Mostrar mensagens com a etiqueta Editora Objectiva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Editora Objectiva. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de maio de 2015

Problemas à primeira

O Nadador mostra potencial mas sofre de problemas que se podem apontar a uma única e óbvia causa, ser um primeiro trabalho.
Joakim Zander tem boas ideias, faz uma escolha perspicaz de cenários, tenta criar personagens cativantes e coloca-as num cenário de relações geopolíticas ao longo das eras que proporciona uma base de ligação realista à trama.
Com esses elementos do seu lado o autor consegue criar capítulos empolgantes onde a tensão passa pela forma como o cenário é usado pelos personagens ou como as conspirações do poder se abatem até sobre quem julga poder delas falar numa sociedade evoluída.
Com isso Zander aproveita mesmo para fazer reflexões morais pertinentes - sem forçar conclusões nos leitores - sobre as formas de actuação (de grande e pequena escala) dos serviços americanos em cenários do Médio Oriente.
São esses mesmo personagens que estão em demasia na trama, não porque ela não almejasse o suficiente para os albergar mas porque para todos elas há a tentativa de um tratamento de primeira instância, como se pudessem ser elevados a personagens centrais sem custos para o desenvolvimento mútuo.
Até pelo investimento nos personagens que essa abordagem exige - e que não é depois compensado quando são removidos por deixarem de interessar à trama - é uma escolha contraproducente.
Todos excepto o que dá título ao livro e que é mantido em grande medida numa incompletude que quer funcionar como aura de mistério.
Justificava-se que assim fosse caso a sua relação com Klara Walldéen, a real protagonista, fosse mais difícil de definir ou aceitar.
Pelo contrário, é muito fácil - e muito cedo ainda - perceber qual a importância d'o nadador na vida de Klara e aquilo que ele vai personificar na resolução da trama.
Uma resolução que vale pela tensão que já foi valorizada, mas que não é tão complexa assim que justifique os múltiplos pontos de vista que são usados.
Por ser um momento "de acção", parece um caso de montagem cinematográfica para adicionar emoção (desnecessária) de forma artificial ao que ali acontece.
Mais visível nessa secção do livro, a pouca precisão com os saltos entre tempos, locais e personagens da história, sendo o mais comum que o autor não deixe correr o suficiente os capítulos para melhor apreciarmos as motivações de cada acção.
Por serem estas questões de execução se afirma que os problemas de um primeiro esforço, que se corrigidos pela experiência podem conduzir a uma maior apreciação das suas ideias que querem estender a consciência dura dos policiais nórdicos à leitura da política de guerra mundial.


O Nadador (Joakim Zander)
Suma de Letras / Editora Objectiva
1ª edição - Julho de 2014
464 páginas

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Perfeito quando é humano

Por falar em regressos, no extremo oposto do de Hitler, temos Jesus Cristo. As mensagens de cada um podem colidir mas o método que eles encontram para a divulgar é a mesma: projecção televisiva.
O Jesus de Niven faz-se entertainer, tal como o Hitler de Vermes. Em vez de passar por um comediante com ascendente político candidata-se a um daqueles concursos para descobrir o melhor cantor da América.
Foi a oportunidade que encontrou para cumprir a sua missão depois do seu pai, ao regressar de umas breves férias (uma semana no Céu, dois milénios na Terra), o reenviar à Terra.
O plano é, com as diferenças naturais de tantos anos de distância, sensivelmente o mesmo que havia da primeira vez: transmitir o seu único e verdadeiro mandamento, "Sejam simpáticos".
Ao que parece Moisés achava que um mandamento era pouco e tratou de aperfeiçoar a coisa...
A partir da sua inconformidade para com as regras do programa, Jesus torna-se numa estrela rebelde capaz de transmitir a sua mensagem.
Através das acções. Em vez de capitalizar a sua fama, ele trata de usar o adiantamento do dinheiro de um disco para criar uma comuna terrena capaz de imitar o céu: as armas são proibidas, a energia é "verde", todos são admitidos e a erva flui livremente.
Isso será a ruína que levará a uma nova condenação à morte, confundido com um chefe-de-culto-e-terrorista.
A crítica aos males da Humanidade feita a partir desta história não deixa de ser pertinente - quem dera que o pudesse ser - mas também não vem acrescentar nada de novo.
Esse não é o interesse do romance, nem mesmo o é o humor que o autor lhe imprime e que é uma das poucas constantes de um livro muito oscilante em tom e qualidade.
John Niven consegue despertar verdadeiro envolvimento com o livro no momento em que descrever as deambulações de um Jesus profundamente humano.
Uma espécie de hippie consciencioso e determinado, capaz dos sacrifícios mais simples aos mais tenebrosos.
Essa parte do livro é cativante e quase imaculada, conseguindo criar uma personagem com a qual queremos conviver longamente.
Com esta personagem, que ao sair de casa deixa o seu pouco dinheiro aos amigos para eles tomarem o pequeno-almoço ou que ao ser preso cede a ser sodomizado para evitar a violência no interior da cela sobrelotada, John Niven pode ter conseguido criar um texto que concretiza aquilo a que este Jesus vem.
Este Jesus é capaz de nos persuadir do prazer de ser Bom pela forte sensação de alegria que nos transmite.
O talento de Niven é muito e está todo presente aí, como também o está nas passagens em que descreve as sensações que a música tocada pelo seu personagem causa nos outros. Verdadeira música sem ser preciso utilizar a audição.
Niven tem um domínio das palavras carregadas de emoção que tem de ser descrito como genial, sem qualquer hesitação.
Pudesse ser todo o livro assim e estaria apenas a enumerar elogios mas esse pedaço de brilhantismo está emparedado entre componentes bem menos interessantes.
Antes vem aquela descrição humorada mas não profundamente original dos meandos do Céu e, sobretudo, do Inferno. O choque pelo exagero não deixa de fazer rir, mas não mais do que, por exemplo, a representação do Inferno em South Park: Bigger Longer & Uncut.
Depois vem a descrição da América Profunda amedontrada em jeito de aviso catastrofista. É uma solução quase óbvia para a trama e não faz mais do que repisar uma certa paranóia já gritada em muitos media.
Em termos de radicalismo do humor tinha ficado muito mais interessado em que Niven explorasse as contradições que Jesus vem apontar aos que mexeram nos números dos textos Bíblicos inventando milagres onde havia pão e peixe suficiente para as apenas cinquenta pessoas que seguiam Jesus.
Algo que poderia ter feito para cumprir com a sua intenção de integrar o seu livro na tradição da melhor comédia acerca da religião.
Parece a marca de uma certa arrogância fazer uma referência a Life of Brian logo no início do livro, como parece pouco mais que pilhagem concluí-lo com uma reformulação da frase de Lenny Bruce acerca do que os crentes usariam ao pescoço no caso de Jesus ter sido morto num dos estados americanos que ainda aplicam a pena de morte, apenas colocando uma seringa no lugar da cadeira eléctrica!


A segunda vinda de Cristo (John Niven)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Julho de 2013
448 páginas

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ninguém fica incólume

As datas, as datas nos dois extremos do seu serviço militar. O que quer que sucedesse entre elas era enfeite e ar, e não mudaria o sítio ao qual ela iria dar.

Está na página 222 o trecho acima, que me parece o momento fulcral para este livro e para compreender as suas personagens.
A história de um conjunto de amigas, adolescentes e israelitas, que têm de ir cumprir o serviço militar e que durante todo esse período se mantém como até aí.
E como até aí é como para a maioria das adolescentes: despreocupadas, inocentes, divertidas, namoradeiras, irreverentes.
Para elas o serviço militar é um período como o da escola, um período de regras e constrangimentos no qual devem conseguir fazer valer a sua personalidade.
O espírito adolescente não admite vergar-se ao peso da responsabilidade, crê que é o contrário que acontecerá, que bastará continuar a ser como sempre foi para atravessar o período que vai contra o seu natural descomprometimento.
Shani Boianjiu tratou cada uma das suas personagens individualmente, sendo cada uma das adolescentes única e convincente.
As vozes são distintas mas partilham o que é comum à idade - vivacidade com um ou outro momento de angústia, dúvida resolvida seguindo adiante - e isso aproxima cada personagem das outras.
Afinal cresceram como amigas e separaram-se apenas por obrigação. Cada uma no seu posto leva uma porção da mesma essência, deixando o seu comportamento individual perceber as diferenças que cada uma já tinha dentro de si mas, também, do cenário onde foram parar.
Revistas diárias e atentados eminentes, expressão real dos ódios de muitas décadas que vêm de antes delas e que depois delas permanecerão. Ainda que elas pareçam ignorá-lo, em parte.
Pelos olhos delas as relações que criam com os Palestinianos ou os Egípcios podem conter um grau de simpatia e bondade.
Não conseguem compreender que aos olhos alheios, envergando aqueles uniformes elas já não são as raparigas de olhos simpáticos de outrora, são inimigos armados e prepotentes.
O maior dos feitos da autora é o de conseguir alcançar a magníficência das existências de cada uma das suas personagens, capazes de nos fazerem esquecer da duas realidade em que servem.
Perante isto, o trecho da páginas 222 reforça o seu papel essencial de revelação do livro. Não porque seja verídico, mas porque define a ilusão que elas - e nós, leitores, que somos seduzidos pela alegria destas raparigas - acarretam quase até ao final.
Até ao final... do serviço militar... do livro.
Até àquela indesejada surpresa que deveria ser a mais esperada das consequências.
A lembrar que nenhuma realidade em que tudo se confronta - a idade com a obrigação, um povo com outro, a inocência com o horror - pode deixar incólumes aqueles sobre os quais se abate.
Nem estas raparigas, que durante tanto tempo e contra a pior realidade do seu serviço militar, se mantiveram o maravilhoso desabrochamento das suas exitências.
Por mais surpreendente que seja no momento da leitura, torna-se na única expectativa realista que poderia haver para a ideia concreta do que é um serviço militar imposto indiscrimidamente a todas as pessoas ao atingirem os 18 anos.
Na verdade, de entre todos os que cumprem o serviço militar em Israel, talvez sejam mesmo as raparigas que a ele melhor "sobrevivem", com um salutar descomprometimento pessoal para com ele.
A autora consegue o mais difícil, impôr a maldade no último momento da história sem que tal pareça uma cena de efeito-choque.
Acreditamos no que acontece a estas raparigas, como acreditámos nelas durante todo o livro. Seguimos adiante mas ficamos com pena do que aconteceu a estas personagens que foram pessoas concretas durante tantas páginas.


O Povo da Eternidade não tem Medo (Shani Boianjiu)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Agosto de 2013
368 páginas

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Irrealismo canalha

Gosto de Charles Bukowski, embora não tenha lido tudo quanto queria da obra dele. Gosto da maneira desabrida como escreve mas, mais ainda, de como esparralha a sua existência nessa escrita.
Um tipo encher os seus parágrafos de peçonha é um efeito que pode dar bom ou mau resultado. Um tipo transformar a sua própria misantropia desanimada em literatura - e com ela criar empatia no leitor - é um feito de que se pode gostar ou não mas não se pode negar.
Li-o pela primeira vez depois de o ver referenciado na contracapa de um livro de Pedro Juan Gutierrez - um favorito do qual prometo (a mim mesmo) reler (mais uma vez...) a obra toda - mas para o qual tem substanciais diferenças que não vou enumerar agora.
Só que como escrevem ambos sem impôr restrições morais às palavras e aos temas, logo catalogaram Juan Gutierrez no mesmo Realismo Sujo (ou não fosse o seu primeiro livro A Trilogia Suja de Havana) de que Bukowski é o criador, o mais merecedor de receber tal classificação nas suas obras e, provavelmente, o único que mais deu sentido à designação.
Confesso que não gosto da designação por não a achar correcta. Talvez seja porque em português o seu sentido se estreita, remetendo para os adjectivos que Scola usou no título do seu filme: feio, porco e mau.
Prefiro chamar-lhe Realismo Canalha, pois tem aquela abrangência que fala de baixeza e inocência.
Realismo Canalha está equidistante da ignorância e do desconhecimento das regras sociais. Ou porque se está numa classe marginal(izada) e elas pouca importância têm ou porque se está numa idade em que se encara o mundo ainda sem essa restrição.
Pense-se que patifarias são actos tanto das crianças como dos canalhas. Mudam apenas as motivações.
Mulheres - o primeiro livro que dele li e o que mais vivamente resiste na memória - era assim, um livro em que não me recordo de uma narrativa mas antes de uma pulsão para ir adiante contando cada uma dos casos cada vez menos satisfatórios que o protagonista vai tendo com mulheres conhecidas por uma noite só.
Como os livros de Bukowski são auto-biográficos, os seus protagonistas são alter-egos e os sentimentos que eles nos merecem são os mesmos que criamos para com ele, autor. Bukowski é, por isso, um simpático sacana de quem é ou muito fácil ou muito difícil gostar. (E a minha posição está assumida desde início, portanto sigo adiante.)
Pois o carácter auto-biográfico é o que liga os seus vários livros, até este que é o seu último. Uma obra em que uma das personagens centrais é a Senhora Morte num momento em que Bukowski se debatia com a última fase de um cancro.
Mas se a forma perdura, o tema parece escapar às suas forma de Realismo Canalha. Ele não escreve sobre a vida de uma personagem vinda do lado menos polido da realidade como a conhecemos.
Escreve sobre um detective privado a braços com os mais absurdos casos, sempre com a investigação metida em becos sem saída. Em seu socorro vem sempre o acaso e as mais extraordinárias criaturas: um extra-terrestre, por exemplo.
Aqui tudo é perfeitamente inacreditável e, no entanto, a atitude de Nick Belane (que nome fantástico para um detective) é a de calma aceitação.
Aqui temos de voltar a ler a biografia do autor na sua ficção. A leucemia e a morte são mais duas extravagantes irrealidades que ele aprendeu a aceitar, um homem apaziguado com a inevitável estupidez do destino que é igual para todos os seres humanos.
Na sua vertente de homenagem paródica a Chandler e Hammett, também ganha mais força se lido pelo prisma da própria vida do autor.
Pois quem não lhe tenha um carinho perverso não conseguirá aceitar facilmente as extravagâncias literárias de Pulp, mesmo sabendo das restantes origens que o inspiram - não esquecer que o livro está Dedicado à má escrita.
Quem não esteja habituado a tal mas aceite o desconforto dessa suspensão da descrença será recompensado com ironia e sarcasmo - ambos de génio - sempre em crescendo até ao delírio.
Já perto do final do livro, o diálogo com a operadora de linhas eróticas é daqueles que impossibilita que se contenha a gargalhada (negra, claro). Aliás, o recurso sistemático ao diálogo corrido por várias páginas é uma das ferramentas que melhor permite a Bukowski debitar os seus humores
Pena apenas que na tradução se percam alguns deliciosos momentos, como o trocadilho com detective e pila (dick).
Pelo contrário, na tradução não se perde a noção de um certo sentimentalismo - derrotado e insatisfeito, mas ainda assim um sentimentalismo (pouco habitual no autor) - pela humanidade, como que a perdoar-lhe as causas da misantropia de que sofria.
São as tiradas de alerta de um filósofo que só o poderia ser no limite do fim da vida, que avisa para os perigos próprios das nossas acções e das nossas considerações. Os seus avisos são demasiado certeiros para não pesarem sobre os leitores, apesar de contaminados com a devida ironia.
Belane alerta-nos para que a maioria dos homens não vive bem, vai-se desgastando ou que um bom bairro é aquele em que não temos dinheiro para viver. Espera-se que um dia essa sabedoria exerça o seu efeito.
O livro carrega ali uma beleza poética que resiste a ser lamechas, apesar de tudo o que acontecia a Bukowski. E se este alter-ego de Bukowski acaba o livro de bem com a Senhora Morte, Bukowski recusou-se a pontuar a sua obra com um livro mais afável.
Esta é a despedida afectuosa com os seus leitores - aqueles que aprenderam a encontrá-la e retribuí-la por entre a dureza - mas com o mesmo espírito do "vão-se lixar" que os agarrou a todas as páginas que vieram antes.
Quando naqueles dois capítulos brevíssimos - capítulos 5 e 10, de um parágrafo apenas - nos descreve a inutilidade de dias em que o que há para contar nada importa ou que nem sequer já tem algo para contar, estamos muito perto da ternura por quem confessa o desalento com o desperdício do tempo que já não tem.
Haveria mais a dizer, sobretudo sobre os simbolismos e referências várias que o romance guarda nos seus detalhes. Como estes se ligam com as influências, a vida e a aproximação da morte para Bukowski.
Mas isso deve ficar de fora deste texto para que algum leitor que (ténue esperança minha) se forme ao passar os olhos por este blogue.
Na verdade, não sei como voltarei a ler livros de um Bukowski mais enérgico e feroz depois de o ter encontrado tão mais tocante.
O grande absurdo do seu livro é o realismo a que nos obriga a viver depois dele. No final, Bukowski não nos poupou ao seu estilo de vida e de escrita.
Diria que Pulp pertencerá ao género do Irrealismo Canalha, cheio da inventividade que nos faz julgar estar perante um agradável escapismo antes de nos vermos confrontados com a rispidez literária sobre os aspectos da vida que todos partilhamos.


Pulp (Charles Bukowski)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Setembro de 2012
240 páginas

terça-feira, 26 de março de 2013

Mais um gato com piada

Há melhor personagem para o humor do que um sacana matreiro de um felino?
O leitor desta crítica que tente agora enumerar mentalmente os felinos desenhados (ou animados) que conhece. Agora faça o mesmo com os canídeos.
Quais deles provocam um riso desarmante e quais inspiram uma respeitável nobreza?... Exacto!
São quase sempre uns verdadeiros malvados, mas são uns fofos sendo malvados. E é por isso que, mesmo quem detesta gatos - porque foi um rato numa vida passada, certamente, estando por isso desculpado de tar desfeita - os adora quando surgem assim desenhados.
Assim num misto de tiras e cartoons divertidíssimos da primeira à última página. Aliás, da badana até à contracapa, numa paginação que não dá descanso e que é mesmo o que se exige para um livrinho assim: que nos massacre com risos libertados sem controlo ou gargalhadas soluçadas tentando ser discretas.
Achá-lo hilariante não quer dizer que não lhe encontre motivos de análise, quer apenas dizer que até a mais cerebral crítica tem de vir do esforço de não permanecer rendido aos instintos.
Divido as piadas do livro em três grupos.
Há aquelas que são Garfieldianas, que dão ao gato uma personalidade própria de personagem em interacção com o seu "criado humano". Muitas vezes são dignas de serem protagonizadas pelo gato laranja, mas essa lembrança que criam torna-as, nalguns momentos, cansativas. E como a exploração deste lado do personagem não é intensiva, não há uma verdadeira personalidade criada, o que é uma pena.
Há, também, aquelas que são piadas humanas vividas por um gato. Ajudam a acentuar o lado caricatural das situações, mas podiam funcionar com várias outras personagens.
Há, ainda, aquelas que são verdadeiros retratos do real comportamento dos gatos. São as que funcionam melhor neste contnexto, por culpa daquele reconhecimento que há de que os gatos são mesmo assim embora com ainda mais azelhice ou desvergonha do que no mundo real.
Se o conjunto não é uniforme pelo estilo de humor, é-o pelo trabalho gráfico, bastante simples mas com a eficácia necessária.
Creio que a simplicidade vem da origem da série, em animação, para simplificar processos. Mas se não se vê o autor a arriscar mostrar uma maior complexidade (na composição de cenários, por exemplo) mostra uma enorme engenho na maneira como torna ágeis as formas limitadas do seu protagonista.
Mas depois desta análise, tenho de voltar ao essencial. Reabro uma livro numa página qualquer e não volto a largá-lo antes do fim.
Pegar neste livro é despachá-lo em vinte minutos na ânsia de mais uma piada ao virar da página. E é, depois, voltar a lê-lo vezes sem conta até que conheçamos as suas piadas de cor mas queiramos, mesmo assim, activar visualmente o seu humor na nossa cabeça.
Enquanto este gato tiver graça, não vale a pena preocuparmo-nos com mais nada!


O Gato do Simon (Simon Tofield)
Objectiva
2ª edição - Janeiro de 2010
240 páginas

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Palavras que cantam

O livro já estava lido e à espera da crítica há algum tempo, mas com o concerto do autor no Pavilhão Atlântico a forma inicial do texto altera-se, apenas em parte involuntariamente.
Torna-se difícil não encontrar pontos comuns entre o intérprete e o escritor quando os encontros com cada uma das encarnações estão tão próximos, mesmo se elas distam quase cinquenta anos entre si.
Ver Leonard Cohen ajoelhado no palco é percepcionar uma forma de comunicação com o divino, não numa oração mas na protecção das suas palavras para que Deus se debruce para melhor o ouvir.
Uma abordagem à religião onde obriga Deus a religar-se ao que os humanos têm de extraordinário, a aproximar-se do nosso domínio.
O mesmo que faz em Vencidos da vida onde faz com que a concepção do divino e o mais primordial - mas também o mais complexo - dos desejos humanos se cruzem.
Desejo esse que é sexual mas, inevitavelmente, também afectivo. Por isso a complexidade das relações que se estabelecem entre três pessoas, três amigos, três amantes.
Relações que os satisfazem enquanto os encaminham para uma crescente perda, uma crescente miséria e uma crescente destruição. E, eventualmente, uma breve salvação final talvez incompreensível.
Mas Leonard Cohen em palco não é apenas uma lenda curvando-se para melhor se expandir para o público. É, também (e ainda), um energético duende, saltitando pelo palco como que distribuindo uma alegria que falta ao público bem mais novo. Um duende cujo mágico tesouro guarda em si mesmo.
Cohen não se esquiva a usar no palco todas as hipóteses que despertem o espectáculo e o mesmo faz com o livro.
Ele chamou-lhe um delírio, quem o analisou chamou-lhe experimental, mas no fundo trata-se da forma que um escritor tem de concluir a tal ligação entre divino e terreno/sexual/animal, que é tentar ligar todos os pontos do universo que estão entre um e outro ponto: tocar todos os destinos e falhar todas as hipóteses, ir a todo o lado sem sair do limite da página em branco.
É por isso que a par do triângulo amoroso, uma outra história se cruza neste romance, a de uma índia Mohawk que se tornou santa no século XVII de nome Kateri Tekakwitha.
É por isso que todos os estilos literários e todos os géneros narrativos se espraiam pelas páginas sem que haja regras que os limitem.
Tudo cabe nestas páginas porque as frases ganham liberdade para se elevarem acima da sua condição de palavras sequenciadas.
Podem assumir a forma que quiserem porque quem as molda as criou como se elas não tivessem existido já antes dele. E por mais formas retorcidas, todas as frases reconhecem-se como pertencendo ao mesmo autor.
Com os novos arranjos, todas as músicas de Leonard Cohen parecem fazer parte de um único corpo, pleno de classe e classicismo.
Se nem todas são obras-primas inesquecíveis, não se pode deixar de as ouvir a todas para melhor compreender a forma como de entre o bom se destaca o excelente.
O mesmo se conclui do livro. Nem sempre nos arrebata, mas para ler frases como A noite é a gasolina dos meus sonhos desperançados., todas as páginas merecem a nossa atenção.
Assim é quer com a música, quer com as palavras escritas. Assim é com Leonard Cohen, um criador acima de todos os outros e tão igual a nós.


Vencidos da vida (Leonard Cohen)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Julho de 2011
296 páginas

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Músico e/ou escritor

Esta história do Sul dos Estados Unidos da América é contada por Deus e o Diabo. Figuras do Antigo Testamento cuspidas como ácido nas palavras dos fanáticos, pregadores e atormentados que vivem à base da sua Fé ou Loucura, consoante o grau de cinismo que o leitor lhe queira estampar.
Este Sul é um local que se preserva pela dureza das crenças e dos actos. Se há uma beleza no Sul - lugar mítico da narrativa americana - ela pertence a algumas pessoas, focos de luz entre o obscuro gerado pelo coração humano comum que transforma uma american small town num antro de crueldade obcecada com um Bem que morre com cada acto da população local.
A beleza vem de Euchrid e Beth, crianças - a primeira criança eterna, a outra criança - em ambiente explosivo em que a ignorância serve de rastilho. Eles olham-se mutuamente encontrando o que a comunidade nunca será capaz de ver.
Comunidade que reage com um grau de crendice e preconceito à mesma situação: crianças nascidas como estranhos no seio da comunidade.
A diferença? Euchrid é mudo (e visto como o idiota da aldeia) e parte de uma família disfuncional. Beth é a menina pura que cai nos braços de um homem religioso a precisar de uma missão.
Aclamam uma criança, rejeitam a outra. O ressentimento pertence a ambos porque Euchrid vive numa crescente solidão e porque Beth vive numa crescente constrição.
Euchrid sonha em vingar-se de todos os que o atormentam (de todos, portanto) mas acaba por ser a resposta inabalável às suas preces, dando aos seus conterrâneos a hipótese de odiarem e amarem o que querem ver como encarnações das figuras tal como eles as julgam encontrar descritas na Bíblia.
Afinal Euchrid é, como julgava na sua loucura alimentada pela solidão, a figura que Deus enviou àquela terra. Não a mão vingadora de Deus, mas a apaziguadora. Apenas a Fé cega e fatalista dos outros não lhes permite ver isso.
Mesmo assim sentem a mão de Deus na palmada violenta que as pessoas lhes assentam, erguendo entre eles o último foco de pureza. Claro que toda a pureza acaba destruída.
Aqui não é excepção pois Euchrid, desde o parto em que é o único dos gémeos a sobreviver até à morte em que paga por crime alheio, está a sacrificá-la para redimir os outros.
Redime o irmão vivendo por dois a vida de desprezo e violência que lhes caberia. Redime Beth porque acidentalmente a faz sentir o amor que as mulheres que a vigiam apenas lhe sabem prometer em abstracto. Redime até a comunidade porque sendo morto a deixa crer que vingou o mal e foi recompensada com um milagre.
Depois de apagada a pureza, a comunidade - ignorante - ainda continua em busca do profeta. Quer forçá-lo a ser como deseja. Mais facilmente cria o demónio ao querer afastar as características do que nunca poderia ter esse papel.
Nick Cave compôs um relato de uma beleza figurativa nascida no meio do caos violento. O seu uso da linguagem, excessivo e inventivo, é sedutor mesmo ao descarregar nos leitores imagens dolorosas.
Mas o retrato de três décadas de uma comunidade sulista sob amarras religiosas é um feito difícil, sobretudo com tantas variações nas vozes narrativas em torno da preponderância daquela que está para sempre silenciada - levantando dúvidas (talvez propositadas) sobre de onde lhe vem aquela qualidade -, e Nick Cave não o alcança.
A veia literária foge-lhe várias vezes para a sua inspiração de cantautor e certas passagens parecem pensadas a propósito do género de episódios extravagantes que canta na sua música, valendo pelo efeito fonético e não pelo seu papel na estrutura do romance.
Isso prejudica o livro porque distrai o leitor - sobretudo se também conhecer a música de Cave - tal como fragiliza a definição de algumas personagens (embora esta questão possa acabar por ser consequência directa da anterior).
Terá sido uma tentativa mais corajosa de criar uma obra literária do que era A Morte de Bunny Munro. Nesse livro Nick Cave pareci escrever apoiado no seu instinto (e estranheza pessoal), enquanto aqui parece querer incluir muitas das suas obsessões num monumento de inspiração que o coloque ao lado do inevitavelmente recordado William Faulkner.
Mas em A Morte de Bunny Munro o humor negro e o foco literário estão apurados como aqui ainda não estavam. Talvez os livros devessem ter surgido em ordem inversa, para os defeitos ficarem encobertos na bela cacofonia desse outro livro e este fosse, agora, mais conseguido.


E o burro viu o anjo (Nick Cave)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Março de 2011
372 páginas

domingo, 29 de abril de 2012

A teia da identidade

Muitos fios se entrelaçam quando o noir é o formato de execução literária de uma avaliação da inesperada moldagem que a passagem do tempo opera sobre as relações humanas.
Fios com que o escritor ousa trair o quadro temporal que traçamos na nossa cabeça para que se instale a dúvida sobre como é possível que os protagonistas se mantenham firmes ou se rendam subitamente a comportamentos que parecem já inapropriados para a situação que estão a viver.
Acabarão por criar um nó que tem de se desfazer pela força. Esse momento, um confronto onde todos os personagens perecem de uma maneira ou outra, deixá-las-á sem hipótese de catarse, como ao próprio leitor.
O leitor deverá ficar sozinho sobre os escombros dos pedaços de vidas que foi dissecando voluntariamente página após página e olhar na direcção contrária para entender o tamanho da perversidade de que até aí fora apenas um voyeur deliciado.
Com isso descobrirá a verdadeira dimensão dos mistérios que estão no livro. Mistérios de identidade interna e não apenas dependentes de uma revelação de nomes.
O mistério que coloca em movimento os acontecimentos lidos é apenas um. Sabemos desde o início que os vários fios do livro terão de constituir uma teia no final.
Inevitavelmente queremos saber qual foi o caso que esteve na origem de tudo, mas esta história torna isso em algo secundário, ainda que o revele num momento de fascínio exaltado.
São as transformações dos protagonistas os verdadeiros mistérios, rendidos a sentimentos benévolos - próximos já do amor - por aqueles que os tornaram vítima, mesmo se para tal todos tiveram de ser também carrascos, como é próprioda natureza humana mal controlada.
A proximidade do cativeiro físico e o isolamento do cativeiro emocional levam a que as personagens se rendam aos sentimentos humanos que os seus actos parecem tão eloquentemente negar.
Ninguém evita ser humano e, com tal, necessitar dos outros. Mas todos agem, num momento ou noutro, como se tivessem purgado de si toda a compaixão.
Basta que as condições sejam extremas para que se quebre, para o bem ou para o mal que é sempre a dicotomia a que se quer assistir neste género, a existência anestesiada com que cada personagem tenta viver com prazer individual e sem sofrimento.
Jonquet controla-nos nesta viagem de forma sublime. Não se trata apenas de sustentar uma estrutura complexa para contar uma história cuja linearidade seria quase simplista - basta ver que o livro mal ultrapassa as cem páginas de texto corrido.
Trata-se de utilizar a linguagem para nos dominar mas, também, para desvendar mistérios transformadores com a subtileza que confia na inteligência do leitor.
Reinventando o noir com a excelência de excitar o leitor e usar esse estado para abalar as crenças apaziguadas em que o leitor pretende sustentar o seu mundo. Brilhante, portanto.


Tarântula (Thierry Jonquet)
Suma / Editora Objectiva
1ª edição - Novembro de 2011
144 páginas

sábado, 21 de janeiro de 2012

A nobreza do que é comum

Coração de manteiga é um título limitado que não se compara à sugestão do original La contessa di ricotta. Um título que sugere uma contradição entre o título e a sua substância.
Mais do que o coração mole ou as mãos escorregadias designados comumente como "de manteiga", é a classe baixa do derivado de queijo que define o verdadeiro grau da nobreza que esta condessa - e as suas duas irmãs - mantem.
Assim vemos no título original a sugestão desta simultânea mistura e aversão entre a riqueza do título envergado e a falta de valor daquilo sobre que o este "reina".
Afinal de contas moram agora cada uma num dos apartamento em que transformaram o seu velho palacete, que tentam recuperar como sinal da sua velha glória mas cuja traseira cai aos pedaços à medida que a fachada é reparada.
O retrato da aristocracia italiana não mostra a decadência que afecta a construção à sua volta, mostra antes uma existência hermética destas mulheres que têm as suas convicções fixas num tempo que já não existe.
Colados às suas paredes, os estranhos seres que habitam outros estratos sociais reforçam a presença de um mundo moderno que não as satisfaz.
Entre as irmãs, uma vive um idílio sexual mas sonha com um filho, outra - a Condessa de Manteiga - tem um filho de um homem que se juntou com outra mulher mas sonha perpetuamente com o amor, e a última irrita-se com a liberdade dos outros para não tratarem do jardim que ela quer ver em todo o seu esplendor.
A alternativa que elas querem recuperar é muito mais grandiosa mas igualmente constrita. Uma vida elegante mas que se tornou há muito numa natureza morta.
Afinal, é agora a plebe trabalhadora - um mestre-de-obras que as serve, ainda para mais - que colecciona peças desirmanadas de fina loiça por admirar a sua beleza, enquanto as três irmãs lutam apenas por preservar intacto o conjunto de seis chávenas que são herança - e condenação - perpétua da vida que pertencia aos seus antepassados e que não as deixa olhar adiante.
Quando o mestre-de-obras parte uma das chávenas penitencia-se fortemente mas a Condessa de Manteiga vinga-se nele partindo-lhe toda a colecção de valiosas raridades sem consideração alguma pelo valor do material que devia admirar mais que os outros.
As vidas das três irmãs e dos vizinhos ou trabalhores à sua volta, mais do que se tocam, mesclam-se de formas inesperadas, melancólicas e desesperantes.
Dão um retrato aprazível de como a moderna Sardenha - e toda a Itália, supomos - se tornou numa comunidade repleta de estranheza mas unida pela mesmo riqueza dos elementos artísticos, culturais e históricos.
Uma comunidade que transformou os jardins palacianos em pátios de convívio e que juntou condessas a operários.


Coração de Manteiga (Milena Agus)
Alfaguara / Objectiva
1ª edição - Junho de 2011
120 páginas

domingo, 20 de novembro de 2011

A viagem e a fuga

Uma mesma personagem para três viagens em que se alteram cenários, idades e acompanhantes, mas onde a evidência  esencial se mantém: o viajante não é realmente capaz de viajar.
Viajar como o acto de se mudar do seu conforto próprio, do sedentarismo existencial que lhe conforta a vida, mas também a manieta.
Ele parte sozinho mas o seu primeiro destino é sempre ao encontro de pares viajantes que preencham o vazio da realidade que assola Damon.
Ele quer construir relações como não consegue manter na vida quotidiana. Quando em movimento obrigatório por um mesmo caminho, Damon quer acreditar que essa condicionante, umas vezes casual, outras forçada, chega para gerar uma verdade emocional entre ele próprio e de quem força o força a dele ser dependente ("O Seguidor"), de quem lhe propõe um futuro emocional para lá da viagem  ("O Amante") ou de quem a ele se agarra egoisticamente ("O Guardião").
A sua falta da inata compreensão que num regime de viagem, contra a imensa possibilidade geográfica que tem pela frente está a estreita possibilidade de relação humana.
Confinado a essas relações que, pelo contexto, são mais intensas e mais perecíveis do que num ambiente normal, ele vive uma ilusão que se desmorona sempre numa solidão que retorna sem excepção.
Cada uma das viagens fica por concluir porque cada uma das relações é abandonada a meio. Damon não se deixa submeter, não se permite prolongar um vínculo, nem se torna numa figura confiável.
Todos esses papéis que, experenciados por ordem, seriam sintomáticos de um amadurecimento acabam por ser estágios experimentais a que Damon só acede por os saber breves. E mesmo condenados a terminarem rapidamente, ele foge deles mais cedo.
Não fossem por esses períodos de viagem e nem se saberia que Damon testa uma condição humana para si mesmo.
Sente-se que, entre viagens, não haveria realmente nada a contar. As páginas vazias estão assim porque nada haveria para as preencher.
Só em viagem parece que Damon se consubstancia, preenchendo a quota de relações humanas que, naturalmente, deseja de tempos a tempos mas que, também naturalmente, é incapaz de acolher em si.
A solidão é o seu destino, um destino escolhido. Afinal, Damon não suporta as outras pessoas. Nem que o moldem, nem que o queiram, nem que o enraizem.
Senão veja-se como situações que para outras pessoas seriam marcas inesquecíveis (de culpa, provavelmente) - o abandono de um companheiro no meio de um país desconhecido, o abdicar da possibilidade de um amor e a longa tutela de uma amiga suicida no hospital - se mostram como memórias difusas, prestes a partirem para sempre.
O relato que Damon faz das suas três viagens está sempre mesclado - num jogo difícil mas muito bem concretizado - entre as primeira e terceira pessoas.
Assim se torna evidente o quanto o distanciamento dos anos, senão apenas da própria forma de vida que Damon escolheu para si, tornaram a figura que esteve nessas viagens uma outra que a figura actual reconhece apenas como um narrador distante.
Um narrador que cede, por vezes, a uma emoção ou um apontamento que com ele ficou, que ainda reconhece como seu e não como o de uma criação sua. Aí a sua voz lhe foge para o "eu" em vez do "ele".
Porque, mesmo as experiências de que se foge deixam sequelas na realidade pessoal, confirmando que conseguiu preencher-se do Sentir nas viagens que efectuou, o que lhe dá o poder de se satisfazer com o ressentir na sua vida afastada dos caminhos.


Um quarto desconhecido (Damon Galgut)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Maio de 2011
240 páginas

sábado, 24 de setembro de 2011

Instantes de uma voz

Ru é um daqueles livros para o qual serve muito bem uma expressão que me é estranha,"é capaz do melhor e do pior".
No romance da sua própria biografia Kim Thúy escreve pequenas partilhas - são comuns os "capítulos" de uma página só, mas chegam a um mero parágrafo - ora como confissões sussurradas em privado nos quais não quer ir mais longe (naquele momento) ora como histórias partilhadas em grupo que têm de terminar num clímax.
Desses dois tipos de formas de relatar a sua vida são as histórias que interessam, terminadas com aquela ironia humorada que só quem atravessou aquela realidade pode aplicar ao relato.
As confissões sem filtro emocional parecem próprios à aparição no programa da Oprah (ou aquilo que imagino que seja o programa, à falta de canais onde ver tal coisa). Deveriam acabar com pequenos choros semi-contidos e o aplauso da audiência que se espanta com o grande exemplo de vida daquela mulher antes de surgir a próxima história triste.
O problema na amplitude entre estes dois momentos é que se passa de uma sedução pela voz narradora a uma aversão à exploração de uma voz indefesa.
Voz que usa sempre de uma certa toada poética casual, fruto da sua própria sensibilidade, mas que só funciona como aprofundamento do que está para lá das palavras quando a sensibilidade tem a defesa da ironia.
Essa voz fala do Vietname, da vida em fuga, da adaptação a outro país e de uma existência na sombra de outras pessoas.
Contando a sua vida, a narradora está (finalmente?) a sair da sombra, mas são as sombras em que viveu que a tornam interessante, nem mesmo a forma como venceu as dificuldades da fuga e da adaptação.
Como a maioria das pessoas que fogem, o que têm de interessante são as histórias de que fugiram. Os motivos para partirem para um lugar seguro esclarecem-nos muito mais do que a história da passagem a uma vida ocidentalizada - e banal.
Ru, um livro que se lê num instante, é demasiado pequeno para percorrer com tempo os muitos momentos da vida da narradora que deveria, para bem do leitor, ter falado mais do passado que tornava a sua voz única.


Ru (Kim Thúy)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Fevereiro de 2011
148 páginas

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Humor sem revisão

A segunda vinda de Cristo ocorreu nos anos 1930 no deserto do Chile. Por lá vagueou esse homem admirável que se bufava, que ressonava, que se masturbava atrás dos arbustos e que se saciava (ocasionalmente) com as suas devotas admiradoras.
Era um homem abnegado que dormia ao relento, que possuía um mero saco de papel com uma muda de roupa e uma Bíblia.
Admire-se o seu grande milagre que foi a ressurreição de uma galinha. Não parece muito, mas era uma galinha que garantia ovos com duas gemas, um milagre em si mesmo.
Mas, pergunto eu, para que precisou este Cristo de uma Bíblia? Não deveria ele saber as suas palavras de cor?
Não era ele muito mais homem para que precisasse de uma meretriz caminhando lado a lado com ele o tempo todo?
Sim, este Cristo buscou uma mulher para ser a sua discípula mais fiel, uma mulher chamada Magalena que se dedicava à prostituição.
Dedicava, assim mesmo. Era uma "santa puta", admiradora maior de Nossa Senhora e prostituta por necessidade de fazer viver o martírio ao homem - um padre, ainda para mais - que a martirizou enquanto criança.
Vendia o corpo para sustentar-se como a sombra acusatória de um padre pedófilo que fugia de aldeia em aldeia daquela mulher que até poderia ser a sua própria filha...
A mais recente aldeia serve o cenário para este delicioso (e, possivelmente, controverso) pedaço de fino humor onde se cruzam estas vidas com a vida de uma fábrica onde ocorre uma greve.
Um greve na qual, aos direitos dos trabalhadores, se junta a reivindicação pelo retorno de Magalena, entretanto expulsa porque a mulher do opressor dono da fábrica ameaça chegar à cidade.
A vida privada e os desejos libidinosos metem-se no caminho da dignidade humana, mas também a ajudam - em solidariedade com a greve, a prostituta ofereceu os seus serviços aos trabalhadores.
Misturam-se política e religião e misturam-se defeitos humanos com expectativas de divindade.
O gozo do livro está no facto de ele não ser crítico mas antes ser irónico com um toque de afecto. No fundamental, isso é  humor, distribuir por todos a visão mordaz dos seus próprios erros. A verdade dita graciosamente (sem a obrigação de ser agradável).
Até porque a figura do Cristo de Elqui vai desaparecer da vida chilena apagada por Charlot, figura ainda mais assombrosa do humor terno que se admira até hoje.
Foi bom enquanto durou para o Cristo, que não chegou a ter discípula, mas que teveos seus momentos de fama e o milagre desejado por todos (que, infelizmente, só ele viu).

Dito isto, aviso que o livro precisava de tradução e revisão mais capaz. Diversos "à muito tempo" povoam o texto e as transições internas de tempos verbais ao longo de um único parágrafo, aparentemente originárias do próprio texto, nem sempre são devidamente acomodadas de forma a fazerem o sentido que devem ter.
Não é uma enfermidade que deixe o livro totalmente ilegível mas é motivo de algum sofrimento.


A arte da ressurreição (Hernán Rivera Letelier)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Janeiro de 2011
280 páginas

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Da velhice e da linguagem

A velhice é uma dor profunda a necessitar de uma réstea de crença na magia das surpresas que a idade leva a já não aguardar.
Colocado num lar um homem sente ter perdido o pouco que lhe sobrava, reage mal e revolta-se.
Pouco a pouco muda, sem querer realmente deixar que os outros vejam isso. É um novo universo pessoal a construir e renovada utilidade a descobrir.
Escreve cartas de amor a uma mulher abandonada ou encontra uma personagem central da poesia nacional.
Mas, acima de tudo, purga demónios. Num lar todos têm memória e todos têm passado.
Todos recordam e julgam o país onde viveram e todos têm confissões a fazer. A dele é apenas mais uma.
A tal "máquina de fazer espanhóis" é aquela sofreguidão com que, de tempos a tempos, cada um rende o país que ama.
Uma máquina que se activa de cada vez que alguém diz "mais valia sermos uma província de Espanha" para amaldiçoar os erros deste país mas sem nunca conseguir deixar de defender a independência desse pedaço de terreno com que se identifica.
Os velhos no lar juntam as suas alegrias e as suas censuras a um país que quiseram ver perdido mas que nunca conseguiram abandonar.
A máquina move-se sempre sem sucesso. A velhice é o momento de confessar que se tentou andar nela e continuar seguindo, até ao fim, onde sempre se esteve.

No caso de valter hugo mãe, a forma de escrita é, inevitavelmente, tão notada quanto o tema.
A sua falta de maiúsculas assemelha o texto a um telegrama, sequências rapidíssimas que raras vezes se interrompem durante a leitura.
Digamos que lhes falta a quebra do stop para se dar conta de que uma nova frase se iniciou.
O efeito de leitura com que se mesclam as frases causa novos efeitos de compreensão, sugere outros significados, aproxima o texto de uma liberdade que esperávamos da poesia em prosa.
Não quero com isto dizer que o texto não seja perfeitamente entendível e estruturado.
Apenas que a leitura tem características distintas. O texto deixa-se atravessar como se os pontos finais estivessem a unir as frases e não a separá-las, a ligar a cadência com que as lemos, a acrescentar velocidade em vez de nos dar a pausa entre elas.
Não creio que seja isto que o autor procurasse, pois não é sistemático nem evidente um jogo com estas características, mas é um efeito interessante.


















a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Fevereiro de 2010
312 páginas

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Um pai que somos nós

Por vezes senti-me quase indecente a ler estas crónicas de José Eduardo Agualusa, como se tivesse passado o risco e deixado de ser leitor para ser um voraz predador.
A culpa é dele - veja-se como já nem o trato por "o autor" - que confessa a si próprio com tal sentimento e honestidade que nos torna parceiros em vez de leitores.
O humor e o sentimento que coloca em cada crónica são deliciosos, momentos de pura ternura que cada um de nós quer para si mesmo e que tomamos sem pensar no assunto.
E Agualusa não se esquiva a falar dos seus sentimentos, a expôr aquilo que a sociedade disse por tantos anos que os homens deveriam esconder. Mais do que um novo paradigma de Pai, Agualusa trata de um novo paradigma de Homem.
Ele não disfarça os seus medos e as suas "fraquezas emocionais". Quando se ridiculariza é mesmo porque a situação o permite.
Estas crónicas são a forma saudável de cada um dos que foram/são/serão pais entrarem na vida dos seus filhos e se tornarem mais completos como seres humanos.
Nada se sabe sobre ser pai até se ser. Até lá especula-se, amedontra-se, desconfia-se, inventa-se. Um pai nasce logo quando a sua mente se inventa na expectativa de ser pai.
Muitas verdades nos ficam destas crónicas, muitos prazeres partilhados, muitas lembranças. Não são nossas, mas é como se fossem, tão abertamente partilhadas.


















Um Pai em Nascimento (José Eduardo Agualusa)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Março de 2010
146 páginas

sábado, 5 de junho de 2010

Alienado de si mesmo

Um homem não se perde quando dá por si sem saber o caminho de casa num país cuja língua desconhece.
Um homem perde-se quando tem de abandonar o seu próprio país convicto de que lá nada de bom lhe resta.
Depois, o seu périplo desventuroso pelo labirinto que é uma cidade ininteligível por completo, é a concretização do seu desmembramento interno.
Anda à deriva com a mulher e o filho ao lado, tentando, sem qualquer sucesso, reencontrar o caminho para casa.
Mas a sua deriva, que começa pela falha de comunicação, cresce porque ele é incapaz de dialogar com a sua própria existência.
Este homem não acredita em nenhuma das suas decisões, não se aceita como pessoa, nem sequer se permite manter num percurso que tenha sido o acaso a decidir de tão paranóico com o falhanço - o seu falhanço, sempre, obviamente. Mesmo quando toma a decisão de recorrer ou matar Deus, tem relutância em depois aceitar e manter tais actos, retirando a promessa de retribuição ou restituindo-lhe a vida, porque não acha sequer que Deus lhe possa emendar a existência errante. Nada de si mesmo lhe parece correcto.
Daí que lhe seja impossível atravessar o mundo em linha recta. A sua deriva é física porque não resta outra forma de expressão à deriva da sua existência.
Um homem alienado de si mesmo é um homem para quem não há esperança, a menos que ela venha do exterior de si. Seja este emigrante sem conhecimentos da língua ou seja outro homem qualquer com a vida de aparente normalidade.

Ricardo Adolfo trata as palavras com uma mestria admirável, usando a linguagem ao estilo "da rua" com dignidade e dela retirando os maiores proveitos.
Com termos convencionais, quotidianos e que pouca importância daríamos ele cria parágrafos de enorme força e surpreendente deslumbramento. Uma sofisticação escrita a partir de ferramentas que se diriam toscas.
Ele, que neste momento, olha para Portugal a partir de fora, parece ter uma maior percepção do que por cá se passa do que muitos dos que passam o tempo a opiniar, bem como da maneira mais imaginativa de usar a Língua Portuguesa.


















Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas (Ricardo Adolfo)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Setembro de 2009
200 páginas

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Amor cínico

Um livro sensível sobre o amor pode esconder uma tenebrosa teoria sobre tal sentimento. Ou, senão tenebrosa, pelo menos lúgubre.
O amor é o sentimento mais extraordinário e mais inspirador do mundo, capaz de tornar os adolescentes do livro em "almas velhas", capaz de fazer de um velho homem um inesperado ladrão de campas.
Só que o amor é, como todos os sentimentos, nascido de circunstâncias irrepetíveis, e mutável perante as alterações ao tempo que o viu florescer.
O que este livro diz, de forma velada, escondido numa história de amor que deixará muitos comovidos, é que o amor é mais belo quando é vivido brevemente e, à sua maneira, nunca plenamente concretizado.
Este amor, completo por ser sentido mas incompleto para aqueles que o sentem, preserva-se, vive como ideia aperfeiçoada e incorrupta, é eterno.
Na história de amor sofrido de um rapaz que vê a namorada morrer de leucemia, depois de ter ajudado o avô a roubar as cinzas da mulher com quem não se pode casar para com ela ser enterrado, há pois um certo efeito subversivo.
O de fazer de um belo amor apontado à eternidade a evidência de que o amor apenas se torna eterno se não for vivido. Ao ser vivido, mesmo da forma mais bela possível, torna-se em algo que não se pode nomear da mesma forma.
O livro, afinal, é um romance tão eficaz para os românticos como para os cínicos, escrito com sentimento mas sem pieguice, terno mas criticamente perspicaz.
Será por isso que vendeu tanto, por ter sabido dar a todos aquilo que querem (ou não querem) ver no amor?


















Um grito de amor desde o centro do mundo (Kyoichi Katayama)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Novembro de 2009
200 páginas

sábado, 27 de março de 2010

O limite dos relatos

Lemos aqui sobre os limites do humanamente possível, quer da parte de quem sofre, quer da parte de quem inflige esse sofrimento.
O limite a que uma pessoa cala e permanece onde só o mal a espera e como esse mal retorna mesmo quando já se julga em segurança. O limite a que uma pessoa, por sua vontade ou por pura estupidez, anestesia a consciência e a culpa do que deixa ou do que está a fazer.
Esses limites não vêm com reflexões conscientes das suas causas, não têm fundo terapêutico, são meros pontos a que se chega sem mais.
Apesar disso, o fluxo de consciência de Precious amansa o relato, que tem momentos de escape que minam o impacto directo do relato.
Amansa pois não é ela uma personagem que consiga sustentar o relato por si mesma, é o sofrimento a que parece condenada que a torna digna de nota.
Quando as suas intervenções pessoais surgem no texto, são como um pequeno momento para respirar quando estamos mergulhados no horror.
Particularmente preferia que o relato fosse inexorável com o leitor, a personagem desabrigada perante os eventos, o relato tão desprovido de emoções ou escapatórias que o leitor estaria a ser ele próprio massacrado para a realidade do mundo de que em geral está alienado.
Mesmo aqueles que têm consciência do género de crueldade que sofrem estas vítimas olham-no com um certo desfasamento, com leviandade de quem não sente o que ouve.
Um relato na primeira pessoa, clínico ainda que obviamente pessoal, era a forma mais eficaz de chegar - como parece ser a intenção geral do livro - à consciência de quem enfrenta as páginas do romance.
Aliás, a amostra final do livro de turma, onde os vários personagens da aula de literacia escrevem os seus próprios relatos de anos de abusos e solidão, com um estilo pessoal mas sem floreados de espécie alguma.
Estes relatos, também por virem no final do livro, são o que de mais forte guarda o livro depois de se encerrar.
Cada uma dessas personagens merecia o seu próprio espaço, possivelmente num livro de contos sobre o sofrimento.


















Precious - A força de uma mulher (Sapphire)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Fevereiro de 2010
184 páginas

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Lixado

Bunny Munro vive numa escalada de sexo e álcool com tempo contado, como ele próprio anuncia logo a abrir, "Estou lixado".
Mas este não é um prenúncio. Ele sente que a morte se aproxima, sim, mas o "lixado" já é uma condição que ele finalmente compreendeu.
Compreendeu mas não consegue evitar, aquela demente fixação por vaginas e o grau de destruição para o qual consegue arrastar-se a si próprio.
Nem mesmo a pequena âncora de sanidade e admiração que segue com ele no banco do passageiro serve de grande coisa.
Depois do suicídio da mulher que ele tanto ignorava, o filho bem lhe defende todos os vícios com um certo carinho inocente, mas Bunny parece determinado em tornar o filho numa versão sua.
Uma versão de si, que poderá bem ser uma versão do seu pai. Bunny Sénior, Bunny e Bunny Jr. Cadeia infindável, condenação ou castigo?
Não se tente resistir pela lucidez no interior desta viagem, não vale a pena porque o devaneio se impõe à realidade de Bunny, iludindo o próprio leitor até que já esteja bem afundado nele. Não se passa de um ao outro como quem cruza a fronteira, antes como quem se perde num matagal.
No final, quando finalmente chega a anunciada morte de Bunny Munro, estamos quase tão à deriva como o protagonista.
Fica-nos mais do que o humor negro da misoginia tresloucada de Bunny, fica-nos também a emoção bruta que a misoginia quer cobrir como um manto perpétuo.
E afinal não paramos de nos interrogar, a morte de Bunny foi a prova do resto da humanidade que ele tinha ou o único resultado possível para tudo aquilo a que ele se foi sujeitando, foi o único acto possível para com o seu filho ou o rebentar de toda a carga emocional que o seu pai lhe causa, foi sacrifício ou loucura?
Eis então a vida possível de Bunny Munro, um espectáculo com tempo contado. Sem bilhete de entrada mas com alto preço no final!


















A morte de Bunny Munro (Nick Cave)
Alfaguara / Editora Objectiva
2ª edição - Novembro de 2009
296 páginas