domingo, 15 de novembro de 2009

Toda a literatura

Este é um épico sobre um mundo extraordinário que nos deixa bem presente na mente as infinitas possibilidades da Manha e do Talento, magias extravagantes e originais que nos fascinam pela libertação da imaginação mais livre e inocente que possuímos.
Este é um épico sobre uma personagem a braços com os dilemas mais pungentes que o ser humano enfrenta até hoje, com as expectativas combatendo as emoções, com a crença combatendo a sabedoria, com o mundo combatendo o próprio homem.
Fitz nasceu para uma vida que não lhe pertence, para um destino que deveria ser escrito por todos menos por ele.
No entanto a sua própria existência é fonte de alterações nos destinos de todo um reino e vezes sem contas ele é chamado a tomar decisões que determinam os destinos das próprias pessoas a quem a vida dele deveria pertencer.
Fitz é chamado a muito mais do que desejaria e a muito mais do que deveria, mas isso não um torna um herói, apenas num rapaz a lutar pela sua própria consciência, pela sua própria individualidade, pela sua própria coerência e pela sua própria existência.
Fitz é um personagem da mais rica literatura que, neste caso, pertence a um género muito específico.
Mas um género de pouco serve se não for tratado com o mais capaz talento, um talento para lá de qualquer classificação genérica.
Refraseando George R. Martin, toda a literatura deveria ser assim.


















A Corte dos Traidores (Robin Hobb)
Saída de Emergência
1ª Edição - Outubro de 2009
368 páginas

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Uma personagem a sós

http://www.uwo.ca/french/films/Film%20Images%202007-2008/La_pianiste_2.jpg
Isabelle Huppert como Erika Kohut

Senti-me atraído para A Pianista por ter visto e admirado o filme que Michael Haneke fez dele.
Por Michael Haneke ter arrancado a Isabelle Huppert uma interpretação tão surpreendente quanto intensa, o ressurgimento do título A Pianista na minha mente foi como um foco apontado à leitura.
Há em A Pianista uma personagem extraordinária, Erika Kohut, que não era afinal apenas fruto de uma inspirada actriz.
Ela é a essência de subjugação voluntária para que se lhe activem os sentidos, para que se sinta viva por entre a dormência da sua vida, embora nunca liberta da rendição a que se acostumou ao morar com a mãe.
Mas uma personagem assim, mesmo que fique na memória, não consegue verdadeiramente viver sozinha.
E com isto quero dizer que a escrita de Elfriede Jelinek teria de a suportar, teria de a espicaçar, teria de a acariciar.
Não o faz. A escrita de Elfriede Jelinek tem a eloquência fria de um relatório, um atestado analítico à psique de uma personagem.
Uma frieza que assenta mal, que obriga a uma disputa entre a paciência e o prazer do leitor.
Elfriede Jelinek parece capaz de analisar de forma distante a sua personagem, mas com isso afasta também os seus leitores.
Há aqui uma personagem radical mas que precisava de um outro tratamento para que a acompanhássemos com mais intensidade.


















A Pianista (Elfriede Jelinek)
Edições Asa
2ª Edição - Outubro de 2004
336páginas

domingo, 8 de novembro de 2009

Contar o que não se deve

Augusten Burroughs é um desbocado capaz de listar os "broches sagrados" - que lhe foram proporcionados por padres -, tentar seduzir um operador de telemarketing para que a empresa dele nunca mais lhe ligue ou insinuar que o marido da sua colega de trabalho anda a fazer sexo com a própria filha como retribuição por ela ter gritado com ele sem razão alguma.
Mas nada disto parece uma exploração saída de uma imprensa cor-de-rosa sedenta de escândalo e choque.
Augusten Burroughs parece muito mais uma versão sem restrições nem limites da nossa vida quotidiana, de quem faz aquilo que bem entende perante as situações quase banais, tornando-as assim em motivo notável para a escrita.
Ele não tem vergonha, não porque pretenda fazer-nos abrir a boca de espanto mas porque aceita verdadeiramente a sua concepção diferente da vida e acha que partilhá-la será catártico para... o leitor, claro!
Se não fosse ele a escrever assim, seria impossível para aquela velhota confessar-lhe que a mãe lhe dava clísteres de Dr. Pepper e depois a obrigava a beber o líquido que saía.
A nossa própria vida ganhar contornos aceitáveis e partilháveis quando encontramos alguém igualmente para lá da "normalidade" - as aspas são para que tentem definir o que é, afinal, esse conceito.
Fácil é rir alto e bom som de tantos pormenores deliciosos que se soltam destas crónicas. Fácil é dizer "Só mesmo a um tipo assim!".
Difícil é depois ter de perceber que a nossa vida, tirando as notas mais extravagantes, não é tão diferente desta, mas que no nosso caso estamos um pouco mais constrangidos a ser boas pessoas e aturar o que se passa.
Augusten Burroughs coloca-se a jeito para que qualquer pessoa o ache seu companheiro, porque não se contam histórias assim na praça pública, não se é neurótico para uma audiência de desconhecidos porque isso atrai uma avalanche de bizarrias de volta.
Só que ele tem um certo sadismo apontado ao mundo, disposto como uma bofetada ou uma chamada de despertar. Cada um tem as suas próprias histórias negras a precisarem de catárse, de serem contadas em voz alta com histerismo e gargalhadas.
Augusten Burroughs apenas colocou as dele cá fora primeiro para dar o exemplo.


















Pensamento Mágico (Augusten Burroughs)
Contraponto
1ª edição - Julho de 2009
292 páginas

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais tréguas como esta

Se disser muito simplesmente que A Trégua é uma lição sobre o Amor, chegarão a um lugar-comum de imaginarem um qualquer romance lamechas com pretensões de psicologia barata.
Se disser, pelo contrário, que A Trégua é o retrato de como a vida se espraia para a eternidade mesmo nos momentos mais ténues, julgarão que se trata de um romance sobrecarregado de intelectualidade.
A Trégua, muito provavelmente, é tudo o que existe pelo meio de ambos os pontos e que os une ou separa.
A Trégua é um diário (literalmente) de um homem a caminho da reforma que se atormenta com o que poderia ter sido, com o tempo vazio que terá de ocupar, com as memórias que ressurgem ou se perdem.
Um homem que tem, ao fim de vinte anos de imaculada viuvez, o encontro com uma jovem que o arrebata.
Ele, julgando-se perto demais do fim - da vida, das possibilidades, do merecimento - não é capaz de se entregar ao que verdadeiramente sente. Demora demais até aceitar que poderá estar perante algo que merece mais do que a sua desconfiança.
Crente no inevitável fim daquilo que vive naquele momento, ele não encarará esta porção da sua vida senão como encara a própria vida, um tempo a ter de ser ocupado, um ócio sem justificações.
Por isso esconde, até de si mesmo, a felicidade conjunta que encontrou e que vive. Quando a deixa despontar não é ainda tarde demais, mas há uma dramática lição para aquele homem que tanto atormentava a própria alma.
A trégua do título é o tempo que Deus lhe concede de alívio das dúvidas mundanas, um alívio que será por natureza breve e que confundirá aquele que o sente por se parecer demais com a verdadeira salvação, a eternidade feliz concedida antecipadamente.
A trégua não é a disponibilidade de tempo para aquilo que ele quiser. A trégua é o esquecimento da inexorável passagem desse tempo e das tragédias que se encontram na revisão do tempo que ficou para trás.
A Trégua é um livro absoluto, uma Alma traduzida em palavras e um pedaço de literatura brilhante.


















A Trégua (Mario Benedetti)
Cavalo de Ferro
1ª edição - Abril de 2007
168 páginas

domingo, 1 de novembro de 2009

Ficar aborrecido

Lê-se O Perito e sente-se que estamos a braços com um autor cheio de ideias e perfeitamente capaz que é vitíma das circunstâncias editoriais.
Não digo que Robert Finn não tenha escrito o livro que pretendia, mas parece ter-se resignado às convenções de um género porque é aquele que, neste momento, está em voga.
No fundo O Perito tem dois livros dentro de si.
O primeiro é um policial simples que está enriquecido por uma dupla protagonista que são como pólos atraídos um para o outro, mas igualmente repelidos.
Um casal a trocar picardias, ele um inglês estranhamente impetuoso e ela uma americana estranhamente resguardada.
São, com as devidas distâncias, um Boogie & Bacall para os tempos actuais - sendo que tenho consciência que a este comentário não seré estranha a leitura recente de À Beira do Abismo.
O segundo é um livro de fantasia onde velhos textos sobre magia podem ser manuais eficazes, que podem trazer ao mundo moderno de poderes que rivalizam com a ciência mais avançada ao mesmo tempo que o impregna do classicismo que só os combates de florete podem ter.
Separados dariam dois livros muito apetecíveis e certamente com muito mais páginas para cada um se desenvolver e respirar.
Juntos dão, ainda assim, um agradável e eficaz livro que, apesar de tudo, escapa à repetição da fórmula que parece condenado a repetir.
É caso para ficar aborrecido com Dan Brown e o seu sucesso que obriga a uma formatação da imaginação - ou, pelo menos, da expressão dessa imaginação.


















O Perito (Robert Finn)
Publicações Europa-América
1ª edição - Julho de 2009
392 páginas