segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O fim como o início

A caminho do final da saga, Fitz ainda está obrigado à busca e à luta por um objectivo.
O primeiro é a sua humanidade, à qual ele tem de regressar depois de ter sido acossado pela ira irracional do seu tio.
Recuperar a sua humanidade dar-lhe-á uma hipótese de vingança, mas significa também abdicar do prazer de viver livre como o seu lobo e voltar a sentir a dor física e mental de todas as perdas e de todas as crueldades que lhe caíram em cima.
E o seu objectivo seguinte, o final, é o que finalmente concluirá a demanda da época conturbada da linhagem Visionário.
Acima de tudo, a fantástica incursão por terrenos desconhecidos onde o poder da magia traça o percurso termina como começou a saga, bem escrita, com gritante originalidade e com uma atenção detalhada à composição das fortes personagens que dão vida à história.
Disse-o várias vezes ao longo das críticas aos anteriores volumes e aqui o repito novamente, na construção intensa das personagens e na forma como eles se comportam no ambiente particular do género que obriga a uma reflexão sobre a identidade humana está mais do que a base de uma grande saga, está a base da boa literatura.
Que o último livro seja o primeiro cujo título não se refere mais ao Assassino mas sim ao Visionário, um verdadeiro elemento da linha real, não é nada menos do que justo.
O rapaz que cedeu tudo o que tinha, que abodeceu a todos os compromissos e chamamentos, descobriu no final o seu papel que ninguém lhe poderia ter ditado nem traçado.
Quando ele finalmente arrebatou a sua própria existência, quando fez emergir o seu poder e a sua decisão, a partir daí conquistou um nome próprio.
Pode ter perdido tudo o resto pelo caminho, mas conquistou a sua identidade.
A Saga do Assassino levou-nos ao nascimento do Visionário e embora até ao fim seja, realmente, uma demanda, no fim por algo já tão ténue como um pequenho chamamento repetido no interior da sua cabeça, é uma conquista humana ambientada num mundo de fantasia único.


















A Vingança do Assassino (Robin Hobb)
Saída de Emergência

1ª edição - Janeiro de 2010
448 páginas



















A Demanda do Visionário (Robin Hobb)
Saída de Emergência

1ª edição - Julho de 2010
480 páginas

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

No coração do conflito

Com DMZ Brian Wood trouxe a guerra para o coração de um país que, depois da sua Guerra Civil, não mais sentiu o conflito no seu próprio território.
Sendo esse coração Manhattan, zona onde está a única ferida no tecido geográfico e sentimental norte-americano, o trabalho tem tanto de estima como de dor.
Manhattan está entregue ao conjunto de habitantes que restou, mas está também na ponta do mapa que os dois exércitos pretendem conquistar. A ferida americana tem de ser protegida e estimada, tem de ser do povo mas é nela que é preciso esgravatar se se pretende acordar a consciência desse mesmo povo.
Aqui mostra-se claramente o que é a guerra a um povo para quem os mais violentos conflitos do século XX existiram apenas de forma quase imaterial, mesmo quando contestados profundamente.
A violência era sempre levada pelos soldados americanos até a um outro país e apenas era devolvida aos familiares que enviavam familiares para a frente de batalha e recebiam de volta nada mais que condolências.
A ficção de DMZ faz o assentimento de que os EUA precisa de compreender de forma directa o que é a guerra e o que ela comporta.
DMZ coloca os EUA no papel inverso, o papel que nunca teve, o papel de invadido ao invés de invasor.

A partir daí a ficção plena de força retrata com bastante sentido de oportunidade, ou não tivesse acompanhado temporalmente o clima político e social difícil que viviam, e com bastante compreensão da realidade, como o prefácio de um soldado americano a um dos volumes atesta, a possibilidade de uma guerra de dentro para dentro.
O primeiro passo da série é criar uma noção imediata de reconhecimento e plausabilidade. Dar uma vida ao espaço, com igual extensão de diferenças e peculiaridades como tinha no momento em que lá não existia guerra.
Isso é mais claro e mais bem sucedido quando se vê no final de DMZ: Body of a journalist um dossier jornalístico sobre a vida na cidade, com referência a locais frequentados, entrevistas de rua e fanzines ou livros como objectos culturais lá nascidos.
Dar uma vida a um tempo característica das condições criadas mas com um grande paralelo com a realidade americana presente.
Tendo esse ponto conseguido, tendo estabelecido uma vida para a sua personagem central em traços largos, a série persegues temas críticos.
Em DMZ: Body of a journalist é a manipulação de imprensa e da informação, a forma como o jornalista é usado e abandonado, como a sua vida é manobrada real e virtualmente e como a informação é sempre uma ferramenta com um intuito preciso. O problema é que a informação é, pois, forjada e forjar ainda tem dois significados antagónicos...
DMZ: Friendly fire é mais cruel ainda e desnuda a violência de que são capazes os soldados e o povo. É um alerta para a perda da inocência causada, para a realidade oca da elevada moralidade local.
O julgamento do que é a verdadeira realidade de um soldado no espaço do conflito, da evidência não desculpabilizante dos erros possíveis de ocorrerem, passa depois a ser também a divisão de culpas entre quem lá está e quem manifesta o sentimento que esses soldados apenas exprimiram com a força das circunstâncias que lhes atiçaram.
Só a história de DMZ: Public works é que me parece ter surgido cedo demais na narrativa global. Os interesses económicos de uma guerra eram uma constatação urgente, mas os resultados práticos da abordagem feita não são ideais.
Este pedaço de narrativa não é tão forte como os restantes e fica enclausurado na demonstração de um argumento. Se esta história não existisse o resultado para as vidas desenhadas era o mesmo.

Claro que DMZ, sendo uma série de banda desenhada, não conseguirá atingir o público que verdadeiramente deveria.
A maioria dos que o lerem já terão consciência da realidade, já terão acesso à informação e um sentido crítico às ocorrência bélicas em que o seu país se envolve.
Nem por isso a utilização de um meio popular e tão facilmente acessível deve ser menos do que evidenciada, sobretudo nesta forma que por pouco não será, para bastantes pessoas, um incentivo à rebelião e ao terrorismo.
Não é, pois como já disse, há um carinho na construção de uma comunidade sensível em torno do ground zero, por isso para os restantes de nós, leitores com uma perspectiva distinta, com um entendimento multifacetado tanto da vida interna como da presença externa dos EUA, toda a série se mostra como uma obra de ficção de alto nível.
Se não precisamos dela para ganhar consciência, pelo menos podemos apreciá-la sem rodeios nem julgamentos imprecisos.





















DMZ: On the ground (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Junho de 2006
128 páginas






















DMZ: Body of a journalist (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2007
168 páginas






















DMZ: Public works (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Setembro de 2007
128 páginas






















DMZ: Friendly fire (Brian Wood e Riccardo Burchielli)
Vertigo Comics
Sem indicação da edição - Março de 2008
128 páginas

domingo, 7 de novembro de 2010

Bases da grande literatura

Não sei quantos leitores de elevada exigência incluiriam Michael Moorcock numa lista dos mais significativos autores da sua biblioteca.
O seu Elric, que descobri primeiro através de uma versão em banda desenhada e, mais recente e devidamente, através da Saída de Emergência, agrada-me mas não me seduz ao regresso como Solomon Kane.
Mas é para ele e sob a sua égide que Michael Chabon inicia este livro. Aliás, esta compilação em livro de um folhetim originalmente publicado na The New York Times Magazine.
Com isto Michael Chabon está a provar, em definitivo, que é possível fazer grande literatura a partir de bases populares e inesperadas, seja o noir de Chandler em O Sindicato de Polícias Iídiches, a banda desenhada em As espantosas aventuras de Kavalier & Clay ou os serials neste caso.
Bases tanto inpiracionais quanto práticas. O género a sugerir um tema onde cabem ideias mais extensas. O ritmo e as sequências a oferecerem estruturas com possibilidades quase ilimitadas para o gosto e a demanda de Chabon pelo cuidado e a inventividade da linguagem.
Neste caso, a aventura de tom vertiginoso esconde toda a complexidade de um mais um estudo pertinente sobre a identidade judaica, o que ele já fazia com os dois outros livros que dele li.
Tal estudo não empastela a narrativa nem lhe encobre o interesse literário globalizado que tem ou, pelo menos, deveria ter quando lemos sobre estes dois fantásticos personagens.
Dúbios, complexos, dignos quando o seu carácter prometeria o oposto, cheios de recursos e com uma entrega inquestionável ao objectivo que está diante de si.
Mesmo quando se comportam de forma censurável mantêm uma dignidade digna de nota.
São, como já eram Elric e Conan, anti-heróis sedutores. São figuras complexas, com defeitos e sujeitos a críticas, que substanciam o percurso literário de aventuras que foram a um tempo ingénuas mas chegaram mais perto da mutação e evolução dos seus próprios leitores.
Personagens que percorrem um cenário parcialmente esquecido mas não menos digno de relevo. Um cenário que é, quando devidamente se procura desvendá-lo para lá do fim do livro, uma personagem tão significativa quanto os dois protagonistas.
Grande literatura partindo de um lugar inesperado que deverá levar os leitores a interrogar-se sobre a atenção que dão a este género em geral - e, no meu caso particular, a Elric em particular.


O único (des)apontamento a fazer à edição deste livro em Portugal vai para a não inclusão das 15 ilustrações realizadas por Gary Gianni para acompanhar o texto.
Deixo um magnífico exemplo do trabalho para que quem se apaixone por este livro possa vasculhar os recantos da net e ver as imagens, aproveitando certamente para reler o livro com elas ao lado.


















Cavalheiros da estrada (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Junho de 2010
176 páginas

sábado, 6 de novembro de 2010

O noir de hoje como no passado

Michael Chabon voltou a escolher um cenário extravagante e extraordinário para o seu livro.
Este pedaço de História alternativa tem o dom de unir o final da II Guerra Mundial ao presente com uma riqueza que torna tudo plausível e sedutor.
A partir do momento em que estamos capturados neste ambiente, o livro só pode melhorar.
Tal coisa acontece com a criação de Meyer Landsman, um polícia perdido no seio de um povo à beira de perder o local a que pertence.
Landsman é um homem que vive na fatalidade e que anda fatalmente distanciado dos que o rodeiam. É um papel para Humphrey Bogart no caso dele ser judeu e viver no Alasca
A sua ex-mulher é agora a sua chefe e o seu parceiro pertence ao povo que vai ficar com o seu pedaço de Alasca.
Tem apenas de encerrar os casos abertos para despachar o assunto para a administração seguinte mas logo se sente obrigado a resolver um assassinato cuja única relação consigo é ter acontecido no mesmo hotel reles em que ele agora mora.
Nessa senda sujeita-se a falhanço atrás de falhanço, mas progride sempre mais uma posição. Um ser humano pouco credível e um polícia pouco fiável, mas o único a quem ainda confiaríamos algo.
Um homem como o xadrez que odeia e que acompanha toda a trama mas só revela a sua verdadeira implicação no final.
O xadrez é essencial para a resolução da trama, mas também para que ela se inicie, não se trata meramente de sugerir que os personagens são peças jogadas para a frente e para trás.
Todos aqui decidem porque são obrigados, mesmo sujeitos a um xeque-mate certo têm de decidir a sua jogada seguinte.
Não há mais movimentos no tabuleiro, até porque o seu tabuleiro em breve ser-lhes-á retirado e eles, jogadores, ficarão a olhar para o vazio. E, ainda assim, têm de progredir, jogar por descargo de consciência ou obrigação.
Por isso só o noir servia a tal história - embora haja mais géneros e estilos na mistura - e no estilo brilhante de Chabon vêem-se bem os traços gerais do género tratados com respeito, paixão e convicção sustentando uma procura de modernidade.
Mais um grande livro de um autor que, suponho, se alguma vez falhar continuará a fascinar pela sua qualidade da sua tentativa.


















O Sindicato de Polícias Iídiches (Michael Chabon)
Casa das Letras
1ª edição - Outubro de 2009
380 páginas

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Talento intemporal

Bastou ler este livro uma vez para colocar Michael Chabon entre os meus autores favoritos, aqueles autores que têm um lugar especial entre as prateleiras lá de casa.
O tema, a idade de ouro da banda desenhada americana, ajudou. Foi esse o primeiro motivo que me levou ao livro.
O meu fanatismo pela nona arte - uso o termo por hábito, embora tenha dúvidas sobre a ordem dada por Ricciotto Canudo e sobre o seu prolongamento, até porque em mais do que um caso vem sendo reinvindicada esta posição em particular para a Gastronomia - deu-me o motivo para chegar à obra e a expectativa de me apaixonar rapidamente por ele.
Porém não me deu o entendimento para o que poderia estar prestes a descobrir - certamente na altura não fazia ideia, por desinteresse, do que é ou do que representa o Prémio Pulitzer.
O livro de Chabon revelou-se magnífico na altura e revela-se magnífico hoje.
Relê-lo hoje foi descobrir novas maravilhas em passagens que anteriormente tinham ficado escondidas pela força de outras.
Relê-lo hoje é verificar que os personagens ainda guardam traços que estão para lá da imagem que guardei deles.
O que, por outro lado, nunca foi esquecido e que nunca deixará de funcionar maravilhosamente é a profundidade dramática de Chabon num cenário que prometia ser mais adequado a um divertimento e a sua ambição na construção de um livro que seja, tanto pelo conteúdo como pelo estilo, um pedaço das décadas sobre as quais escreve.
Mais ainda, a pura criatividade e talento literário de Chabon colocam no livro algo que, longe de ser fundamental, lhe dá um fascínio maior. Falo dos capítulos praticamente autónomos - reli-os isoladamente ao longo dos anos - em que ele descreve os personagens e as histórias de banda desenhada que os seus próprios personagens criam ao longo do livro.
E a forma como ele o faz, com a delineação das palavras a conseguir o que nenhum grande artista seria capaz de recriar - basta comparar esses capítulos com os comics publicados pela Dark Horse.
Este livro ficará inscrito na História literária, acima de tudo pela sua qualidade, mas igualmente porque o seu retrato fulgurante da cultura popular de meados do século XX será parte da forte memória que a ficção lança para o futuro.
A banda desenhada americana tem influência no percurso americano, os bastidores da sua criação são tão importantes como as efemérides do surgimento dos super-heróis nas suas páginas.
O tema do livro poderá parecer incomum e uma escolha estranha para os leitores de grande exigência que não estão familiarizados ou desacreditam a banda desenhada, mas o tema não estará longe de ter a mesma relevância para o século XX como as guerra Napoleónicas tiveram para o século XIX.
E não me parece difícil que, no futuro, a obra monumental de Chabon possa ser vista numa perspectiva semelhante à de Tolstói.


















As espantosas aventuras de Kavalier & Clay (Michael Chabon)
Gradiva
1ª edição - Abril de 2003
672 páginas