrador o fará crer em Deus. Visto que o narrador serve de figurante intermediário do próprio leitor, é a este que está a ser dito que a história o fará acreditar em Deus.
Um objectivo demasiado ousado e, certamente, capaz de insuflar expectativas igualmente elevadas num livro vulgar quando nem os livros com expressão religiosa atingem facilmente tal prédica.
Nem sequer é essa exagerada pretensão que tornará o resultado final numa obra desequilibrada e, consequentemente, falhada.
O verdadeiro problema é a maneira como a última parte do livro não responde em conformidade à longa fábula que se leu até aí, por ser demasiado breve e por ser demasiado débil para fazer o contraponto catártico às aventuras de elevação - mais do que superação - humana que Pi vive a bordo do barco.
A fantasia que mistura comportamento animal, desenvoltura humana, entendimento do divino e impossibilidades naturais poderia ser apenas uma fábula inócua. Uma versão (teoricamente) mais adulta - ou em modo de sobrevivência - das lições de descoberta pessoal que já estavam n'O Principezinho.
Poderia não fosse aquela última parte a confrontá-la e a transformar o texto numa representação simbólica da qual se podem começar a tirar ilações, embora não tão determinadas como as sobre Deus que são feitas então.
Não se entende que a componente realista do romance, ao existir, não tenha a mesma dimensão - afectiva e dramática - que tem a componente de imaginação que se esforça por escapar a grilhetas de qualquer tipo.
Pelo contrário, parece que o romance se esquiva a revelar que tem um lado negro dentro de si, como se tal contagiasse indevidamente os leitores, incapazes de compreenderem as "belas lições" do livro por si.
Daí que o protagonista seja unidimensional (numa leitura simpática) ou figura de corpo presente (num tom de crítica ríspida) na sua existência a solo.
Num barco onde só vai ele com um tigre seria impossível que Pi fosse confrontado por algo mais do que os instintos mais primários de sobrevivência, tanto de resistência física como mental, que não conhecia em si próprio.
Seria, por isso, necessário que os seus vários estados de existência chocassem uns com os outros de forma mais decisiva. A sua vida agora apaziguada contra a verdade daquele período que o define, mais do que qualquer outro momento, ou não estaria ele a relatar tal história com a sua vida na Índia e no Canadá - com eventos importantes como a descoberta simultânea de três religiões ou o casamento seguido do nascimento dos filhos, respectivamente - a servirem de meras balizas à vida a bordo do barco.
Falta ao livro a força da interpelação, pois mesmo com os investigadores japoneses a perguntarem pela correspondência daquela estranha ilha da história, não sei se haverá desejo dos leitores de lhe procurarem um significado possivelmente terrível quando o episódio não guarda verdadeiros perigos.
Neste desequilíbrio de partes o livro faz, ao contrário do anúncio inicial e de forma acidental, um retrato do esforço humano na criação, representação e reprovação de Deus. Tarefas importantes para ocupar a mente humano quando se vê obrigada a confrontar a solidão, o medo ou a culpa.
A religião e os seus rituais servem a Pi para ocupar o tempo. O volume da descrição de uma viagem imaginária supera largamente o da descrição seca da realidade. Assim é a mente humana capaz de superar o que conhece para criar algo engrandecido.
O grande trunfo do livro deveria ter sido esta dúvida levantada sobre a possibilidade de a religião, mesmo que pareça manifestar-se em momentos de enorme exigência, ser mais um veículo da capacidade humana para a criação e para o livre-arbítrio.
Se, intencionalmente, o livro trata com placidez crítica a integração possível de todas as religiões numa mesma dimensão de superação da condição humana, deveria ter ido mais longe e celebrá-las como um dos corolários extraordinários da criatividade humana.
Dessa forma o livro teria superado o "quase" e teria feito com que se admirasse o resultado extraordinário da mera condição humana.


A Vida de Pi (Yann Martel)
Editorial Presença
9ª edição - Janeiro de 2011
328 páginas

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Defeitos do livro de ficção que nunca o foi

Estamos perante um livro que não é um livro, antes aquilo a que chamaria uma longa carta de memórias escrita por um pobre rapaz indonésio que atingiu grande sucesso, para a professora que o inspirou a conseguir superar-se.
Digo-o por uma avaliação estética e estrutural da obra. Ambos os aspectos são pouco consistentes e reflectem o amadorismo que está ligado à forma como o autor abordou o trabalho.
O livro não tem uma ideia de narrativa a longo prazo, vivendo de pequenas conquistas que vão sendo feitas pelos alunos daquela escola.
Mesmo pelo meio desses pequenos momentos de narrativa, o autor vai derivando para pormenores que lhe parecem advir de memórias extemporâneas que considera merecedoras de figurar no livro.
Há capítulos que brotam de forma surpreendente e que parecem existir isolados dos que imediatamente os precedem e sucedem.
Isso causa um sentimento de perda na cronologia do livro: de imprecisões na continuidade a incerteza na idade que os miúdos têm a cada episódio. Curioso que tal aconteça porque, no caso mais provável, o autor tentou ser o mais rigoroso possível com o tempo que passava, não tendo depois recorrido às ferramentas literárias para melhor harmonizar ou mesmo reconstruir a cronologia individual dos episódios com a global da história.
Estamos perante um fluxo de memória que terá sido escrito num impulso com intenções meramente pessoais e o qual terá chegado à publicação por causa de alguns dos valores que exalta.
Afinal este é um romance apenas porque o autor assim lhe chama para poder aceitar as pequenas liberdades literárias que usa para passar as suas memórias a um formato escrito.
Os episódios inseridos num impulso têm ainda mais um efeito incontornável, o de criar um sentimento de estarmos a entrar, mais do que uma vez, em terreno de realismo mágico.
Terreno que dá um certo exotismo ao livro, o que o distinguirá de uma história idêntica passada no mundo ocidental, mas que também nem sempre é o mais compatível com a história simples onde se distinguem com facilidade os "bons" dos "maus".
Aliás, na combinação desse terreno de conto de fadas com essa moralidade evidente, o livro parece mostrar-se mais apontado a crianças do que adultos, dando-lhes as apropriadas lições: que a educação é sempre algo pelo que devemos lutar, que o capitalismo feroz é o inimigo maior do indivíduo e do seu sucesso e, até, que a inspiração deve vir de alguns ídolos mas também da religião.
Mas se necessidade de dar as lições prevalece sobre a arte de narrar, na verdade a moral não prevalece sobre a realidade.
A surpresa que afasta o livro de uma auto-ajuda exótica para o leitor ocidental é o seu final, uma confissão sobre as vidas dos protagonistas muitos anos depois. A maioria saiu derrotada, submetida a maus trabalhos e vidas difíceis, apesar da luta daquela época.
Curiosamente, o insucesso generalizado acaba por reforçar a ideia de que a professora homenageada e que tanto inspirou o autor, é a personagem menos valorizada pelo livro.
Os seus esforços são nobres, mas os seus feitos não são extraordinários. E se deu a um dos rapazes um futuro melhor foi numa mistura do acaso com o esforço individual dele.
A sua maior qualidade vem da turma que teve a sorte de encontrar, com um sobredotado, um artista e um rapaz (o protagonista) que se valoriza com o tempo, entre outras personalidade que se complementam perfeitamente (naquilo que diria que era um esforço demasiado grande da ficção, não estivéssemos perante o que são quase Memórias).
O protagonista acaba por ser quem mais se evidencia, como não poderia deixar de ser num livro de memórias com um ponto de vista único, embora por vezes a roçar perigosamente o auto-elogio.
Mas são algumas de entre as outras personagens que acabam por se revelar muito interessantes ao longo do percurso feito, com as mais pequenas vitórias - e derrotas, que mostram muitas vezes maior força como lições humanas do que todo o resto do livro - pessoais a proporcionarem os bons momentos do livro.
Sobretudo Lintang, o rapaz de intelecto extraordinário que pedalava quarenta quilómetros para a escola, que não nos permite vê-lo como um injustiçado pois tem felicidade na vida simples de pobre pai de família.
Não consigo dar o meu beneplácito ao livro apenas a partir destes elementos positivos - uma personagem e uns seus quantos episódio - mas estou em crer que o leitor mais apropriado ao livro será levado pela combinação do exotismo geográfico com a temática cada vez mais premente do desprezo dos "nossos" jovens pela sua educação.
As lições passarão facilmente por uns leitores que os oferecerão depois a outros e assim por diante, garantindo um sucesso razoável ao livro.
Assim, o seu objectivo principal talvez esteja alcançado, pois a homenagem maior do autor à sua professora é a de ter alcançado um público vasto e fazê-lo conhecer a realidade vivida por aquela turma em defesa da sua escola.


Os Guerreiros do Arco-Íris (Andrea Hirata)
Editorial Presença
1ª edição - Março de 2013
288 páginas

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Biografia sóbria para uma vida dramática


Os contornos gerais da história de Aristides de Sousa Mendes são conhecidos, mas não há dúvida de que os detalhes devem ser melhor divulgados.
O salvamento de trinta mil vidas é um feito assinalável mas que ganha ainda mais força no contexto de uma vida definida pelo que o homem foi antes e sofreu depois.
A enormidade extraordinária do acto de passar vistos sem excepção alguma cresce pela maneira como surge - de uma dura confrontação da consciência com o dever que o manteve três dias prostrado perante si mesmo - e pela maneira como o deixará - na pobreza e muitas vezes só até ao fim da vida.
O que ele penou em nome de trinta mil vidas merece acompanhar todos os relatos que se vão esvaziando a pouco e pouco até deixar apenas um heroísmo fácil de alcançar.
Até porque não é só a consciência moral de Aristides que deve ser enaltecida, mas também a sua consciência enquanto servidor do país.
Aristides quebrou as regras que lhe eram ditadas pelo governo de Salazar por crer que estas estavam erradas perante a Constituição Portuguesa e que, como tal, estava a preservar a imagem de um país perante o Mundo e perante o Futuro.
Uma verdade que o Tempo tratou de confirmar não sem que antes o próprio Salazar - que, com a ingenuidade dos que medem nos outros a mesma elevação que é a sua, Aristides cria estar a ser mal aconselhado - recebesse louvores por ter permitido a tantas pessoas receberem vistos e atravessarem Portugal em direcção à salvação do outro lado do Oceano Atlântico.
Para se poder reconhecer o verdadeiro heroísmo do homem deve, pois, compreender-se o risco em que esteve a correcta memória dos seus actos.
Esta é uma biografia que valoriza essa percepção, sóbria e directa no relato dos dados mais importantes que marcaram a existência de Aristides.
José-Alain Fralon mostra um distanciamento reconhecido - e não reverente - ao sujeito sobre quem escreve, permitindo-lhe relatar sem embaraço nem exagero a verdade reconhecida.
Sendo essa a mais significativa característica de Fralon enquanto biógrafo, torna-se também no fundamental instrumento de frustação para o leitor em alguns momentos do livro.
O autor parece tocar alguns momentos da vida sem aprofundar - ou arriscar reflectir ele próprio - sobre os latentes confrontos entre o carácter um pouco dúbio e a acção sempre meritória do biografado.
Não se trataria de ceder a qualquer promiscuidade de paparazzo moderno, pelo contrário, serviria a enaltecer os actos de Aristides perante as suas falhas mundanas e compreensíveis.
Entenda-se tal reparo como a vontade de encontrar um tratamento dramático para a vida de Aristides que o encorpasse ainda mais como figura do seu tempo e como herói acima de qualquer outra das suas características.
Uma leitura importante que pede - pela dimensão e pelo tempo que sobre a sua publicação original passou - que nela peguem para mais longe chegarem com a matéria promissora com que se fez a vida do Cônsul de Bordéus.



Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português (José-Alain Fralon)
Editorial Presença
4ª edição - Outubro de 2012
128 páginas

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ta(o)nta felicidade

Este é um romance notoriamente pós-Le fabuleux destin d'Amélie Poulain.
Um romance que não se fica só pela linearidade da sua história mas passeia-se por um mundo de detalhes que surpreendem pelo encanto ou pela estranheza.
Os capítulos que são apenas uma lista, uma definição de dicionário ou a letra de uma canção intrometem-se na narrativa como indicações de contexto popular que o próprio narrador não daria mas que o leitor apreciaria.
O encanto de tais interrupções não é permanente, funcionando melhor se há mais relevância no que surge de fora ou se faz eco na própria narrativa.
O resto do tempo, a interrupção é indesejada mesmo se curta, porque não tem a função que tinha no filme, de escapatória para a personagem central que acabava por definir a sua embaraçada acção exterior.
As informações intercaladas são responsabilidade única do autor sem que a sua inevitabilidade esteja provada.
Isso talvez seja assunto de somenos num livro de leitura leve, um pequeno romance de modestas intenções.
Um romance assente na delicadeza das personalidades que constroem um amor poderoso com base na inoperância emocional que causa, a ele e a ela, acidentais tribulações que acabam por provocar no outro reacções vibrantes (e assolapadas?).
Um amor franco-sueco pode nascer de uma entrada a destempo num escritório onde um beijo de celebração (e sem segundas intenções) o apanha de surpresa. E pode crescer com a recusa dele em continuar com os jantares que não avançam para o amor que ele sente, o que acaba por o tornar misterioso aos olhos dela.
Se o amor floresce pelo acaso, já não é só pelo acaso que as pessoas florescem no amor.
Antes apagados na sua pequena comunidade, afirmam-se como as mais interessantes das personagens, primeiro pela imaginação alheia e, no final, pela sua própria determinação.
Não é o tipo de livro que conheça bem, mas entendo que esta é uma história esperançada, própria para ser lida nos tempos melhores de cada um ou passará por uma cruel exibição de felicidade.


A Delicadeza (David Foenkinos)
Editorial Presença
1ª edição - Agosto de 2011
323 páginas