sábado, 4 de junho de 2016

Frustrações

Tenho imensa vontade de descobrir autores portugueses de quem possa gostar com firme convicção e a cada livro que me chega renovo a minha esperança.
Embora não me possa sentir traído senão por mim mesmo, os dois livros sobre os quais escrevo aqui desapontaram-me em tudo excepto o design das capas cuja simplicidade atraente mas eficaz é tudo aquilo que os textos que resguardam não são.

No Trilho dos Seis Zimbros é bem escrito ainda que alguns dos contos dependem demasiado de diálogos um pouco livres demais no uso informal da Língua.
O problema dos seus seis contos é que cada um deles é uma história que não resulta em nada de gratificante.
O autor inicia as suas histórias sempre de forma familiar. Não só cenários quotidianos ao entendimento como cenários já presentes em muita ficção em vários meios.
A expectativa é sempre que o autor tenha uma ideia original para rematar o texto, surpreendendo o leitor que se limitou a reconhecer os caminhos mais habituais.
O autor não tem essas ideias originais, limitando-se a ir de encontro ao que é lugar-comum perante a construção feita.
Pior, há textos que nem chegam a um clímax para a história que lhes cabe contar. Não uma resolução extraordinária, apenas um momento de elevação que justifique o esforço de criação.
No início do livro até há vários elogios - de amigos, crê-se - acerca da oralidade e do talento de contador de histórias.
Quem o oiça poderá ser beneficiado pela entoação e pelo ritmo que melhoram as histórias, mas pela via da palavra impressa o autor apenas consegue frustrar quem lê.

A Cruz do Assassino inverte o problema do livro de António José Alçada. O interesse da novela policial não está em causa, o problema é conseguir resistir à sua linguagem.
No Prólogo até se dá o caso do protagonista falar do escritor como sendo quem transforma a sua narrativa num texto com a devida organização. E mais do que isso, com uma escrita que pretende escorreita mas nutrida da erudição ao seu alcance.
Ao leitor esse aparece como um meritório objectivo. Mau é que esteja negado logo nas páginas seguintes.
O autor não consegue abdicar das palavras que estão em excesso. Sejam elementos redundantes para as descrições, sejam expressões que contextualizam de forma demasiado meticulosa.
Ao fim de três páginas tem-se logo uma primeira quebra de ligação ao livro, com tantos parágrafos para dar conta de algo que ocuparia uma só página.
A partir daí o esforço é para superar o incómodo que a escrita vai causando, um elemento de permanente desconexão.
O esforço vai incrementando de intensidade pela sua repetição e há um momento em que a resistência se esvai.
Querendo saber como a história termina e perante o tempo já investido, desistir de continuar a leitura é a derradeira frustração - ainda que, ao mesmo tempo, libertadora.


No Trilho dos Seis Zimbros (António José Alçada)
Esfera do Caos
1ª edição - Fevereiro de 2016
104 páginas


A Cruz do Assassino (Paulo Bicho Garcia)
Esfera do Caos
1ª edição - Outubro de 2015
104 páginas

2 comentários:

  1. Olá!
    Li um livro muito recente do jovem Bruno Vieira Amaral, a sua primeira obra «As Primeiras Coisas». Fica a dica. Um livro que, na minha opinião, vale a pena.

    Boas leituras

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  2. Gostei da análise do livro dos Zimbros. No entanto continuo na dúvida se o discurso direto em excesso pode ser considerado literatura. No entanto achei interessante a abordagem de uma história recente do país pouco conhecida. Também gostei de alguma moral, pouco usual, como no Entre Irmãos.

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