sábado, 3 de julho de 2010

Britcom

O particular sentido de humor inglês não se encontra apenas nas variadas séries que se agrupam como Britcom. Ao que parece está generalizado por todos os criadores que de lá originam, bastando uma oportunidade para o mostrarem.
Claro que a leitura deste livro de Andy Tilley não permite uma ilação destas, mas bem que a sugere.
Estamos perante um buddy book decorrido que corre pelos pubs, um género de trabalho que só um país com tradição de camaradagem alcoólica poderia fazer correr com tanta diversão.
Os dois amigos correm o livro todo a disputarem um contra o outro a concretização da melhor piada. É a forma deles se absterem e lidarem com aquilo que o seu plano de venderem vídeos de suicídios dificilmente faria prever, que são eles o último reduto de quem pretende acertar a sua própria morte.
A Reciclagem de Jimmy é sobre o convívio com a morte, a sua superação e a sua relativização. Só se pode lidar com o desejo de cada um de morrer pelas suas próprias mãos com o mais profundo humor negro. Dar a cada um uma morte espectacular e absurda permite rir do invitável destino que se pretende que não tarde mais.
Se é disparatado fazer piadas com a morte dos outros à porta, também o é fazer da morte uma questionável situação saída de um desenho animado. Tudo é disparatado, mas o disparatado é uma forma que se dá a tudo o que acontece para tornar a catárse mais fácil.
Rir é o melhor remédio para tudo e estes dois amigos fazem-no como ninguém. Num dia comum seriam dois alarves patetas que repreenderíamos na nossa mente. Nos dias sistemáticos em que são o último conforto e a última réstea de vida de quem escolheu morrer, achamos que eles são os mais admiráveis e serenos seres do mundo.

Há um outro ponto a assinalar, uma reflexão que o romance, muito discretamente, guarda no seu interior, a do canibalismo visual contemporâneo.
O mesmo que leva um jornalista a apontar a câmara a um parente de um morto e perguntar "Como se sente?" e que leva a que milhões de pessoas assistam a repetições inumeráveis de um homem a saltar do World Trade Center.
Se a ficção já explorou todos os limites, então a única coisa que nos resta ver é a realidade dos momentos que até aqui eram resguardados por genuíno pudor.
Vale a pena ser divertido e ser confrontado por este livro.


















A reciclagem de Jimmy (Andy Tilley)
Bizâncio
1ª edição - Janeiro de 2010
256 páginas

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