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domingo, 5 de julho de 2009

Um negócio como outro qualquer

Peguei com deleite neste A Loja dos Suicídios que tem um título - e um trabalho gráfico - delicioso.
Mas com igual confiança pois era já o segundo livro de Jean Teulé que me preparava para ler e perante o primeiro, esperava tudo menos desapontamento.
E confirma-se que se trata de mais um livro indispensável a quem pretende rir-se do mundo que o rodeia, tanto graças a um humor negro certeiro como a uma ironia que se revela discretamente em subtexto.

Assim que se entra neste negócio de família que garante o sucesso da morte aos que falharam na vida, deliciamo-nos sem parar - literalmente, pois é impossível pousar o livro antes de lhe atravessar as suas 160 páginas - com esta história mórbida ao ponto do gargalhar.
As ideias um pouco tresloucadas, histriónicas de forma provocatória e radicais para a moral vigente, são um compêndio de humor "de morrer a rir".
Por detrás de tudo isto encontra-se, pois, uma crítica à sociedade actual, à nossa percepção da felicidade e da maneira como a buscamos ou como, pelo contrário, no rendemos ao conforto da sua falta.
Não é por acaso que há muito mais sinónimos para tristeza do que para felicidade. Este é um sentimento cultivado com ênfase - e prestigío, será? - nas Artes como no Mundo.
De certa forma caminhamos para a capitalização do infortúnio alheio até que atinjamos este ponto, da venda do suicídio.
Claro que estamos ainda um pouco longe de termos um parque temático onde se paga para ser o alvo em vez de alvejar patos, mas a partir das oito da noite vê-se facilmente que a desgraça dá audiência, a desgraça vende, a desgraça é um negócio.
Torná-lo num negócio como outro qualquer é, pois, o burlesco e o génio deste livro.

O livro está, entretanto, em fase de passagem ao cinema de animação.
Prevê-se mais uma delícia para os que leram este livro, para os que gostam da imaginação de Tim Burton ou para quem guarda na memória as histórias d'A Família Addams.
Eu, culpado em todas as três acusações anteriores, cá esperarei ansiosamente o meu lugar n'A Loja dos Suicídios!


















A Loja dos Suicídios (Jean Teulé)
Guerra e Paz
1ª edição - Março de 2008
160 páginas

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A virulência do luxo

Montespan é um romance histórico sem pudores.
Atira-se à moralidade das aparências do tempo que descreve sem restrições.
Ficcionando a vida do esquecido marido da amante favorita de Luís XIV - cuja elogiada beleza loira poderão ver na pintura que dela fizeram (o autor permanece desconhecido) -, vasculha a podridão do luxo da corte de Versalhes .
Não há aqui embelezamentos de oca grandiosidade, nem a forma "chique" de um propalado choque - de mentalidades, comportamentos ou revelações.
Aqui lida-se com a secura do relato sincero e, por isso brutal.
As aparências são arrancadas e reduzidas à sua realidade mais comum que tenderíamos sempre a rejeitar.
Acabam-se aqui as convenções.
E que bom é ler um romance histórico assim tão refrescado pela ironia!

Felizmente que Montespan não é apenas (mesmo que já fosse tanto) este efeito.
Aqui fala-se de um homem tão patético quanto admirável no seu amor grandioso e honesto entre um mundo tão mirrado.
Estoicamente ele lutou pelo seu amor, com as mais escabrosas e inusitadas armas que o destino lhe deu.
Seria mais fácil e proveitoso que ele se rendesse, mas a rendição era a única possibilidade que ele não encarava.
Como um louco atravessou a vida, desafiantemente "cornudo" bem na frente do rei.
Montespan é um Dom Quixote do lado errado da vida, incapaz de imaginar os seus próprios monstros.
Os seus são mais reais e muito menos admiráveis.
Ele tem de lutar com o monstro que tudo pode mas que atrás de si deixa apenas um rasto de sémen e merda - muito literalmente, posso garantir!
Montespan, o homem, é admirável e ridículo, já o disse.
Até ao último sacrifício por amor ele consegue fazer-nos querer rir dele, somente para nos rendermos a ele numa derradeira vénia.

Jean Teulé escreve-lhe a vida com eloquência, mas com ironia e desapego.
Faz da escrita um ponto de desarme de efeitos exteriores para que nos centremos na força desta história.
Por isso é que Montespan é um romance essencial!


















Montespan (Jean Teulé)
Guerra e Paz
1ª Edição - Março de 2009
320 páginas