Mostrar mensagens com a etiqueta Nick Hornby. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nick Hornby. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O tramado último episódio

Nick Hornby lançou.-se a escrever sobre o que é uma instituição mundial, a Britcom, de um ponto de vista inesperado: uma rapariga cuja voluptuosidade lhe garantirá o futuro que quisesse mas prefere dedicar-se à comédia.
Esta escolha, a par do facto dela se deslocar do "campo" para Londres permite-lhe explorar os traços mais grossos pelos quais se definia o desfasamento interno do país.
A aparição de Barbara numa audição é o que despoleta mais uma das importantes transformações que a capital inglesa haveria de conhecer na década de 1960.
Contrariando a vontade do seu agente em que seja modelo de biquinis para tentar o seu sonho de ser uma nova Lucille Ball, Barbara acaba por fazer valer a sua história como matéria para a comédia que virá a gravar.
Como jovem rapariga de Blackpool confrontada com um preconceito masculino, ela faz valer a realidade para acrescentar veracidade à representação das mulheres na comédia.
Nem importa que entre os homens que a julgam pelo seu aspecto estejam dois que até são homossexuais e, por isso, também sujeitos às constrições daquela era.
Ela só consegue fazer valer o seu projecto porque naquele momento as ideias estão em falta.
O humor encontrou um obstáculo à sua renovação. A Guerra já terminou há muito e ainda não houve maneiras de trazer as novas preocupações sociais para a televisão, onde ainda se tenta refazer o humor da rádio.
Secretamente Barbara - que entretanto assumiu um nome artístico - está a interpretar a sua vida numa série que dá a supremacia à mulher ingénua de um Inglês típico e sério, um parlamentar.
Os melhores momentos do livro acontecem a partir do momento em que Hornby coloca a sua escrita atraente e desembaraçada ao serviço dos momentos de escrita dos argumentos de "Barbara (e Jim)".
A compreensão que os personagens do livro começam a ter sobre o que estão a fazer torna-as mais completas. Ajudam-se e confrontam-se e a interacção entre eles fala com clareza das restrições da sociedade e do ambiente de criação de um período dourado do humor televisivo.
À medida que a série é renovada para novas temporadas as preocupações com a criação reflectem as alterações que a própria série trouxe à televisão mas, igualmente, aquilo que se verifica na sociedade que fez da série um sucesso transversal.
Com os personagens a viverem os primeiros efeitos da exposição mediática, os seus esforços vão para a manutenção de uma percepção conservadora acerca das suas vidas enquanto lutam para viver as liberdades que desejam.
Para depois tornarem à série com esse tópico tentando dar à sociedade uma consciência maior e mais aberto do seu país.
Um processo moroso e difícil. As consciências não se alteram por via de uma comédia só, não interessa quão bem sucedida seja.
Hornby aproveita para explorar esse lado mais complicado da vida dos seus protagonistas, que nenhum sucesso evita ter de enfrentar.
Ainda que com elementos telenovelescos, o livro ganha com adensamento das situações para lá da criação de "Barbara (e Jim)", cada vez mais um fio que liga a todos de forma muito ténue. O efeito narrativo devidamente adensado pelas procuras individuais de crescimento.
Se o retrato dos swinging sixties ganha dimensão, o livro perde em garra.
Teria sido extraordinário saber das vidas destes personagens não tivesse Hornby acelerado para rematar a história com um final feliz (até mais pacificado do que feliz) já nos nossos dias.
Nessa parte o autor parece estar a terminar uma série com aqueles parágrafos que projectam vidas futuras para lá do The End, ou seja, pouco esforço de imaginação e ainda menos peso para os fiéis das personagens.
O que isso faz é minorar as vidas dos que viveram nas páginas, que foram transformadores na época que o livro retrata e que ali descem à banalidade.
Não importa o saudosismo apreciador que seja dedicado a Barbara e a todos os que com ela criaram a série. Nisso não se vê o efeito forte que eles pareciam ser capazes de ter na sua época áurea.
Era na década de 1960 que Hornby os tinha de deixar, dedicando-lhe por completo, fosse no seu falhanço ou no seu sucesso.
Fazer "Barbara (e Jim)" ser aplaudido à distância de muitas décadas torna demasiado fácil o reconhecimento da influência, quando o livro é precisamente sobre o esforço de a procurar.


Uma Rapariga Endiabrada (Nick Hornby)
Porto Editora
1ª edição - Outubro de 2015
352 páginas

sábado, 29 de agosto de 2009

Literatura popular

Nick Hornby é um escritor de apurado sentido popular, que explora as mais convencionais e reconhecíveis situações com uma casualidade e uma facilidade que falam directamente ao homem comum que se esconde (ou nem tanto) por detrás do leitor exigente.
Esse sentido pop é o que lhe permite conquistar o seu público, pela identificação e por uma certa dose de humor, para depois lhes falar de temas nada menos do que perturbadores.
Temas que passam pelo suicídio, pela inadaptação, pela falta de concretização da vida ou pela destruição do conceito de família.
O apelo de Nick Hornby é então esse, de falar de temas tão comuns – acima de tudo, as relações – de forma tão desavergonhada, tão realista quanto mordaz, tão compreensiva quanto destrutiva.
Isso é algo que parte desde logo da escolha dos seus temas, temas que lhe são queridos a ele como a 80% – valor fabricado neste preciso momento! – da população ocidental. Futebol, música, romantismo. E com certa leveza de vocabulário, com uma predominância da oralidade, com um encadeamento escorreito, vai encobrindo a seriedade de muitos dos subtemas que lá se encontram.
Essa conjugação de factores acaba por ser também aquilo que torna as suas obras em material tão bom e fácil de se ver adaptado ao cinema.
Mas embora Era uma vez um rapaz seja um bom livro, não tem o mesmo encanto que Alta Fidelidade teve quando o li, esse livro que era ele próprio uma forma de canção pop sobre o amor e sobre a música, o que me impede de estar certo de voltar a reencontrar-me com Nick Hornby.


















Era uma vez um rapaz (Nick Hornby)Teoremasem indicação da Edição - Maio de 2000
296 páginas