terça-feira, 30 de novembro de 2010

Homenagem ao malandro

Um grupo unido de sete homens lança-se numa vingança contra duas províncias de França, Issoire e Ambert, que surgiram a um deles como dois olhos persecutores.
Começam por rimas gozosas e logo seguiram para planos elaborados de vexame e confusão.
Estava bêbado aquele que entre eles se se amedrontou com um mapa num sótão escuro. Estavam todos, aliás.
Estavam bem assim, juntos, entretendo-se entre eles em doses iguais de se maltratarem e apoiarem mutuamente.
Em grupo, nenhum homem é como singularmente se comporta. É como o grupo necessita, dando-lhe tudo o que pode e recebendo tudo o que deve.
Falo do sexo masculino pois é dele que conheço melhor o comportamento. Igualmente porque (sinto que) é nele que permanece o gosto pela rebeldia juvenil, pela inconsciência e pela existência de grupo.
É nele que permanecem os códigos de grupo e o companheirismo sólido sem julgamento.
Estes sete compinchas comunicam entre si com versos Alexandrinos e desconfiam apenas para se congratularem com a falsa surpresa de ver os outros cumprirem com o esperado.
Seguem os planos ousados, absurdos e divertidíssimos que criam sem parar para reflectir em consequências.
O grupo move-se, apoia um dos seus porque o grupo é cada um deles, consciência colectiva e corpo agregado.
Tudo isto tem um humor nonsense, um absurdo sem limites que os homens que guardam companheiros de longa data saberão apreciar como versões exageradas dos seus velhos truques.
Malandros assim já não existem mais, mas ainda existimos muitos bem parecidos.

Crítica escrita ao som da memória de Homenagem ao malandro de Chico Buarque.


















Os Pândegos (Jules Romains)
Livros do Brasil
Sem indicação da edição - Sem indicação da data
288 páginas

sábado, 27 de novembro de 2010

Pequeno apontamento

Mesmo sendo um homem de Ciência - se assim posso atrever a chamar-me pelo curso que tirei e pela área de trabalho onde me inscrevo - e leitor tão assíduo como variado, não me sinto capaz de me lançar a este livro para o apresentar a um futuro público leitor sem reduzir a sua importância e a sua vastidão.
Daí ter chamado a este texto Pequeno apontamento, assinalando assim que, desta vez, pretendo apenas dar uma pequena amostra do que o livro nos conta e reforçar a ideia de que não há senão mais e mais material para lá ser aprofundado.
As revoluções científicas, como entendidas aqui, não são verdadeiras revoluções, mas alterações de estatuto de teorias dentro de determinadas áreas, normalmento substituídas por outras que possam explicar todos os novos dados constatados.
No interior dessas áreas há alterações fundamentais ao entendimento da realidade, mas nas áreas relacionadas a aceitação dessas alterações é pacífica e natural, alterando-se apenas uma ferramenta com a qual essas outras áreas trabalham.
Este livro traça pois uma realidade bem diferente daquela que nos é ensinada, de que a Ciência evolui de grande descoberta em grande descoberta, de teoria radical em teoria radical, mas antes se faz passo a passo, de um campo de trabalho para o outro.
A lição não serve só à Ciência, mas a quase todas as áreas das quais se traçam Histórias pautadas por grandes nomes, génios e , esquecendo
Mas este é apenas uma pequena revelação - que nem é revelação nenhuma, verdade seja dita - que este livro tem hoje, como à data da sua publicação original.
Na verdade, o livro traça importantes linhas sobre o conhecimento humano, sobre a sua progressão e sobre a relevância deste progresso mesmo para os leigos.
O livro é fulcral a todos os que querem Saber, assim mesmo, com letra maiúscula.


















A Estrutura das Revoluções Científicas (Thomas S. Kuhn)
Guerra & Paz
1ª edição - Setembro de 2009
288 páginas

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pequenos papéis de um homem maior

Seria a leitura mais proveitosa se eu conhecesse melhor o texto integral de A Origem das Espécies?
É uma pergunta importante que não terá resposta até que (eventualmente) percorra esse outro livro, mas não deixei por isso de encontrar entendimento sobre um homem importantíssimo para o conhecimento moderno, algo que só fica provado pela polémica que o seu trabalho ainda provoca em locais dominados por fanáticos.
As suas cartas e os seus apontamentos mostram-no como um pensador perpétudo, um homem para o qual a ciência não parava à porta de casa.
Provam-no as cartas que troca com a mulher reflectindo sobre o próprio sacramento que vão partilhar ou os apontamentos regulares que mantém sobre a vida dos seus filhos depois continuados pela mulher.
Isto prova também que ele encontrou uma companheira capaz de o desafiar e de o compreender. Um pensado tem, muitas vezes, uma incapacidade para ser feliz, mas não parece ter sido o caso deste homem.
Os seus papéis mostram isto. Se tal é verdade passará por ler uma biografia mais detalhada de Darwin, mas acima de tudo, acredito que fica por ler a sua obra essencial onde ele investiu tanto de si.


















Escritos Íntimos (Charles Darwin)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
112 páginas

Com um olho no ecrã


Eis um livro que se deve ler com um olho no ecrã. Um livro que vive melhor quando o conjugamos com a visualização dos filmes de Herzog.
Mas mesmo este livro tem de ser apenas um livro e se é preciso falar dele como tal, devo dizer que as reflexões de Grazia Paganelli são excelentes leituras por si mesmas.
Diria que são, como espero que os textos que aqui escrevo sejam, pedaços independentes de literatura que nos enriquecem o pensamento e que saiem valorizados pela relação com as obras do realizador.
À falta da possibilidade de visualizar as obras lado a lado com os textos, a entrevista com Herzog entrelaça-se na reflexão, acentuando as melhores ideias desta.
Sendo verdade que a entrevista é conduzida em direcção às ideias expressas pela autora, acontece também que esta tome caminhos próprios pela voz do realizador que se encontra desafiado a reflectir sobre si próprio como não fizera até aí.
Ao longo da entrevista, Herzog faz quase um ensaio sereno sobre si próprio, sobre o seu cinema e sobre o cinema que o rodeia.
Muito honesto, fala da criação de um cinema feita por si e que se tornou numa obra. A falta de linhas orientadoras com as quais se identificasse, perseguiu temas, recusou associações e inventou formas.
Na sua entrevista explora as particularidades da obra que criou da forma que apenas ele conseguiria, sem tentar criar um mito de si próprio, mas oferencendo um ponto de entrada a um pensamento demorado sobre a própria arte do seu cinema, um pensamento que poderá depois ser enriquecido pelo retorno às teses apresentadas por Grazia Paganelli e, finalmente, por serem confrontados com os filmes de onde nasceram.


















Sinais de Vida - Werner Herzog e o Cinema (Grazia Paganelli)
Edições 70
Sem indicação da edição - Abril de 2009
270 páginas

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sangrar culpa

Desenhado com uma certa anonímia que permite que o espaço onde a história se passe se assemelhe à assunção de de ruralidade nacional feita por qualquer leitor, independentemente da sua nacionalidade (ou não tivesse sido primariamente publicado em França), o livro permite que a sua leitura seja enquadrada na familiaridade de um universo pessoalmente entendido.
É verdade, também, que conhecendo a restante obra de Rui Lacas saberemos situar os elementos deste seu mundo, bem como a evolução dos traços de originalidade da sua utilização particular da onomatopeia como parte integrante da estrutura da página desenhada.
Mas faz sentido falar da história como universal, deslocalizada no tempo e espaço - passado local ou presente de países inominados -, mas cujo fulcro é o percurso que vai da tentação ao crime e deste à penalização.
Uma medida do passar do tempo, que é sempre curto para chegar da tentação ao crime e muito longo para chegar depois à punição, e que a história trata de contar em sentido inverso, tratando demoradamente o primeiro período e desenlaçando o segundo tão subitamente quanto merece acontecer.
Nesse aspecto o livro revela não ser tanto sobre a vingança, como a primeira impressão fará parecer, antes sobre a retribuição.
Não há nada para ver nessa retribuição a não ser o seu momento final. Por comparação, conhecer e medir o acto é muito mais importante.
Vemos o preço que cada um paga pelo seus actos quando, a pouco e pouco, admite a ignomínia dos mesmos.
A retribuição chega por mão própria, quando a acumulação desses pequenos pedaços de admissão de culpa é suficientemente forte para que o pecador se revolte contra eles. A absolvição é impossível e nesse momento arca, finalmente, com as consequências por completo.
A vingança, se continuarmos a querer chamar-lhe assim, está em sangrar lentamente tudo ao alvo da mesma até que apenas sobre a culpa e esta pese demais.
A concretização física de todo este acto é um efeito e não um objectivo.


















Obrigada, Patrão (Rui Lacas)
Edições Asa
1ª edição - Outubro de 2007
96 páginas

domingo, 21 de novembro de 2010

Desvario na primeira pessoa

Não tenho interesse particular na vida dos yuppies de Wall Street, embora entre Wall Street e American Psycho já tenha visto o quanto essas personagens podem ser (brutalmente) interessantes.
Ainda assim, uma autobiografia fazia-me duvidar. 600 páginas de um homem a contar a sua própria história não prometiam uma leitura muito fascinante.
Mas começa o prólogo com a iniciação do Lobo na correctagem com a promessa e que ele ainda vai a tempo de se tornar alcoólico e o interesse muda de orientação de imediato.
A partir daí as 600 páginas correm e há uma verdadeira alucinação de uma vida de excessos e de falta de convicções de qualquer espécie.
Esta é uma vida que podia ter sido criada por Hunter S. Thompson, carregada de drogas, sexo e dinheiro.
Ou, dito de uma forma mais evidente, vida carregada de poder e inconsciência, possibilidades ilimitadas sem sentido crítico que as ampare.
Com uma preferência por Quaaludes, o Lobo de Wall Street - ou Gordon Gekko, ou Don Corleone, ou Kaiser Soze - não dá tréguas a si mesmo no relato da sua queda até ao abismo.
Com uma escrita tão acelerada como os seus acontecimentos, com a recriação de diálogos desvairados e com uma falta de pudor perante a humilhação, esta autobiografia é um livro de plena brutalidade vivida demasiado depressa para um ser humano comum.
A queda dá direito a uma pequena retoma lá mais para o final, mas são 9 anos de loucura sempre à mão de semear, para uma pequena hipótese.
Quem disser que não adorou entrar no raio desta montanha russa de concretização, paranóia e ferocidade, provavelmente estará a mentir.
Se perguntarem se o livro dá uma ideia do limite que o ser humano é capaz de atingir, respondo sim.
Se perguntarem se o livro constata que o domínio de nós mesmos e da realidade está quase sempre para lá de nós, respondo sim.
Se perguntarem se o livro é essencial para termos consciência de qualquer um destes aspectos, aí responderei não. Mas que foi uma trip daquelas... lá isso foi!


















O Lobo de Wall Street (Jordan Belfort)
Editorial Presença
1ª edição - Setembro de 2010
632 páginas

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Personagem autor

O Especialista faz de si próprio personagem, ou não construísse um novo nome para ele próprio quando decide abandonar a profissão que tinha. Tem muita pose, como convém a um assassino - ou a um ex-assassino que, no final de contas, não pode fugir do que sempre foi.
Ao leitor afirma que não retira prazer da matança, mas deixa que o relato se alongue com os contratos que o encheram de orgulho.
Com os seus parceiros faz a contabilidade dos saltos de mulher para mulher, mas logo se apaixona até à monogamia.
O personagem não é todo ele fabricação, é também em parte pura complexidade humana.
José retira prazer da leitura, sobretudo da poesia, mas também ouve rock nos auscultadores.
pontua a sua vida com citações dos clássicos em Latim mas distribui alcunhas com o sabor do calão.
A sua pose distante cede ao conforto de uma mulher, os seus instintos calculistas vergam-se quando ela duvida.
Quanto do livro é ficção e quanto do livro é reprodução do seu autor?
A pergunta surge mas a resposta não interessa verdadeiramente. Ainda assim temos a fixação em sabê-lo.
Que leitor não acreditará que os prazeres de José são também os de Rubem?
José é tão humano como nós. Poderia ser tão real como nós, mas está na página.
Rubem é tão real como nós. Poderia ser tão ficcional como os seus personagens, mas viveu mais do que a conta.
Não sabemos exactamente quem é José, como não sabemos exactamente quem é Rubem. Adivinhamo-los pelos pormenores, pelo pouco que contam.
Rubem parece deixar um pouco de si em cada um dos seus noir, ou gostamos de assumir que sim por ele ter sido polícia.
Deixemos que ele nos deixe várias vezes mais a adivinhar, sobretudo enquanto os seus livros tiverem esta desenvoltura no manejo da língua, esta ferocidade cinematográfica e este encanto de imperfeição brilhante.


















O Seminarista (Rubem Fonseca)
Sextante Editora

1ª edição - Setembro de 2010
136 páginas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O fim como o início

A caminho do final da saga, Fitz ainda está obrigado à busca e à luta por um objectivo.
O primeiro é a sua humanidade, à qual ele tem de regressar depois de ter sido acossado pela ira irracional do seu tio.
Recuperar a sua humanidade dar-lhe-á uma hipótese de vingança, mas significa também abdicar do prazer de viver livre como o seu lobo e voltar a sentir a dor física e mental de todas as perdas e de todas as crueldades que lhe caíram em cima.
E o seu objectivo seguinte, o final, é o que finalmente concluirá a demanda da época conturbada da linhagem Visionário.
Acima de tudo, a fantástica incursão por terrenos desconhecidos onde o poder da magia traça o percurso termina como começou a saga, bem escrita, com gritante originalidade e com uma atenção detalhada à composição das fortes personagens que dão vida à história.
Disse-o várias vezes ao longo das críticas aos anteriores volumes e aqui o repito novamente, na construção intensa das personagens e na forma como eles se comportam no ambiente particular do género que obriga a uma reflexão sobre a identidade humana está mais do que a base de uma grande saga, está a base da boa literatura.
Que o último livro seja o primeiro cujo título não se refere mais ao Assassino mas sim ao Visionário, um verdadeiro elemento da linha real, não é nada menos do que justo.
O rapaz que cedeu tudo o que tinha, que abodeceu a todos os compromissos e chamamentos, descobriu no final o seu papel que ninguém lhe poderia ter ditado nem traçado.
Quando ele finalmente arrebatou a sua própria existência, quando fez emergir o seu poder e a sua decisão, a partir daí conquistou um nome próprio.
Pode ter perdido tudo o resto pelo caminho, mas conquistou a sua identidade.
A Saga do Assassino levou-nos ao nascimento do Visionário e embora até ao fim seja, realmente, uma demanda, no fim por algo já tão ténue como um pequenho chamamento repetido no interior da sua cabeça, é uma conquista humana ambientada num mundo de fantasia único.


















A Vingança do Assassino (Robin Hobb)
Saída de Emergência

1ª edição - Janeiro de 2010
448 páginas



















A Demanda do Visionário (Robin Hobb)
Saída de Emergência

1ª edição - Julho de 2010
480 páginas

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

No coração do conflito

Com DMZ Brian Wood trouxe a guerra para o coração de um país que, depois da sua Guerra Civil, não mais sentiu o conflito no seu próprio território.
Sendo esse coração Manhattan, zona onde está a única ferida no tecido geográfico e sentimental norte-americano, o trabalho tem tanto de estima como de dor.
Manhattan está entregue ao conjunto de habitantes que restou, mas está também na ponta do mapa que os dois exércitos pretendem conquistar. A ferida americana tem de ser protegida e estimada, tem de ser do povo mas é nela que é preciso esgravatar se se pretende acordar a consciência desse mesmo povo.
Aqui mostra-se claramente o que é a guerra a um povo para quem os mais violentos conflitos do século XX existiram apenas de forma quase imaterial, mesmo quando contestados profundamente.
A violência era sempre levada pelos soldados americanos até a um outro país e apenas era devolvida aos familiares que enviavam familiares para a frente de batalha e recebiam de volta nada mais que condolências.
A ficção de DMZ faz o assentimento de que os EUA precisa de compreender de forma directa o que é a guerra e o que ela comporta.
DMZ coloca os EUA no papel inverso, o papel que nunca teve, o papel de invadido ao invés de invasor.

A partir daí a ficção plena de força retrata com bastante sentido de oportunidade, ou não tivesse acompanhado temporalmente o clima político e social difícil que viviam, e com bastante compreensão da realidade, como o prefácio de um soldado americano a um dos volumes atesta, a possibilidade de uma guerra de dentro para dentro.
O primeiro passo da série é criar uma noção imediata de reconhecimento e plausabilidade. Dar uma vida ao espaço, com igual extensão de diferenças e peculiaridades como tinha no momento em que lá não existia guerra.
Isso é mais claro e mais bem sucedido quando se vê no final de DMZ: Body of a journalist um dossier jornalístico sobre a vida na cidade, com referência a locais frequentados, entrevistas de rua e fanzines ou livros como objectos culturais lá nascidos.
Dar uma vida a um tempo característica das condições criadas mas com um grande paralelo com a realidade americana presente.
Tendo esse ponto conseguido, tendo estabelecido uma vida para a sua personagem central em traços largos, a série persegues temas críticos.
Em DMZ: Body of a journalist é a manipulação de imprensa e da informação, a forma como o jornalista é usado e abandonado, como a sua vida é manobrada real e virtualmente e como a informação é sempre uma ferramenta com um intuito preciso. O problema é que a informação é, pois, forjada e forjar ainda tem dois significados antagónicos...
DMZ: Friendly fire é mais cruel ainda e desnuda a violência de que são capazes os soldados e o povo. É um alerta para a perda da inocência causada, para a realidade oca da elevada moralidade local.
O julgamento do que é a verdadeira realidade de um soldado no espaço do conflito, da evidência não desculpabilizante dos erros possíveis de ocorrerem, passa depois a ser também a divisão de culpas entre quem lá está e quem manifesta o sentimento que esses soldados apenas exprimiram com a força das circunstâncias que lhes atiçaram.
Só a história de DMZ: Public works é que me parece ter surgido cedo demais na narrativa global. Os interesses económicos de uma guerra eram uma constatação urgente, mas os resultados práticos da abordagem feita não são ideais.
Este pedaço de narrativa não é tão forte como os restantes e fica enclausurado na demonstração de um argumento. Se esta história não existisse o resultado para as vidas desenhadas era o mesmo.

Claro que DMZ, sendo uma série de banda desenhada, não conseguirá atingir o público que verdadeiramente deveria.
A maioria dos que o lerem já terão consciência da realidade, já terão acesso à informação e um sentido crítico às ocorrência bélicas em que o seu país se envolve.
Nem por isso a utilização de um meio popular e tão facilmente acessível deve ser menos do que evidenciada, sobretudo nesta forma que por pouco não será, para bastantes pessoas, um incentivo à rebelião e ao terrorismo.
Não é, pois como já disse, há um carinho na construção de uma comunidade sensível em torno do ground zero, por isso para os restantes de nós, leitores com uma perspectiva distinta, com um entendimento multifacetado tanto da vida interna como da presença externa dos EUA, toda a série se mostra como uma obra de ficção de alto nível.
Se não precisamos dela para ganhar consciência, pelo menos podemos apreciá-la sem rodeios nem julgamentos imprecisos.


















DMZ: On the ground (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Junho de 2006
128 páginas



















DMZ: Body of a journalist (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2007
168 páginas



















DMZ: Public works (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Setembro de 2007
128 páginas



















DMZ: Friendly fire (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Março de 2008
128 páginas

domingo, 7 de novembro de 2010

Bases da grande literatura

Não sei quantos leitores de elevada exigência incluiriam Michael Moorcock numa lista dos mais significativos autores da sua biblioteca.
O seu Elric, que descobri primeiro através de uma versão em banda desenhada e, mais recente e devidamente, através da Saída de Emergência, agrada-me mas não me seduz ao regresso como Solomon Kane.
Mas é para ele e sob a sua égide que Michael Chabon inicia este livro. Aliás, esta compilação em livro de um folhetim originalmente publicado na The New York Times Magazine.
Com isto Michael Chabon está a provar, em definitivo, que é possível fazer grande literatura a partir de bases populares e inesperadas, seja o noir de Chandler em O Sindicato de Polícias Iídiches, a banda desenhada em As espantosas aventuras de Kavalier & Clay ou os serials neste caso.
Bases tanto inpiracionais quanto práticas. O género a sugerir um tema onde cabem ideias mais extensas. O ritmo e as sequências a oferecerem estruturas com possibilidades quase ilimitadas para o gosto e a demanda de Chabon pelo cuidado e a inventividade da linguagem.
Neste caso, a aventura de tom vertiginoso esconde toda a complexidade de um mais um estudo pertinente sobre a identidade judaica, o que ele já fazia com os dois outros livros que dele li.
Tal estudo não empastela a narrativa nem lhe encobre o interesse literário globalizado que tem ou, pelo menos, deveria ter quando lemos sobre estes dois fantásticos personagens.
Dúbios, complexos, dignos quando o seu carácter prometeria o oposto, cheios de recursos e com uma entrega inquestionável ao objectivo que está diante de si.
Mesmo quando se comportam de forma censurável mantêm uma dignidade digna de nota.
São, como já eram Elric e Conan, anti-heróis sedutores. São figuras complexas, com defeitos e sujeitos a críticas, que substanciam o percurso literário de aventuras que foram a um tempo ingénuas mas chegaram mais perto da mutação e evolução dos seus próprios leitores.
Personagens que percorrem um cenário parcialmente esquecido mas não menos digno de relevo. Um cenário que é, quando devidamente se procura desvendá-lo para lá do fim do livro, uma personagem tão significativa quanto os dois protagonistas.
Grande literatura partindo de um lugar inesperado que deverá levar os leitores a interrogar-se sobre a atenção que dão a este género em geral - e, no meu caso particular, a Elric em particular.


O único (des)apontamento a fazer à edição deste livro em Portugal vai para a não inclusão das 15 ilustrações realizadas por Gary Gianni para acompanhar o texto.
Deixo um magnífico exemplo do trabalho para que quem se apaixone por este livro possa vasculhar os recantos da net e ver as imagens, aproveitando certamente para reler o livro com elas ao lado.


















Cavalheiros da estrada (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Junho de 2010
176 páginas

sábado, 6 de novembro de 2010

O noir de hoje como no passado

Michael Chabon voltou a escolher um cenário extravagante e extraordinário para o seu livro.
Este pedaço de História alternativa tem o dom de unir o final da II Guerra Mundial ao presente com uma riqueza que torna tudo plausível e sedutor.
A partir do momento em que estamos capturados neste ambiente, o livro só pode melhorar.
Tal coisa acontece com a criação de Meyer Landsman, um polícia perdido no seio de um povo à beira de perder o local a que pertence.
Landsman é um homem que vive na fatalidade e que anda fatalmente distanciado dos que o rodeiam. É um papel para Humphrey Bogart no caso dele ser judeu e viver no Alasca
A sua ex-mulher é agora a sua chefe e o seu parceiro pertence ao povo que vai ficar com o seu pedaço de Alasca.
Tem apenas de encerrar os casos abertos para despachar o assunto para a administração seguinte mas logo se sente obrigado a resolver um assassinato cuja única relação consigo é ter acontecido no mesmo hotel reles em que ele agora mora.
Nessa senda sujeita-se a falhanço atrás de falhanço, mas progride sempre mais uma posição. Um ser humano pouco credível e um polícia pouco fiável, mas o único a quem ainda confiaríamos algo.
Um homem como o xadrez que odeia e que acompanha toda a trama mas só revela a sua verdadeira implicação no final.
O xadrez é essencial para a resolução da trama, mas também para que ela se inicie, não se trata meramente de sugerir que os personagens são peças jogadas para a frente e para trás.
Todos aqui decidem porque são obrigados, mesmo sujeitos a um xeque-mate certo têm de decidir a sua jogada seguinte.
Não há mais movimentos no tabuleiro, até porque o seu tabuleiro em breve ser-lhes-á retirado e eles, jogadores, ficarão a olhar para o vazio. E, ainda assim, têm de progredir, jogar por descargo de consciência ou obrigação.
Por isso só o noir servia a tal história - embora haja mais géneros e estilos na mistura - e no estilo brilhante de Chabon vêem-se bem os traços gerais do género tratados com respeito, paixão e convicção sustentando uma procura de modernidade.
Mais um grande livro de um autor que, suponho, se alguma vez falhar continuará a fascinar pela sua qualidade da sua tentativa.


















O Sindicato de Polícias Iídiches (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Outubro de 2009
380 páginas

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Talento intemporal

Bastou ler este livro uma vez para colocar Michael Chabon entre os meus autores favoritos, aqueles autores que têm um lugar especial entre as prateleiras lá de casa.
O tema, a idade de ouro da banda desenhada americana, ajudou. Foi esse o primeiro motivo que me levou ao livro.
O meu fanatismo pela nona arte - uso o termo por hábito, embora tenha dúvidas sobre a ordem dada por Ricciotto Canudo e sobre o seu prolongamento, até porque em mais do que um caso vem sendo reinvindicada esta posição em particular para a Gastronomia - deu-me o motivo para chegar à obra e a expectativa de me apaixonar rapidamente por ele.
Porém não me deu o entendimento para o que poderia estar prestes a descobrir - certamente na altura não fazia ideia, por desinteresse, do que é ou do que representa o Prémio Pulitzer.
O livro de Chabon revelou-se magnífico na altura e revela-se magnífico hoje.
Relê-lo hoje foi descobrir novas maravilhas em passagens que anteriormente tinham ficado escondidas pela força de outras.
Relê-lo hoje é verificar que os personagens ainda guardam traços que estão para lá da imagem que guardei deles.
O que, por outro lado, nunca foi esquecido e que nunca deixará de funcionar maravilhosamente é a profundidade dramática de Chabon num cenário que prometia ser mais adequado a um divertimento e a sua ambição na construção de um livro que seja, tanto pelo conteúdo como pelo estilo, um pedaço das décadas sobre as quais escreve.
Mais ainda, a pura criatividade e talento literário de Chabon colocam no livro algo que, longe de ser fundamental, lhe dá um fascínio maior. Falo dos capítulos praticamente autónomos - reli-os isoladamente ao longo dos anos - em que ele descreve os personagens e as histórias de banda desenhada que os seus próprios personagens criam ao longo do livro.
E a forma como ele o faz, com a delineação das palavras a conseguir o que nenhum grande artista seria capaz de recriar - basta comparar esses capítulos com os comics publicados pela Dark Horse.
Este livro ficará inscrito na História literária, acima de tudo pela sua qualidade, mas igualmente porque o seu retrato fulgurante da cultura popular de meados do século XX será parte da forte memória que a ficção lança para o futuro.
A banda desenhada americana tem influência no percurso americano, os bastidores da sua criação são tão importantes como as efemérides do surgimento dos super-heróis nas suas páginas.
O tema do livro poderá parecer incomum e uma escolha estranha para os leitores de grande exigência que não estão familiarizados ou desacreditam a banda desenhada, mas o tema não estará longe de ter a mesma relevância para o século XX como as guerra Napoleónicas tiveram para o século XIX.
E não me parece difícil que, no futuro, a obra monumental de Chabon possa ser vista numa perspectiva semelhante à de Tolstói.


















As espantosas aventuras de Kavalier & Clay (Michael Chabon)
Gradiva
1ª edição - Abril de 2003
672 páginas