terça-feira, 31 de agosto de 2010

Assombrados

No final da Época Vitoriana, existe uma rapariga assombrada por um fantasma. As pessoas que com ela se relacionam vivem, por consequência, elas próprias assombradas.
Assombradas consigo mesmas e não com esse fantasmas. Uma mãe assombrada pelo seu papel de mulher, pela solidão e pela ideia de maternidade. Um pai assombrado pelo seu pensamento científico encarado com desconfiança religiosa e pelos seus instintos mais animais. Uma confidente assombrada pela preocupação e pela desumanidade.
São pessoas assombradas pelas características sociais que as suas identidades as obrigam a apresentar umas às outras.
A mútua incompreensão e o desajustamente são as verdadeiras sombras que as perseguem e atormentam.
Ainda assim assombração maior está longe de estar relacionada com a realidade destes personagens, mas precisamente com a existência da sua história.
Cada uma das respostas que estas personagens vêem no que se passa existe precisamente dessa forma indestrinçável mas inconciliável.
Sem uma resposta concreta, sem uma possibilidade que possa ser isolada das restantes, todas as hipóteses têm de existir simultaneamente.
A falta de compreensão e a vivência perpétua de todas as hipóteses é a assombração maior para qualquer pessoa.
São as histórias que assombram, aquilo que as pessoas constroem da realidade, não a realidade ela própria.
Uma história de fantasmas é, na verdade, a história das assombrações pessoais imateriais que acompanham todas as pessoas.
Toda a história funciona, não só pela sua qualidade, mas em muito pela sua estruturação das perspectivas, reveladas de tal forma que produzem novas leituras sem negarem categoricamente nada do que veio antes. A informação tanto ilumina como obscurece a realidade a cada passo.
Funciona, também, o narrador, incerto e (aparentemente) divergente até ao final, mas cujo poder construtor em jeito de disposição enigmática o torna bem mais poderoso quando, finalmente, é entendível sem ser liminarmente decifrável.


















Angelica (Arthur Phillips)
Random House
Sem indicação da edição - 2008
368 páginas

sábado, 28 de agosto de 2010

A relação esgotada

O aliciamento para uma outra realidade é feita pelo poder da palavra, poder esse que afecta a imaginação e a expectativa.
É a ideia que é verdadeiramente sedutora, é a ideia que deita por terra a qualidade da realidade que se tem.
Mas quando se persegue algo intangível é preciso ter consciência da possibilidade de se perder tudo, vivendo restringido à imaginação.
Mesmo que essa ideia tome a forma de uma mulher, uma ideia escapa-se sempre.
Porque esta mulher não é a mulher que se vê, é a mulher da qual um homem conta. A partir dessa mulher, esse homem cria uma outra mulher que parece verdadeira mas que ela própria nada confirma.
Uma mulher assim, ilusoriamente comprometida com quem a sonha, cria o ponto de ruptura de uma relação quando torna a realidade pouco aliciante.
E a realidade nem precisa de ser banal para ser pouco aliciante, pode ser extraordinariamente arrojada, pois esse arrojo parece esgotar as possibilidades da imaginação.
Se tudo é possível, nada mais se pode imaginar e a realidade é tão chata como esse vazio do que está por vir.
Uma relação só se torna monótona porque quem a vive se permite a compreendê-la assim. Não é o erotismo nem a novidade que podem salvar uma relação, mas muito simplesmente a disposição das pessoas para aceitarem e promoverem a realidade a que pertencem e que depende tanto da sua compreensão como das ocorrências.
A realidade só se esgota porque a imaginação se esgota perante essa realidade. Uma relação só se esgota porque a imaginação deixa de responder perante a pessoa que está connosco.


















Lua-de-mel, lua-de-fel (Pascal Bruckner)
Publicações Dom Quixote
1ª edição - Maio de 1993
306 páginas

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lamber o rabo de um cão

As férias e a limitação de acesso a livros mais desejáveis acabam por levar à descoberta de bizarrias como este livro.
Serei muito honesto, este é um livro para ler uma vez, a título de mera curiosidade, e passar a outras mãos.
Mas é o resultado de um fenómeno curioso: os seus contos pretendem gerar a gargalhada com sabor a vómito.
Isso mesmo, os contos são terror e humor mesclados, procuram gerar agonia e divertimento simultâneo.
A maioria tem origem num concurso intitulado World Horror Convention Gross-Out Contest onde as histórias são criadas e contadas de raíz para repúdio e gáudio do público.
É estranho, mas não tanto se já se viu o filme The Aristocrats onde se revela a piada privada dos humoristas cujo objectivo é ir o mais longe possível, sem restrições, e chocar sem descurar o poder do riso.
Este género de fenómenos demonstra até onde vai o limite humano, não de quem sobrevive a ouvir as histórias, mas de quem as cria e se vê, por um momento, livre de qualquer restrições sociais, podendo usar o incesto, a necrofilia e a coprofagia como simples ferramentas do contador de histórias e do humorista.
Enquanto se lê o livro, se se tiver o sentido de humor para se deixar ir no escândalo visual que as histórias criam, deixam-se escapar alguns sorrisos. Imagino que o efeito das histórias declamadas pelo autor para um público reactivo e entusiasta seja muito mais eficaz e divertido.
Podem chamar-lhe curiosidade mórbida, mas o conhecimento de qualquer fenómeno - mesmo de nicho - poderá sempre ser útil, mesmo que isso envolva ler algo intitulado That Story About Licking a Dog's Ass.


















HeaveWorld (Cullen Bunn)
Skullvines Press
1ª edição - 2010
88 páginas

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Fascínio de pensar

Ninguém se vai deslumbrar com a Índia a partir deste livro, ainda que a deliciosa escrita de Moravia trate muito bem a nação sobre a qual escreve.
Não há dúvida que há momentos do livro em que, debruçando-se sobre um determinado lugar, Moravia é elogioso e fascinante.
Mas a sua verdadeira missão para com a Índia é a de a pensar e não a de a deixá-lo enfeitiçar.
Trata-se de um homem com conhecimentos elevados que antecipam a sua visita e que, por isso, está contextualizado com o que vê.
Moravia olha a Índia e fala do que vê sem iludir os males sistemáticos - pobreza, racismo e crendice - com a beleza exótica que um visitante normalmente elogiaria para enaltecer a sua escolha de destino de viagem.
Os males da Índia não são curiosidades de fundo para Moravia mas o cerne de uma análise que, partindo da observação, procura a definição do que é a Índia.
Moravia vê a Índia como fenómeno social, económico, político, religioso e intelectual. Vê-a como tal e procura a resposta ao porquê de esse fenómeno ser tão brutal.
A divisão em castas como estrutura social de um racismo tão enraizado que funciona como medo de contaminação. A pobreza eterna, como missão de um povo perante os seus visitantes.
A sua resposta aproxima-se quase sempre da religião. Da religião como nada mais do que a percepção da realidade, a ideia do que se vê.
A ideia da Índia que os indianos lhe atribuem contribui para a realidade que Moravia vai pensando ao longo dos seus artigos, contribui para a persistência dos aspectos mais persistentes da Índia como Cultura e como memória do visitante.
Moravia usa a Europa como termo de comparação e oposição à Índia, diametralmente opostos na sua forma de abordar e interiorizar todos estes fenómenos, todos estes males.
Assim proporciona maior entendimento do que diz aos seus leitores do Velho Mundo que imaginam apenas a Índia dos fenómenos culturais populares, polidos ou mesmo errados - como Slumdog Millionaire, para dar um exemplo recente e globalizado (portanto, inescapável).
Acima de tudo, não interessa o que se altera na Índia, pois a busca do conceito de Índia torna este livro intemporal.
Com ele o viajante que se prepara para visitar o país vai preparado para compreender, para avaliar por si próprio o que à sua volta acontece.
Nessa altura, sim, sabendo o que é a Índia - ou uma hipótese consistente mesmo que não conclusiva do que é a Índia - o viajante pode deixar-se fascinar sem se render.
O conhecimento ajuda a que se possa ver o que o país mostra e passar para lá disso em busca do que esse país é.


















Uma ideia da Índia (Alberto Moravia)
Tinta da China
5ª edição - Julho de 2010
144 páginas

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Piada dramática

No outro dia vi um tipo sair da loja com as calças que estava a experimentar vestidas e tinha deixado as dele penduradas com a carteira dentro na sala de provas...
Isto é o início de Um Pequeno Inconveninente mas poderia ser o início de uma conversa a passar-se entre duas pessoas muito à vontade uma com a outra que se acabam de encontrar em qualquer sítio.
Não é apenas o início do livro que é assim, cada capítulo parece ser o início de uma história, daquelas que um amigo é capaz de começar a contar a outro, e que este último não sabe onde vai acabar.
A história começa com algo que capte a atenção, que o deixe em suspenso mas tudo pode descambar numa piada tola ou desembocar num trágico desabafo.
Com cada capítulo a ser uma pequena história não significa que eles se isolem, aliás o contrário é que é verdade.
As histórias, por serem versões do mesmo evento e por cada evento vir sempre em consequência do anterior, exponenciam-se e tornam-se num(a) enorme drama/piada.
Se nos rimos destes personagens no meio destas situações também compreendemos que os seus dramas são verídicos e são característicos de muita gente "normal".
Só que os dramas só existem porque estas pessoas interpretam a realidade pelos olhos do exagero e da dificuldade. Há uma certa paranóia em quem julga poder cortar um cancro à tesourada que nem é cancro nenhum. Há medo e há incoerência nas interpretações.
As interpretações fazem o drama destas personagens, a realidade que o leitor percebe é bem oposta a essa interpretação. A distância entre as duas é que faz a piada, ao fim e ao cabo.
É provável que em Um Pequeno Inconveniente a grande falha de todas as personagens seja o diálogo. Se alguém tomasse o tempo para desabafar, para responder a uma chamada, para aparecer de visita, talvez ninguém olhasse para a relidade e a interiorizasse ao ponto da insanidade.
Claro que se as personagens dialogassem estes pequenos eventos não sucederiam nem se acumulariam. E, nessa altura, o livro não teria piada nenhuma ou não teria drama nenhum.


















Um Pequeno Inconveninente (Mark Haddon)
Editorial Presença
1ª edição - Outubro de 2007
420 páginas

sábado, 21 de agosto de 2010

Olhar para o livro

Por ser artista plástico, Jonathan Santlofer não só escolheu a temática da Pintura como motivo e meio para este thriller, como criou um suporte auxiliar para tornar tal relação mais palpável.
Os desenhos que acompanham a história e que são as pistas deixadas pelo assassino - de arte primeiro, de pessoas depois - criam uma outra relação do leitor com a trama.
O leitor vai procurando pistas não só na informação que as personagens desvendam e relatam como, igualmente, na sua própria observação visual das pinturas.
O leitor fica mesmo em vantagem quando uma das imagens lhes é apresentada pouco antes de ser deitada ao lixo sem nunca poder chegar aos investigadores.
Claro que, para o leitor estar mais confiante e ser mais expedito nessa associação visual convem ter conhecimentos sobre o mundo artístico em que se move.
Não tendo esses conhecimentos, pelo contrário, o leitor fica com vontade imediata de descobrir o Expressionismo Abstracto e os seus principais nomes.
O mundo da Arte, certamente, não é tão brutal como a ficção aqui o torna, mas fica-nos a impressão de que há factos no meio da ficção e, assim, o entendimento do que é esse mundo aumenta, não só pelo livro, mas também pela procura de confirmação e desmentido que fazemos logo de seguida.
Um thriller enriquecido por informação que nos é nova e que com ela prolonga a nossa relação com o tema do livro e com a descoberta do mesmo é um thriller diferente dos mais comuns nos dias de hoje. Sobretudo se como thriller consegue manter-nos compulsivamente agarrados à leitura - algo que a conjugação com um suporte visual só reforça.
Este livro faria sentido num leitor de e-books onde tanto as ferramentas para percorrer as imagens como a pesquisa de informação adicional estão à disposição do leitor. Um livro com suportes visuais preponderantes para a leitura talvez seja a correspondente moderna a tal invenção e possa, por isso, dividir as águas entre o suporte convencional e o moderno do livro.


















A Arte de Matar (Jonathan Santlofer)
Editorial Presença
1ª edição - Novembro de 2008
328 páginas

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ou então dormir

Tinha uma viagem de três horas para fazer e este livro pareceu-me adequado para transportar comigo. Pequeno em tamanho e por isso prestável para o pouco espaço que se tem entre assentos de autocarro, leve para se segurar na mesma posição sem cansaço do braço e, acima de tudo, prometedor de uma veloz leitura.
E assim foi, com um ritmo acima de 100 páginas por hora, o livro estava praticamente acabado quando cheguei ao destino, sendo o veredicto sobre ele de um Suficiente para a situação em que foi lido.
A velocidade com que se atravessa o livro, rápida que seja, não tem um motivo constante mas varia ao longo das suas três partes por interesse, enfado e descargo de consciência, respectivamente.
A primeira parte do livro constrói personagens e suspeitas intrigantes para, mesmo no final, nos inverter a percepção. A segunda parte lança-nos pistas que pela sua evidência parecem desleixo do escritor e que queremos confirmar. A terceira parte é a resolução combativa do que estava lá na primeira parte e que a segunda tentou disfarçar para fazer durar o livro.
A segunda parte, não contando com algumas informações que até importam para o retrato do personagem, acaba por ser uma cortina de fumo com que o livro nos distrai da sua evidência. Insinuações de outras teorias que responderiam ao enigma inicial que se revelam erradas e nada influenciam o desfecho.
E o desfecho é um jogo de xadrez com mais acção entre o acusado e o culpado como inicialmente se esperava. E aí se vê que o livro poderia ter sido mais directo - e breve - sem andar a tentar fazer o leitor passar por tolo dando-lhe tudo para seguir uma teoria que, afinal de contas, não interessa - porque não se resolve nem resolve nada para a verdadeira trama.
O Suspeito acaba por se parecer com pouco mais do que a versão condensada da série O Fugitivo, com o protagonista a saber quem cometeu o crime de que é acusado e em busca da sua verdadeira identidade.
Portanto fica a recomendação, se tiverem uma viagem a fazer e não quiserem sentir esse tempo desperdiçado e, pelo contrário, não quiserem arriscar desperdiçar tempo "útil" fora dela, então leiam este livro.
Isso ou, em alternativa, durmam se for mais proveitoso...


















O Suspeito (Michael Robotham)
11 x 17
Sem indicação da edição - Julho de 2009
512 páginas

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As Palavras Enormes

Uma rapariga nova que chega de surpresa quando o grupo de raparigas do orfanato, já uniformizado, se encontra fora. Uma rapariga que sabe dizer o que sucedeu aos seus pais em vez de se limitar a amaldiçoá-los. Uma rapariga que rapidamente inspira tanto o desejo como a repulsa.
A rapariga é a sugestão de sexualidade e de inveja, as emoções extremadas que as outras raparigas sentem, emoções que não se esperam encontrar nestas idades.
Por serem crianças não têm um entendimento do Bem e do Mal. Apenas constatam as emoções que as vão invadindo a cada momento, a cada gesto, a cada brincadeira.
Também as suas emoções lhes são incompreensíveis, mas sem as restrições de moralidade que se espera de um adulto - ou mesmo de uma criança com uma vida aberta ao mundo e orientada pelos pais - estas crianças apenas se deixam levar e, de um momento para o outro, as suas atitudes radicalizam-se para pólos opostos e cada vez mais violentos.
Ora amor, ora ódio; ora desprezo, ora dependência; ora desprendimento, ora insaciedade.
A escalada crescente do seu comportamento, entendido como uma brincadeira - a transformação de um corpo em boneca enfeitada -, terminará apenas quando não houver mais motivos para se continuar a propagar.
Essa boneca desumaniza-se, é um objecto que sujeitam a tudo, da sinceridade à violência.
A inocência não é um comportamento imaculado mas o instinto indomável e sem julgamento de espécie alguma.
Estas crianças que vivem apenas perante si mesmas, estas crianças deste orfanato, estas raparigas perante uma estranha... Estas crianças são verdadeiramente inocentes, de uma inocência brutal. As suas pequenas mãos são capazes de danos bem maiores do que gostaríamos de conhecer.
Em poucas páginas fazer um retrato incondicional da infância, desarmante na sua revelação discreta, brutal no seu resultado e fascinante em todo o percurso, é notável e só ao alcance de quem domina o sentido de cada palavra de forma absoluta e confiante - sem que seja preciso acertá-las à primeira, mas trabalhando-as até ao momento em que todas as palavras que estão na página são enormes no seu poder.


















As Mãos Pequenas (Andrés Barba)
Minotauro/Edições 70
1ª edição - Junho de 2010
88 páginas

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Enganado outra vez

Tendo escrito aqui mesmo que achava a escrita de João Aguiar demasiado académica, parece que estou disposto a contrariar-me com cada livro que agora vou lendo dele.
Não que, por várias vezes, João Aguiar não continue a escolher uma palavra demasiado eloquente e deslocada para o que escreveu, mas com este livro ele conseguiu um thriller diferente e pessoalíssimo para a personagem que o protagoniza.
Escrito como um diário onde o único ponto de vista é o do protagonista em crise existencial, a paranóia começa por tanto poder ser justificada como consequência da sua própria incompreensão no seio da trama real sobre o passado de um local ainda exótico onde piratas e empresários de grande sucesso se cruzam
A incerteza do que é real e do que é receio imaginado, o envolvimento com uma cidade ainda desconhecida que em breve se ameaça tornar inalcançável e a mera sedução de uma história que há para contar são alterações às noções comuns de uma história assim.
E, apesar disso, está lá o duvidoso envolvimento amoroso, as pistas seguidas com perspicácia, os acontecimentos repletos de adrenalina...
Sem bons nem maus, a história é como um desnorte emocional do protagonista e resolve-se sem sucesso nem insucesso, apenas continua para um outro estado.


















Os Comedores de Pérolas (João Aguiar)
Edições Asa

12ª edição - Março de 2002
240 páginas

domingo, 15 de agosto de 2010

Demasiada excitação

O que de mais interessante ocorreu em Sangue Furtivo foram os episódios sobre o funcionamento da competição de poder numa alcateia de lobisomens, a dicotomia entre o cerimonial severo de um funeral em que os fatos e a disposição agrilhoam a natureza dos lobisomens e as provas físicas onde toda a violência dessa natureza se solta.
Ocupam dois capítulos que acabam afogados no meio de mais uma quantidade de incontáveis peripécias e uma aventura semi-policial que já em pouco diferem das que surgiram nos livros anteriores.
Aliás, na vida dos personagens, a cada poucas semanas estão envolvidos em mais destes eventos exagerados. Para uma rapariga a tentar passar despercebida e uma raça a tentar imiscuir-se em sociedade, é impressionante como a realidade acaba por ser tão contrariadora.
Se se trata de uma obrigação para com os leitores, de os manter surpreendidos e entretidos, seria também necessário começar a construir eventos que tenham repercussões de futuro e não deixar que os seus efeitos terminem no final do próprio livro.
Esta saga, neste momento, precisa de um livro que não tenha de ser emocionante, que possa ser apenas uma construção teórica e demorada das linhas mais importantes de uma mitologia moderna para um conjunto cada vez mais vasto de criaturas sobrenaturais.
Correr o risco de ser aborrecida por um livro pode ser a forma de levar a saga Sangue Fresco um pouco mais além e de reconquistar leitores.


















Sangue Furtivo (Charlaine Harris)
Saída de Emergência
1ª Edição - Abril de 2010
256 páginas

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ainda a surpresa

Mesmo sem ter ficado vidrado nesta saga, não me importei de continuar a ler até ao fim.
Scott Westerfeld desenvolveu uma história onde os eventos contam mais do que os personagens, onde a consistência do universo criado tem prioridade sobre as emoções. Esta é uma saga de fantasia e não uma saga de altos e baixos românticos.
Mesmo um público fora do âmbito desta saga pode, passando por cima do cenário de liceu e de algumas relações que é obrigatório retratar, apreciar o percurso de imaginação aqui demonstrado.
Se há leitores que correntemente se vêem já aborrecidos pela literatura juvenil, encontrarão ainda aqui a possibilidade de dar um passo acima dessas leituras que o deixam blasé.
Considerando a tipificação actual da literatura juvenil - basta ler as sinopses que, além de revelarem a procura do mesmo padrão narrativo, parecem copiar-se umas às outras - é preciso reconhecer o trabalho de Westerfeld em favor da diferenciação e do progresso dos seus leitores.


















No Limiar das Trevas (Scott Westerfeld)
Vogais & Companhia
1ª edição - Abril de 2010
262 páginas


















Meio-Dia Azul (Scott Westerfeld)
Vogais & Companhia
1ª edição - Maio de 2010
296 páginas

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Surpresa positiva

Os thrillers como este, mais chegado ao policial e vagueando em torno de um serial killer, funcionam fornecendo ao leitor as pistas todas sem serem evidentes.
Sopro do Mal funciona bem nesse campo, conseguindo ser uma surpresa até ao final mesmo quando, pelo meio, adivinhamos - sem exactidão total, obviamente - quem está a servir que propósito.
Consegue isso tudo por vários caminhos, estruturais e narrativos. Por mais extraordinários que os eventos pareçam vê-se que o autor montou esta difícil e, por vezes, aparentemente periclitante estrutura com precisão e detalhe de forma a ser bem sucedida.
Escolhendo um serial killer do qual derivam diversos culpados e cuja realidade se desmultiplica temporalmente, Carrisi tem oportunidade de continuar sistematicamente a criar um labirinto através da conjugação e intercepção dos momentos e da escrita que de velada não tem nada mas que permite que se confundam as referências entre si.
Também a partir dessa desmultiplicação de culpas e motivos, de entendimentos e modus operandis, o autor faz um retrato das formas que o mal pode ter e das formas como esse mal pode ter implicações inesperadas e objectivos capazes de levantar sérias dúvidas.
Como diz uma das personagens logo no início, o mal guarda uma simbologia profundamente sugestiva e de cuja percepção e interpretação, contra toda a nossa vontade, não podemos fugir pois ela acaba por valer a pena no progresso que nos trará para a compreensão geral do mundo.
A tudo isto junta-se a manipulação das relações internas de um grupo, o grupo de investigação que não é imune a nenhuma das revelações.
Um grupo irrepetível que é o cerne que nos mantém interessados. Os personagens são o cerne da relação e do investimento do leitor no livro.
Chegando ao fim, sem revelações descabidas nem reviravoltas exageradas, o leitor sente-se retribuído pelo seu tempo investido no livro, já que as surpresas que vão chegando não são absurdas nem descaracterizam os personagens.


















Sopro do Mal (Donato Carrisi)
Porto Editora
1ª edição - Junho de 2010
448 páginas

domingo, 8 de agosto de 2010

O poder do (micro)Cosmos

Escrever sobre a convulsão pessoal de uma rapariga no seio de uma convulsão social de uma Brooklyn dos anos 1950 podia ser um mote para fazer um retrato grandioso e demonstrativo do mundo como ele era.
Isso seria um arrojo, uma obra para aplauso e imersão num mundo em que nunca poderemos viver senão pelo talento de um escritor.
Pelo contrário, fechar a convulsão pessoal de uma rapariga sobre ela própria e permitir que só ela componha o livro parece mais um risco de ir aborrecendo o leitor ou de (tele)novelizar a desgraça.
Colm Tóibin nega os dois entendimentos prévios de um livro assim e fecha sobre a sua protagonista, ela própria inocentemente fechada para o mundo, um livro que é magistral.
Eilis não se interroga sobre o mundo, como poderia quem tem de vencer as suas próprias pequenas batalhas. O mundo e os seus dramas larger than life são para quem tem a segurança garantida.
Ela tem de conquistar a sua vida, compreender os seus pequenos desejos, desfazer os vacilos do seu coração.
A vida de Eilis é o que é possível para ela, que se sente perdida numa cidade onde toda as suas possibilidades não lhe apagam a falta da mãe; que se sente depois confiante e acolhida a tal ponto que se perde de amores de ambos os lados do Atlântico quando ainda há pouco era tão temerosa e consciente.
O mundo pode esperar, pode mesmo nem surgir quando a vida tem estes dramas e estas questões que só são menores para quem não as enfrenta.
Uma vida que, com quem nela se cruza, gera um forte conjunto de tensões, confrontos, dúvidas e incertezas.
Uma demonstração de que a classe média (mesmo média-baixa) cria uma realeza própria, cria intrigas palacianas ao nível de uma casa com quartos para alugar.
Não se ultrapassando o grau de consciência da protagonista, os episódios da sua vida não se tomam por pontos de um percurso que gera interpretações. Os episódios não desembocam em conclusões e demonstrações, não são metáforas ou revelações.
Os episódios desembocam apenas em si mesmos. Quando o interesse de Eilis passa eles como que deixam de existir ou de fazer sentido.
A vida será mesmo estas batalhas sempre enfrentadas e ultrapassadas, não importa o seu resultado. Seguir em frente até que as circunstâncias surjam e depois agir.
Eilis não é volúvel, é uma rapariga a aprender o que é a sua realidade e, por isso mesmo, titubeante nos passos que dá. Vemo-la como ela se vê e isso é emocionante por si só.
Demonstra-se assim que a vida tem um poder enorme, uma força independente e nada negligenciável que nos exalta por si própria sem a necessidade de um mundo externo que a contextualize ou a oprima. Um microcosmos que merece existir por ele próprio.


















Brooklyn (Colm Tóibin)
Bertrand Editora
Sem indicação da edição - Maio de 2010
256 páginas

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A pouco de um policial

Não conheço nada do que Tiago Rebelo escreveu até este momento. Chamem-lhe preconceito, se quiserem, mas entre capas, títulos e sinopses dos seus outros livros, fiquei com a nítida sensação de que o seu público era de um outro género, de uma outra faixa etária e de uma outra aptidão.
Não lhe peguei, como não lhes pegarei agora.
Suponho que este seu livro seja manifestamente diferente, na estrutura e na temática, em relação aos restantes. Este é apontado a um público generalista que busca uma mistério bem enquadrado na ameaçadora realidade presente ou, se preferirem, um público habituado a José Rodrigues dos Santos.
Mas se por este último não tenho uma opinião favorável, já por Tiago Rebelo fui surpreendido pela sua inteligente construção de um policial com uma personagem central interessante a pedir para aparecer em mais livros.
O modelo, não exactamente perfeito mas bem engrenado, funciona a favor do leitor que se sente inteligente por adivinhar pormenores relevantes mas sem se sentir roubado da possibilidade de se interrogar por boa parte do tempo sobre o que ainda vai acontecer e, acima de tudo, como.
Não que todas as expectativas sejam desmentidas ou, pelo contrário, concretizadas. Mas os detalhes e as acções são bem manipulados para abordar os vários temas e os vários géneros que o autor pretende fazer surgir.
Só a sua inicial obsessão com uma integração narrativa realista do Portugal actual e o seu final já demasiado chegado ao comum filme de acção - com o protagonista a sair um pouco fora de personagem - ficam como os dois pontos desapontantes deste livro.
Não fosse isso e seria possível aplaudir com todo o fulgor um policial nacional - género que, pelo que parece, poderá começar a afirmar-se mais regularmente nas prateleiras das livrarias.


















O homem que sonhava ser Hitler (Tiago Rebelo)
Edições Asa
Sem indicação da edição - Sem indicação de data
472 páginas

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"G'anda porco!"


Ao nível da biologia, o porco é dos animais mais similares ao ser humano, de tal forma que partes deste podem ser usadas em operações.
Ao nível literário, foi George Orwell que nos afirmou precisamente o mesmo, quando o seu Napoleão se afirmou como um ditador igual ao dono da quinta que tinha derrubado.
Vai daí que seja apenas natural ver os porcos a levarem ao extremo as situações de má vontade, desrespeito e indiferença que temos tendência a encarar todos os dias.
Um porco capaz de avançar em sentido contrário numa via de sentido único e ainda fazer cara de que são os outros que vão mal e o estorvam é demasiado parecido com situações que se repetem em transportes públicos de dia para dia.
Resta saber porque nos rimos da situação no livro e no outro caso nos indignamos ou respondemos à letra. E lá voltamos ao pressuposto inicial, somos muito parecidos com estes porcos.
Somos egoístas quando as situações nos calham a nós e apenas não as reproduzimos porque temos um embaraço moral.
O livro liberta-nos a consciências, rimos porque nos vemos a nós como aquele pequeno sacana no cartoon a quem chamamos "G'anda porco" com um sorriso cúmplice no rosto.
Acho que não serão muitos a admiti-lo mas parece-me óbvio que a ter um favorito será aquele que reproduzo no início desta crítica e que é um resumo simples mas completo dos sentimentos que temos - ocasionalmente - e que retraímos para vivermos em sociedade.














Porcos Egoístas
(Andy Riley)
Publicações Europa-América
1ª edição - Julho de 2010
96 páginas