sexta-feira, 27 de março de 2009

Sem gosto

Nada tenho contra Bernardo Rodo, mas há livros que nos deixam desconfiados sem que tenhamos sequer lido uma página.
Chamem-lhe mau feitio, se quiserem, mas ao encarar o capítulo "zero" de A Pátria dos Loucos, não pude deixar de julgar essa numaração como um fútil exercício de modernidade.
Afinal de contas, se o prólogo passa a tratar-se de um capítulo "zero", o epílogo deverá passar a ser o capítulo 25+?
Esse seu capítulo "zero" começa assim:
Estava então o velho refastelado no cadeirão da morte a ruminar memórias, dessas que se confundem com as dos outros e com as próprias inventadas, quando o foram interromper com a frase maldita que não deixa indiferente de irritação um homem distraído com os seus pensamentos: "Está na hora, paizinho". O esforço implicado naquele aviso era de tal ordem complexo que não restou ao velho outro sentido senão o de ignorá-lo e retomar o seu exercício da saudade. Mas a voz parecia disposta a estragar-lhe a viagem e outra vez veio à carga: "Paizinho, está na hora". Não podia ele imaginar de que hora se tratava, apesar de a rotina lhe ter ensinado os procedimentos correctos de calar semelhante insistência. Levantou-se com esforço do cadeirão, um pequeno balanço de ranger os ossos, depois o equilíbrio lento com a mão apoiada no braço do assento, e dirigiu-se à retrete para esvaziar a bexiga que há duas horas o reclamava, porém sem a urgência merecida para se fazer valer.

Ao ler-se tudo isto, há algo que parece sempre destoar, fora de tom.
Há algo que soa mal num parágrafo assim. Se em alguns pontos há erros específicos que se podem apontar, noutros é apenas uma sensação permanente e indelével.
Depois do capítulo "zero" o caso deixa de ser tão acentuado, mas é persistente o recurso a mais um adjectivo, a mais uma expressão, a mais uma (pretensamente) poética metáfora que vão sistematicamente quebrando o ritmo de leitura.
Bernardo Rodo não tem atenção à essência da frase, à composição sonora daquilo que se está a ler.
Não resisti para lá das 30 páginas de um livro que, sinceramente, não dá gosto ler, apesar de se iniciar num cenário alentejano que teria adorado desvendar.



















A Pátria dos Loucos (Bernardo Rodo)
Editorial Presença
1ª Edição - Março de 2009
240 páginas

5 comentários:

  1. Alguém que escreve "numaração" não pode ser considerado como crítico literário...
    Discordo totalmente do que escreve, mas gostos não se discutem e o prazer que tive a ler o livro já ninguém me tira...

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  2. Caro senhor
    Quando uma pretensa critica se recolhe atrás de pormenores de "numaração", é caso para me deixar desconfiado. Por outro lado, e tentando ler o que escreveu com muito esforço, até ao fim, deparo-me com a frase: "Não resisti para lá das 30 páginas..."
    Ora isto faz-me questionar imediatamente: a sua critica é a um livro ou a um terço do livro?

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  3. "numaração" deve ser uma espécie de "destoar, fora de tom"...Hehehe

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  4. Caro Carlos Antunes,

    O preconceito estético parece ter-lhe retirado o afastamento que distingue uma desconstrução crítica de uma destruição primária.

    Se lesse o livro "A Pátria dos Loucos" do princípio ao fim (ainda que com algum "resistência") poderia ter concluído que é desvendada uma paisagem humana que o poderia ter compensado pela falta de montes dourados, brisas escassas e sobreiros perdidos que parecem ser fundamentais nas suas leituras.

    Quanto ao "fútil exercício de modernidade", análise que considero prosaica e de mau gosto, uma pseudo-visão filosófica ou juízo de intenção (reveladora de uma visão utilitarista da escrita? terá o Stuart Mill na sua mesa de cabeceira?), sugiro-lhe que retome (ou inicie) as suas leituras de Beauvoir sobre as acusações de futilidade e sobre as reflexões da Modernidade. Rever-se-á certamente na descrição que ela faz de uma certa estirpe.

    Denotaria uma maior honestidade intelectual se tivesse lido o livro na totalidade, ainda que tivesse escrito os mesmos comentários. E teria outro respeito pela sua crítica, mesmo com uma leitura parcial, se se limitasse a admitir que o livro não é para si.

    "A Pátria dos Loucos" tem lugar assegurado na minha prateleira, no meio de autores acusados por excessos metafóricos, de outros por falta de pontuação e de sonoridade...

    Agradeço-lhe esta provocação digital que me reavivou a memória e a vontade de reler alguns momentos cheios de humanidade... apesar da falta de sobreiros.

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  5. Esqueci-me de acrescentar um dado que lhe parece tão relevante para a crítica literária.
    Tirei um curso. De Comunicação Empresarial.
    E cuidado, que tenho um livro técnico) escrito.
    Onde posso encontrar os seus livros?
    Asseguro-lhe que resistirei a todas as páginas antes de escrever qualquer comentário.

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