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domingo, 15 de agosto de 2010

Demasiada excitação

O que de mais interessante ocorreu em Sangue Furtivo foram os episódios sobre o funcionamento da competição de poder numa alcateia de lobisomens, a dicotomia entre o cerimonial severo de um funeral em que os fatos e a disposição agrilhoam a natureza dos lobisomens e as provas físicas onde toda a violência dessa natureza se solta.
Ocupam dois capítulos que acabam afogados no meio de mais uma quantidade de incontáveis peripécias e uma aventura semi-policial que já em pouco diferem das que surgiram nos livros anteriores.
Aliás, na vida dos personagens, a cada poucas semanas estão envolvidos em mais destes eventos exagerados. Para uma rapariga a tentar passar despercebida e uma raça a tentar imiscuir-se em sociedade, é impressionante como a realidade acaba por ser tão contrariadora.
Se se trata de uma obrigação para com os leitores, de os manter surpreendidos e entretidos, seria também necessário começar a construir eventos que tenham repercussões de futuro e não deixar que os seus efeitos terminem no final do próprio livro.
Esta saga, neste momento, precisa de um livro que não tenha de ser emocionante, que possa ser apenas uma construção teórica e demorada das linhas mais importantes de uma mitologia moderna para um conjunto cada vez mais vasto de criaturas sobrenaturais.
Correr o risco de ser aborrecida por um livro pode ser a forma de levar a saga Sangue Fresco um pouco mais além e de reconquistar leitores.


















Sangue Furtivo (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª Edição - Abril de 2010
256 páginas

domingo, 4 de abril de 2010

Mitos modernizados

O mito do vampiro não deixa de ser um mito profundamente carnal, cuja representação da penetração dos dentes na pele e respectivo sangramento se pode associar ao desvirginar sexual das mulheres.
De certa forma, Charlaine Harris está apenas a actualizar essa representação carnal para uma geração que, mais de 100 anos depois de Bram Stoker, tem muito menos pudicícia ou necessidade para um innuendo. Uma dentada na veia do interior da perna é muito mais explícita do que no pescoço e, nem por isso, os leitores parecem considerar que estão mais próximos de um erotismo tornado evidente.
Além desse, ela também trata de actualizar outros mitos, do lobisomem às bruxas, sendo evidente que lhes dá um carimbo mais consonante com o entendimento moderno de como estes grupos se inseririam no mundo.
Aliás, mais ainda, ela adapta os mitos a uma tradição profundamente enraízada no imaginário profundamente americano, profundamente sulista mesmo. Para uma sociedade que tem absorvido essa cultura por todas as formas de entretenimento, é quase reconfortante esta releitura em forma de entretenimento.
Será justo admitir que o público primário da saga será sempre o feminino, dado que a personagem central é uma rapariga a ganhar sistematicamente independência e força contra os mais inusitados seres sobrenaturais que tentam tomar conta da sua vida como bem lhes dá jeito.
O único problema de ler dois livros de seguida é notar-se perfeitamente a sistemática repetição de informações. Compreende-se qua assim uma pessoa possa iniciar a leitura em qualquer um dos volumes sem grandes problemas para compreender o cenário global que a autora montou.


















Clube de Sangue (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª edição - Outubro de 2009
236 páginas




















Sangue Oculto (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª edição - Janeiro de 2010
272 páginas

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Há momentos em que convém

Alguns amigos meus têm estranhado por me verem a ler esta saga, num misto de perplexidade de me encontrarem com um género que me é pouco habitual e julgamento crítico de superioridade intelectual.
Há mais do que um motivo para que tal aconteça, mas deixarei aquele que se possa apresentar de forma concludente.
Esta saga aglutina características tão diversas de uma forma coerente e capaz, talvez não perfeita em si mesma, mas perfeita perante o objectivo que a rege.
É uma obra despretensiosa, que se propõe a cativar um leitor pelo divertimento que lhe proporciona.
Com uma parcela de novela - capaz de irritar o leitor masculino a páginas tantas - , outra de mitologia inserida no mundo moderno, outra de aventura e mistério, outra de puro humor negro e ainda outra de comentário social, a saga de Sangue Fresco consegue engajar o leitor no seu universo peculiar de forma simples e eficaz.
Melhor ainda, consegue manter o leitor por lá, abstraído e confortável, desejoso de mais um regresso, de mais uma peripécia, de mais um reencontro com as personagens.
Por estes motivos, esta saga conseguiu gerar uma igualmente interessante série televisiva e consegue agregar um público diversificado.
Em somatório, Dívida de Sangue é uma viagem de dois dias por um pedaço de entretenimento sólido e cativante.
E isso, mais do que nos bastar, por vezes convém realmente.


















Dívida de Sangue (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª Edição - Julho de 2009
256 páginas

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ficar sedento

Sangue Fresco é uma inovadora e perspicaz forma de abordar as histórias de vampiros.
Pelo seu cenário ou pela forma como estabelece relações e hierarquias entre vampiros.
Pela riqueza do universo fantástico circundante ou pela aglomeração de géneros - thriller policial, por exemplo - num todo coerente e empolgante.
Mas, sobretudo, pela sua reflexão social em pano de fundo.
As implicações sociais da presença de vampiros no seio das comunidades humanas reflectem temas que vão do racismo à desagregação familiar ou da mudança de comportamentos sexuais ao tabu vigente em sociedades mais fechadas.
Os vampiros como representantes de minorias e como despoletadores de comportamentos tipicamente humanos, dignos de nota e reflexão ou, se preferirem, entretenimento desafiante.

Não há aproximações certeiras que se possam fazer a não ser com alguma banda desenhada.
Fazendo (boa) literatura com tais temas sociais com pano de fundo e com tais tramas romanceadas como chamariz seria algo difícil de antever, mas assim acontece.
Mas tudo isto gera uma história que nos mantém entusiasmados e seduzidos pelo seu romance, pelo seu policial e pelas suas inúmeras possibilidades dentro do género de fantasia.
A escrita simples de Charlaine Harris, lógica perante as personagens que se apresentam, serve como um trunfo, pois é eficaz e ritmada.
Mais do que isso, à medida que as páginas progridem, a escrita ganha mais versatilidade e dinâmica, além de qualidade. Pelo final do livro, a escrita deixa-nos sedentos por mais.
Cá esperamos por mais Sangue Fresco!


















Sangue Fresco (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª Edição - Abril de 2009
272 páginas