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sábado, 12 de setembro de 2015

É para rever



Depois de lidos quatro livros da Porto Editora de seguida tenho que escrever um desabafo que tem tanto de lamento como de acusação.
Não houve nenhum destes quatro livros que não apresentasse falhas notórias de transcrição final que, na sua maioria, eram também graves.
Aquelas que se ignoravam de forma relativamente fácil eram as de permanência de algumas palavras numa frase cuja tradução se transformou. As outras eram impossíveis de o conseguir.
A evolução da falha anterior significou a aparição de frases já ilegíveis de tal forma duas (quem sabe se mais...) traduções competiam por existir em simultâneo.
Houve depois parágrafos que terminavam a meio, em vez de um ponto final vinham dois pontos e a expectativa de algo que ficou por imprimir.
Mais óbvio e ainda assim por eliminar era a duplicação de parágrafos, consecutivamente impressos sem que ninguém desse por eles.
Olhando para a ficha dos quatro livros um ponto em comum: nenhuma referência a um revisor.
Se os houve, não estão assinalados, ficando toda a responsabilidade imputada aos tradutores. Se não os houve o caso torna-se grave.
Parece-me que se trata do segundo caso, visto que as outras casas do grupo editorial indicam o nome dos revisores.
Isto significa que aquela que é um dos maiores grupos editoriais deixa que a sua chancela-mãe publique sem revisão.
Algo tão básico que até um pequeno editor uma vez me disse que, não importava as dificuldades de edição, ele contratava sempre uma senhora para rever as páginas e assinalar até a aparição de manchas brancas (espaços sem letras) nas páginas.
Perante isso, esperar que a Porto Editora tenha alguém na sua cadeia de edição para observar que há parágrafos duplicados ou incompletos parece um serviço mínimo.
Esta situação incomoda-me como leitor, por ter de enfrentar esta má qualidade de edição e pouco poder fazer quando milhares destes livros estão vendidos.
Só que esta situação embaraça-me ainda mais! Porque é um triste sintoma para uma disputa por um mercado pequenho que vai ficando cada vez mais partido em três ou quatro parcelas demasiado grandes.
Se este é o paradigma futuro quando forem quase só "grandes grupos", como continuar a defender um rico mundo editorial de tradução se é para ter livros neste estado?
Se os tradutores são levados ao limite - porque a oferta é bastante e o número de traduções menor - e não há o cuidado de, pelo menos, rever esse trabalho - para preservação de tradutores, leitores e reputações de editoras - de que serve querer ler em Língua Portuguesa?
Em Língua Inglesa e por menos dinheiro os leitores que o podem fazer acabam melhor servidos.
E para captar novos leitores estas condições não são dignas de esforço algum...

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Livro, esse formato errado

A propósito de Até que o Mar Acalme, independentemente das considerações sobre a obra, há algo sobre o qual reflectir num ponto de redefinição do conceito do Livro.
Na minha opinião esta obra deveria existir em muitos formatos excepto no formato de livro impresso.
Tal como está, o livro exige que o leitor se afadigue lidando com dois objectos ao mesmo tempo, o livro e um companheiro tecnológico: um smartphone para ler os códigos QR impressos em cada capítulo (ou, em alternativa, o CD que o autor editou).
Manipular ambos de forma coordenada não é agradável e, desde logo, retira o interesse pelo livro a uma geração não interessada na interactividade.
Tal como o retira a uma geração muitíssimo interessada na interactividade, que veria com melhores olhos que o livro estivesse em formato digital e as músicas fossem acessíveis directamente no seu interior.
Este livro deveria ser daqueles que existia exclusivamente em formato de livro digital, para ser lido num aparelho que corresse o texto e, ao mesmo tempo, permitisse ligar uns auscultadores.
A experiência que o livro pretende transmitir num único "objecto" e numa única forma de manipulação.
Mesmo um audiolivro era, aqui, uma solução muito melhor. Era a oportunidade certa para utilizar as canções numa verdadeira simbiose com as palavras escritas (e lidas, neste caso).
A canção tocaria por completo no ponto do capítulo onde estava situada mas ao longo do capítulo a melodia da canção poderia ser usada como acompanhamento de fundo.
Uma verdadeira banda sonora como o autor a imaginou que permitiria dar diferentes tonalidades e ritmos a uma mesma melodia para a cada momento do capítulo sugerir emoções diferentes e até para gerir a velocidade da narração.
Tal como existe, livro e música, a experiência é sempre bipartida. A leitura até um certo ponto e, depois e depois de uma transição de um objecto para outro, a audição da música.
Capítulos houve em que não tive a paciência de o fazer e me limitei a ler os versos da letra da canção (sempre impressos) deixando para mais tarde e à parte a audição da canção.
Continuo a ser averso aos livros digitais, limitando-os a um uso profissional ou a momentos em que nenhuma outra opção está disponível.
O livro continuará, para mim, a ser uma invenção excepcional e um objecto eterno do qual não abdicarei.
Mesmo em tempos pós-apocalípticos o livro servirá, no limite, de combustível, enquanto um leitor de livros digitais servirá de espelho...
Mas estou sempre expectante do próximo passo de aproveitamento das hipóteses que o livro digital apresenta. Passos que rasguem com o conceito aproximado que o livro digital continua a ter perante o livro.
Ainda que seja um livro desinteressante, este poderia ser o livro certo para conseguir ir mais adiante, tornando o processo de leitura numa experiência revolucionária que sugerisse um novo caminho para a própria criação de novos livros ou a "recriação" dos já existentes.
A partir dele quantos livros, mesmo clássicos, quereríamos ouvir com bandas sonoras criadas por músicos de enorme afinidade com os autores? Muitos, certamente.
Seria possível realizar com os livros o mesmo que já se faz com vários filmes mudos, por exemplo, criar obras sonoras inspiradas por eles mas capazes de os questionar pela modernidade das composições.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Com respeito às edições

Quando li O Beco dos Milagres optei pela versão da Contraponto, mas à conta de uma linhagem de leitores, tinha cá em casa igualmente uma versão editada em 1990 pela Caminho.
Só depois de terminada a leitura fiz o exercício de comparar as duas traduções.
A nova é mais eficaz e funcional, sem perder a sua beleza. A anterior era feita num português mais "dançante", mais sedutor na língua, mas aparentemente menos fiel ao original (pelo menos assim me pareceu acrescentando a esta comparação a de O Cairo Novo como referência externa).
Não sendo especialista em traduções e, muito menos, capaz de ler em árabe, talvez tenha acabado de escrever um disparate. Ou talvez tenha, simplesmente, dado uma opinião que outro leitor desmentirá sem que tal impeça que ambos apreciemos os livros que lemos.
Se invoco este tema não é tanto para afirmar que há traduções melhores ou piores, mas para olhar para o grau de respeito das traduções (e edições).
Quando comparei os dois livros foi também para saber qual guardar. Quando se gerem demasiados livros para o espaço disponível, é (quase sempre) impossível manter títulos em duplicado.
Enquanto comparava as traduções sentia-me inclinado a guardar o livro da Caminho, também por ser uma edição mais antiga. Mas foi ao comparar o final de cada livro que a minha decisão ficou tomada e no sentido inverso.
A edição da Contraponto termina claramente com um Sim, tudo tem um fim... Em inglês diz-se end e soletra-se e-n-d... enquanto a edição da Caminho termina em Depois estremeceu, soltou um suspiro profundo, continuando.
A diferença é a de um parágrafo inteiro que a Caminho deixou de fora. A razão não a sei, pois o livro tinha ainda mais páginas disponíveis de seguida, mas arrisco-a.
Nas três páginas que se seguem ao continuando a Caminho apresenta os muitos títulos da sua colecção "Uma Terra Sem Amos", ou seja, em nome da publicidade a Caminho parece ter sacrificado a coerência do texto.
Posso estar enganado, até o espero (se alguém tiver tal edição em casa e me desmentir através dos Comentários, agradecia), mas é isto que parece. Mas não é nisto que se esgota o que tenho a escrever.


Dentro do mesmo tema, calhou há pouco tempo em conversa com o editor da Alfabeto (uma fonte de conhecimento de todas as etapas de produção de um livro e um interlocutor de enorme simpatia), as traduções dos escritores russos.
Traduções muito mal tratadas ao longo de muitos anos, antes dos tradutores nacionais da língua russa - Nina e Filipe Guerra, António Pescada, etc... - se tornarem nomes reconhecidos como marca de qualidade.
Parágrafos ou páginas totalmente desaparecidos - fosse porque dariam muito trabalho ao tradutor ou porque o editor queria poupar papel - de traduções que tinham origem já em outra traduções do texto (para inglês ou francês, normalmente).
Temos, pois, a sorte de podermos ler traduções integrais dos clássicos russos, muitas vezes com a possibilidade de optar por qual a versão que mais nos agrada.
Algo que as edições destinadas aos leitores que vieram antes de nós não tinham em consideração, dando o que queriam dar ao leitor e forçando-o a aceitar isso sem poder fazer exigências elucidadas.
Suponho que cada geração tem os textos "possíveis" à sua disposição. E que se a cada geração, mesmo com as más versões usadas, os textos e as histórias parecem magníficas, é porque o trabalho original é uma obra maior cujos traços de brilhantismo não podem ser apagados.
Numa conversa que tive a propósito da comparação do Em Busca do Tempo Perdido da Livros do Brasil e da Relógio d'Água, foi-me dito claramente que "Se é legível e a tradução não me interrompe a leitura, está bom. Não é preciso andar sempre a substituir uma edição pelas suas novas." (A citação vale mais pela ideia do que pela correcção das palavras.)
De facto, não é possível andar a substituir todos os livros à medida que novas traduções do texto surgem, mas ainda há algumas em que esse acto parece indispensável. Ainda que sejam mais actuais, mais precisas, mais fidedignas, até mesmo as velhas traduções podem vencer pelo seu valor afectivo anexo à primeira leitura que se fez de um texto.
Mesmo assim devemos ser capazes de apreciar como estamos bem servidos, neste século XXI, de tradutores e editores que ainda servem mais o leitor do que a contabilidade.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O meu livro

Deixei passar algum tempo até contar esta história para não deixar demasiado evidente o livro a que se refere.

Sentei-me num cadeirão confortável de uma biblioteca, mais convidativo do que os de casa. Biblioteca moderna, com larga oferta de livros e filmes, com instalações que são uma verdadeira mordomia para os utentes.
Sentei-me com o livro escolhido e fui pelas páginas afora saciando-me com aquelas brilhantes páginas.
Isto até ao momento em que, no movimento de folhear, sinto uma página grossa demais. O elemento estranho no livro fez-me parar e nessa altura apercebi-me de que não era uma página mais grossa mas duas páginas ainda juntas pela sua extremidade.
Achei a situação engraçada, mas na sede da leitura limitei-me a puxar do meu canivete e abrir aquelas páginas.
Avançando mais um pouco a situação repete-se. E novamente lá mais para a frente. E de novo e de novo e de novo...
Fui sempre abrindo as páginas com o cuidado de preservar o livro e não fazer barulho que me denunciasse, não fosse alguém olhar para um gesto justificado como uma agressão ao livro.
Comecei a perguntar-me sobre aquele livro. Sobre o (muito) tempo que tinha passado naquelas prateleiras sem que ninguém o abrisse. Sem que ninguém lhe tocasse senão para o contabilizar no inventário ou para o mudar de secção.
Depois não continuei essa reflexão com amargura, não pensei na falta de leitura do livro e de todos os outros que ali deviam estar nas mesmas condições. Não pensei na quantidade de espaços dedicados aos livros que morrem a pouco e pouco porque ninguém os utiliza.
Continuei, isso sim, por pensar na vida dos livros, na relação única que estabelecemos com cada livro.
Deixei-me levar pelo prazer de crer que aquele livro estava a guardar-se para um leitor. Que o livro me tinha escolhido para que eu lhe insuflasse as páginas de vida, abrindo-as ao mundo pela primeira vez.
Libertando o que o livro tinha para dizer, recebendo-o e dando-lhe algo de volta.
Como um leitor procura um livro que o transforme, também um livro poderá procurar um leitor que o cuide.
O livro prestava-se a este discorrer dos pensamentos, mais interessante e pessoal e menos amargo para com o resto da população. E ainda bem.
Hei-de voltar àquela biblioteca e hei-de reencontrar aquele livro, quase de certeza ainda intocado, ainda o meu livro a aguardar um pouco mais de convivência, um pouco mais de vida!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano de livro

Finda o ano e apetece-me olhar para a divulgação do tema do Livro (e do que lhe está associado) na opinião e na informação genérica - mais entendida como vaga do que como generalizada.
O panorama é triste. Depois da polémica da guilhotinagem de livros passou-se pelas atenções nem sempre coerentes ao desaparecido Saramago, pela descoberta da cobardia intermitente de Lobo Antunes e pelo aplauso da premiação internacional de Gonçalo M. Tavares.
Não é um levantamente exaustivo, claro, mas é um levantamente geral que serve um ponto de vista, de que o livro - tirando a última notícia - só serve para preencher quinze segundos de treta em telejornais que se alongaram para lá da realidade das notícias que um país tão diminuto tem para dar.
Como todos os olhares, o meu também se centra em algo em particular do pouco que enunciei aqui. E será enunciado de forma perfeitamente subjectiva e tendenciosa que deixará de forma muitos aspectos que são importantes para reflexão mas a que cada um deveria chegar por si mesmo.


A guilhotinagem, tão sugestiva acção sobre os livros. Afinal, se Louis XVI e Lavoisier puderam ser guilhotinados, porque não uns quantos livros?
Quando a notícia surgiu vi muitos posts indignados por essa internet fora, reclamando que era insidioso e criminoso fazer tal coisa aos livros.
Não era o único tipo de opinião que se espalhou, mas era maioritária.
Pessoas a defenderem que se dessem esses livros. Dessem, de forma banal, distribuídos da parte de trás de camiões ou impingidos a instituições sem qualquer critério de maior.
As pessoas que defendiam isto eram as mesmas que não ligaram nenhuma a esses livros quando foram lançados, quando estavam com desconto na Feira do Livro ou quando estavam a ser vendidos ao desbarato nas feiras ocasionais que decorrem em estações de Metro.
As mesmas pessoas que até ali acharam que os livros não tinham serventia alguma defenderam que estes fossem entregues a outras pessoas quaisquer.
São as pessoas que endeusam os livros, os autores, a palavra, o objecto.
(Sou chato com este tema e provavelmente estou errado, mas este ano também me deu para persistir num único tema inútil...)
Pessoas que radicalizam a questão e não vêem que já são poucos os idealistas que estão a oferecer as suas palavras para que o mundo se ilumine.
Pessoas que não admitem que, afinal de contas, o livro é tanto um meio de expressão como um negócio.
Estas pessoas revoltaram-se naquele momento mas não acompanharam as notícias relativas à mudança da lei relativa ao IVA dos livros doados.
Nem sequer pensaram que uma empresa, mesmo que seja uma empresa de Cultura, tem de gerar dinheiro.
Estas doações de livros que até a Ministra da Cultura reclamou seriam uma excelente forma de acabar com todas as editoras, bastando para tal fazer um esforço consertado por... não comprar livros. Ao fim de dois ou três anos, uma edição de 1000 ou 3000 exemplares com somente 5 vendidos seria distribuída pelas bibliotecas, garantindo a leitura gratuita de todos aqueles que o desejassem e o declínio financeiro da editora.
Acabava-se a edição em Portugal e, em consequência, acabava-se a guilhotinagem!
Todos aqueles que se revoltaram não reflectiram e, por isso mesmo, não reclamaram com quem deveriam. Não reclamaram um plano sólido para melhorar o tratamento e o volume de edição do livro.
Anima-me imaginar que as mesmas pessoas que se revoltaram com a destruição física dos livros, cuja vida literária haviam destruído com a sua indiferença, acabarão por os comprar em breve.
Basta que a editora os lance com uma nova e espampanante capa, que aposte no marketing e os livros que ninguém quis serão os livros da moda.
Tudo porque a memória é curta e quem já não se lembra que os livros foram guilhotinados também não se lembrará que já outra vez tinha desprezado o livro que entretanto voltou aos escaparates.
A memória é tão curta que Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin (cito daqui) são todos deitados à guilhotina porque não são modernos, vistosos e seja lá mais o que for que vende hoje em dia.
A editora, o ministério, os leitores. Todos têm culpas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pequenos objectos

Quando viajo gosto de fazer o circuito de livrarias, se é que se pode chamar assim a entrar em todos os locais remotamente semelhantes a uma livraria e ir pedindo direcções até uma próxima ou melhor livraria.
Foram várias as surpresas agradáveis que tive ou os motivos para inveja que trouxe ao regressar ao nosso país.
Nas surpresas assinalaria a Toletta, por exemplo, que é uma grande livraria - ocupa quatro cantos numa intersecção de ruas - com identidade de pequena livraria acolhedora, que vende livros antigos a peso usando uma velha balança de merceeiro.
Quanto a invejas, a maior será sempre a quantidade e qualidade de edições de banda desenhada que são editadas com os jornais, em capa dura, papel de qualidade e preços óptimos.
Mas uma das coisas que mais me importou assinalar foi a Juke-Box Letterari. Podem ver na imagem do que se trata, um expositor colocado em algumas das paragens de Vaporetto (e, como poderão notar, nas paragens de Metro de diversas outras cidades) onde se distribuem pequenas edições literárias.
Nesta paragem em particular o primeiro número lançado já estava vazio, noutra todos os livros tinham sido levados e somente na paragem que dava para uma universidade é que todos os livros ainda estavam disponíveis em boa quantidade - e não tirarei ilações daqui, embora me pareça que não fosse um local de regular reposição dos pequenos livros.


Voltando à mesma ideia sobre a qual já escrevera, ninguém se parece importar com a pouca qualidade do papel e da edição - que não deixa de ser cuidada, atenção! - na altura de ler ou de publicar.
Há desde poesia a horror, há experimentação literária, e os seus autores não têm medo de que estas edições possam parecer mais descartáveis do que coleccionáveis - e isto apesar de todos os textos estarem acompanhados de ilustrações de capa interessantes e prefácios de pessoas "assinaláveis".
Estes pequenos livros são tratados como invólucros, veículos para chegar às pessoas e pensados como temporários, recicláveis.
Não faço aqui uma defesa do desprezo do livro, antes penso a mistificação do livro até por ser bastante picuinhas no que trata ao estado geral dos meus livros.
Julgo é que temos de colocar a ideia do livro ao nível popular, ao nível do transversalmente acessível, não só a quem possa ler mas a quem queira publicar.
O que importa a publicidade impressa, o que importa a página que se rasga num virar mais vigoroso se o escritor consegue contactar e tocar as pessoas com as suas palavras?
Não quero dizer que em Portugal não haja quem trabalhe para abrir portas a escritores sem oportunidades, mas não tenho lembrança de um processo assim tão generalizado, diversificado e apoiado como este.
Suponho que o meu objectivo verdadeiro seja o de colocar o escritor e o livro ao nível de qualquer banal profissão e objecto, respectivamente, para sentir que mais pessoas chegarão à possibilidade de ser um e ainda mais pessoas chegarão à realidade de ler um, de novo respectivamente.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Letras diametralmente opostas

Pouco depois de ter conseguido o meu próprio Jonathan Franzen vinha no jornal i de 26 de Agosto um artigo sobre o autor e o seu novo livro, Freedom.
O artigo não tinha de extraordinariamente relevante para revelar mas fazia-se acompanhar de um daqueles erros monumentais que não se entendem quando se trata de uma entidade que partilha com a Literatura a riqueza da palavra impressa.
O erro, que podem verificar na imagem aqui reproduzida, é a associação do romance de Don DeLillo Underworld com o poster do filme Underworld.
Não está em causa um julgamento ao filme que, mesmo sendo extraordinário - e não é, nem anda lá perto - não tinha nada que surgir aqui.
Trata-se muito simplesmente de assinalar a displiscência com que uns trabalhadores das letras tratam os seus colegas.
Um jornal onde ninguém se dá ao trabalho de rever as páginas, um jornal onde ninguém consegue identificar este desalinho entre texto e imagem, não tem dignidade suficiente para pretender dar uma notícia imperiosa sobre grandes obras literárias.
O Google traz esta preguiça acrítica a quem com ele trabalha mas não se entende, num jornal com tão forte presença online, que ninguém seja capaz de escrever algo mais do que "underworld" no motor de busca.


Dos nove romances destacados nesta caixa que acompanhava o artigo, apenas Motherless Brooklyn não foi há pouco tempo (re)editado em Portugal.
O jornal poderia ter sido inteligente ao ponto de destacar os títulos originais dos livros e através das imagens das capas remeter os leitores para as edições nacionais.
Ao invés disso cita alguns dos títulos das edições portuguesas e outros no seu original. Uma baranfunda sem critério que demonstra que a literatura é para eles mais um tema para encher páginas, como seria qualquer outra moda do momento.
Aquilo que não se pode deixar de perguntar é como é que um jornal trata assim a literatura?
Um jornal pensado para o leitor português destaca um livro do qual não há perspectivas claras sobre quando - acho que o se não se coloca em causa aqui - será traduzido por cá e não consegue pensar com a lógica suficiente para promover as edições locais dos livros que assinala.
Como se não fosse evidente que, ao promover o seu leitor para estes trabalhos, estivesse também a promover o leitor a que se dirige.
Como se não fosse evidente que uma ligação intricada seria mais benéfica para o jornal do que será para os livros já que é o jornal que todos os dias corre o risco de ser abandonado em função da quantidade de informação similar que mais e mais rapidamente surge online, até mesmo com mais espaço.
Apesar do artigo sobre o importantíssimo novo livro de Jonathan Franzen surgir neste jornal, é evidente que um livro do autor e uma edição do i estão em pólos completamente opostos do valor da palavra impressa. E, como leitor, vou optar, sem perder tempo algum, por aquele que não tem erros de palmatória!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Um objecto

No meu mais recente período de férias tinha acesso a um típico pub inglês em terras nacionais cujo dono tem um curioso sistema de apoio ao veraneantes do Reino Unido.
Contra as paredes do bar tem centenas de livros empilhados que são deixados por quem lá passa e se prepara para partir.
Os que chegam podem levar um livro para ler e depois devolvê-lo ou podem deixar um livro e levar outro por troca.
Fora da equação da viagem ficam o transporte e a escolha dos livros a ler e a pessoa dificilmente tem de se sujeitar a leituras que não lhe agradam pois a variedade é imensa, não se reduzindo a thrillers ou "literatura de gaja".
Os livros existem ali como bens temporários e transitórios de pessoas elas próprias habitantes temporários e transitórios daquele local.


Eu aproveitei para ir lá trocar alguns livros e entre os que trouxe de lá comigo veio uma edição britânica de The Corrections de Jonathan Franzen.
Um livro aclamado de um autor que está, novamente, na ponta da língua de todos os interessados por literatura.
O livro estava por lá, deixado já em cima de um frigorífico - os livros são tantos que as paredes já não chegam - e para o trazer comigo apenas tive de deixar um livro menor, quase sem valor se pensarmos bem nisso.
Para mim terá sido uma troca excelente, para o dono do bar foi uma troca como tantas outras.
Ali vê-se verdadeiramente o valor do livro reduzido ao essencial, um objecto transferível, traficável, abandonável.
Um livro, independentemente da massa, do número de páginas, do autor, da qualidade, da aclamação, é apenas um objecto colocado ao valor de "um para um".
É uma experiência muito interessante ver como um autor como Jonathan Franzen pode ser tão facilmente deixado ao lado de um livro sobre como se manter magra em Paris.
Ajuda-nos a relativizar o endeusamento do texto. Depois de servir de distracção contra as horas de praia o livro fica sujeito à eventualidade do capricho de outra pessoa a levar a relê-lo. Mesmo livros que "mudam vidas" não podem pesar na bagagem que se carrega para casa.
E a verdade é que a "Grande Literatura" é das que mais pesa...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Tretas não, Bullshit


Não é uma moda nova, mas parece agora crescente entre os leitores mais jovens, uma espécie de nova elite de bibliófilos.
Essa moda é a de afirmar que só lêem no original, não nas traduções que "empobrecem e deturpam" o texto original, quer na sua qualidade de escrita, quer nos seus pormenores ininteligíveis senão no original.
Não tenho nada contra tal opinião. É, em muitos casos, verdade, e eu próprio opto com alguns livros por escolher a edição original e debater-me com a minha própria pobreza (relativa) de vocabulário.
Mas esta opinião envolve um problema de atitude que parece uma arrogância de carácter e uma formatação cultural: esses originais tratam-se apenas de livros em língua inglesa.
De entre todos os motivos que haveria para optar entre as edições inglesas (ou americanas) - o preço menor, a mais rápida tradução ou a maior variedade de escolha - eles limitam-se a escolher um que parece prestigiante mas que mostra o quanto a sua cultura está reduzida à do mundo em língua inglesa.
E, apesar de todos esses motivos à escolha, esperar-se-ia que num mundo que, do cinema à internet, se encontra suficientemente anglicizado, essa mesma elite bibliófila optasse por cultivar o gosto pela sua própria língua, assim exigindo a constante elevação da qualidade das traduções e do trato com a língua portuguesa.


Por isso, sempre que oiço tal afirmação, há uma irritação que logo de mim se destila, fazendo-me perder qualquer assomo de graciosidade para perguntar irritado Então e lês russo? Japonês, talvez? Ao menos francês e italiano? Espanhol, pronto?
A resposta é sempre a mesma por parte do meu interlocutor, um embaraço silencioso.
Eu conheço as minhas limitações e confesso-as.
Leio em português e em inglês com a mesma fluência mas prefiro evitar ficar a matutar no sentido de uma palavra até conseguir ter um dicionário comigo, pelo que prefiro a minha própria língua.
Já em francês, se na banda desenhada não me atrapalho, ao tentar ler o Metamorfose dei por mim a sentir-me burro.
Quanto ao italiano, tendo comprado igualmente banda desenhada quando visitei Veneza, a parecença com o português não é suficiente para evitar que tenha de, muitas vezes, tirar o sentido da frase pelo da imagem.
De espanhol sei o que apanho dos filme de Almodóvar, o que dá para pedir direcções do outro lado da fronteira mas nunca para ler convenientemente.
Se me tivesse rendido a essa ideologia de "ler apenas o original", então teria perdido a riqueza dos clássicos russos, dos poemas épicos gregos e da diversidade das letras espanholas que existem por esse mundo fora e que sempre foram tão bem tratadas entre a edição nacional.
Seria um leitor pobre e arrogamente isolado.
A menos que Juan Rulfo, Fiódor Dostoiévski e Ésquilo sempre tenham escrito em inglês e eu não soubesse do assunto.

domingo, 31 de maio de 2009

A forma do conteúdo


Dá-se um caso estranho com A Virgem, que é na verdade uma espécie de director's cut que Luís Miguel Rocha agora lança de Um País Encantado.
Esse estranho caso prende-se com a relação confusa e errónea que gera a sua apresentação - capa, sinopse e título - com o seu conteúdo.
Lê-se na sinopse que A Virgem dá-nos conta do Portugal moribundo... na década de trinta., o que é verdade para este volume, mas não para o romance (completo) em si.
Afinal de contas, os volumes seguintes falarão do final da década de quarenta e dos meados da década de cinquenta.
Parece-me que o problema maior é o da confusão entre um projecto que se inicia e um livro concreto a vender.
Embora no exterior nada se anuncie, na folha de rosto está lá explícito que se trata aqui do Livro 1, ou seja, uma parte apenas de um romance maior, esse sim chamado A Virgem. Talvez fosse recomendável fazer com ele o que Proust fez com o seu Em Busca do Tempo Perdido e nomear cada volume no seio do título maior.
O problema é que foi preciso vender este livro, concretamente, como objecto único e, teoricamente, independente.
Daí que na sinopse se leia também ...o abuso de poder de alguns grupos priveligiados se passeia... com a cumplicidade silenciosa da Igreja., uma possibilidade que deverá ser verdadeira mas que aqui mal se intui numa passagem breve. Na prática, dá-se ao possível leitor uma ideia errada do que esperar deste livro.
Não admira, portanto, que à época, a Planeta Editora tenha dado a este livro outro título, porque o título que o autor sempre lhe quis dar não era justo nem lógico.


E continua a não ser, da forma que é apresentado. Ninguém poderá negar que A Virgem, quando considerada par a par com a sinopse, e por extensão com esta capa, não cumpre com as expectativas geradas.
Uma capa que é luminosa e atraente, mas que reforça uma ligação com a religião que não está tão presente no livro como se suspeita.
O subtítulo nem sequer parece lógico depois de lido o livro, apesar de uma ida a Fátima ou de um encontro entre o (de certa forma) protagonista e um cardeal.
Aquilo que aqui aconteceu foi um desfasamento entre o produto e o livro, entre a forma e o conteúdo.
Não será de excluir que muitos leitores se sintam enganados no processo, ainda que não queiram - ou, pelo menos, eu não queira - acreditar numa intencionalidade do acto.
Não direi, até por falta de conhecimento de causa, que a edição é um negócio fácil, mas que é preciso ter cuidado com aquilo que se faz, é sem dúvida, com perigo de alienar leitores que se prentendia conquistar.
A gritante preguiça - ou pelo menos o facilitismo - não são desculpáveis quando se trata de consolidar um projecto que, apesar de lidar com material antigo, é novo e assim deve ser encarado. Mesmo que isso seja feito para facilitar o processo de edição.
Afinal de contas, muito se resume a um reaproveitamento mal pensado, dado que a sinopse deste romance foi directamente recuperada da edição anterior, como poderão ler aqui.
Esse lapso, pequeno, de que muitos leitores não dariam conta, permite toda a análise feita acima e isso só é prejudicial à própria obra!

domingo, 17 de maio de 2009

Sob a capa do desrespeito

A capa de um livro é uma arte, o que bem fica demonstrado pelos recentes Prémios Edição Ler/Booktailors.
Por isso mesmo é tão nocivo ver como a Gradiva tratou a capa do seu mais recente sucesso, A vida num sopro.
O autor da capa (lamento não lhe referir o nome, mas já não tenho o livro comigo) pensou-a e montou-a com cuidado suficiente para não ter de a ver mutilada por um grande autocolante que alardeia o número de exemplares vendidos.
Por algum motivo se inventou há tanto tempo a cinta vermelha que clama por atenção só para depois ser insensivelmente deitada ao lixo.
A condição temporária da sua publicidade deixa imaculada a arte da capa, respeitando o seu autor e deixando ao leitor a decisão da sua conservação.
Porque, querendo ou não, o autocolante também desrespeita o leitor, que não arriscará deixar restos de cola e de papel agarrados à capa.
E desrespeita-o quando o obriga a exibir na rua publicidade pela qual ninguém lhe paga. Não é culpa do leitor que a primeira - e a segunda e a terceira e a quarta... - edição se tenha esgotado antes que as engrenagens da sua vida lhe tenham permitido comprar o livro.

Sobrecapa do livro

Mas sobretudo, o desrespeito pelo leitor vem da sugestão falseada que faz do que se poderá ler.
A sobrecapa propõe um reencontro com os mitos profundos da Hollywood clássica, uma partida em direcção a um destino desconhecido, a tela que se fecha para que se abra a imaginação, uma paixão digna de Lauren Bacall abandonada ali na estação.
Já a capa sugere uma vida discorrendo no seio da teia de uma Era intrigante da vida portuguesa, num retrato social de grande fõlego.
O que se encontra, afinal de contas e como já disse antes, é um romance de cordel demorado e pobre.

Capa do livro

Devia o leitor poder devolver o livro à proveniência só por a capa enganar tão vergonhosamente.
Não se julga a um livro pela capa, mas o inverso já fará sentido.
E se a capa é despropositada, podemos sentir-nos humilhados e ofendidos (perdão caro Fiódor) por termos sido levados por ela - ou, no mínimo, com ela - a esperar de um livro aquilo que ele não nos deu!

sábado, 2 de maio de 2009

Tempo de feira

Não tenho acesso a dados estatísticos, nem posso com justeza fazer uma avaliação peremptória da 79ª Feira do Livro de Lisboa.
Por isso mesmo limitar-me-ei a alguns apontamentos de opinião sobre o assunto, após ter lá passado o dia 1 de Maio.

Em tempo de crise - e em qualquer outro tempo, confessemos - espera-se que a Feira seja um bazar de genuínas oportunidades e uma confluência de vontades - a de comprar e a de vender.
Não parece ser o caso (generalizado) desta Feira.
Em muitas livrarias pratica-se ao longo do ano descontos que superam muitas vezes os costumeiros 10% e não é raro ver "promoções", "feiras" ou "oportunidades" lançadas a vulso em diversos meses.
Para que as pessoas se apressem a comprar em quantidade, como só a Feira do Livro possibilita e incentiva, é necessário apresentar argumentos de atração inegável.
Esses argumentos costumam ser dois.
O primeiro, o do reencontro com títulos para os quais as livrarias já não guardam espaço quando a avalanche de novas capas as invade ou de iniciativas verdadeiramente intrigantes.
O segundo, promoções de encher o olho, inquestionáveis e apelativas.
Falemos então desses argumentos olhando para casos particulares, das editoras que mais atenção me mereceram.

Começo com a Presença e os seus múltiplos e grandes pavilhões.
As novidades da Presença apresentavam-se, geralmente, com 10% de desconto. Se não se espera nunca que as novidades sejam desbaratadas, a verdade é que os míseros 10% - que se encontram em qualquer livraria de grandes dimensões - surgem como pura arrogância de quem sabe que "faça o que fizer" irá vender.
É uma forma não declarada de desrespeito ao cliente e cria uma sensação de desconforto que se reflecte na abordagem a outros títulos, que ao contrário das novidades não têm direito a destaque mas têm já direito a desconto.

Da Cavalo de Ferro, lamento que tenha sucumbido ao mesmo mal.
Em anos anteriores era este o pavilhão em que gastava, alegremente, mais dinheiro, mas simultaneamente era mais recompensado.
As promoções da Cavalo de Ferro eram o que de mais parecido havia com o espírito feirante, reunindo "pacotes de autores" que permitiam trazer toda a bibliografia disponível por uma fracção do preço ou descendo os preços individuais dos títulos de fundo de catálogo na razão inversa do número desses que trazíamos connosco.
Só mais tarde, ao chegar a casa, associei as coisas e compreendi o porquê da Cavalo de Ferro não ter um pavilhão exclusivo nem promoções costumer friendly, ter sido comprada por um outro grupo editorial.

Falando em grupos editorias, abordemos a Leya, cuja teimosia do ano passado tem obrigado a uma interessante evolução geral.
Ao criar o seu próprio espaço, a Leya consegue gerar um fluxo de pessoas dentro da sua própria diversidade.
A centralidade das caixas, apesar de fazer aumentar o tempo dispendido nas bichas para pagamento, tem também o condão de fazer a pessoa circular mais antes de lá se dirigir.
No entanto, o sistema de loja, com alarmes e segurança precisa de ser revista, pois contraria o acolhimento e o envolvimento do espaço.
O facto é que o serviço de caixa é deficiente e não retira as bandas magnéticas aos livros, levando a que muitos dos clientes pagantes façam disparar o alarme e sejam abordados à saída pelo segurança para serem (ligeiramente, é verdade) revistados - situação directamente vivida por mim, também. No entanto, é estupidamente - e emprego este advérbio em plena consciência - fácil sair do espaço com livros por pagar - situação já não directamente vivida por mim, descansem as consciências - bastando para tal alguma paciência.
Mas dado que a Leya tem a seu favor a multiplicidade de "livros do dia" (com o costumeiro desconto de 40%) que se contam aos três por cada pavilhão, além de uma promoção generalizada que permite trazer 4 livros pagando apenas 3, o incómodo é esquecido por quem pretende, acima de tudo, ler.


Escuso-me a continuar a dissecar as minhas visitas aos pavilhões, com medo de que me vejam como um queixoso Tio Patinhas, para falar do que referi como primeiro argumento.
Há casos exemplares que este ano apostaram nele, tirando bom partido dos bem mais acolhedores pavilhões que se estrearam.
A Tinta-da-China, com a sua muito apelativa decoração - bem consoante as suas edições - e a sua associação à Penguin Books, da qual anunciou centenas de títulos a preço apetitoso, é um exemplo de valorização inquestionável.
Já na Praça Leya - e se a refiro duplamente de forma elogiosa é por achar que assim deve ser e não por disso me advir qualquer benefício - a oferta cultural, entre debates, workshops e concertos, e a oferta de entretenimento infantil, com teatros de marionetas e a dupla Astérix-Obélix em tamanho real, tem-se o gosto máximo do que a Feira deve contemplar além do livro.
Afinal de contas, a Feira do Livro é, acima de tudo, uma feira.
O seu tema central será o livro, mas este tem de vir complementado, pois é preciso satisfazer um público, muitas vezes familiar, que ali se dirige para passar algum tempo, a par dos que correm ao sabor dos livros.
Por reacção, então sim, esse público será tambem levado a comprar alguns itens.
É necessário apostar mais na interacção, para ambos os públicos, o especializado e o ocasional, talvez mesmo com maior acutilância para as crianças.
Assim se estranha que os dois palcos preparados para debates, onde a proximidade entre editores/autores e público é grande, se vejam desabrigados contra a voz feminina que anuncia os destaques do dia, sobrepondo-se ao que se pretende ali ouvir.
Mas também se reconhece o valor dos ateliers que a rede de bibliotecas preparou para as crianças darem lugar à sua criatividade e relação com o livro.
Afinal de contas, a Feira do Livro é, acima de tudo, uma feira, como as roulottes de bifanas e de churros bem demonstram.


As fotos que acompanham este texto foram desavergonhadamente retiradas do blog Blogtailors.

sábado, 4 de abril de 2009

Vida aos livros


Decidi-me a escrever esta crónica a propósito da minha recente desistência na leitura de A Pátria dos Loucos.
Ainda me lembro do primeiro livro que não li até ao final.
A Paixão Turca era o seu nome - corrijo, ainda é, pois o livro ainda existe na estante da minha mãe - e a sua leitura arrastava-me sem misericórdia.
Já tinha chegado à página 70 e aquela profundamente feminina consciência (de um género que aproximaria de um Sexo e a Cidade sem pudores) penava sobre mim.
A dor de abandonar aquele livro a meio pesou sobre mim. Lembro-me da angústia que atencedeu a decisão e da consulta ao meu pai - e mentor bibliófilo.
Acabaria por ser a sua concordância o passo decisivo para que finalmente seguisse para outras paragens literárias.
Já lá vão muitos anos sobre este episódio e, desde então, perdi o pudor de abandonar um livro que não me arrebate, me desafie ou me intrigue.

Há poucas semanas, Paul Schrader falava ao Ípsilon a propósito de uma ocasião em que, na condição de crítico de Cinema, se deixou dormir na sala.
Dizia ele que as horas que passava na sala a ver o filme eram mais importantes para ele do que os dez anos que o realizador passara a fazer o filme.
É uma ideia perfeitamente esclarecida.
Não se pode desperdiçar tempo com objectos - neste caso, livros - que não representem no seu tempo de leitura os mesmos meses, ou anos ou toda uma vida, que representaram para o escritor enquanto o escrevia.
Por isso é que arbitrei, desde A Paixão Turca, as 30 páginas que referi na crítica.
São o meu limite imposto para que um livro ganhe vida.
Se em 30 páginas um livro não "nascer" em mim, não arrancar nem um breve momento de emoção, então não lhe permito que me continue a prender por muitas outras páginas.
Este leitor tem o seu direito a viver verdadeiramente outros livros!


A natureza morta que ilustra esta crónica pertence à obra do pintor holandês Jan Davidszoon de Heem.
A ele o meu obrigado.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Isso é uma revista sobre o quê?

Tenho percorrido incessantemente as livrarias, papelarias e quiosques de Lisboa em busca da revista Os Meus Livros deste mês de Março.
Cada revista traz um livro (de entre vários de uma lista) de oferta e eu estou à procura de um em específico que teima em me escapar.
Nessa demanda, entrei numa papelaria tão apertada quanto movimentada.
Como sou preguiçoso e não tenho um gosto masoquista por levar encontrões, perguntei à "menina da caixa" Tem a revista Os Meus Livros?.
A sua resposta, num português acentuadamente nascido no Brasil, foi Mão livres?.
Eu lá repeti, mais pausada e soletradamente Os Meus Livros!.
Ela virou-se para a outra "menina da caixa", esta falante de português de Portugal, perguntando-lhe pela revista.
A resposta recebi-a eu, Isso é uma revista sobre o quê?.
Quando olhei para ela, senti a minha cara contorcer-se com o enorme espanto de pura incompreensão.
Respondi-lhe o mais delicadamente que consegui fingir Sobre livros! quando na minha mente a resposta ia mais na linha do Mas você é completamente burra?.
(Espero que ela não tenha percebido pela entoação a resposta que deixei muda na minha mente, que eu não gosto de insultar as pessoas, nem sequer nos confins da minha mente.)
Finalmente lá me disse que não recebem "disso".

O que se passará neste país?
Que não se lê já eu sei bem, mas que haja este desprezo por uma revista com base no seu tópico é muito mais gravoso.
Os outros não têm direito a ler a revista?
Se ninguém a apresentar ao público, como saberão se alguém se interessa por ela?
Mas, claro, o mais chocante de toda esta história é a gritante incapacidade de se associar um tema de uma revista ao seu título.
Será que Os Meus Livros divide a mente de uma pessoa entre Cultura e Culturismo?
Ou será que se eu perguntasse pela revista Caça e Pesca, a "menina da caixa" me perguntaria igualmente de que tratava a revista?
É certo que eu, preguiçoso físico, poderia ter vasculhado a atafulhada papelaria em busca do 1/4 de capa de revista que fica exposta ao público.
Mas não merecia, também, ser recompensado com tamanha preguiça mental.



























Site da revista Os Meus Livros: http://www.oml.com.pt/