sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano de livro

Finda o ano e apetece-me olhar para a divulgação do tema do Livro (e do que lhe está associado) na opinião e na informação genérica - mais entendida como vaga do que como generalizada.
O panorama é triste. Depois da polémica da guilhotinagem de livros passou-se pelas atenções nem sempre coerentes ao desaparecido Saramago, pela descoberta da cobardia intermitente de Lobo Antunes e pelo aplauso da premiação internacional de Gonçalo M. Tavares.
Não é um levantamente exaustivo, claro, mas é um levantamente geral que serve um ponto de vista, de que o livro - tirando a última notícia - só serve para preencher quinze segundos de treta em telejornais que se alongaram para lá da realidade das notícias que um país tão diminuto tem para dar.
Como todos os olhares, o meu também se centra em algo em particular do pouco que enunciei aqui. E será enunciado de forma perfeitamente subjectiva e tendenciosa que deixará de forma muitos aspectos que são importantes para reflexão mas a que cada um deveria chegar por si mesmo.


A guilhotinagem, tão sugestiva acção sobre os livros. Afinal, se Louis XVI e Lavoisier puderam ser guilhotinados, porque não uns quantos livros?
Quando a notícia surgiu vi muitos posts indignados por essa internet fora, reclamando que era insidioso e criminoso fazer tal coisa aos livros.
Não era o único tipo de opinião que se espalhou, mas era maioritária.
Pessoas a defenderem que se dessem esses livros. Dessem, de forma banal, distribuídos da parte de trás de camiões ou impingidos a instituições sem qualquer critério de maior.
As pessoas que defendiam isto eram as mesmas que não ligaram nenhuma a esses livros quando foram lançados, quando estavam com desconto na Feira do Livro ou quando estavam a ser vendidos ao desbarato nas feiras ocasionais que decorrem em estações de Metro.
As mesmas pessoas que até ali acharam que os livros não tinham serventia alguma defenderam que estes fossem entregues a outras pessoas quaisquer.
São as pessoas que endeusam os livros, os autores, a palavra, o objecto.
(Sou chato com este tema e provavelmente estou errado, mas este ano também me deu para persistir num único tema inútil...)
Pessoas que radicalizam a questão e não vêem que já são poucos os idealistas que estão a oferecer as suas palavras para que o mundo se ilumine.
Pessoas que não admitem que, afinal de contas, o livro é tanto um meio de expressão como um negócio.
Estas pessoas revoltaram-se naquele momento mas não acompanharam as notícias relativas à mudança da lei relativa ao IVA dos livros doados.
Nem sequer pensaram que uma empresa, mesmo que seja uma empresa de Cultura, tem de gerar dinheiro.
Estas doações de livros que até a Ministra da Cultura reclamou seriam uma excelente forma de acabar com todas as editoras, bastando para tal fazer um esforço consertado por... não comprar livros. Ao fim de dois ou três anos, uma edição de 1000 ou 3000 exemplares com somente 5 vendidos seria distribuída pelas bibliotecas, garantindo a leitura gratuita de todos aqueles que o desejassem e o declínio financeiro da editora.
Acabava-se a edição em Portugal e, em consequência, acabava-se a guilhotinagem!
Todos aqueles que se revoltaram não reflectiram e, por isso mesmo, não reclamaram com quem deveriam. Não reclamaram um plano sólido para melhorar o tratamento e o volume de edição do livro.
Anima-me imaginar que as mesmas pessoas que se revoltaram com a destruição física dos livros, cuja vida literária haviam destruído com a sua indiferença, acabarão por os comprar em breve.
Basta que a editora os lance com uma nova e espampanante capa, que aposte no marketing e os livros que ninguém quis serão os livros da moda.
Tudo porque a memória é curta e quem já não se lembra que os livros foram guilhotinados também não se lembrará que já outra vez tinha desprezado o livro que entretanto voltou aos escaparates.
A memória é tão curta que Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin (cito daqui) são todos deitados à guilhotina porque não são modernos, vistosos e seja lá mais o que for que vende hoje em dia.
A editora, o ministério, os leitores. Todos têm culpas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Policial sem modas

Um universo muito contido, de fronteiras bem delimitadas: não apenas as da ilha em que decorre a acção, mas igualmente das relações das personagens.
Tudo acaba por decorrer sempre em espiral até um centro nevrálgico que tudo explica e que é, afinal, o discreto mas habitual (e pertinente) toque de reflexão social da banal origem do mal que muitos policiais nórdicos têm trazido à baila.
No fundamental, o livro tem uma estrutura perfeitamente clássica, um policial cerrado e inteligente.
Guarda toda a informação sobre o culpado até ao final dando, pelo contrário, toda a informação que importa para compreender o porquê daquelas vítimas.
Faz-nos olhar em múltiplas direcções, mas questionar sempre quem sofre e não necessariamente quem poderá fazer sofrer.
Nesse âmbito, a pouca mais informação que temos em relação aos pontos de mira da investigação assenta o livro num realismo que também parece fazer ponto de honra nos policiais nórdicos e que, ainda para mais, nos liga às personagens que (ao que parece) prometem voltar em outros livros centrados geograficamente em Gotland - um espaço que tem, ele próprio, de crescer como personagem.
Creio que Ninguém Viu não vai marcar a moda dos policiais nórdicos, não é caso flagrante para vir a cativar o público nem tem marcas profundamente distintivas.
Só que todas as modas precisam destes livros sólidos para se cimentarem e vulgarizarem entre o público, para se tornarem num hábito e não numa habituação de passagem.

Apesar disto, à mostra ficam duas falhas do livro, a primeira da revisão, a segunda da sinopse.
A primeira no seu caso mais gravoso deixou que os tempos da acção oscilassem das duas semanas para os dois meses, para retornar de novo à única possibilidade verdadeira, dado que cada capítulo do livro corresponde a um dia do mesmo mês de Junho.
A segunda, algo que felizmente só descobri a posteriori por entrar no livro sem reler a sinopse, traz informação a mais que deve permitir resolver o enigma muito mais cedo do que o previsto. Informação essencial para se saber perto do final e nunca no início.


















Ninguém Viu (Mari Jungstedt)
Contraponto
1ª edição - Outubro de 2010
216 páginas

sábado, 25 de dezembro de 2010

Doces Freaks

Os Freaks de Tod Browning querem uma vida normal , um local para viver, uma aldeia para si próprios.
Não todos os Freaks, apenas aqueles que estão acabados ou a acabar-se, os Freaks que não têm mais espaço no circo, que não têm mais um círculo que os defenda.
Verdade seja dita, o circo desmoronou-se. Os irmãos Mantecón separaram-se e, com eles, o circo.
Tenda para um lado, animais para o outro. E os artistas encostados a uma parede como miúdos a serem seleccionados para uma equipa de futebol.
Os que ficam para últimos acabam com Don Alejo a caminho de uma aldeia que, afinal, se tornou fantasma.
Os Freaks ficam tão bem numa aldeia fantasma só deles, pensam em construir uma sociedade própria para o futuro, mas começam a falhar logo no início ao escolherem as profissões essenciais.
Depois decorre o que decorre em todos os grupos, mas em ponto acelerado quando falha a água, falham todas as capacidades, falham os corpos e falham os afectos.
Tudo se corrompe e degenera mais depressa do que seria normal e os Freaks debitam memórias e traumas, constroem uma união de dores e desastres.
São todos farsantes, vivendo vidas inventadas sobre vidas inventadas. Pessoas tornadas artistas bizarros tornados habitantes vulgares de uma aldeia inexistente.
São deliciosas personagens, mas muito tristes. Personagens a quem desejamos ajudar, com quem temos desejo de viver algum tempo, sendo eles expressões mais intensas e incomuns da noss própria existência.
Os Freaks são os melhores de entre os personagens, os mais interessantes de entre nós.


















Santa Maria do Circo (David Toscana)
Oficina do Livro
1ª edição - Abril de 2010
304 páginas

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Belo fantasma

Um fantasma assombra quem lhe era mais dedicada e quem fora mais terrível para ela.
Assombra uma rapariga e um homem, assombra o amor destes com a sua memória, assombra a felicidade que espreita no futuro.
Assombra a ignorância, mais do que tudo o resto, a ignorância de um sobre o outro, sobre o que aquele homem, que aparenta ser nobre e forte, fez e sobre o que aquela mulher, que aparenta ser ingénua e incapaz, fará.
O fantasma, sendo real, é também a consciência de cada um destes outros personagens, aquilo que eles querem silenciar, aquilo que guardam no subconsciente na esperança que se afunde um pouco mais para que a irracionalidade lhes permita ser felizes.
Pois também o Amor assombra quem vive, além de ser a dor de quem morreu.
O Amor assombra porque ensombra a justiça, abafa a lógica, afasta a moral. O Amor é indecisão, é rebelião contra a própria consciência, é a rendição ao outro contra o próprio bem estar.
Todos acabam por se lhe entregar, podendo decidir se nessa entrega lhe escapam ou a ele sucumbem.
De novo vemos que o Amor é como um fantasma, cobrando o seu preço a quem merece e a quem tropeça no seu caminho.
Afinal, o fantasma deste conto busca vingança contra o homem que o criou mas também contra quem a ele lhe sobreviveu.
A sua missão é de tormento para com quem vive, não somente para com quem vive porque ele morreu. Vingança e despeito são tão parecidos afinal.
Todos estes fantasmas perduram neste magnífico texto, mas é a beleza das palavras que mais nos assombra.


















O Tesouro (Selma Lagerlöf)
Cavalo de Ferro
1ª edição - Fevereiro de 2010
98 páginas

domingo, 19 de dezembro de 2010

Road trip e seus desvios

Um pai aposta a vida do filho num jogo de cartas. Perde (Claro! Haveria outra hipótese para algo tão desesperado?) e segue atrás dele.
O filho segue por onde o deixam, por onde o querem, por onde lhe resta.
Todo o livro é a viagem de um pai e de um filho pelos meandros dos seus desencontros.
O livro termina quando, finalmente, eles se cruzam. Sem desfecho, estão face a face e não sabemos o que vem depois.
Não interessa, o resultado será sempre a perda de um deles - quem sabe se dos dois - e, daí, a perda das múltiplas histórias que eles arrastaram consigo.
O que interessa... É o percurso, são as vozes, são as intersecções, é a viragem por outros espaços e outros tempos.
Quando a tragédia encontra o livro não há desfecho. O desfecho do livro é sentir as múltiplas histórias, interessarmo-nos por todas e ainda querer voltar à estrada central para saber de Torosantos, da sua vida apostada e do seu pai perseguidor.
Será natural sentir que Félix Romeo escreve como Tarantino filma, um luxo de personagens secundárias bizarras, divertidas, cheias de vida e inesquecíveis.
A narrativa sempre interrompida, sempre prestes a perder-se e nós sempre a ganhar personagens magnificamente retratadas.
Personagens para emoldurar na parede das tristes e ridículas vidas, das bizarrias que fascinam, do atroz e do delicioso.
Embarque-se rapidamente nesta road trip de decadência por memórias de Espanha, por vidas acabadas, por mundos silenciados, por prazeres indizíveis...


















Discothèque (Félix Romeo)
Minotauro/Edições 70
1ª edição - Junho de 2010
224 páginas

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Duas vidas numa noite

Uma noite é o suficiente para contar toda uma vida como é suficiente para começar toda uma vida.
Tristeza e alegria na mesma medida. Que um homem possa ver um futuro enquanto o outro confessa um passsado.
Quem vive para ver a sua vida reduzida a uma conversa de uma única noite não pode deixar de se sentir desanimado com isso...
Ainda que a sua história seja de um amor sem paralelo e da maior coragem capaz de afrontar o terror Nazi, revela-se a história breve de uma vida, afinal de contas.
Por isso é contada, para se tentar que ela persista para lá do fim mais do que anunciado que apenas quem ouve não se apercebe por estar desejoso de receber o seu prémio.
Quem vive na expectativa do desaparecimento encontra uma nova vida a um bom preço, a de deixar que uma outra vida se esgote em palavras.
Tudo isto por conta de um passaporte que guarda a salvação, uma autorização de partida para um país seguro.
Um passaporte que transformou um homem em Schwarz até que ele já não precisa mais de identidade porque a sua vida de luta e de amor terminou. Um passaporte que transformará outro homem em Schwarz, um homem que já só pensa em partir e existir de novo.
A identidade, passada de mão em mão, poderá ser uma benção mas no final aliena um homem de si mesmo. O passaporte, descobrimos no fim, parece ser uma maldição. Ou a maldição está para lá da identidade e a desgraça é o destino dos dois homens que se encontram em Lisboa?
A única pena que fica do romance é que ele não siga esse destino dos homens que, sucessivamente, se transformam em Schwarz, como se as vidas pudessem ser guiadas pelo que foi um homem que mal conhecem mas que lhes dá nome.


















Uma noite em Lisboa (Erich Maria Remarque)
Camões e Companhia
1ª edição - Julho de 2010
224 páginas

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Menos levado a peito

Já falei da série DMZ aqui e, por isso, posso iniciar dizendo que a continuação da série não é tão forte como foi durante os volumes iniciais.
A linha narrativa central que atravessa estes volumes, em particular DMZ: Blood in the game, DMZ: War Powers e DMZ: Hearts and Minds, é, talvez, a continuação lógica do que ocorreu até aqui.
Trata-se do período de estabilização, das primeiras eleições livres e da defesa da ideia do poder através de todos os meios possíveis - armas de destruição em massa incluídas.
A série parece, neste momento, estar a seguir um guião. Como se fosse sua obrigação abordar todos os detalhes que se reconhecem dos conflitos - com preponderância para o mais recente - em que os EUA se envolveram.
Isso é mau para a série porque a sua relevância política e social já não se vinca no seu exagero de até onde leva a realidade de Manhattan como Estado.
Os autores estão a tomar o ponto de vista dos que estiveram do outro lado dos referidos conflitos de forma débil, pouco sentida e mais como de um comentário intelectual. A força de colocarem a guerra junto ao peito dos americanos dissipou-se.
Como tal, a sua relevância artística também se apaga à medida que os acontecimentos globais suplantam o indivíduo.
A personagem central, o jornalista que assume aqui um papel subjectivo, que toma uma opção como cidadão e não como repórter, tem menos material para evoluir como foco da série.
Era o seu comprometimento que deveria interessar, depois de reflectir sobre o entendimento que um povo faz das notícias e de como estas são manipuladas, pensar o papel do jornalista que está envolvido no ponto central dos eventos que julgamos à distância.
Acabam por ser dois blocos narrativos menores - e, curiosamente, atrasados no friso cronológico - que são mais ricos.
The Island traça um inusitado retrato do equilíbrio real que se cria entre as duas frentes de homens na guerra. As amizades que são indiferentes a ideologias e que permitem que homens sejam companheiros em paz. Mas também são as amizades circunstanciais que tombam ao primeiro sinal de problemas. Amizades de guerra, amizades sob tensão.
No Future é centrado na psicologia de um único homem. Um polícia que vai de um lado ao outro do que está correcto. Um homem que cede até ao limite, que se torna um terrorista mas defende uma réstea de humanidade como pode.
Um problema evidente este de estar mais interessado no que é secundário.
A própria génese de uma série que necessita de ser longa pode justificar esta perda de fulgor, mas senti mais obrigação do que prazer como leitor enquanto a série mostrou constrangida.


















DMZ: The Hidden War (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Julho de 2008
144 páginas



















DMZ: Blood in the game (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2009
144 páginas



















DMZ: War Powers (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Setembro de 2009
168 páginas


















DMZ: Hearts and Minds (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Junho de 2010
192 páginas

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Da velhice e da linguagem

A velhice é uma dor profunda a necessitar de uma réstea de crença na magia das surpresas que a idade leva a já não aguardar.
Colocado num lar um homem sente ter perdido o pouco que lhe sobrava, reage mal e revolta-se.
Pouco a pouco muda, sem querer realmente deixar que os outros vejam isso. É um novo universo pessoal a construir e renovada utilidade a descobrir.
Escreve cartas de amor a uma mulher abandonada ou encontra uma personagem central da poesia nacional.
Mas, acima de tudo, purga demónios. Num lar todos têm memória e todos têm passado.
Todos recordam e julgam o país onde viveram e todos têm confissões a fazer. A dele é apenas mais uma.
A tal "máquina de fazer espanhóis" é aquela sofreguidão com que, de tempos a tempos, cada um rende o país que ama.
Uma máquina que se activa de cada vez que alguém diz "mais valia sermos uma província de Espanha" para amaldiçoar os erros deste país mas sem nunca conseguir deixar de defender a independência desse pedaço de terreno com que se identifica.
Os velhos no lar juntam as suas alegrias e as suas censuras a um país que quiseram ver perdido mas que nunca conseguiram abandonar.
A máquina move-se sempre sem sucesso. A velhice é o momento de confessar que se tentou andar nela e continuar seguindo, até ao fim, onde sempre se esteve.

No caso de valter hugo mãe, a forma de escrita é, inevitavelmente, tão notada quanto o tema.
A sua falta de maiúsculas assemelha o texto a um telegrama, sequências rapidíssimas que raras vezes se interrompem durante a leitura.
Digamos que lhes falta a quebra do stop para se dar conta de que uma nova frase se iniciou.
O efeito de leitura com que se mesclam as frases causa novos efeitos de compreensão, sugere outros significados, aproxima o texto de uma liberdade que esperávamos da poesia em prosa.
Não quero com isto dizer que o texto não seja perfeitamente entendível e estruturado.
Apenas que a leitura tem características distintas. O texto deixa-se atravessar como se os pontos finais estivessem a unir as frases e não a separá-las, a ligar a cadência com que as lemos, a acrescentar velocidade em vez de nos dar a pausa entre elas.
Não creio que seja isto que o autor procurasse, pois não é sistemático nem evidente um jogo com estas características, mas é um efeito interessante.


















a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Fevereiro de 2010
312 páginas

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Lições em Humanidade

Estes dois pequenos contos de Melville fazem sentido juntos por serem duas demonstrações de como se deve encarar a vida.
Cocorocó fala da aceitação da vida. Um galo, magnífico cantor, é o desejo de um homem e é-lhe negado. A família que o mantém, tão pobre e doente, prefere a riqueza do ânimo que esse galo transmite ao dinheiro. Morrem felizes e em conjunto porque a vida esteve cheia uns dos outros e do belo canto daquele galo. E o homem que o desejava aprendeu a preciosa lição da humildade, de valorizar o que tem e não o que é inalcançável. A inveja era a verdadeira face da sua existência sorumbática e contra ela toda uma família deu a vida e ele honra-a com a sua prometida felicidade futura.
Feliz Insucesso parece ainda mais desesperado. Um homem arrasta o seu sobrinho e um criado para a estreia de uma invenção revolucionária. Trata-os mal porque sabe que a glória o espera e eles se queixam e duvidam. Arriscou dez anos naquele momento e tudo falha. Mas nessa altura já não maldiz o que aconteceu, resigna-se ao facto de que a vida não se pode reduzir a um objectivo tão fugaz. Que a vida se deve apreciar no momento em que acontece e não ser aposta numa eventualidade, num momento que define a imortalidade do seu próprio nome. O homem só aceita isso quando a sua vida se encaminha para o fim, mas entrega tal conhecimento ao seu sobrinho que ainda tem tanto por viver. Não será pois esse o legado que ele tinha a deixar. A lembrança do seu nome está no rapaz que aprendeu a apreciar a vida com ele.
Nenhum dos contos é um manual sentimental de auto-ajuda. São histórias de derrotas - o homem que deseja o galo e tem de o ver morrer, o homem que batalhou toda a vida por uma invenção que falha - de onde brotam alegrias, de onde brota a humanidade dos que as vivem.
A concretização do melhor lado humano obriga a que se pague o preço da derrota.


















Feliz Insucesso (Herman Melville)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
92 páginas

domingo, 5 de dezembro de 2010

Encerrando-se

Ser engolido por uma baleia é ver-se no interior de um universo fechado, claustrofóbico, assustador.
Um universo onde se sobrevive mas no qual não há saída, mesmo quando há um vislumbre do que se passa lá fora, quem foi engolido não tem capacidade para abordar o que se passa.
Ser engolido pela baleia é um isolamento incompleto em que todo o exterior entra sem que possam dar algo de volta ao exterior.
Assim estão Stevie e Michael, ambos na sua velhice com o corpo e a mente a cederem, incapacitados. Ele, Michael, sobretudo, já sem voz, quase sem energias devido ao cancro.
Mas o universo não se fecha sobre eles apenas porque a idade faz ceder as suas forças, o universo foi fechado por eles próprios muito tempo antes.
Cada um viveu a sua história separadamente, percorrendo os caminhos possíveis do ponto em que estavam juntos e tiveram de se separar até ao momento em que já não se podiam unir mas estavam de novo ligados sem alternativa.
Quando as suas vidas se tocaram, decidiram ainda assim continuar sozinhos.
No fundo, deixaram-se engolir pela baleia do seu medo que foi, também, um cuidado com o outro.
O seu medo maior não foi o de se ferirem uns aos outros, foi de permitirem um ao outro redimirem-se mutuamente.
Como se o carinho e o perdão que o outro teria por eles fosse a condenação a uma dor permanente de quem tinha sido o ser humano melhor e o amante mais sincero.
Ambos acharam merecer ser encerrados naquele silêncio culpado sem fuga e ambos evitaram as poucas hipóteses de fuga que poderiam ter existido.


















Dentro da Baleia (Jennie Rooney)
Bertrand Editora
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
224 páginas