sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Vai ter de repetir

Não sei se terá sido propositado, mas para mim o tema deste livro está todo ele exposto na sua própria estrutura.
Um homem, caminhando para uma velhice um pouco impotente, tira notas - não chega a ser um diário - capazes de relatar os acontecimentos da sua vida.
Não temos a certeza se o faz para afrontar a sua crescente degenerescência ou o faz como rendição a ela.
Não temos a certeza se com essas notas prova a resistência das suas capacidades mentais ou se prova que, de outra forma, já não seria capaz de recordar o que se passou consigo.

Todo o livro lida com o confronto com o envelhecimento e com a morte. O confronto e a aprendizagem, desse envelhecimento que se revela na surdez progressiva do protagonista.
Por mais que não pareça uma condição das mais gravosas - como o próprio autor salienta por diversas vezes, afirmando e demonstrando que a cegueira é vista tragicamente e a surdez comicamente - é debilitante, sobretudo para um linguista, assim privado da sua profissão.
Mas é, também, debilitante na forma como destrói o contacto social, como irrita as pessoas que lhe são próximas e como cria uma barreira de solidão cada vez maior.
A surdez é, afinal de contas, um isolamento do mundo, pelo que o combate contra ela, contra a velhice, contra a morte, será sempre uma luta solitária.
Nos seus equívocos, na sua constante repetição, chega a um ponto em que parece tão ridícula essa luta que a nossa reacção é a de nos enternecermos com o seu protagonista.
A sua determinação em se sentir de novo inteiro e capaz e humano leva-o a envolver-se com uma rapariga que parece pronta a destabilizar a vida e só uma tragédia ainda maior, que aproxima ainda mais da fragilidade da vida, não só a ele mas a todos os que o rodeiam, parece capaz de o fazer reencontrar com as pessoas e vice-versa.
Este romance é como uma vertigem perante a debilidade da velhice. Mas é também uma genuína demonstração de força e, até certo ponto, um alerta, embora não seja nada disto propositadamente.
É, acima de tudo, um romance muito bem pensado e muito bem escrito, que como todos os grandes romances consegue extravasar-se a si próprio para tocar a vida - ou, pelo menos, a consciência - do seu leitor.

Uma nota que não poderia aqui falhar, até por ser o autor a mencioná-la logo na abertura do livro, vai directamente para a tradução.
Não era minimamente fácil fazê-la, tão repleta de singularidades línguisticas e trocadilhos que só resultam no seu original inglês.
No entanto, a tradutora Tânia Ganho conseguiu salvaguardar esses jogos de significados, sem comprometer a legibilidade do livro com as notas de rodapé, que são ricas e apropriadas, mas não excessivas.


















A vida em surdina (David Lodge)
Edições Asa
1ª Edição - Maio de 2009
336 páginas

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Nós e os outros

Um livro sobre escolhas e sobre condicionamentos.
Um livro que nos confronta com os limites daquilo a que uma pessoa se sujeita ou que sacrifica para manter uma imagem de si mesma perante os outros; com aquilo que uma pessoa argumenta de forma a se convencer da justeza das suas acções; e com aquilo que se perde de si mesmo no processo de se adaptar à consciência social.
Um livro poderosíssimo no que respeita à confrontação que exige ao nosso próprio comportamento, às exigências que nos fazemos por motivos tão claramente absurdos quando aplicados aos outros, aos sacrifícios em que reincidimos por motivos que são tudo menos nossos e às ideias pelas quais nos aceitamos reger com medo de exibir os nossos sentimentos

Um livro que confronta o particular como confronta o colectivo.
Confronta a leviandade com que apontamos aos outros os defeitos que escondemos de nós próprios.
Confronta a leviandade com que, nesse processo, a sociedade ataca aqueles que no seu seio tornam visíveis tais defeitos, relegando-os para um gueto condicional.
Confronta a falta de direito que uma sociedade tem de se ilibar por culpabilização simplista de uns quantos e a falta de direito que essa sociedade tem de julgar no presente se não pode ver os eventos à luz das suas circunstâncias passadas.
Confronta a sociedade com a resistência do indivíduo - mesmo que este se julgue ele próprio culpado - e com a sua elevação, vista sempre como confrontação, uma defesa de carácter tomada como provocação.

O Leitor fala, no fim de contas, do analfabetismo social e moral em que uma geração alemã - mas todos nós, de tempos a tempos - se permitiu cair.
Fala da capacidade de julgamento que acreditamos ter sobre aqueles que não procuramos compreender.
Fala dos nossos erros, da sua persistência e do seu eco na sociedade, eco esse que apenas os potencia.
Um livro de uma força inegável e que obriga a uma revisão daquilo que esperamos de nós mesmo e, ainda mais, daquilo que esperamos dos outros. Um revisão que torna menos justificável uma diferenciação entre ambos.


















O Leitor (Bernhard Schlink)
Edições Asa
5
ª Edição - Fevereiro de 2009
144 páginas

sábado, 1 de agosto de 2009

Redescobrir a distopia

Lidar com este livro envolve uma enorme dicotomia que apenas torna o exercício mais interessante e a admiração pelo autor maior.
Trata-se de um combate que o leitor tem de travar entre a forma e o conteúdo ou, sendo mais específico, um combate entre a resistência do leitor à datada forma deste romance de Ficção Científica e a sua insaciedade com a imaginação sempre actual do seu conteúdo.
A obra de Karel Capek ainda está muito agarrada ao género de relato que H. G. Wells havia iniciado e ainda sem a frescura da geração que surgia na década em que esta obra foi publicada.
A extensão de informações dadas em notas de rodapé, reproduzindo artigos de jornais muitas vezes em línguas não traduzíveis, chega a ser demasiado maçuda.
Mas pelo meio disso surge uma forte e intemporal capacidade crítica que aplica a sua sátira a assuntos tão diversos como a tolice Hollywoodesca, as políticas fanáticas e racistas ou a falta de abertura dos homens de ciência.
Sátira essa que, apesar de falar das starlets e do nazismo em específico, fá-lo de uma forma que está para lá dessa especificidade, que é aplicável ao comportamento mais constante e cíclico dos seres humanos.
Mas, acima de tudo, há uma crítica nada velada à essência - mais bélica que comunitária - da própria Humanidade, sobre a qual ele discorre em importantes reflexões de teor quase filosófico e contra a qual termina com um capítulo metalinguístico em que fala do futuro das salamandras como expressão das possibilidades do que a humanidade acabará por fazer a si mesma.
A Guerra das Salamandras é uma cruel distopia da própria visão em que se vinha transformando e continua a transformar a humanidade.
Um livro inovador no seu tempo que em bom tempo se pode redescobrir, já que se mantém como um aviso tão actual.


















A guerra das salamandras (Karel Capek)
Publicações Europa-América
1ª Edição - Maio de 2009
240 páginas

terça-feira, 28 de julho de 2009

Indesejavelmente familiar

Ninguém está imune a sentir-se compelido à leitura de um livro por uma qualquer campanha de marketing ou evento especial.
Neste caso, tratou-se da adaptação ao Cinema da obra O Solista.
No entanto, ao inciar a leitura, deparei-me logo com um irritante sentimento de familiaridade que o próprio autor trata de confirmar ao fim de 40 páginas.
Essa familiaridade vem da génese desta obra, uma extensão de uma coluna jornalística sobre uma "figura caricata" encontrada nas ruas da cidade, algo que Joseph Mitchell fez de forma inovadora nas décadas de 1940 e 1960 com O Segredo de Joe Gould (cuja capa da edição portuguesa podem ver ao lad).
Esse sentimento prejudicou o apreço que poderia sentir por esta obra, já que tornou a comparação inevitável. E, como podem imaginar, essa comparação foi sempre desfavorável a esta mais recente leitura.
Não tanto pela qualidade do trabalho em si, mas pela direcção que ele leva.
O Solista fala de Nathaniel - o génio musical perdido na sua loucura - e torna-o no centro de uma narrativa que é, em muito, o relato das tribulações do próprio jornalista ao lidar com Nathaniel e com o tratamento que a cidade de Los Angeles tem para a doença mental e para os desalojados.
Pelo contrário, O Segredo de Joe Gould, era quase um romance centrado nas singularidades e nas vivências da sua personagem central, uma personagem tão intensa e curiosa que enchia páginas sobre si mesmo sem dificuldade, que interagiava e era apreciado por diversos dos artistas da sua época à conta da sua obra monumental que pretendia contar a história oral do mundo.
Além disso, tinha uma qualidade narrativa plena de inventividade que aproximava a disciplina jornalística (ou colunística, se preferirem) da ficção. Já O Solista está demasiado perto da simples reportagem, longa - e de prestígio, talvez - aberta a muitos temas mas que por ser tão abrangente perde o leitor que pretende desvendar o que sucede com o Solista do título e tem de receber uma miríade de informações a mais.


















O solista (Steve Lopez)
Estrela Polar
1ª Edição - Novembro de 2008
250 páginas

domingo, 26 de julho de 2009

Continuar no rumo certo

Parece-me um pouco difícil falar de um volume intermediário de uma saga - neste caso, precisamente, uma trilogia - sem me referir directamente ao volume que o precede.
Por isso mesmo vou ter de dizer que O Punhal do Soberano é uma continuação à altura de Aprendiz de Assassino.
Agora que o protagonista teve de se tornar, pela força das circunstâncias, muito mais do que um simples rapaz, a história consegue colocá-lo, e às suas singularidades, no seio de um enorme alvoroço, cujos eventos não parecem poder facilmente serem desligados da sua própria existência. Uma existência que, por essa mesma razão, está ameaçada.
Não se trata apenas da sua vida ameaçada pelas intrigas palacianas. Trata-se da sua vida pessoal e das suas opções, ameaçadas que estão pelo facto de ele se ter juramentado ao seu rei e, assim, nunca ser verdadeiramente livre para escolher ou viver a menos que o consentimento do rei corresponda aos seus desejos.
Mais ainda, trata-se da ameaça à sua vida com os outros, culpa das consequências das decisões que toma sem considerar as circunstâncias que o envolvem. Essas consequências afectarão todos aqueles a quem ele devia maior gratidão - ou, pelo menos, obediência - e deixá-lo-ão envergonhado e isolado.
A sua vida condicionada, a par da sua secreta condição de assassino, obriga-o a viver numa solidão constante. Mesmo quando alguém se tenta aproximar-se dele, são os seus segredos a constituir a barreira que nunca poderá desaparecer por completo, com risco de colocar em perigo mais vidas além da sua.
A Saga do Assassino é um retrato cada vez mais intenso e brilhante da solidão humana. A desolação da personagem principal merece-nos compaixão e admiração, desolação essa vivida em sofrimento resiliente.
É um tal retrato sem deixar de ser uma obra plena de imaginação e ritmo, uma obra de fantasia cuja intriga é feita de contornos heróicos mas também políticos, uma obra moderna e inteligente.
Cruel é saber que a próxima parte desta obra só chegará em Outubro à nossa mão. Mas certamente que a espera valerá a pena.


















O punhal do soberano (Robin Hobb)
Saída de Emergência
1ª Edição - Maio de 2009
384 páginas