sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Saudades da malandragem

Esta é a crónica de um Portugal que tinha, inevitavelmente, de deixar de ser. Uma Lisboa repleta de malandros engenhosos e com passados que os tornam memoráveis.
Malandros com vidas de bairro mas ambições de grandeza.
Malandros que davam personalidade ao seu espaço, que davam colorido à sua cidade, que davam substância à sua era.
São criminosos de estilo, indispensáveis à memória de um local que se engrandecia tanto quanto se revoltava com eles.
Deixam saudades de um tempo que já não volta a ser, do qual ainda se lê com prazer (e depois com saudade).
São criminosos que não disparam senão sobre si mesmos, que recorrem a abelhas para o grande assalto que Portugal nunca vira, que formam uma quadrilha qual grupo de amigos a que queremos pertencer.
Divertido e admirado, assim é o livro que leva as personagens a bem mesmo quando lhes faz mal.
O destino do grande golpe criminoso é uma desgraça, mas é uma desgraça como não se verá outras. A desgraça é brava, é louca, é brilhante.
Só se pode tratar assim tão mal alguém de quem se gosta muito. E Mário Zambujal devia mesmo gostar desta classe de bandidos.
Este é um livro que deveria ter lido há muito, lá pela mesma altura em que descobria um outro retrato humorado e liberto perante a nossa Língua e os nossos Costumes, O que diz Molero.
Senti-me agora como quando era miúdo e descobria o prazer de ir à descoberta de outros bairros e tornar-me num malandro de ocasião... sem sequer gostar de brincar na rua!


Crónica dos Bons Malandros (Mário Zambujal)
Livraria Bertrand
2ª edição - Junho de 1980
220 páginas

Sem comentários:

Enviar um comentário