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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Enganado outra vez

Tendo escrito aqui mesmo que achava a escrita de João Aguiar demasiado académica, parece que estou disposto a contrariar-me com cada livro que agora vou lendo dele.
Não que, por várias vezes, João Aguiar não continue a escolher uma palavra demasiado eloquente e deslocada para o que escreveu, mas com este livro ele conseguiu um thriller diferente e pessoalíssimo para a personagem que o protagoniza.
Escrito como um diário onde o único ponto de vista é o do protagonista em crise existencial, a paranóia começa por tanto poder ser justificada como consequência da sua própria incompreensão no seio da trama real sobre o passado de um local ainda exótico onde piratas e empresários de grande sucesso se cruzam
A incerteza do que é real e do que é receio imaginado, o envolvimento com uma cidade ainda desconhecida que em breve se ameaça tornar inalcançável e a mera sedução de uma história que há para contar são alterações às noções comuns de uma história assim.
E, apesar disso, está lá o duvidoso envolvimento amoroso, as pistas seguidas com perspicácia, os acontecimentos repletos de adrenalina...
Sem bons nem maus, a história é como um desnorte emocional do protagonista e resolve-se sem sucesso nem insucesso, apenas continua para um outro estado.


















Os Comedores de Pérolas (João Aguiar)
Edições Asa

12ª edição - Março de 2002
240 páginas

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Mito maior do nosso Portugal

O benefício da recente onda de edições de bolso está no encontro que se propicia com algumas obras que noutros formatos dexaríamos esquecidas.
Esse é o caso deste Inês de Portugal que eu tardava em ler.

Não sou um leitor ávido de João Aguiar, confesso desde já.
Há na sua escrita uma atenção demasiado académica à palavra que retira muita da força às frases e, consequentemente, do ritmo à narrativa.
Mas este Inês de Portugal surpreende por ser quase a antítese dos outros.
Talvez por se tratar de um livro baseado no argumento que escreveu para o filme de José Carlos Oliveira (cuja capa do DVD se apresenta na imagem) e mais curto do que é habitual nele.

A verdade é que João Aguiar tem aqui um livro muito mais escorreito e muito mais emocional.
Um livro onde a intriga palaciana e a paixão de Pedro pela "Rainha por Amor" se insinuam tão profundamente um no outro que revelam a sua visceralidade.
Notável é o domínio da personagem de Pedro, que vagueia no seu próprio interior entre a cega loucura da devoção a Inês e a absoluta objectividade da noção de justiça.
Mas, acima de tudo o resto, na memória fica a magnífica e terna descrição da apaixonada primeira noite de Pedro e Inês. A paixão e a delícia dessa cena é perfeitamente palpável.
De tal forma que concluímos que o mais nobre nome dado a Inês de Castro foi o de "meu amor" na voz de Dom Pedro.

Convem, no entanto, lembrar, que a leitura deste livro não pode resumir o conhecimento de ninguém daquela que é certamente a mais bela história de amor da História portuguesa.
As liberdades sobre a vida de Dom Pedro chegam aqui ao ponto de manter relações homossexuais - e noutros livros, já Dom Pedro havia copulado com a sua égua.
Por isso deixo a recomendação para que leiam Inês de Castro (Maria Pilar del Hierro), Inês de Castro (Faustino da Fonseca) e A Rainha Crucificada (Gilbert Sinoué).

Uma última nota, sobre a qualidade gráfica deste livro, que se estende a toda a colecção Bis.
Podem verificar isso mesmo no blog da colecção: http://bisleya.blogs.sapo.pt/


















Inês de Portugal (João Aguiar)
LeYa/Bis
1ª Edição - Setembro de 2008
112 páginas