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terça-feira, 28 de agosto de 2012

A boa prática de baralhar expectativas

Ao fim de três livros é inevitável começar a compreender que Mo Hayder tem uma linha contínua para servir os seus progressos literários em torno de Jack Caffery e Flea Marley que se foca no romance atribulado que se vai desenvolvendo entre ambos.
Essa leva a que as suas presenças tenham sempre de surgir em paralelo o que leva a que passem o tempo separados – como no livro anterior – ou que a investigação acabe sempre por envolver um passo que recorra à especificidade do trabalho de Flea.
Torna-se pois num traço essencial que percorre a série de livros da autora, mas também um traço de apoio em cada livro que desaparece à medida que outros são inscritos em torno dele.
Nessa tarefa, está a verdadeira qualidade de Mo Hayder que cria estruturas ricas – e, acima de tudo, policialmente capazes – que encobrem essa armadilha que criou para si mesma em Ritual. Pois se neste livro as tarefas de ambos os protagonistas voltam a estar sintonizadas na mesma investigação, temperadas por personalidades muito distintas, ainda não encontraram a lógica harmoniosa que tinham nesse primeiro volume.
Isso prova-se pela surpresa que Mo Hayder consegue produzir quando se receia que ela tenha aderido à moda de um tema cada vez mais comum entre os policiais e os romances publicados um pouco por toda a parte – a pedofilia – ou de que se tenha embrulhado demais em elaborações narrativas deixando a segunda metade do livro apenas para “encher páginas” num estilo de thriller pouco interessante.
Na verdade, Mo Hayder volta a mostrar o quão fiel é aos modelos clássicos de policiais, dispostos a esconder os seus melhores trunfos até ao final sem terem de roubar ao leitor o gosto de encarar desenvolvimentos fortes até lá.
Começa desde logo pela maneira como a autora usa a ameaça da pedofilia – iniciada pelo rapto de algumas crianças – apenas para revirar tal premissa e dar conta de outro género de negro potencial humano, o da vingança. O desaparecimento das crianças e o que lhes terá acontecido depois é usado no estilo do terror sugerido e não nomeado, até por se relacionar directamente com acontecimentos da juventude de Caffery que muito contribuem para o definir como personagem e como investigador.
Neste caso específico afectando directamente a investigação e proporcionando mais um mergulho no ambiente dúbio que o poder atribuído a um agente policial cria socialmente.
Abordar mais longamente o tema deste caso particular é arriscar fazer revelações sobre o enredo, pelo que aproveito para regressar aos protagonistas.
O que Mo Hayder faz com Flea e Jack – à parte as funções mais perigosas exercidas por ela – enquanto protagonistas é dividir o género de progressos na investigação entre os que dependem de uma lógica ponderada que, à falta de inspiração, podem comprometer vidas (senão mesmo o desfecho da investigação) e os que dependem de uma impulsividade desajuizada que contribuem em muito para a investigação mas perigam a vida de Flea e da sua equipa.
Inseridos na investigação ficam os traços que caracterizam os dois personagens e que definem aquilo que continua a fazê-los confrontarem-se profissionalmente e atraírem-se pessoalmente.
Esta bicefalia de feitios permite complicar a investigação, tornando-a mais errática em certos momentos e fazendo-a dependente tanto da acção como da dedução. E, sobretudo, leva à explosão do confronto de personalidades funcionando dentro do ambiente de trabalho onde o falhanço parece ser o mais habitual estado de coisas.
Isso continua a levar à exploração da história contínua que Mo Hayder estabeleceu desde o primeiro volume e que continua a testar os limites do justo e do indevido entre a classe policial quando afectada por afectos pessoais.
Com tudo isto, contrariando o que o embrulho do texto nos fazia crer, Perdida é uma óptima leitura que não aceita os lugares-comuns.
Falta apenas compreender – o que também ajuda a permanecer fisgado nesta leitura – que papel vai ter o Andarilho (personagem que dá nome à saga e que é uma espécie de mentor de Caffery) no final desta história.


Perdida (Mo Hayder)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Agosto de 2011
396 páginas

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Menos típico, igualmente interessante

Quando abordei Ritual (aqui) falei de como Mo Hayder inovava nos temas mas escrevia um policial de traços clássicos. Ao falar agora de Pele, contrario um pouco essa ideia.
Neste livro há mais uma noção do que é o policial moderno influenciado pela televisão.
Quero com isto dizer que o apertado período que passa entre o clímax do primeiro livro e o início deste é breve e bem determinado e que o livro se demora com os seus protagonistas separadamente.
Este livro continua a história uma semana depois do anterior e, apesar dos seus dois protagonistas terem colaborado nele, passam quase todo o livro a resolver problemas individuais que se tocam tenuamente perto do fim.
Como numa série televisiva que lide com múltiplos investigadores, vai completando arcos narrativos individuais que os ajude a caracterizar para o futuro, e acaba mesmo por não explorar a fundo um novo caso.
É o inverso de muitos dos detectives que aprendi a admirar e que saltavam de caso em caso, sem definição certa do tempo que passava entre cada um e que se definiam única e exclusivamente pelo seu trabalho no caso e nunca por motivos periféricos.
No entanto é bom ver que Mo Hayder conhece, também, o policial moderno de acordo, por exemplo, com Henning Mankell.
O destaque de detectives dentro de um grupo de investigadores policiais permite que as personagens sejam mais humanizadas - com isso entendendo-se frágeis a nível emocional ou físico, além de vaguearem entre os lados correcto e obscuro da Lei.
Erros concretos e decisões duvidosas são parte destas vidas dedicadas ao serviço de polícia.
Aquilo que ainda falta para o trabalho de Hayder ser melhor é uma exploração mais profunda da especialidade - mergulho para recuperação de cadáveres - de Flea.
Apesar da angustiante cena descrita logo ao início do livro (como no livro anterior já havia), as manobras de Flea ainda não servem inteiramente a trama, surgindo com funções de relançamento das engrenagens da história.
Falta usar o mergulho como fulcro emocional completo.
Espera-se que seja para o próximo livro, que existirá (melhor dizendo, já existe, falta traduzir), como o cliffhanger deste livro deixa evidente.
Afinal de contas, neste livro não houve um mistério resolvido, houve um mistério continuado e outro lançado. Assim vamos seguindo o quotidiano - bastante atribulado, é verdade - do detective Jack Caffery e de Flea.

Pele (Mo Hayder)
Publicações Europa-América
1ª edição - Dezembro de 2010
336 páginas

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O eterno policial típico

A Europa-América tem vindo a construir uma colecção muito consistente de literatura policial.
Ritual é mais um caso exemplar disso mesmo combinando elementos enriquecedores que permitem que o livro supere a categorização ou a tipificação da sua audiência.
Neste caso trata-se de combinar o policial com um eficaz retrato de realismo social da Inglaterra contemporânea onde a emigração ganha um peso relevante a níveis que nem sempre exposto; e igualmente com uma inteligente inclusão das crenças e das suas práticas no seio do crime, tanto daquele mais comum como do que assume uma perspectiva mais grotesca.
Isto, claro, assente no que ainda é o essencial de qualquer livro para se relacionar com o leitor, uma história em torno de personagens cujas características e acções apelam a quem as segue e que acaba por as querer reencontrar.
O policial é tanto o género em que se correm riscos e se procuram temas e narrativas radicalmente originais, como aquele em que se preserva a mais clássica das formas literárias.
Por isso, também, o policial continuará a ser um género de grande público e capaz de resistir à passagem do tempo.


















Ritual (Mo Hayder)
Publicações Europa-América
1ª edição - Março de 2010
360 páginas