quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A parte da indiferença

O segundo livro protagonizado por Gabriel Ponte é o verdadeiro thriller anunciado a propósito desta nova saga de Pedro Garcia Rosado.
Repleto de cenas passadas em túneis subterrâneos onde elementos de equipas de intervenção da polícia se têm de confrontar com um adversário inesperado e feroz na luta corpo-a-corpo.
Cenas essas que surgem no interior de uma história onde a ganância e a violência se combinam num espectáculo - rentável e ilegal, obviamente - bem ao gosto da animalidade humana.
Um história, ao fim e ao cabo, recheada das ideias extravagantes que costumam ancorar muitos filmes (bastantes de segunda categoria) de Hollywood desde os anos 1980 - embora com diferentes matizes ao longo dos anos.
Tal trama torna a leitura veloz mas nem tanto voraz. Há alguma indiferença que acelera o leitor em direcção ao final do livro.
Apesar da tentativa de colar esta história a um cenário reconhecível, a sua implausabilidade e vulgaridade temática não permitem mais do que um reconhecimento de que o autor estrutura bem a história e continua a escrever bem - sobretudo diálogo com verve, perto de constituírem tiradas clássicas.
Mesmo tendo sido feita a integração de cenários da capital portuguesa, a história não consegue transmitir a sensação de ser nacional. Parece uma história genérica que poderia ser colocada em qualquer ponto do mundo sem nunca transmitir a sensação de lhes pertencer - ou de pertencer a outro sítio que não um cenário falso desenhado para um filme.
Parte da culpa está, também, na forma como Pedro Garcia Rosado não consegue dar vida à Lisboa do livro.
No primeiro tomo, Caldas da Raínha surgia como um local que acolhia Gabriel Ponte mas que não era bem definido. Ao deslocar o ex-inspector até Lisboa, Pedro Garcia Rosado tenta torná-la numa personagem mas acaba por não conseguir senão enumerar alguma toponímia sem conseguir definir uma verdadeira geografia - e uma geografia dramática!
O próprio comportamento da personagem central está em desacordo com o que fora em Morte com Vista para o Mar.
Gabriel Ponte é agora demasiado impetuoso e dado a um certo papel de herói de acção que difere da racionalidade e capacidade conciliatória que constituíam as suas primeiras forças.
Depois de no primeiro livro o autor ter chamado ao trabalho o retirado inspector usando-o como consultor externo, agora fá-lo colocando-o a investigar por conta própria a morte de um amigo.
Não deixa de ser uma abordagem aceitável, mas sugere menos uma evolução daquilo que Gabriel enfrenta do que uma procura de situações o mais agarradas a um pretenso realismo - que, como se vê, é impossível de manter neste livro.
Morte na Arena é o livro mais excitante - talvez até se deva dizer "bombástico" - da saga de Gabriel Ponte mas é, também, o menos interessante.
Se facilmente conquistará leitores, também deixa de lado o interesse que o primeiro livro viera criar a propósito de um detective português falível mas pleno de potencial.
A versão de "durão" aqui apresentada parece pertencer a um outro personagem e é difícil conciliar este livro com o seu predecessor.


Morte na Arena (Pedro Garcia Rosado)
Topseller
1ª edição - Agosto de 2013
352 páginas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A crença em Gabriel Ponte

Depois de uma única e isolada leitura de entre a obra de Pedro Garcia Rosado, dediquei-me à sua mais recente criação com afinco.
Eis-me perante o ex-inspector Gabriel Ponte, promissora personagem que alia as excelentes capacidades de investigação a um passado maculado, dicotomia própria de uma figura de noir.
A grande dúvida sobre o seu carácter é a causa do seu afastamento da Polícia Judiciária e aquilo que o distingue do mero polícia reformado.
E embora não seja uma mulher fatal a vir bater à sua porta e a requisitar os seus serviços, o triângulo amoroso irresolvido entre a sua ex-mulher e a sua ex-amante não deixam de vincar ainda mais a linhagem de Ponte entre alguns dos que se tornaram do mais detectives privados da literatura.
Com o interesse adicional da sua ex-mulher ser a inspectora responsável pelo caso e a sua ex-amante ser uma jornalista atrás do mesmo tema.
Se Portugal não possui o atractivo dos cenários Nova Iorquinos para que o autor se aproprie do noir, a opção por este retrato do "Portugalzinho", uma aldeia de dez milhões de habitantes, é a segunda melhor opção.
Como este país é pequeno! E, por isso, o círculo de personagens não tem como não se conhecer e como não se relacionar - com maior ou menor desagrado.
Além de estarem a braços com um assassinato que só pode ter um de dois motivos: dinheiro ou sexo. Ou, em preferindo a portugalidade, por ganância ou dor de corno.
Um toque de ridículo ao serviço de uma inteligente manobra de dificuldade investigativa nascida tão somente do pensamento redutor dos vários departamentos da polícia, com o crime económico para um lado e os Homicídios para o outro, nenhum conseguindo "pensar fora da caixa" e relacionar hipóteses diversas.
O encontro com a tradição policial num cenário nosso, do eterno e falso país de brandos costumes - recordo o livro de Pedro Almeida Vieira -, dá uma sensação de satisfação que é mais do que a mera alegria bacoca de ver Portugal assim representado.
É uma satisfação porque faltou quem regularmente descobrisse o país como um conjunto de possibilidade para um cenário de literatura criminal.
Este primeiro tomo, apesar de ser um esforço literário descomprometido e descomplexado, merece que se reconheça que é escrito de forma muito cuidada - capaz de aliar a eficácia necessária à continuada qualidade - e que acaba por atingir níveis críticos mais profundos do que se suspeitaria.
A única falha grave do que é, de resto, uma estrutura muito inteligente vem da manipulação das revelações acerca daquilo que constitui o erro no passado de Grabriel Ponte.
Ou havia uma espécie de prólogo longo onde essa história fosse revelada, algo bem ao estilo dos contemporâneos thrillers, ou a informação era mantida na obscuridade para criar a dúvida crescente no leitor.
A revelação tal como acontece retira-lhe força e não é capaz de criar qualquer suspense. O personagem passa por ela semi-incólume aos olhos do leitor, o que não é aceitável nem literaria nem moralmente.
O livro resulta como um todo amenizando essa falha que por momentos o desvirtua e, no final, Gabriel Ponte consegue persuadir o leitor a continuar com ele por outras desventuras.


Morte com Vista para o Mar (Pedro Garcia Rosado)
Topseller
1ª edição - Fevereiro de 2013
320 páginas

sábado, 27 de setembro de 2014

Partir com Jack Reacher

Iniciando um livro de Lee Child é necessário pouco tempo para perceber porque há tantos fãs de Jack Reacher.
Trata-se de um personagem à margem da sociedade, que usufrui da liberdade com que a maioria dos leitores apenas sonha, mas capaz de com ela se relacionar com grande facilidade, usando de enorme educação e colocando as suas habilidades à disposição alheia.
Destaca-se de todos os outros pela sua figura física sem se sentir incomodado por isso e rege-se por um código moral que determina para si mesmo mas que o torna sempre no "herói" da situação em causa.
Embora possa parecer um The A-Team de um homem só - e não sendo apenas um livro que permite tirar conclusões precisas - é um viandante que reforça um sentido de liberdade individual e desapego material sem desprezar os outros seres humanos - pelo menos os que não o merecem.
Felizmente que ele é mais do que um combatente com coração. Às suas capacidades de combate e de sobrevivência, capazes de rivalizar com as de qualquer protagonista de filmes de acção, alia-se uma inteligência dedutiva que lhe vem dos tempos de detective ao serviço do Exército.
Poderão parecer demasiadas capacidades agregadas a um único personagem, como se de um super-homem se tratasse, mas há uma coerência na personagem que a torna credível no conjunto de todas estas quallidades.
Afinal, não é um personagem infalível mesmo se tem recursos suficientes para contrariar a maioria das ameaças que enfrente. E apesar da sua opção pela solidão não deixa de se sentir tocado por gestos de simpatia.
O desenvolvimento da personagem, mesmo numa leitura de um livro isolado, é notada como a tarefa na qual maior dedicação é investida.
Daí resulta um aspecto merecedor de destaque, que Lee Child contribuia com uma qualidade de escrita que não costuma ser chamada aos thrillers.
A abusiva descrição de acções que tende a encher páginas atrás de páginas (Jeff Abbott é o primeiro nome a vir-me à mente) é aqui substituída por uma construção cuidada que valoriza o cenário e o ambiente em que as personagens se movem, valorizando assim a envolvência da leitura ao invés de a tornar tão específica que causa um desinvestimento de imaginação por parte do leitor.
Resulta isso também deste livro ser uma construção de policial que só no seu desfecho cede lugar às cenas de thriller, dando por isso espaço às personagens e às situações que vivem em vez de as obrigar a servir como peças (semi-anónimas) da trama.
Certamente que com isso se torna apelativo de seguir as várias aventuras de Jack Reacher, fonte de prazer literário e não de meras "emoções fortes".


61 Horas (Lee Child)
Edições Asa
1ª edição - Novembro de 2012
432 páginas

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Satisfação interrompida

Este livro de Don Winslow é um relato carregado de adrenalina que o autor conseguiu traduzir na totalidade do seu trabalho.
A sua escrita está carregada da energia que salta dos personagens e das suas acções, reforçada pela estrutura estabelecida com os capítulos que são como picos extremos de um registo sísmico, indo de duas palavras (no brutal capítulo inicial) a várias páginas e nem sempre com as frases a ocuparem as páginas de margem a margem como é "norma".
Essa energia ser um sentido de humor bastante livre, nascido de um estilo de vida  descomplexado que gera uma ironia que funciona ainda melhor porque as personagens geram-na de forma inadvertida e parecem incapazes de se aperceberem dela.
Naturalmente porque as personagens são uma espécie de apanhado de contra-sensos no limite do esterótipo: um militar rendido à vida pacífica, uma mãe latina chefiando um cartel de droga, um vendedor de droga dedicando a vida ao altruísmo e uma menina rica negligenciada com amor a mais para dar.
Se considerarmos estes quatro como os personagens principais do livro podemos crer que representam os pontos cardeais de uma América superficial que se leva demasiado a sério.
O curioso é que entre adolescentes e mães de família, são personagens de um mundo de crime que se pode ver igualmente como mundo empresarial.
O tráfico de droga como comércio onde duas mentalidades são possíveis é uma ideia particularmente curiosa.
De um lado os jovens que pensam ser justa a retribuição ao mundo desfavorecido da matéria-prima que fornece e a dádiva aos seus colaboradores de uma vida no lugar da exploração pelo lucro excessivo.
Do outro a velha mentalidade para quem o lucro é tudo e as boas práticas negociais são a primeira "treta" a ser esquecida.
Traços para uma leitura de moralismo amargo acerca do mundo empresarial que se desvanece à medida que o autor se afunda nas motivações privadas dos personagens numa trama de confronto de acção criminal.
A moralidade individual dos personagens e, sobretudo, a dependência emocional do trio Chon, Ben e O, leva a que o livro se torne menos pertinente.
Cada personagem mostra possuir motivos para censura sendo, por outro lado, digna de compreensão - se não mesmo de compaixão.
Nenhuma delas é "Boa" ou "Má", tentando o autor que elas caiam na faixa intermédia de classificação. Tentando e falhando, pois haverá sempre os maus melhores e os maus piores, no final não havendo personagens dúbias mas apenas personagens mais unidimensionais classificadas a partir de um ponto de vista deslocado da norma social.
Com isto, termina-se Selvagens com um sentimento de satisfação, fruto da combinação da forma com um conjunto de ideias cheias de potencial que torna a leitura imparável.
Sem que deixe de transportar consigo uma constatação de falhanço por se ter reduzido a uma certa banalidade medida a partir dos níveis a que as ideias pareceram apontar desde o início.


Selvagens (Don Winslow)
Porto Editora
1ª edição - Setembro de 2012
294 páginas

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Geografia Americana

A narrativa acerca de Matthew King é feita pela voz dele mesmo e no Presente, obrigando o leitor a partilhar o que ele sente a cada momento com uma intensidade acrescida.
Não é um método inovador mas neste caso prima pela eficácia consistente que impede que se perca a ligação com a história deste homem.
Advogado descendente da realeza Havaiana com a mulher em coma prestes a ser "desligada da máquina" e com duas filhas das quais conhece muito pouco e com quem não sabe lidar.
Tendo-se sempre entregue ao seu trabalho, que sabe que lhe consumiu mais tempo do que o devido, encontra-se pela primeira vez na vida a braços com uma situação que é incapaz de racionalizar e que o vai levar numa viagem de múltiplas descobertas.
Descoberta de si mesmo, descoberta da verdadeira amplitude da realidade escondida pela fachada feliz do seu casamento e descoberta da fidelidade emocional associada à turbulência adolescente da sua filha mais velha.
Não que esta descoberta se afigure fácil, pois se há característica permanente em Matthew, mesmo perante a mais dolorosa adversidade, é a de total alheamento.
Matthew não muda de imediato, nem mesmo quando descobre que a mulher o traía e que foi isso que afastou a filha para um colégio interno.
Só durante a road trip que se segue, uma peregrinação de amor em busca do homem que deveria importar mais do que ele à sua esposa, é que ele começa a desabrochar como personagem multidimensional.
Que a transformação aconteça ao longo desses momentos em que ele foge do território que costuma conhecer torna-a mais credível, mesmo sendo ainda uma transformação súbita que se segue a um verdadeiro twist no desenvolvimento da história.
A viagem acrescenta momentos de um certo humor (sombrio, apesar de tudo) que alivia a carga emocional do livro.
Somado à contenção com que a autora escreve, que sustém a tristeza brotante da trama sem retirar sensibilidade às palavras que se lêem, o humor ajuda muito a que o melodrama não desabe sob o peso da sua crescente melancolia caótica.
Ainda que parte desse humor seja artificalmente gerada com a presença de um segundo adolescente - amigo e apoio da filha de Matthew - e que seja mais honesto e dilacerante quando nasce da honestidade infantil da filha mais nova de Matthew.
As jovens raparigas são mesmo duas excelentes personagens que marcam a diferença pela maneira como afectam o seu pai, protagonista masculino mais sério mesmo que não avesso a um diálogo de interrogação interior de alguma fragilidade - como se emocionalmente nunca tivesse deixado de ser adolescente, apenas desse o salto para se mostrar um homem.
Talvez por nascerem de experiências mais pessoais da autora, creio que teria sido interessante ver as duas filhas de Matthew tomarem as rédeas da narrativa, sem que isso queira dizer que ele não é uma personagem à altura da narrativa ou de cânones pessoais de memoráveis personagens (masculinas).
Só a sua relação com a herança - um território imenso prestes a ser vendido para um grande projecto imobiliário - sobre a qual ele tem a decisão final (mas cuja posse partilha com um imenso número de primos) me parece menos explorada do que deveria ser para que nos momentos finais do livro se acreditasse mais na sua atitude.
De entre os descendentes do título, ele como descendente da própria imponência do arquipélago do Havai está menos bem composto do que as suas filhas como descendentes do desfasamento entre um casal.
A importância da sua decisão para a sobrevivência do Havai e da sua identidade histórica (que ressente não ter perseguido antes) como mais do memórias nunca é tão bem definida como a mais simples significância dos terrenos como legado palpável que possa deixar às filhas.
Mesmo assim, a autora consegue ainda transmitir uma ideia do Havai como cenário dramático de força - e até força histórica - que é raro vermos por cá na ficção que se serve da região como paraíso turístico.
Com Os Descendentes fica-se com a forte promessa de uma nova voz ficcional Americana e com o nascido interesse acerca de uma geografia Americana que parecia quase não existir na boa ficção.


Os Descendentes (Kaui Hart Hemmings)
Editorial Presença
2ª edição - Janeiro de 2012
304 páginas