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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Mérito de escritor

Pouco tempo depois dos pulps ficcionais, os pulps reais. Sem necessidade de comparação entre eles, mas com grande apreço por ambos.
Neste conjunto de histórias curtas o teor policial torna-se muito abrangente. Há histórias que são verdadeiros dramas sofridos, outras comédias de remates vários. Há amores desesperados e crimes geniais.
São relatos que, acima de tudo, têm de proporcionar excitação ao leitor, que vai sentado em sossego mas vivendo a tensão de não libertar os seus humores em frente dos estranhos com quem partilha caminho.
As histórias que relata Juca, o Menjou da Estefânia (já ficamos com o bigode bem imaginado a acompanhar o nome), têm de ser as melhores, para manter o repórter interessado e para este, depois, manter o leitor interessado.
Não bastam as emoções fortes, é preciso que se reconheça a alma portuguesa, tal como esta se revela para quem ocupa o ponto de observação de condutor de um táxi.
Desse ponto de vista, a cidade enche-se de ingenuidade e de malvadez, de simpatia e de virulência. A cidade é já um universo de grande escala que só o movimento do táxi permite compreender nas suas muitas ligações internas.
Há mais da alma portuguesa no trabalho de Reinaldo Ferreira do que a passagem das aguerridas emoções nacionais ao papel. Há a maneira de as contar.
Reinaldo Ferreira passa ao papel a linguagem típica de quem relata vivendo as emoções que vai transmitir. De tal forma é verdadeira e extraordinária a exaltação da oralidade pela escrita que temos de admitir que só no papel pode ser assim tão bom o "contar". Trabalhado até à naturalidade mas com talento inato, a linguagem é mais verdadeira na folha do que alguma vez se ouviria no interior de um táxi ou à mesa de um café em tertúlia.
Pelo talento de Reinaldo Ferreira, vale a pena propôr que a oralidade - não só o que conta mas como o contam - dos chauffeurs sejam propostas a Património Imaterial. Da Humanidade ou dos que gostam de uma boa história.
Esses destaques explicam a longevidade do texto, mas não chegam a olhar para a relevância histórica.
O trabalho de Reinaldo Ferreira não era o de escritor, era o de vendedor de texto. O espaço que ocupava valia-lhe o dinheiro com que sobrevivia.
Mas se o seu talento mostra que era, de facto, escritor, a sua inteligência coloca-o na vanguarda do seu trabalho como "escritor a metro" (e leva-o a superar esse papel).
Ele trata de criar uma situação ficcional perfeita para referenciar o trabalho real que o ocupava.
Num exercício de metalinguagem em que trata de avisar o leitor, ele explica: "Já ficam, pois, os senhores a saber: todas as histórias-vividas ... que hoje começo a contar são histórias-táxi, histórias a metro ... uma bandeirada a escudo e meio - fora a gorjeta...".
O escritor ficciona o seu papel para com o taxista como o do editor para consigo, pagando pelo tamanho e sem real atenção à qualidade.
Defende-se o escritor mostrando que é um homem com um honesto trabalho pago, para quem o tempo é tão valioso que não se pode dar por parado. A bandeirada está sempre a contar, como as palavras têm de estar sempre a ser debitadas.
Mas também ataca alertando para o reconhecimento que merece o bom trabalho feito debaixo de pressões e que tem de encontrar um público mais fiel que não esteja disposto a aceitar qualquer texto só porque traz um ou dois parágrafos de emoções fortes.
Reinaldo Ferreira merece, por isso, as honras que lhe sejam dadas, por mais pequenas (e tardiamente reconhecidas, no caso deste leitor) ou esporádicas.
Foi um escritor que fez e que se fez num meio votado a um certo desprezo e que se mantém vibrante.


Memórias de um Chauffeur de Táxi (Reinaldo Ferreira)
Livros do Brasil
1ª edição - Março de 2007
216 páginas

domingo, 16 de setembro de 2012

O que se passa nos ecrãs

Popcorn é uma leitura interessante para aqueles que gostam de cinema e, em particular, que gostam de Reservoir Dogs, de Natural Born Killers, de Scarface ou até de Bonnie and Clyde.
Todos filmes que tornam a violência num espectáculo sedutor. E todos filmes que levantam questões sobre a legitimidade de fazer dinheiro, ganhar fama ou construir uma carreira à base da glamourização e da exploração dessa violência.
As consequências que esses filmes têm nas mentes mais influenciáveis é a discussão que o livro segue no momento da coincidência de um desses filmes valer o Oscar de Melhor Realizador a um jovem cineasta e um casal de assassinos que atravessam os Estados Unidos da América deleitando-se com sádico prazer.
As trajectórias acabarão por ter um ponto de intersecção num rapto do casal ao realizador (e família e convidados...) em que Ben Elton, argumentista primeiro e agora escritor, leva o debate directamente "aos lares americanos" colocando o rapto e a violência, sobrando a verdadeira decisão sobre se é aquilo que a América quer ver ou condenar nas mãos dos produtores de televisão e dos espectadores.
A situação criada seria um alerta às consciências se não estivessem todos demasiado entretidos para perceber que há algo real para lá do ecrã, nem que sejam as suas próprias vidas daí para a frente.
São variados os detalhes vistos de forma crítica pelo autor, do desejo de censura da sociedade americana à relação diferenciada que os dois lados do Atlântico têm com os realizadores que a moral vigente faz cair em desgraça.
Fá-lo num estilo solto e muito mais cinematográfico do que literário em que a escrita surge contaminada pela própria forma dos argumentos.
O recurso a essa técnica é facilmente aceite quando a realidade passa pelo filtro do realizador com um desejo de controlo que a vida não proporciona como a película.
Ao que parece, é um estilo que vem deixando descendência (veja-se Selvagens, exemplo recente no mundo editorial português).
Um estilo que torna a leitura rápida mesmo se não contribuir para solidificar uma verdadeira personalidade de escritor que se diferencie da de argumentista.
Garante, sim, curiosidade para os leitores com igual gosto pelo cinema.


Popcorn (Ben Elton)
Livros do Brasil
Sem indicação da edição - Janeiro de 2000
256 páginas