sábado, 5 de dezembro de 2009

Alma velha em corpo novo

O Exílio dos Anjos é uma aventura mas poderia perfeitamente não ser, pois por detrás da história que se conta há algo que é o fundamento de muita da criação humana desde sempre, a vida para lá da morte, a busca da perpetuação de nós mesmos e o amor.
Há no livro uma possibilidade de estarmos perante a sobrevivência da alma e da sua reencarnação num processo que dois cientistas desenvolveram para poderem escapar a uma vida de perseguição. Escape através da própria morte, claro.
Há aqui bons e maus, os que procuram obter o conhecimento de como controlar a mente e fazer perdurar a alma com fins militares e os que querem tornar esse conhecimentos público e útil.
Mas também os havia entre os alquimistas, uns que procuravam a Pedra Filosofal como fonte de dinheiro fácil - e que na busca a simulavam para enganar os restantes - e uns poucos que a procuravam como a fonte de eternidade e conhecimento que a Humanidade precisava.
Mesmo não sendo um livro mais do que aventuroso, leve na forma como se dedica aos problemas levantados pela migração de almas que os cientistas foram capazes de fazer ou como tenta explicar as possibilidades e implicações do processo, não deixa de semear
Esses problemas que valeria a pena discutir, identitários, religiosos e morais, não podem fazer base num livro que se quer ritmado e adaptável ao grande ecrã.
Só que, ao fim e ao cabo, talvez estejamos perante uma forma mais apontada a um público actual de contar o mesmo velho mito. Estripássemo-lo dos seus vilões e heróis, da sua aventura cinematográfica e teríamos duas almas em busca do reencontro para lá da morte e a procura de todos da prova que esta não esconde o desconhecido.

Impossível de não assinalar, infelizmente, é o facto de o livro ter ficado um pouco maltrado com gralhas que não parecem mais do que alterações da tradução do livro que, pelo caminho, deixaram palavras a mais em sítios indevidos.


















O Exílio dos Anjos (Gilles Legardinier)
Publicações Europa-América
1ª edição - Setembro de 2009
312 páginas

sábado, 28 de novembro de 2009

Regressar

Regressei a Bartleby, uma vez mais diga-se, sem que saiba exactamente porquê. É uma pulsão que acho perfeitamente deliciosa.
Suponho que seja uma identificação com este homem que se torna uma fantasmagoria pela força da sua existência imóvel mas resistente.
Bartleby é como um pilar que se opõe ao mar. As ondas deveriam passar sem sequer se aperceberem dele. Mas a sua imobilidade acaba por se revelar incómoda, perturbadora para a força que se julga toda poderosa.
Na sua intrigante singularidade, Bartleby rasga com a normalidade que a sociedade espera ver cumprida.
Ele é um resistente silencioso e pacífico à obediência que deve ser norma. Ele opta quando devia apenas reagir ao que lhe é dito. Ele não confronta ninguém, apenas opta.
Por isso Bartleby será sempre uma personagem moderna, por isso ele será sempre a expressão do indivíduo que se confronta com a sua própria função no mundo e com expectativas com que a sociedade o pressiona.
Ainda não foi a última vez que regressei a Bartleby, disso tenho a certeza.


















Bartleby (Herman Melville)
Assírio e Alvim
Sem indicação da edição - Abril de 1988
88 páginas

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um obra-prima

O prefácio deste livro abre dizendo que se trata de uma obra-prima, um peso desnecessário para o leitor que fica desconfiado de um elogio fácil ou da sua incapacidade de se aperceber da qualidade da obra.
Começando-se a ler o texto deparamo-nos com uma história que vive de uma simplicidade extrema, como se fosse uma história tão comum que se conta sem quase se dar conta. É uma pequena memória que ressurge pouco antes de uma missa por um defunto, missa essa que três pessoas diferentes querem pagar o que o padre vai recusando.
Mas quando finalmente se revela a verdadeira natureza do texto, descobre-se a grandeza que encerra.
Se a história é simples, história de homens numa terra pequena, história que se perderia na memória, aquilo que ela encerra é grandioso: o retrato de um país, o retrato de uma guerra, o retrato de um povo dividido em classes, o retrato de uma evolução, o retrato das relações dos vários poderes.
Por via do pequeno e fechado relato de uma qualquer aldeia espanhola percebemos as dinâmicas e os infortúnios que definiram a Guerra Civil e que levaram à revelação daquilo de que os homens são capazes.
Nesse aspecto há aqui muito daquilo que também surge em O Relatório de Brodeck, homens a tentarem lavar a culpa dos actos que cometeram quando se viram rendidos a uma dose de medo e outra tanta de raiva.
Aqui, no entanto, não há inocentes, quanto muito há tolos, crédulos, falsos puritanos.
E todos estão obrigados a sentir o peso do vazio que substituiu a humanidade quando uma mula é a única presença na missa que se vai rezar.
Sinal de que o mundo está despedaçado e louco e de que os homens devem esvaziar-se ainda mais para conseguirem ignorar tal tormento.
Em pouquíssimas páginas, com um estilo tão recatado mas ainda mais duradouro, Sender conta-nos muito mais do que um mero país, conta-nos a lição que demasiadas vezes esquecemos, pois só os que não recordam o passado estão condenados a repeti-lo.
E afinal Requiem por um camponês espanhol sempre é uma obra-prima, nem era preciso anunciá-lo.





















Requiem por um camponês espanhol (Ramón J. Sender)
Campo das Letras
1ª Edição - Agosto de 2007
88 páginas

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Escrever pela humanidade

Os homens quando se vêem a nú diante de si mesmos sentem o maior dos repúdios e a maior das vontades de destruirem essa consciência.
Mas sendo impraticável - impossível não, mas certamente difícil de o fazer a toda uma aldeia - destruirem-se a si mesmos, destroem aquilo que os confronta consigo próprios, sejam meros desenhos ou um estrangeiro que olha para a aldeia de uma nova forma.
Um homem justo é o espelho em que a monstruosidade dos restantes se reflecte e, conscientes de si mesmos, estes homens sentem uma raiva perante de si que não conseguem tolerar.
A raiva e o medo são dois das mais fortes motivações do homem, a primeira servindo geralmente para dominar a segunda. Já quando as duas se combinam, com os homens enraivecidos e assustados consigo mesmos, o resultado é muito mais violento, capaz de os levar ainda mais para lá da brutalidade desumana que já haviam revelado.
Os homens não pretendem senão apagar a memória de si mesmos, dos seus actos, dos seus pecados, da sua ignomínia.
Brodeck escreve contra o esquecimento, contra o silenciar da realidade, contra o apagar do passado.
Mas é ele que carrega esse fardo da memória, ele que tem de penitenciar toda a sua aldeia.
Ele e a família que o acompanha, como a mulher que carrega no ventre o texto que Brodeck escreve para si mesmo, o mesmo ventre de onde nasceu a filha que ele adora, a filha de mais um crime que os homens da aldeia cometeram.
Brodeck será o último homem justo, que quer apenas que todos saibam que é inocente, que não procura a vingança que facilmente poderia ter.
Ele sobreviveu a tudo para reencontrar a sua mulher, embora isso se tenha relevado impossível, porque nenhum homem justo é recompensado neste mundo. Pelo contrário, é castigado vezes e vezes sem conta.
Brodeck escreve o relatório sabendo que com ele pretendem os restantes limpar as suas consciência. Brodeck escreve o seu próprio texto sabendo que ele não pode permitir que as consciências se percam assim.
Não há mais espaço para ele, homem justo, naquela aldeia ou sequer neste mundo. Mas se ele se submete não se rende.
Submeteu-se a ser um cão mas sobreviveu. Submeteu-se a branquear o que os outros haviam feito mas revelou as suas verdadeiras feições.
Terá de bastar que seja apenas ele a sabê-lo, mas Brodeck não se deixou conspurcar, ele escreveu como hipótese de permanecer o homem que pretende, mesmo que nunca consiga voltar a ser o homem que fora.
Ele escreveu para fazer sobreviver a sua humanidade, para nos revelar até que ponto estamos dispostos a perder a nossa.
Estamos mais do que confrontados com nós próprios quando nos vemos no espelho que é Brodeck, reflexos dos homens daquela aldeia.





















O Relatório de Brodeck (Philippe Claudel)
Edições Asa
1ª Edição - Setembro de 2009
256 páginas

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Popular sabedoria

Três cavalos é como um móvel feito para ser sólido mas cuja beleza se revela pelo passar do Tempo.
Tem a desenvoltura manual e tem também a beleza artesanal, tem a solidez suavizada pelo detalhe, o peso do ouro temperado pelo trabalho de filigrana.
Três cavalos está repleto daquela sabedoria que não se escreve, que apenas se vive, de alguém que mete as mãos na terra e lê velhos livros à mesa do almoço.
De quem é refém de uma guerra que não foi sua. De alguém que não taxa o valor da amizade, independentemente de como ela é desniveladamente retribuída de parte a parte. De alguém que se convence não conseguir voltar a amar mas que ainda assim o faz.
Três cavalos tem a serendipidade de encontros que são como renascimentos e redescobertas de si mesmo.
Tem a memória acabada da vida que se levou e a esperança infinita da vida que está por vir.
Três cavalos é uma obra que se dá ao leitor pela sua escrita que é quase como um discurso de natureza popular, mas que dá ainda mais ao leitor por toda a sabedoria que só um discurso assim pode acalentar em nós.


















Três Cavalos (Erri De Luca)
Ambar
1ª Edição - Junho de 2004

120 páginas