domingo, 22 de abril de 2012

Há filmes que vêm por bem


Ler este livro é reencontrar a juventude literária e rever os motivos pelos quais se entrou pela primeira vez neste mundo e aqueles pelos quais nele se continuou e se evoluiu.
A aventura e a imaginação são os motivos que fascinam qualquer jovem leitor, que lhe fazem perceber o poder e o fascínio da palavra escrita.
A descoberta dos temas fortes e dos recursos intencionais que o autor coloca logo debaixo do sentido mais simples da narrativa.
Para mim a passagem - a conjugação, mais precisamente - do divertimento ao entendimento deu-se com o sentido crítico d'As Viagens de Gulliver e parece-me que a proximidade dos dois livros é grande - e isto sem entrar na hipótese que pessoas mais capacitadas adiantaram de que o livro de Jonathan Swift seja embrionário da Ficção Científica.
Um inventava a Terra que ainda estava por descobrir, o outro inventava o planeta que, logo aqui ao lado, era ainda um mistério pleno de hipóteses. Fizeram isso imaginando para lá do que era então possível e para lá do que poderia ser esquecido depois.
E ambos usavam a aventura entre civilizações distantes e impossíveis para julgarem os padrões de comportamento da sua época (e alguns deles pemanentes à existência humana).
Neste trabalho de Edgar Rice Burroughs, ao falar do comportamento dos seus pares, parece ter antecipado todo o século que havia de se seguir. Mas contrariando, igualmente, as negativas expectativas com uma elevação heróica individual.
Claro que John Carter é tanto um interveniente directo nos acontecimentos como um guia involuntário por um mundo de encantos.
Edgar Rice Burroughs tinha o trabalho de seduzir os leitores e através da sua personagem percorre os espaços da sua imaginação que merecem ser partilhados pelos que, fechando os olhos, apenas conseguem ver negro.
John Carter traz de volta ao leitor o prazer de ler uma aventura onde o investimento na criação de cenários é tão grande quanto os acontecimentos narrados.
Uma aventura que deixa espaço ao exercício de completação do leitor em vez de, como os modernaços, tentar equiparar-se à imagem em movimento e descrever detalhadamente cada pequeno movimento de cada acção maior.
Esta aventura de John Carter é clássica e se nunca vai caber no cânone, como João Seixas sublinha num prefácio essencial e iluminante, tem mais do que lugar naquela lista de títulos que devem ser do conhecimento de todos, para espevitar os que começam a ler e para que os que há muito lêem entendam a base de alguns elementos essenciais da ficção do século XX - afinal, e aproveito a referência feita por João Seixas, John Carter inspirou os poderes de um dos mitos da nossa era, o Super-Homem.
Esta oportunidade que agora têm os leitores portugueses só pode ser encarada com a alegria de ver que um filme, mesmo um que fracassa nas bilheteiras, pode ser uma boa oportunidade para o mercado editorial português.
Ao mesmo tempo, Mesmo se não se possa apagar uma nota de cepticismo e pena pois dificilmente este livro conseguirá fazer o sucesso indispensável a que as suas sequelas acabem traduzidas. Basta olhar para o título, John Carter, para perceber que traz a condenação da edição definitiva do herói, sem nenhum subtítulo a prometer o retorno a outras aventuras!


John Carter (Edgar Rice Burroughs)
Saída de Emergência
1ª edição - Março de 2012
224 páginas

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