sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Envolvido com um tema alheio

A conclusão pode ser precipitada ao fim de uma segundo livro lido, mas Stephen Booth gosta de tratar de temas que falem directamente à identidade britânica, sublinhando o confronto da tradição com a mais recente orientação social.
Se no livro anterior era a maneira como o papel do polícia era encarado pela população, aqui é a reacção moderna ao tipo de relação que o país mantem com os animais falando simultanea e harmoniosamente sobre as restrições à caça de raposas e o novo mercado gastronómico que se forma para a carne de cavalo.
Podem parecer temas difíceis de interessar facilmente o leitor português, mas usadas como são tornam a leitura surpreendente e eficaz seja para quem for.
Durante cerca de metade do livro, as considerações sobre estes temas e como eles terão sido causa do homicídio investigado não deixa notar o quanto a investigação está estagnada.
Estamos embrenhados em suspeitas, preconceitos ideológicos que a própria detective Diane Fry expressa e que nos levam a desconfiar das intenções dos mais variados envolvidos apesar de Ben Cooper vir em defesa argumentativa da elevação do comportamente da classe envolvida na caça à raposa.
Não quer isto dizer que o carácter de todos os envolvidos seja impoluto, nem mesmo do lado dos que se opõem às caçadas.
Isso só leva a que as investigações devam ser mais abrangentes, mas as próprias condições do trabalho de polícia - limitado pelos meios e pelas ideias - é que as afunilam.
Se o leitor é levado a focar-se num único aspecto ou numa única hipótese, é porque é assim que vai a investigação.
Ninguém consegue escapar às suas próprias crenças sobre a realidade que o rodeia nem à maneira mais clássica de interpretar os dados disponíveis, que é correlacioná-los.
Afinal de contas, certamente que na maioria das vezes a resposta mais óbvia é a correcta. No entanto qual a resposta mais óbvia é que o pode estar em causa.
As coincidências também acontecem e os elementos presentes no local do crime só circunstancialmente apontam em exclusivo para os caçadores que por ali perto se encontravam.
A pressão dos resultados afecta a própria polícia de uma forma que, apesar de tudo não leva a consequência gravosas como a condenação de inocentes, mas atrasa a concretização da justiça.
Stephen Booth só cometeu um erro nesta sua estratégia, a inclusão de vários capítulos de um diário de 1968 que teimam em fazer o leitor desconfiar das respostas que se buscam no presente.
Ainda assim, a maneira como a verdade sobre o crime original e as suas consequências surge surpreende os próprios detectives e, ligados a eles, os leitores.
O que eles tiveram de conseguir foi compreender a importância dos detalhes e pensar "fora da caixa" para conseguirem voltar à base estrutural de uma investigação que a torna única e independente dos sinais excessivos que contaminam as provas.
O policial está construído de forma muito sólida de forma a manipular o leitor e depois a servir-lhe um classicismo detectivesco que é sempre um prazer de acompanhar.
Tudo isto em torno de um tema que não diz nada (pelo menos na forma muito particularizada como se apresenta) aos portugueses mas que os envolve mesmo assim.


O Toque da Morte (Stephen Booth)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Agosto de 2010
356 páginas

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A boa prática de baralhar expectativas

Ao fim de três livros é inevitável começar a compreender que Mo Hayder tem uma linha contínua para servir os seus progressos literários em torno de Jack Caffery e Flea Marley que se foca no romance atribulado que se vai desenvolvendo entre ambos.
Essa leva a que as suas presenças tenham sempre de surgir em paralelo o que leva a que passem o tempo separados – como no livro anterior – ou que a investigação acabe sempre por envolver um passo que recorra à especificidade do trabalho de Flea.
Torna-se pois num traço essencial que percorre a série de livros da autora, mas também um traço de apoio em cada livro que desaparece à medida que outros são inscritos em torno dele.
Nessa tarefa, está a verdadeira qualidade de Mo Hayder que cria estruturas ricas – e, acima de tudo, policialmente capazes – que encobrem essa armadilha que criou para si mesma em Ritual. Pois se neste livro as tarefas de ambos os protagonistas voltam a estar sintonizadas na mesma investigação, temperadas por personalidades muito distintas, ainda não encontraram a lógica harmoniosa que tinham nesse primeiro volume.
Isso prova-se pela surpresa que Mo Hayder consegue produzir quando se receia que ela tenha aderido à moda de um tema cada vez mais comum entre os policiais e os romances publicados um pouco por toda a parte – a pedofilia – ou de que se tenha embrulhado demais em elaborações narrativas deixando a segunda metade do livro apenas para “encher páginas” num estilo de thriller pouco interessante.
Na verdade, Mo Hayder volta a mostrar o quão fiel é aos modelos clássicos de policiais, dispostos a esconder os seus melhores trunfos até ao final sem terem de roubar ao leitor o gosto de encarar desenvolvimentos fortes até lá.
Começa desde logo pela maneira como a autora usa a ameaça da pedofilia – iniciada pelo rapto de algumas crianças – apenas para revirar tal premissa e dar conta de outro género de negro potencial humano, o da vingança. O desaparecimento das crianças e o que lhes terá acontecido depois é usado no estilo do terror sugerido e não nomeado, até por se relacionar directamente com acontecimentos da juventude de Caffery que muito contribuem para o definir como personagem e como investigador.
Neste caso específico afectando directamente a investigação e proporcionando mais um mergulho no ambiente dúbio que o poder atribuído a um agente policial cria socialmente.
Abordar mais longamente o tema deste caso particular é arriscar fazer revelações sobre o enredo, pelo que aproveito para regressar aos protagonistas.
O que Mo Hayder faz com Flea e Jack – à parte as funções mais perigosas exercidas por ela – enquanto protagonistas é dividir o género de progressos na investigação entre os que dependem de uma lógica ponderada que, à falta de inspiração, podem comprometer vidas (senão mesmo o desfecho da investigação) e os que dependem de uma impulsividade desajuizada que contribuem em muito para a investigação mas perigam a vida de Flea e da sua equipa.
Inseridos na investigação ficam os traços que caracterizam os dois personagens e que definem aquilo que continua a fazê-los confrontarem-se profissionalmente e atraírem-se pessoalmente.
Esta bicefalia de feitios permite complicar a investigação, tornando-a mais errática em certos momentos e fazendo-a dependente tanto da acção como da dedução. E, sobretudo, leva à explosão do confronto de personalidades funcionando dentro do ambiente de trabalho onde o falhanço parece ser o mais habitual estado de coisas.
Isso continua a levar à exploração da história contínua que Mo Hayder estabeleceu desde o primeiro volume e que continua a testar os limites do justo e do indevido entre a classe policial quando afectada por afectos pessoais.
Com tudo isto, contrariando o que o embrulho do texto nos fazia crer, Perdida é uma óptima leitura que não aceita os lugares-comuns.
Falta apenas compreender – o que também ajuda a permanecer fisgado nesta leitura – que papel vai ter o Andarilho (personagem que dá nome à saga e que é uma espécie de mentor de Caffery) no final desta história.


Perdida (Mo Hayder)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Agosto de 2011
396 páginas

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Interesse intermitente

O relato da vida de Cícero feita pelo seu secretário pessoal acaba por ser um relato da estrutura do poder em Roma e das lutas que dentro dele decorrem.
Do poder directo que a população ainda pode exercer em certos momentos ao (para já, apenas anunciado) poder de um único homem sobre todo o Império, vamos experimentar o progresso da jovem República Romana.
A evolução da narrativa segue a evolução de postos assumidos por Cícero, primeiro Senador, depois Pretor.
Isso proporciona amplas oportunidades para vermos em acção os protagonistas das várias fases – candidatura, votação, assunção do cargo – que estão envolvidas em cada acto.
A necessidade de ter mais de quarenta e dois anos ou um milhão de sestércios para poder entrar na vida política são dados inseridos com agilidade no seio dos actos mais importantes, negociações obscuras e alianças mutáveis que permitem ganhar ou perder no último momento.
A vida política é apaixonante e lança-nos na vontade de ler livros onde as personalidades de gente como César ou Crasso não estejam tão constritas a linhas gerais ou simplificadas.
É o problema do narrador ser, apesar de tudo, uma personagem longe da ribalta da República – ainda que beneficie de uma presença privilegiada como escriturário em muitas reuniões – e, por isso, não poder dar conta de alguns dos mais importantes desenvolvimentos dela. (Embora para ser franco isso seja usado por Robert Harris para gerir alguns momentos próximos do thriller com inteligência.)
Essa limitação do narrador acaba por levar a que o melhor do livro sejam os momentos dedicados à vida de Cícero como advogado em que este tem estratégias brilhantes e discursos que mereciam ter sido ouvidos ao vivo. Momentos a que o seu secretário pode assistir de forma muito próxima, colaborando na sua preparação mas sendo sempre surpreendido enquanto elemento do público.
Isto, sobretudo, na primeira parte do percurso de Cícero em que a sua moral está acima de qualquer dúvida. À medida que a sua ambição aumenta e as suas maquinações têm de servir interesses políticos, Cícero perde-se como personagem heróica de uma República a necessitar de um defensor contra a turba de ladrões em cargos de grande significância.
A leitura tem um interesse intermitente sempre que o autor perde a mão ao equilíbrio difícil entre as duas dimensões do homem – e do seu carácter – mas é quase sempre cativante no seu estilo que combina a intriga política com o ambiente tenso de tribunal.
A par disso, há que referir o facto do livro sofrer de alguns anacronismos de expressão relativamente ao século I a.C. em que se passa, embora tal não afecte sobremaneira o correr da leitura.
Já a fraca revisão, que deixou à vista gralhas e resquícios de traduções alternativas, torna a leitura morosa em certos pontos e, com isso, cansativa.


Imperium (Robert Harris)
Editorial Presença
1ª edição - Dezembro de 2006
320 páginas

domingo, 26 de agosto de 2012

Subversão respeitosa

Tinha catorze anos quando li O Diário Secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4, uma prenda que acharam cair perfeitamente num leitor completando aquela idade.
Não gostei na altura e não voltei a querer saber do personagem, mas entretanto já tinha pensado se não seria tempo de rever essa minha posição. Afinal a personagem celebrava quarenta anos de existência literária, tendo envelhecido ao longo de quase uma dezena de livros e isso deveria significar que algo de bom ali estava contido.
Este The Queen and I só veio reforçar essa ideia de haver algo a encontrar nesse livro de há muitos anos atrás. Algo só perceptível numa idade mais avançada, mais informada e mais interessada.
Aqui temos um livro que se usa a Família Real para retratar o outro lado do Reino Unido, o dos bairros  e do Estado sociais.
A Família Real deixou de o ser e terá de viver na base de um rendimento de subsistência que o Governo lhe garante - só porque ninguém passa fome no Reino Unido Republicano.
O livro tomará em mãos o direito a crítica de todo o sistema político da altura, com destaque para os erros da forma como a subsidiação era usada pelos que a atribuem e pelos que a recebem.
Uma crítica que permanece actual, tal como a da governação utópica que, por uma vez, cumpre todas as promessas que animarão o povo sem ponderação daquilo que é sustentável.
Um país à mercê das crenças ingénuas de um governo que se mostra a reunir na cozinha durante o pequeno-almoço e que diz que não haverá nem Rei nem Presidente pois cada e todo o cidadão será a figura de topo do Estado.
Sue Townsend parece reaccionária até que revele o seu golpe final. Na ânsia de dar ao povo aquilo que o povo deve ter - sobe pensões ao mesmo tempo que diminui o custo dos transportes, entre outras medidas populares mas desmedidas - o primeiro ministro endivida de tal forma o país que tem de o entregar ao seu credor, o Imperador do Japão. E logo o Reino Unido volta a fazer parte de um Império onde o Sol nunca se põe!
As conclusões que se tiram do livro dão para fazer paralelos com o Presente, sendo ainda mais interessantes quando analisadas pela informação que nos dão do Passado de uma forma humorada que está mais próxima do pensamento dito mundano.
Naquele período pós Thatcher havia pois um desejo de contrariar a severidade das medidas aplicadas a um ponto tal que se retiraria o país das mãos de uns priveligiados para o dar a outros.
O tema político ganha ascensão sobre a narrativa à medida que o livro avança e fá-lo perder uma certa graciosidade que a primeira parte tem.
Uma primeira parte mais dedicada à transição pessoal dos membros da Família Real, do contentamento de Carlos ao abatimento de Filipe.
O gigantismo que tem de ser encaixado no espaço exíguo das suas novas vidas proporciona momentos delirantes onde uma verdadeira humanização das figuras que ainda por estes dias vemos exploradas e expostas com cada vez menos respeito em aspectos das suas vidas que são perfeitamente comuns, embora continuem a ser idolatradas nos momentos em que os seus costumes opulentos fazem outros sonhar.
Há uma meritória capacidade de Sue Townsend de tornar a Família Real num conjunto de personagens merecedoras de compaixão perante aquilo que as acabam de fazer sofrer e perante aquilo que tiveram de sofrer - sobretudo a própria Raínha - no tempo em que não podiam ser figuras anónimas.
Claro que, por mais divertida que seja toda a ideia do livro, ela acaba por assentar em bases muito periclitantes. É necessário aceitar ser-se crédulo para não discutir a implausibilidade da Família Real acabar nas condições que acaba e não num feliz exílio noutro país qualquer.
Mesmo assim, resulta na maior parte do tempo pelo inevitável gosto subversivo que proporciona, sobretudo por imaginarmos que a própria Raínha terá dado uma vista de olhos ao livro e visto-se no papel ingrato de pedinchar dinheiro da Segurança Social para alimentar o seu cão ou comprar ossos no talho para cozinhar uma canja ao marido que se recusa comer.
No final, a única certeza vem do primeiro capítulo, a Raínha não acabará realmente fora do trono, nem sequer na ficção. Sue Townsend arrasta-a um pouco pelo lado menos belo do Reino Unido mas assegura-se que ela permanece a salvo no final.
Porque ela é, afinal, inglesa e, como a maioria, pode regozijar-se com a ideia de deixar de viver numa Monarquia mas continua a mostrar o devido respeito que a líder do Império atrai dos seus súbditos!


The Queen and I (Sue Townsend)
Mandarin Paperbacks
20ª edição - 1997
320 páginas

sábado, 25 de agosto de 2012

Estômago para a publicidade

Confessemo-nos desde já. Se estive a ler isto é porque sou seguidor atento da série Mad Men. E se está a ler isto é porque é seguidor atento da série Mad Men e quer descobrir se vale a pena ler o livro.
Começo, então, pela inevitável comparação para aqueles que sintam que têm locais melhores onde gastar o seu tempo.
A série tem um apelo malicioso que vem do drama e daquela personagem absolutamente inesquecível que é Don Draper. O livro tem muito menos glamour do que a série mas compensa-o com uma sinceridade de sentido crítico que não poupa nem o mundo em que se insere nem quem por lá se move. Não que isso esteja ausente da série, mas é trabalhado de uma forma mais discreta e integrada com o restante que precisa de lá estar para criar um enredo que sustente cinco temporadas (até agora).
O livro de Jerry Della Femina - um nome excepcional que alguém teria de ter inventado se não existisse de verdade - é um manual sobre o mundo da publicidade com muito menos restrições.
O seu foco são as histórias absurdas que descrevem como as pessoas se comportavam pelos corredores de uma indústria em mudança, com os "malucos da criatividade" a perturbarem a seriedade das agência seculares.
Há lições claras a serem retiradas - removendo o ambiente datado - sobre o que se deve esperar do mundo publicitário se nele se pretender estar.
E há lições a retirar sobre aquele período específico, sobre o que a série não nos pode mostrar porque afectaria o glamour que é a sua imagem de marca. Essas lições são aquelas que tornam o livro num suceder de gargalhadas sonoras - tentei conter algumas que adivinhava chegarem e não consegui, outras foram uma surpresa total até ao momento em que uma certa expressão surgia impressa.
No fundo resume-se tudo a um desequilíbrio permanente entre o emprego e a criatividade. Aqueles que mais sobem (mais ganham) tendem a estar tão amedrontados em perder uma conta que só apresentam trabalhos seguros que sejam exactamente aquilo que o cliente já tem. Deixam de arriscar e tornam-se chatos e estão mais perto de perder o emprego.
Havia que ter estômago para aguentar o receio permanente, sobretudo com tantos almoços de três Martinis a acompanhar.
Della Femina não só tinha esse estômago, como tinha estômago para continuar a arriscar e ainda vir a público revelar os dislates a que assistia de posição privilegiada.
Isso torna o livro numa preciosidade para inspirar os menos ortodoxos a atirarem-se ao mundo da publicidade mas, sobretudo, para fazer rir todos os que o lerem.
O efeito que tanto riso provoca é a capacidade de perdoar as falhas deste volume enquanto livro, visto que lhe falta uma linha narrativa consistente que interligue as várias histórias e evite a quantidade de repetições que vão surgindo.
O mais grave, para os não iniciados, é a falta de contextualização sobre o mundo publicitário daquela altura. Biografias das agências citadas e umas páginas centrais com os anúncios mais importantes entre os citados - estes da Volkswagen, por exemplo - teriam tornado o volume muito mais compreensível para um público que só sabe de publicidade por via do que a série lhe mostrou e, provavelmente, indispensável na prateleira de quem trabalha no meio.
Creio que faltou criar uma parceria entre o tradutor e um publicitário com uma sólida formação sobre as "origens" do seu trabalho para levar a edição a um outro patamar.
Estamos num momento em que a publicidade é um tema muito em foco, o interesse pela criativadade que gera a ser aumentado pela série e a ser reflectido por vários artigos que surgem de forma regular na imprensa (Diário de Notícias e i, pelo menos) ou pelo livro que a Taschen dedicou àquela época, Mid-Century Ads: Advertising from the Mad Men Era.
Por isso, os interessados - na série, no tema e no livro - estarão mais preparados e serão mais exigentes com a edição para a qual não basta um conteúdo do melhor descaramento.


O Último dos Mad Men (Jerry Della Femina)
Civilização Editora
1ª edição - Abril de 2011
256 páginas