terça-feira, 28 de setembro de 2010

Letras diametralmente opostas

Pouco depois de ter conseguido o meu próprio Jonathan Franzen vinha no jornal i de 26 de Agosto um artigo sobre o autor e o seu novo livro, Freedom.
O artigo não tinha de extraordinariamente relevante para revelar mas fazia-se acompanhar de um daqueles erros monumentais que não se entendem quando se trata de uma entidade que partilha com a Literatura a riqueza da palavra impressa.
O erro, que podem verificar na imagem aqui reproduzida, é a associação do romance de Don DeLillo Underworld com o poster do filme Underworld.
Não está em causa um julgamento ao filme que, mesmo sendo extraordinário - e não é, nem anda lá perto - não tinha nada que surgir aqui.
Trata-se muito simplesmente de assinalar a displiscência com que uns trabalhadores das letras tratam os seus colegas.
Um jornal onde ninguém se dá ao trabalho de rever as páginas, um jornal onde ninguém consegue identificar este desalinho entre texto e imagem, não tem dignidade suficiente para pretender dar uma notícia imperiosa sobre grandes obras literárias.
O Google traz esta preguiça acrítica a quem com ele trabalha mas não se entende, num jornal com tão forte presença online, que ninguém seja capaz de escrever algo mais do que "underworld" no motor de busca.


Dos nove romances destacados nesta caixa que acompanhava o artigo, apenas Motherless Brooklyn não foi há pouco tempo (re)editado em Portugal.
O jornal poderia ter sido inteligente ao ponto de destacar os títulos originais dos livros e através das imagens das capas remeter os leitores para as edições nacionais.
Ao invés disso cita alguns dos títulos das edições portuguesas e outros no seu original. Uma baranfunda sem critério que demonstra que a literatura é para eles mais um tema para encher páginas, como seria qualquer outra moda do momento.
Aquilo que não se pode deixar de perguntar é como é que um jornal trata assim a literatura?
Um jornal pensado para o leitor português destaca um livro do qual não há perspectivas claras sobre quando - acho que o se não se coloca em causa aqui - será traduzido por cá e não consegue pensar com a lógica suficiente para promover as edições locais dos livros que assinala.
Como se não fosse evidente que, ao promover o seu leitor para estes trabalhos, estivesse também a promover o leitor a que se dirige.
Como se não fosse evidente que uma ligação intricada seria mais benéfica para o jornal do que será para os livros já que é o jornal que todos os dias corre o risco de ser abandonado em função da quantidade de informação similar que mais e mais rapidamente surge online, até mesmo com mais espaço.
Apesar do artigo sobre o importantíssimo novo livro de Jonathan Franzen surgir neste jornal, é evidente que um livro do autor e uma edição do i estão em pólos completamente opostos do valor da palavra impressa. E, como leitor, vou optar, sem perder tempo algum, por aquele que não tem erros de palmatória!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A sequela não aborrecida

Não fiquei entusiasmado com O Perito e até ao momento não houve alteração desse facto, mas perante a hipótese de ler a sequela, possivelmente por uma curiosidade subconsciente, fui em frente.
Contrariando a crença popular sobre as sequelas, Ex Machina é mesmo melhor que o original.
Ex Machina não é um thriller ou, se é, disfarça bem. As peripécias surgem lá pelo meio mas quase sem convicção.
O que está lá, o que está mesmo a acontecer, é a história de uma rapariga brilhante com tendência para a neurose e o falhanço.
Pela sua irrequietude descobre aquilo que o grupo com o qual trabalha pretende esconder dela e depois segue muito para lá de onde esse grupo alguma vez chegou.
Conhecimentos informáticos, uma imprevidência mal colocada e uma coragem tola levam-na perto da grande conquista. Mas a sua personalidade perturbada só demasiado tarde lhe permite ver que nem tudo o que consegue é por consciência ou culpa própria.
Custa um pouco aceitar a forma do relato na primeira pessoa - demasiado pessoal, com apontamentos conscientes a mais e com uma coloquialidade exagerada - mas depois sentimos que começa a funcionar e já não remoemos a consciência desse facto.
A sequela diverte-nos por se preencher com uma personagem que até podia ser um esboço de Lisbeth Salander.


















Ex Machina (Robert Finn)
Publicações Europa-América
1ª edição - Agosto de 2010
360 páginas

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Um objecto

No meu mais recente período de férias tinha acesso a um típico pub inglês em terras nacionais cujo dono tem um curioso sistema de apoio ao veraneantes do Reino Unido.
Contra as paredes do bar tem centenas de livros empilhados que são deixados por quem lá passa e se prepara para partir.
Os que chegam podem levar um livro para ler e depois devolvê-lo ou podem deixar um livro e levar outro por troca.
Fora da equação da viagem ficam o transporte e a escolha dos livros a ler e a pessoa dificilmente tem de se sujeitar a leituras que não lhe agradam pois a variedade é imensa, não se reduzindo a thrillers ou "literatura de gaja".
Os livros existem ali como bens temporários e transitórios de pessoas elas próprias habitantes temporários e transitórios daquele local.


Eu aproveitei para ir lá trocar alguns livros e entre os que trouxe de lá comigo veio uma edição britânica de The Corrections de Jonathan Franzen.
Um livro aclamado de um autor que está, novamente, na ponta da língua de todos os interessados por literatura.
O livro estava por lá, deixado já em cima de um frigorífico - os livros são tantos que as paredes já não chegam - e para o trazer comigo apenas tive de deixar um livro menor, quase sem valor se pensarmos bem nisso.
Para mim terá sido uma troca excelente, para o dono do bar foi uma troca como tantas outras.
Ali vê-se verdadeiramente o valor do livro reduzido ao essencial, um objecto transferível, traficável, abandonável.
Um livro, independentemente da massa, do número de páginas, do autor, da qualidade, da aclamação, é apenas um objecto colocado ao valor de "um para um".
É uma experiência muito interessante ver como um autor como Jonathan Franzen pode ser tão facilmente deixado ao lado de um livro sobre como se manter magra em Paris.
Ajuda-nos a relativizar o endeusamento do texto. Depois de servir de distracção contra as horas de praia o livro fica sujeito à eventualidade do capricho de outra pessoa a levar a relê-lo. Mesmo livros que "mudam vidas" não podem pesar na bagagem que se carrega para casa.
E a verdade é que a "Grande Literatura" é das que mais pesa...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Possibilidades dos Clássicos

O universo criado neste livro talvez fosse mais esperado numa obra de banda desenhada ou numa série.
Ficção Científica num mundo alguns anos atrás do nosso, Fantasia que brinca com os tempos antigos.
A conjugação permite uma enorme variedade de floreados de imaginação que mexem com a consistência do plano temporal, que tornam as artes como força motriz de violência e que trazem à baila manuscritos preciosos para o interior dos quais se pode viajar.
Inventividade bastante e liberdade total, um mundo sem regras, em geral semelhante ao nosso mas, para muitos leitores, um grau acima do interesse que lhe atribuímos.
Basta atentar no facto da plenitude deste universo alternativo ao nosso nunca vir a ser conhecida, pois a todos os momentos há um polícia do tempo determinado a corrigir a História pelas próprias mãos, para perceber como as possibilidades serão ilimitadas.
O ambiente de aventura ganha ainda mais pelo facto de a detective Quinta-Feira Seguinte ter contra si um vilão de antologia, não só pelos poderes, mas por ser a encarnação absoluta e maquiavélica de (alguma da) filosofia de Nietzsche.
Podia, até mesmo devia, tratar-se de banda desenhada, mas resulta muito bem em livro porque Jasper Fforde consegue agregar tudo num divertimento muito honesto e muito eficaz.
Divertimento que na sua forma de "brincar" com a literatura tem méritos inesperados ao colocar em perspectiva o endeusamento que se dá à fidelidade dos textos e à origem dos seus autores.
O texto de A Paixão de Jane Eyre sai incólume do livro ainda que antes não o estivesse, tal como a verdadeira identidade de Shakespeare até pode ser aquela que oficialmente se espera mas a origem dos seus textos ser baralhada pela imaginação do autor.
O reconhecimento retorcido da literatura mais clássica num livro "modernaço" é uma forma inteligente de mexer à vontade com os preconceitos que os leitores têm com os legados da literatura sendo-lhes infiel sem os desrespeitar.
A investigadora literária pode ser uma excelente companhia para rever textos de que muito gostamos e para nos divertirmos com eles - e as suas possibilidades - sem lamentos nem insultos.


















O Caso Jane Eyre (Jasper Fforde)
Guerra e Paz
1ª edição - Junho de 2010
392 páginas

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A aventura do livro

"Impressio Librorum" do pintor flamengo Stradanus

Entrámos numa aventura, uma grande aventura que atravessa o Oceano Atlântico.
Uma aventura extravagante com personagens inesquecíveis. Nascidas em poucos traços, são personagens normais, diríamos, mas que saltam da página pelo seu comportamento extravagante no meio de uma história maior do que as suas vidas deixavam antever.
Basta que a aventura seja uma aventura, uma deliciosa aventura, para que nos sintamos satisfeitos.
Só que esta aventura tem algo mais, pois por ser a aventura de um editor em busca de um livro guarda uma mostra da paixão que se deve colocar neste objectos.
Aquilo que um editor deve fazer por um livro, um grande livro, um livro certamente mítico e inigualável, talvez não tenha de passar pelo risco de vida, mas a coragem de o fazer valoriza tanto o livro como quem dele cuida.
Um editor aventureiro como este tem nas suas mãos uma decisão tenebrosa, a de sacrificar o livro ou a própria vida. Para um editor dedicado (e ficcional apenas?) um livro tem este valor equiparável ao de si mesmo.
Porque um livro tem um poder absoluto, de alterar as vidas e os hábitos das pessoas ou de as seduzir para a criação de uma solução própria.
Neste caso, um livro tem mesmo o poder de destruir uma carreira criminosa.
O poder da escrita e, mais ainda do que a escrita, da palavra impressa e disseminada, é o da influência igualitária. Todos os que têm acesso ao livro têm à sua disposição o mesmo conhecimento.
O poder do livro é o de não privar ninguém desse mesmo poder.
Por isso esse objecto merece a aventura que por ele se vive, merece que se lute pela salvação do seu poder, merece que se conquiste o direito da sua existência.
Um livro é uma aventura e nada mais justo do que aventurar-se por um livro!


















O livro inacabado de Dickens (Matthew Pearl)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Maio de 2010
384 páginas

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Longo entranhar

Exílio é certamente um daqueles livros que não se deve encarar de ânimo de leve e que não se revela displicentemente. Não é um livro que nos facilite a vida, que se entregue.
Por isso mesmo é um livro que durante bastante tempo se vai entranhando, primeiro reforçando as cenas mais fortes e depois estendendo-se às subtilezas que compôem a vida de um exilado ferozmente diferente de qualquer retrato mais dado a lugares-comuns.
Um homem que, por vezes, se imagina barata, tanto por ser menor que os outros homens, tanto por ser o único que lhes resistirá (mesmo rastejando) para os castigar.
Um homem que inventa mais do que um passado para a psicóloga com quem é obrigado a falar, seja porque já não sabe qual é a sua realidade, seja porque todas as realidades dos exilados são a sua.
Um exilado que aglutina todas as vidas dos que fogem dos seus países de origem. Um exilado que é a representação de todas as vidas exiladas.
Todas as vida exiladas se encontram na mesma violência de solidão que os destinos novos lhes demonstram.
Todos os exilados, independentemente das suas nacionalidades originais, se encontram e se degladiam, como uma família, como um povo.
Ser exilado é uma nacionalidade nova e daí, precisamente sem nação a que chamar sua, os novos espaços são um mundo a conquistar à escala dos grupos que lá se encontram.


















Exílio (Rawi Hage)
Civilização Editora
Sem indicação da edição - Maio de 2010
312 páginas

domingo, 5 de setembro de 2010

Entender o mundo quotidiano

Se o relato de uma viagem prima pelo mundano arrisca-se a parecer ridículo, sobretudo se vem de alguém como Agatha Christie, cujo reconhecimento e talento poderiam fazer esperar algo mais substancial.
Claro que isso seria esquecer algo muito importante que a própria autora diz ao início do livro e que nega o pouco crédito que ela dá a esta crónica inconsequente: é do quotidiano que nasce a percepção do passado.
Considerando que Agatha Christie estava envolvida numa viagem com fins arqueológicos onde amuletos e utensílios ganham em importância a jóias.
A banalidade traduz melhor os costumes do que o excesso - a menos, claro, que toda uma época seja um excesso por norma própria.
Por isso os seus apontamentos sobre as reacções dos muitos trabalhadores com quem lida servem para traçar o perfil da comunidade em que se inserem.
Com tantas nacionalidades, religiões e características diferentes desses trabalhadores, aprendemos a distingui-los pelas suas reacções, aprendemos a ajuizá-los melhor segundo as suas próprias crenças traduzidas nos actos comuns.
Claro que a ideia final não será exacta mas, para um relacionamento superficial como a maioria de nós poderá vir a ter com tais populações, serve para apagar preconceitos e para nos tornar mais atentos àquele canto do mundo.
Esta interpretação sociológica de como funciona o relato não invalida algo que, literariamente, é aqui essencial.
O livro convoca personagens reais que nos interessam, com quem gostamos de ter contacto, que mesmo quando são irritantes ou nocivas são confortáveis para se "ter por perto".
As situações inusitadas divertem-nos e os hábitos locais deixam-nos um pouco incrédulos.
Este é o papel essencial do livro, um relato solto e humorado com a autora a rir-se de si própria e de tudo o que venha ao caso.


















Na Síria (Agatha Christie)
Tinta da China
1ª edição - Julho de 2010
288 páginas