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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Uma experiência

[The+Little+Men,+Reality+Shoe,+2004,+videoinstallation.jpg]
Cena da instalação vídeo "The Little Men" (The Blue Noses Group)


Este romance de Lydie Salvayre é uma experiência que se torna imensamente difícil de classificar, de resumir de forma perfeitamente explícita.
Isso mesmo torna este romance tão interessante de seguir, ainda que agora me debata perante aquilo que direi para tentar passar essa mesma percepção.
Este é o relato de uma viagem turística pelos lugares mais pobres da Europa, pontos exóticos para a classe burguesa.
Só que a autora não está aqui para falar dos guetos nem dos eventos exteriores que se podem visualizar.
Aqui o que interessa são as dinâmicas do grupo que se forma, ele próprio uma mistura complexa de personalidades e formas de estar.
Do escritor intelectualmente superior à analfabeta mulata de quem decidem tomar conta, passando pelo condutor do autocarro que provém dos bairros que eles se propõem visitar, o grupo parece fazer o retrato mais abrangente da sociedade, capaz de discutir a precisão de Nietzsche enquanto usa o exotismo da viagem como catalisador sexual, capaz de discutir teoricamente as razões de toda a pobreza que se espraia do lado de fora e sem ver, mesmo à sua frente, a capacidade que todas as pessoas têm de sentir e de se encantar, independentemente da sua condição.

http://images.telerama.fr/medias/2009/08/media_46181/les-secrets-d-ecriture-de-marie-helene-lafon-et-lydie-salvayre,M25610.jpg
Lydie Salvayre, por Léa Crespi

O que Lydie depois faz é escrever uma espécie de confissão permanente da sua consciência de escritora, falando com ternura ou ironia das suas criações. Fazendo reparos de quem sabe as regras de como montar um programa televisivo – é disso que estamos próximos, um reality show em que os voyeurs-leitores estão vidrados nos voyeurs-personagens - e apesar de ter de as cumprir consegue escapar à sua opressão.
Lydie vai desmontando a própria lógica da construção ficcional, como que dando conta ao leitor das falhas que são, afinal, intencionais e que levam o leitor a desafiar as ideias fáceis de formar sobre aquilo que vai lendo.
Este livro é uma verdadeira experiência em todos os seus níveis. Uma experiência que, a ter de ser comparada, apenas poderia ser com aquilo que Michael Haneke faz nos seus filmes. Uma experiência social, escrita para a geração que tem a televisão como motor mais comum.
E ao fim de dois livros, devo dizer que, mesmo não vendo Lydie Salvayre como uma grande escritora – não confundir com ver como má escritora - é certamente uma desafiante experimentalista a ter em conta.


















As boas consciências (Lydie Salvayre)
Terramar
1ª Edição - Janeiro de 2002
132 páginas

sábado, 16 de maio de 2009

Caminhos da memória

O Regimento dos Espectros é contado na primeira pessoa naquilo que podemos apenas chamar de um longo relato de memória onde pensamentos, acções e diálogos seguem encadeados como um único e extenso fio.
Mas um fio que, naturalmente, começa num novelo, mas surpreendentemente também acaba num outro.
Trata-se de um pedaço de memória perturbado e perturbador, onde presente e passado se enredam e onde apenas conseguimos descortinar algumas das voltas que compõe tais novelos, sem nunca lhes ver o âmago.
Ficamos sempre a meio caminho de ambos, numa estrada de questões. Uma estrada que nos interessa, onde permanecemos entre avanços e recuos, mais intrigados do que perdidos.
A tudo isto não será estranha a vocação psiquiátrica de Lydie Salvayre, que consegue fazer um retrato das hesitações, idiossincrasias e perturbações que marcam um indivíduo.
E consegue-o sem descair no facilitismo de fazer uma tese comportamental ou um compêndio de sintomas.
Fá-lo com talento, cuidado e singularidade, revisitando a Mente, a História e a Sociedade do seu país.


















O regimento dos espectros (Lydie Salvayre)
Terramar
1ª Edição - Março de 1998
154 páginas